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Cadernos de Estudos (XI): o Rito Escocês Rectificado

✍️ Desconhecido 📅 15/01/2025 👁️ 4 Leituras

rito escocês rectificado (rer)

Uma abordagem quanti-qualitativa à questão do cristianismo no Regime (Rito) Escocês Rectificado x Rito Moderno

Introdução

“Sim, a Ordem é Cristã!”, é desta forma, visualmente categórica, que o Ritual do Grau de Mestre Escocês de Santo André (MESA) em definitivo estabelece a plataforma para a leitura e a interpretação do simbolismo maçónico no contexto do Regime (Rito) Escocês Rectificado (RER). Conforme já esclarecido em outros textos desta série, ao contrário de outros Ritos, o simbolismo no RER está organizado em 4 (quatro) Graus: assim, aos habituais 3 (três) primeiros vinculados às Potências, há o quarto – MESA – que, no Brasil é administrado pelo Grande Priorado do Brasil dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa.

Para aqueles que tiveram o RER como porta de entrada na Maçonaria, a afirmativa anterior não chega a ser surpresa em razão dos inúmeros sinais previamente emitidos, notadamente no I Grau, o de Aprendiz. Já para os que por transferência ou regularização foram recepcionados aos Graus de Companheiro ou Mestre, os sinais foram mais subtis, mas ainda assim perceptíveis. Finalmente, para os egressos de outros Ritos que se habilitam ao Grau de MESA sem que antes tenham buscado informações (e não terá sido por falta de literatura) ou prévia e devidamente esclarecidos pelo proponente (“padrinho”), a afirmativa será, sim, uma surpresa, se agradável ou não dependerá de várias circunstâncias cujas considerações fogem ao escopo deste trabalho.

A primeira questão que ora se coloca é: de que maneira esse carácter cristão se revela no contexto da doutrina e da ritualística do RER e especificamente no I Grau? Será possível apreender o carácter cristão do RER sem adentrar em considerações doutrinárias, quiçá por alguns, julgadas sigilosas? O objectivo deste trabalho é oferecer um instrumento para responder à primeira questão e, antecipa-se, que é afirmativa a resposta à segunda. Por fim, o instrumento é também utilizado para contrastar o RER, no que concerne ao tema, com o Rito Moderno (RM), também referido como Rito Francês.

A eficácia do instrumento, uma métrica, sugere que a análise comparada, ao invés de focada em cada Rito, pode contribuir não apenas para o maior conhecimento do Rito per se (o que o distingue em carácter mais ampliado, quais as suas nuances e idiossincrasias, os pontos valorizados vis-à-vis o público com o qual melhor dialoga, as suas eventuais pré-qualificações e mesmo exigências, etc.), mas também para melhor orientar as indicações e os processos selectivos para o ingresso na Ordem/Rito.

Procedimentos metodológicos

A abordagem, essencialmente quantitativa, tomou por base o “Ritual: ritualística e procedimentos do Rito Escocês Rectificado 1º Grau – Aprendiz Maçom” (GOB, 2018). Trata-se de um livreto com dimensões 11,0 x 15,5 cm que, em meio às suas aproximadamente 310 páginas podem ser encontradas informações sobre a história do Rito, os principais marcos, as orientações quanto à organização e à decoração da Loja, à indumentária, ao papel e à actuação dos seus Oficiais, sobre as alfaias, como receber os visitantes e as autoridades maçónicas, farto esclarecimento sobre os procedimentos em geral, bem como, e principalmente, à ritualística propriamente dita, das sessões ordinárias e da sessão magna de Recepção [1]. Do total de páginas, não mais do que 180 foram utilizadas neste levantamento em razão do conteúdo específico: ritualística ordinária e extraordinária – comandos dos Oficiais, palavras do Venerável Mestre, etc. Difícil quantificar, mas o mais provável é que em torno de 150 páginas foram efectivamente utilizadas tendo em vista a exclusão dos comentários, orientações, fotos, trechos em branco, notas de rodapé, etc. distribuídas ao longo de todo o livreto.

No primeiro momento, e em essência, o procedimento consistiu:

  1. na selecção de palavras-chaves;
  2. em reiteradas leituras do Ritual com vistas à identificação e à distribuição das palavras-chaves ao longo do Ritual, página/página no segmento objecto do estudo (ritualística). Nesta etapa ficou claro a insuficiência do uso de palavras-chaves, então substituídas por expressão-chave, de maior abrangência; e, por fim,
  3. a verificação.

Na sequência, já na esteira de um trabalho anterior (Pinheiro e Piva, 2024) no qual foram constatadas notáveis diferenças doutrinárias e ritualísticas entre o RER e o RM, os autores passaram em revista as mesmas expressões-chaves só que, então, submetidas ao ambiente de uma sessão de Iniciação ao Primeiro Grau no RM.

Tendo em vista o objectivo do estudo, identificar, conferindo objectividade à manifestação cristã em meio à doutrina e à ritualística Rectificada, as palavras-chaves que de pronto afloraram à mente foram: deus, religião, cristão, divindade, oração, alma e outras do mesmo campo semântico. Todavia, de imediato outras chamaram a atenção em razão do sentido metafórico de primeiro nível ou por extensão alargada [2], embora nem sempre, admite-se, tenha sido possível distinguir com clareza, como é o caso, por exemplo de “luz” e “trevas”; notadamente quando grafadas com a inicial em maiúsculo: Luzes vs. luzes. À primeira vista, como nada é (deveria ser) destituído de sentido num texto maçónico, e em não sendo a primeira palavra da frase, ao grafar “L” ao invés de “l” espera-se que o autor tenha intencionado, da literalidade, ampliar o sentido da palavra; não obstante, nem sempre isto fica claro, não parece acontecer, ao contrário, há casos que sugerem o cometimento de equívocos, sobretudo quando comparados os levantamentos de dados junto aos Rituais dos demais Graus, antecipando assim, as futuras publicações em continuidade a esta metodologia. Ora, de pronto essa observação suscita um questionamento metodológico: se a base de dados tivesse sido constituída a partir dos Rituais de outras Potências, teriam os resultados ora obtidos, sido os mesmos? A ver. No agregado certamente que sim, pois o resultado agregado do levantamento é deveras contundente ainda que hipoteticamente admitidas variações nas fontes, mas se a leitura for com a lupa das minudências, é possível que em alguns casos, não.

A palavra “luz” é ainda útil para exemplificar e esclarecer a natureza de outros ajustes a partir do procedimento básico: uma leitura (contagem) mais atenta revela que nem sempre o autor pretendeu enfatizar a ideia de claridade (conhecimento, saber, dignidade, etc.), mas justo o oposto quando a traz acompanhada de um predicado ou adjectivo, como é o caso, por exemplo, de “ausência de luz”, quando então foram acumuladas à frequência da palavra “trevas” e seus correlatos. Na mesma linha, é de se pensar que o autor ao referir à “Verdadeira Luz” quis distingui-la das menções à “Luz”, e também ainda à “luz”. Analogamente, “Verdade” distingue-se de “verdade”, “Religião” de “religião”, ou ainda, mas sem a pretensão de exaurir os exemplos, “Lei” de “lei”?

Estes breves esclarecimentos são suficientes para que se passe então à colecta e às primeiras considerações sobre os dados.

Dados & breves considerações

O resultado das sucessivas leituras e reflexões levou à extensão da base de dados até a constituição de uma matriz de 85 linhas (palavras-chaves) X 101 colunas (páginas com um ou mais eventos = palavras-chaves), portanto com 8.585 células, pelo que se torna inviável disponibilizá-la na forma de anexo. A maioria das colunas (páginas) tiveram poucos eventos distribuídos ao longo das linhas (palavras-chaves), mas em algumas ultrapassaram a 10, e tendo numa chegado a 22; ao todo, a presença de 361 menções às palavras ou expressões-chaves.

A opção por uma planilha com as dimensões apresentadas deve-se ao intuito de preservar os dados, desde o registo primário, com o seu maior detalhamento, o que não impediria posteriores agrupamentos e arranjos analíticos. Por exemplo, Deus é referido directamente como “Deus”, mas também como “Deus Criador”, “o Eterno”, “o Autor”, “o Juiz dos Reis”, mas também pode ser encontrado na forma pronominal (“Aquele”, “Dele”, “Seu(s)”, “Sua(s)”) ou ainda subjacente na forma oblíqua: “adora-O”. Ao lançar mão a uma variedade de expressões que à primeira vista sugerem o mesmo significado, o autor [3] tanto pode ter feito uso de um recurso estilístico para não poluir o texto e cansar o leitor, mas também e em cada caso ter desejado transmitir algo a mais, talvez ora ressaltar uma característica, ora outra da “Divindade”, expressão que também teve registo de frequência.

Feitas estas considerações, que poderiam se estender a tantos outros registos, na sequência são apresentados os primeiros dados agregados:

Tabela 1: Palavras/Expressões-chaves com maior frequência

Palavras/Expressões-chaves Frequência
1. Luz(es)/Claridade 40
2. trevas/escuridão/obscuridade/sombras/privado de luz/nuvens espessas 28
3. luz(es)/claridade 27
4. Templo(s) 22
5. Seu(s)/Sua(s) 19
6. Alma (adjectivada ou não, p. ex. imortal) 17
7. Verdade/Verdadeira(o) 17
8. lei(s) 14
9. GADU – Grande Arquitecto do Universo 13
10. Deus (todo-Poderoso) 10
11. Deus 9
12. Divindade 8
13. Providência 8
14. Religião 7
15. religião 7
Outras 115
Total 361

Com efeito, sem adentrar em considerações doutrinárias e independentemente do conhecimento prévio acerca das características cristãs do RER, é razoável inferir que o leitor seja envolvido por esta percepção a partir do forte contraste que de imediato é estabelecido entre as ideias de luz vs. trevas em meio a uma narrativa iniciática (conhecimento e desenvolvimento graduais) que identifica a Maçonaria e, sabe-se, é desenvolvida num Templo no qual Deus e o GADU são figuras centrais no drama que, de algum modo aponta no sentido à Verdade e refere à alma. A força do significado literal ou simbólico das palavras, combinada à frequência, é eloquente por si mesma.

Mas tão importantes quanto as mais frequentes, são as palavras e as expressões que figuram com apenas uma citação (49), pois neste caso o que chama a atenção é a diversidade das formas às quais o autor lança mão não mais para comunicar, mas para, pela via das subtilezas e redundâncias, reforçar a mensagem, conectando e somando estas ao primeiro grupo (as de maior frequência), o que revela uma habilidosa estratégia deliberada, com elementos sinérgicos, no sentido ao envolvimento e ao comprometimento integral, imersivo até, dos participantes.

Quadro 1: Palavras/Expressões-chaves com apenas uma citação

Aliança do Senhor Infinito Reparador
Deus Criador Divina Religião de Cristo
Filho da Luz Comunhão Cristã
Grande Luz Bondade Divina
Princípio Único Modelo Infinito
Própria Verdade Verbo Encarnado
Total de outras palavras/expressões diversificadas: 37

Outras, a meio termo, podem ser vistas no Quadro 2, a seguir:

Quadro 2: Palavras/Expressões-chaves c/frequência intermediária

Palavras/Expressões-chaves  Frequência
Bíblia 6
Evangelho/de S. João/Sto. Evangelho 11
Lei da Graça 2
Lei dada a Moisés 2
Oração 2
Total de outras palavras/expressões diversificadas: 42

Como é dado a perceber, mantém-se o eixo central: a religiosidade cristã, explícita ou latente.

Uma nova forma de arranjar os dados revela a dinâmica, a distribuição e o ritmo da condução das matérias ao longo da trajectória iniciática no Primeiro Grau. Entre as várias possibilidades optou-se pelos seguintes agrupamentos de comandos:

  • I: Abertura e/ou Fechamento da Loja;
  • II: Recepção;
  • III: Instrução Moral – no RER, imediatamente após cada Recepção é lida a Instrução Moral correspondente ao Grau, ocasião em que, de modo resumido e organizado, passo a passo, a cerimónia é então esclarecida ao mais novo integrante do Quadro da Loja;
  • IV: Instrução por Perguntas & Respostas, também conhecida como Catecismo; e, por fim, a
  • V: Regra Maçónica – corresponde ao núcleo da Doutrina Rectificada.

A Tabela 2, a seguir, consolida os dados já apresentados, porém em nova organização:

Tabela 2: Frequência de palavras/expressões-chaves conforme a etapa das sessões ordinárias e de recepção ao I Grau (Aprendiz)

Palavras/Expressões-chaves

 

Total de

Eventos

Etapas das Sessões (*)
I II III IV V
1.     Luz(es) … 40 3 17 10 9 1
2.     trevas … 28 0 16 7 3 2
3.     luz(es)/claridade 27 4 11 5 7 0
4.     Templo(s) 22 1 6 2 8 5
5.     Seu(s)/Sua(s) 19 9 1 0 0 9
6.     Alma … 17 0 2 1 0 14
7.     Verdade/Verdadeira(o) 17 0 9 4 2 2
8.     lei(s) 14 0 7 1 3 3
9.     GADU 13 2 4 4 3 0
10. Deus (todo-Poderoso) 10 0 3 3 0 4
11. Deus 9 0 1 0 0 8
12. Divindade 8 0 0 0 0 8
13. Providência 8 0 1 0 0 7
14. Religião 8 0 5 0 0 3
15. religião 7 0 7 0 0 0
Palavras-chaves

textuais

Total de

Eventos

Etapas das Sessões (*)
I II III IV V
Aliança do Senhor 1 1
Deus Criador 1 1
Filho da Luz 1 1
Grande Luz 1 1
Princípio Único 1 1
Própria Verdade 1 1
Infinito Reparador 1 1
Divina Religião de Cristo 1 1
Comunhão Cristã 1 1
Bondade Divina 1 1
Modelo Infinito 1 1
Verbo Encarnado 1 1
Bíblia 6 1 2 0 3 0
Evangelho … 11 0 5 3 2 1
Lei da Graça 2 0 0 2 0 0
Lei dada a Moisés 2 0 0 2 0 0
Oração 2 2 0 0 0 0
Total     282 23 100 46 41 72

(*) – (I): Abertura e/ou Fechamento da Loja; (II): Recepção; (III): Instrução Moral; (IV): Instrução por Perguntas & Respostas; e, (V): Regra Maçónica.

Dois momentos concentram 61% das palavras e expressões-chaves que salientam o cristianismo presente do RER: por ocasião da Recepção (100 eventos) e quando do Estudo da Regra Maçónica (72 eventos); nada mais lógico. A Recepção é o primeiro momento [4], o primeiro contacto do candidato com a Ordem propriamente dita, é quando então ele representa o drama da sua Iniciação e escuta as primeiras lições, os princípios, os fundamentos e a missão da Ordem. É muito difícil, e mesmo impossível, ao candidato ter plena consciência do que ocorre durante a sua Recepção, daí porque a sabedoria do autor Rectificado instituiu o momento da Instrução Moral, ocasião em que aproximadamente a metade (46/100) do que até então o recipiendário ouvira, ser-lhe-á novamente repetido e, então, esclarecido. Todavia, esses são momentos únicos, que só se apresentarão ao recém Aprendiz por ocasião da Recepção a outro candidato, quando então estará inteiramente com os olhos de observador atento e desde o início presente na sessão. As Instruções por Perguntas & Respostas, em meio as quais foram encontrados 41 eventos, de regra são distribuídas ao longo do horizonte de tempo correspondente ao interstício exigido ao Grau, o que de certo modo, considerando os eventos de Abertura & Fechamento das sessões ordinárias (23 ocorrências) contribui para manter o tema – cristianismo manifestado no RER – permanentemente no ar, vivo. Porém, é no estudo individual ou colectivo da Regra Maçónica, que os Iniciados na Rectificação terão as maiores oportunidades de aprender e apreender o cristianismo no contexto da Rectificação, daí a importância estratégica de este tema permanentemente figurar nas agendas das Lojas, o que, infelizmente, nem sempre é o que se observa. Anteriormente foi comentado que uma das colunas da matriz de dados (que identifica a página do evento) totalizou 22 ocorrências (palavras/expressões-chaves distribuídas ao longo das linhas da matriz); por oportuno, se informa que a página correspondente se encontra em meio à seção Regra Maçónica.

À luz dos dados levantados, para uma agenda anual que contemple não mais do que 2 (duas) Recepções, já será significativa a imersão (visual, oral e auditiva) do Quadro da Loja, num curto espaço de tempo (2,5 h x 3 vezes/mês), no tema ora em foco. Já as Lojas que Recepcionam com maior frequência e “por atacado” nada acrescentam à qualidade da experiência, ao contrário, pela via do automatismo irreflectido, alarga-se a distância das Verdadeiras (ou verdadeiras?) expectativas.

Finalmente, quando o mesmo rol de palavras e expressões-chaves foi submetido à realidade do RM, dentre as listadas, a única encontrada foi “Luz!”, 4 (quatro) vezes com a acepção de Conhecimento/Saber e, com a mesma frequência, no sentido de iluminação ambiental. Por incrível que possa parecer, em que pese a singeleza do achado de pesquisa, trata-se, é claro, não de uma descoberta inusitada, mas de uma confirmação categórica e objectiva de o quanto a Maçonaria é diversa em aspectos fundamentais, muito embora aos olhos de muitos, senão a maioria, inclusive interna corporis, seja decantada em prosas e versos como se monolítica.

Justifica-se a, praticamente, ausência das palavras e expressões-chaves sugeridas na pesquisa, por se tratar o Rito Moderno, de um rito de essência racional-iluminista, humanista e, portanto, voltado à humanidade como o centro decisório do seu poder de desenvolvimento moral e não a partir de uma ideia, de uma concepção religiosa de carácter revelado. A História regista o surgimento de inúmeras religiões, e a opção por uma ou outra não é neutra no campo das decisões morais, das relações humanas. Ademais, tal escolha, além de ser multifactorial nem sempre, ou melhor, quase nunca se verifica em estado de plena liberdade tal como habitualmente concebido por alguns, a começar, por exemplo, pelas influências (por vezes efectivas pressões) exercidas pela família e pelo ambiente social, sobretudo até a juventude e antes que se rompam os laços económicos e financeiros. Aos poucos, mas sempre contingente, a razão entra em cena lastreada nos sistemas de ensino e conhecimento. Entretanto, o mercado do conhecimento, que se diz livre, não é perfeito – as informações não fluem gratuitas e uniformemente de todos para todos, assim como não podem ser desconsideradas as assimetrias de oportunidades -, o que, se no primeiro momento implica em desequilíbrios e comprometimentos das escolhas e decisões, na sequência cria as condições para que alguns possam ser conduzidos sob a luz de interesses até mesmo, por paradoxal que seja, estranhos aos seus próprios. Assim, mesmo já adultos, após o grito de liberdade da casa paterna, nem todos são tão livres (como pensam), antes se encontram em estado de fragilidade e dócil à submissão às crenças, às ideologias e ao pensamento dogmático.

Em meio a tanto e situado o homem no epicentro das suas atenções, o RM, no que concerne à doutrina e à ritualística manifestas no seus Rituais, deixa à consciência dos seus adeptos as suas próprias escolhas no que tange à religião, aos sistemas de crenças, às práticas místicas mediadas ou não por escolas esotéricas, e procura fazê-los se desenvolver moral (valores, virtudes, ética) e intelectualmente, o que o fará, por certo, saber fazer melhor as suas escolhas quotidianas e, ainda que se perceba espiritualmente mais completo e realizado, não perderá de vista que a busca pela verdade sobre a vida e os seus mistérios é permanente, não tem fim, e será motivo de eterna dúvida na mente do buscador, inquieto, pesquisador, insatisfeito com o que pensa que já sabe.

Considerações finais

Assim, considerando que a designação Ordem também e habitualmente é utilizada para referir à Maçonaria enquanto género, a afirmativa “Sim, a Ordem é Cristã!” requer adjectivação que a identifique enquanto espécie e se aplica (aos estudos, às interpretações simbólicas, às inferências, etc.) apenas no contexto apropriado, no caso em tela, à Maçonaria Rectificada, posto que o atributo “cristã” é singular, discrimina e especifica – conforme demonstrado não se aplica ao Rito Moderno. Interna corporis, se de um lado o atributo actua como um poderoso mote à formação de um senso de pertencimento, da consolidação de uma identidade e valores próprios, o que robustece a fraternidade específica, de outro pode fragilizar a Fraternidade. Ademais, a realidade apurada traz um enorme e inolvidável desafio: a selecção, a capacitação e o desenvolvimento de Quadros que, em Loja, não tomem o descaminho do proselitismo religioso [5], mas que antes tenham claro que o lastro cristão, na compreensão da Maçonaria contemporânea, deve ser ampliado e confrontado criticamente com as demais e outras tantas fontes que deram constituição às civilizações, mais especificamente as ocidentais, a exemplo da História, da Filosofia, da Ciência Política, do conjunto hoje identificado como Neurociências, etc. E à guisa dos encaminhamentos finais, nada mais oportuno do que o resgate à citação de Pinheiro e Piva (2024): “Como bem chamam a atenção Sowell (2011) e Weaver (2012), as ideias têm consequências, e os seus promotores, responsabilidades”.

Por fim, salvo melhor juízo, a parametrização e a métrica ora exercitadas, se expandidas aos demais Ritos poderiam abrir novos horizontes aos estudos, às pesquisas, à aprendizagem e, por que negar, à melhor compreensão da Maçonaria contemporânea. O desenvolvimento subsequente e natural desta metodologia, a expansão e o aprofundamento da análise qualitativa, espera-se, contribuirá para melhor identificar as idiossincrasias próprias à cada Rito que, se trazidas a público (na forma de artigos, palestras, etc.), individualmente ou na forma de estudos comparados, poderá antecipar atitudes e comportamentos que de um modo ou de outro, cedo ou tarde reverberariam no seio do Quadro, os quais, se podem ir ao, também podem ir de encontro às expectativas, da Ordem e também dos candidatos, dos quais se pode afirmar: dos últimos, por experiência empírica, que chegam à Ordem sem praticamente qualquer conhecimento sobre o que de facto (e de direito) é a Maçonaria; e que estes, mesmo passado algum tempo, há casos de décadas, permanecem relutantes em reconhecer as múltiplas faces da entidade que os abriga, tendo fechado os olhos às suas contradições e ambiguidades internas, sem que isto, em absoluto, comprometa os vínculos de elevada estima e mesmo fidelidade à Ordem em geral.

Ivan A. Pinheiro e Marco A. Piva [*]

[*] O primeiro autor é Mestre Maçom e pratica o Rito Escocês Rectificado; o segundo, MI do Quadro da ARLS Livre Pensamento, 176, GOSC, Oriente de Guaramirim, SC, aonde pratica o Rito Moderno. Os autores não expressam o ponto de vista das Lojas, Obediências ou Potências das quais participam, tão somente exercem a sua liberdade de pensamento e expressão, daí porque muitas vezes comunicam na primeira pessoa. Ambos agradecem a leitura prévia e as contribuições dos Irmãos Alexander Varejão, MM e Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista.  E-mails: respectivamente ivan.pinheiro@ufrgs.br e marcopiva58@gmail.com. Porto Alegre-RS, 24.11.24

Notas

[1] Designação que, no RER, identifica a cerimónia para acolher novos membros, ampliar o Quadro da Loja, habitualmente referida como Iniciação no contexto dos demais Ritos.

[2] Por exemplo, os Primeiros Oficiais correspondem e representam personagens no drama da representação iniciática, mas também são referidos como sendo Luzes da Loja, simbolicamente eles iluminam, orientam, zelam e apontam os melhores caminhos.

[3] De regra, a autoria dos Rituais é o produto de um esforço colectivo, coordenado, porém supervisionado, daí a atribuição de autoria e responsabilidade; no RER, grosso modo, sem adentrar em detalhes, praticamente tudo orbita em torno de Jean-Baptiste Willermoz – os mais interessados podem consultar textos anteriores desta série.

[4] A rigor não deveria sê-lo, sendo esperado que o proponente (“padrinho”) do candidato já o tivesse esclarecido, sem margem à dúvida, quanto à longa trajectória que se descortina aos Iniciados eis que no caminho à Rectificação são identificados 3 (três) estágios: o do Buscador; o do Perseverante; e, o do Sofredor. Há Lojas que operam a partir de protocolos que oportunizam até mesmo o conhecimento recíproco entre os actuais e os postulantes ao Quadro – tal como sugerido pela Tradição, a exemplo de Preston (2017), e também pelas melhores práticas da gestão contemporânea -, mas há também as que denotam estar mais preocupadas com a captação de clientes no mercado dos incautos e vaidosos.

[5] A propósito, com risco de transgressão às normas comuns a todas as Potências e que submetem todos os Ritos

Referências bibliográficas

  • Ritual: ritualística e procedimentos do Rito Escocês Rectificado 1º Grau – Aprendiz Maçom. Brasília, DF: GOB, 2018. ISBN 978-85-88308-29-9.
  • PINHEIRO, Ivan A., PIVA, Marco A. Modelo Geral de Análise e Interpretação Simbólica (MGA&IS) – um estudo aplicado e comparado: Rito Escocês Rectificado Rito Moderno. Disponível em: https://www.freemason.pt/modelo-geral-analise-interpretacao-simbolica-i/. Acesso em: 24.11.24.
  • PRESTON, William. Esclarecimentos Sobre a Maçonaria. Rio de Janeiro: Arcanum, 2017. ISBN 978-85-93699-04-7.

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