O primeiro Maçom
Nas pedreiras de antigamente, o trabalho de cortar, desbastar e lavrar pedras era uma actividade de carácter iniciático. Trabalhava-se com maço, ponteira e cinzel em etapas distintas, conforme se quisessem pedras para alicerce, para parede ou para acabamento. Cada tipo de pedra era trabalhado por operários especialmente treinados para o mister. Daí as graduações que se estabeleceram entre aprendizes e profissionais. Mais tarde, a actividade do artesão do maço (o Maçom), evoluiu para um tipo mais sofisticado de trabalho, que já se podia chamar de arte. Foi quando ele começou a tirar da pedra outras formas, imitando a natureza no seu trabalho de formatação das realidades físicas. Este tipo de trabalho demonstrava que o homem possuía uma inteligência criadora e que a sua consciência podia ser reflectida na natureza através das obras das suas mãos.
A história da aplicação do engenho humano nas pedras confunde-se com a história da evolução do seu próprio psiquismo. O termo Maçom é derivado desta ocupação e a espiritualidade que acompanha esta profissão é decorrente dessa projecção da consciência sobre a matéria, formatando coisas e objectos, numa imitação da própria actividade criadora de Deus.
O primeiro Maçom foi o homem que desbastou a primeira pedra bruta, transformando-a em material de construção. Daí dizer-se que a Maçonaria é tão antiga quanto a presença humana sobre a terra, pois ela é uma prática que pode ser considerada contemporânea dos primeiros grupos humanos. É bom que se diga, entretanto, que esta antiguidade só pode ser colocada enquanto prática operativa e actividade especulativa. Não é a Maçonaria como instituição, porquanto esta só apareceu no inicio do século XVIII a partir do trabalho de Anderson e o seu grupo.
É também neste sentido que podemos definir a Maçonaria como a arte de integrar a mente humana com os elementos da natureza para produzir obra de criação. Como prática operativa ela é o trabalho que constrói o mundo, e como actividade especulativa uma fórmula que aprimora o espírito. Em ambos os sentidos ela é arte de construir, é arquitectura.
Nos antigos canteiros de obras do Egipto e da Mesopotâmia já se costumava separar os trabalhadores em grupos distintivos pelos seus graus. Aprendizes não comungavam com Companheiros nem estes com os seus Mestres. No próprio canteiro de obras do Rei Salomão, por ocasião da construção do Templo de Jerusalém, havia, segundo a Bíblia, profissionais e aprendizes de todos os tipos, desde cavouqueiros para abrir as valas, serventes para acarretar e transportar cargas, até mestres arquitectos e fundidores, como Hiram e Adoniram, este último também administrador da obra. Porém, a tradição iniciática que inspirou a formação da Loja Simbólica em Aprendizes, Companheiros e Mestres tem inspiração nos antigos canteiros de obras egípcios e especialmente nas suas pedreiras, cuja hierarquia contemplava essa divisão. Esta tradição iniciática, desenvolvida mais por necessidade prática do que por motivos religiosos, foi repassada aos canteiros de obras medievais. Foi nestes últimos que a tradição de separar os trabalhadores pelos seus graus de profissionalização sacralizou-se, especialmente pelo facto das organizações dos pedreiros medievais estarem estreitamente ligadas à Igreja.
Os Mestres maçons da antiguidade já haviam intuído a existência de um elo de ligação entre a arte de construir e as disciplinas morais e espirituais. Mestres que a história nomeou, como Nenrode, Hiram Abiff, Adoniram, Amemhotep, etc. foram, ao mesmo tempo, técnicos em construção de edifícios e taumaturgos. Nas suas obras percebe-se, não só a obra do engenho humano mas também a disciplina do espírito, a ensinar-nos que a nossa escalada deve ser feita em duas direcções. Em todas estas obras há uma tentativa de conjugar o profano e o sagrado, como forma de realizar a tarefa que o Sublime Arquitecto nos confiou, que é a construção do universo, e ao mesmo tempo, consumar a união do espírito humano com a realidade divina, que é o Espírito do próprio Sublime Arquitecto.
O oficio sacralizado
O oficio de construtor sempre teve um carácter sacro, uma mística própria, uma aura de espiritualidade que o tem acompanhado através dos séculos.
Conquanto o costume de sacralizar o seu oficio já existisse entre os artesãos da construção na antiguidade, foi somente na Idade Média que este costume ganhou status de verdadeira tradição. A transformação da habilidade operativa em ideal especulativo foi a grande realização dos nossos irmãos medievais. Foram estes profissionais, mais religiosos que técnicos, mais místicos que filósofos, que perceberam que o oficio de construtor, pelas suas características de integralização de formas, manipulação de símbolos e conhecimentos de geometria e matemática, era o que mais se prestava para atender à inclinação própria de uma cultura, que como a medieval, não distinguia o esotérico do exotérico. A arte de construir era aquela que permitia ao seu praticante, ao mesmo tempo, o provimento das necessidades profanas, necessárias para ganhar a vida, e uma realização espiritual.
Especialmente a construção de igrejas, pela mística que nelas se imprimia, era o que mais se prestava a produzir nos seus construtores uma sensação de mágica transcendência, que os fazia crer serem eles os canais pelos quais fluía a própria inteligência divina. Na construção daqueles edifícios monumentais, os artistas da pedra acreditavam repetir o trabalho de Deus na construção do universo.
Com efeito, a catedral medieval não era apenas o local onde os homens podiam sentir-se em comunhão com Deus. Ela era um simulacro do universo, onde todas as manifestações da existência humana se condensavam e encontravam o devido encaminhamento. Fulcanelli descreve magistralmente esta síntese do espírito medieval:
“Santuário da Tradição, da Ciência e da Arte, a catedral gótica não deve ser olhada como uma obra unicamente dedicada ao cristianismo, mas antes como uma vasta coordenação de ideias, de tendências, de fé populares, um todo perfeito ao qual nos podemos referir sem receio desde que se trate de penetrar o pensamento dos ancestrais, seja qual for o domínio: religioso, laico, filosófico ou social” escreve ele, denotando a densidade espiritual que se condensava naquele edifício, reflectindo todas as tendências da vida medieval. “Se há quem entre no edifício para assistir aos ofícios divinos,” prossegue, “se há quem penetre nele acompanhando cortejos fúnebres ou os alegres cortejos das festas anunciadas pelo repicar dos sinos, também há quem se reúna dentro delas noutras circunstâncias. Realizam-se assembleias políticas sob a presidência do bispo; discute-se o preço do trigo ou do gado; os mercadores de pano discutem aí a cotação dos seus produtos; acorre-se a esse lugar para pedir reconforto, solicitar conselho, implorar perdão. E não há corporação que não faça benzer lá a obra prima do seu novo companheiro e que não se reúna uma vez por ano sob a protecção do santo padroeiro” .
Aí está, portanto, demonstrada de forma insofismável a convergência do espírito humano para um único ponto, onde ele poderia atingir um pico máximo de densidade, facilitando a comunicação com a divindade. Daí o facto da catedral gótica ter sido considerada o arquétipo perfeito de todas as construções humanas, e o modelo ideal para se realizar o aprimoramento do espírito através do trabalho manual. Esta mística, esta elevação da alma aos domínios mais subtis do espírito só iria ser alcançada mais tarde pela prática da Alquimia, que visava a mesma finalidade.
Diante disto, não causa escândalo o costume dos maçons operativos de dizer que Deus era o Sublime Arquitecto do Universo, enquanto eles eram os seus Demiurgos, construindo fisicamente os modelos do universo divino. Com efeito, na perfeição das formas, na solidez das estruturas, na harmonia do conjunto, obtida pela perfeição com que se elaborava cada detalhe, é preciso reconhecer, nesta obra máxima da arquitectura medieval, uma construção de espírito, realizada não só a partir da actuação do engenho humano sobre a matéria, mas da própria interacção entre os espíritos da matéria trabalhada e do artesão que a manipulava. Desta ideia a uma sacralização do oficio do construtor foi apenas um passo.
Jean Palou diz que nos tempos primitivos, o oficio sacralizado já pertencia ao domínio do esoterismo, razão pela qual os seus conhecimentos eram transmitidos por iniciação. Isto é verdade, pois embora todos os profissionais da construção, fossem, de certa forma, iniciados, somente a iniciação não lhe conferia uma realização espiritual total. Esta só acontecia com o cumprimento de uma longa cadeia iniciática, na qual se praticava uma liturgia ritual própria, onde o obreiro absorvia o “espírito” da profissão e com ele se integrava tornando-se um eleito. “A iniciação”, escreve aquele autor, “nas suas formas, nos seus meios, nos seus objectivos, Una no seu espírito, múltipla, porém, nas diferentes aplicações das técnicas peculiares a cada ofício, pela Sabedoria que preside à elaboração lógica da Obra, pela Força que possibilita a sua realização efectiva, e pela Beleza que proporciona o Amor a cada realizador, isto é, o Conhecimento, ajudava o artífice a se despojar do homem velho, para se transformar num novo homem, criador de objectos e forjador de um novo mundo, finalmente harmonioso.
Eis o porquê de não se permitir ao iniciado, inicialmente um mero Aprendiz, compartilhar com os Companheiros-Mestres os mesmos símbolos, senhas, comportamentos e práticas. E mesmo entre Mestres se impunham distinções de grau, pois se todos eram iniciados e ostentavam os mesmos títulos profissionais, muitos poucos, entretanto, eram eleitos, ou seja, tinham obtido elevação espiritual de modo a serem considerados Mestres também nesse sentido.
Quando a Maçonaria operativa evoluiu para o especulativo, e mais tarde, quando o especulativo integrou na sua liturgia as tradições do Hermetismo e da Gnose, a mística da profissão do construtor aliou-se ao encantamento próprio da prática alquímica e ao apelo emocional contido na mensagem gnóstica. Se anteriormente, o oficio de construtor se realizava num domínio que era antes de tudo religioso e social, passou, depois disso, a preencher um vasto campo no domínio filosófico e espiritual, pois a especulação, mais que a prática pura e simples de uma arte, ou uma técnica, exige mais da sensibilidade do artista do que a razão e a habilidade física requerem dele. O artista, o técnico, que antes aliava o sentimento religioso às técnicas da sua arte, teve que buscar nos domínios do esoterismo as justificativas para a sua prática. Depois, no inicio do século XVIII, quando a Arte Real incorporou a mensagem iluminista, foi preciso o desenvolvimento de uma liturgia ritual que possibilitasse a divulgação da nova filosofia, mas que, ao mesmo tempo, transmitisse a mensagem iniciática original de uma sociedade que jamais abandonara as suas tradições de construção, ainda que essa construção, agora, fosse apenas simbólica. A realização espiritual buscada no exercício do ofício, ou na prática da filosofia hermética, passara agora, a ser uma realização moral, onde o iniciado aprenderia a educar-se para ser virtuoso, a partir de um novo arquétipo de homem, que era o Homem Universal. Era uma aprendizagem de filosofia moral em busca de um êxtase espiritual que a cadeia iniciática da Maçonaria iria proporcionar aos que nela se iniciavam.
Do livro “Conhecendo a Arte Real” – publicado pela Madras, São Paulo, 2007
