Maçonaria – para além da estreita perspectiva dos Ritos
É habitual referir-se ao judaísmo, ao cristianismo ou ao islamismo como se fossem construtos monolíticos, distintos entre si a ponto mesmo de não poderem ser confundidos, sob o risco de aquele que o fizer, suscitar conflito. Todavia, não precisa mais do que uma breve incursão histórica para o que até então aparentava a integridade de uma rocha revelar as suas divisões e fracturas. Assim, já na origem: 1) no judaísmo havia vários grupos – os fariseus, os saduceus, os essénios e, finalmente, os zelotes -; 2) o cristianismo nascente esteve dividido entre os ortodoxos [1] e os gnósticos (ambos também divididos em vários subgrupos); e, finalmente, 3) logo após a morte de Maomé (632), a principal divisão no islã, motivada por questões sucessórias e persistente até hoje, colocou de um lado os xiitas e do outro os sunitas. Posteriormente não faltaram motivos para justificar novas divisões, daí que: 1) as diásporas no judaísmo levaram, entre outras disseminadas pelo mundo, à tradição da Babilónia vs a de Jerusalém, mais tarde, já no final do Medievo, ao surgimento dos asquenazes e dos sefaraditas; 2) do cristianismo Católico surgiram os Ortodoxos (agora, então, na sua acepção contemporânea) e, a partir do séc. XVI, os Protestantes e as suas inúmeras denominações; e, finalmente, 3) entre os xiitas se encontram os alauitas, os ismaelitas e outros; e em meio aos sunitas há wahabistas; e embora não constituam uma seita, mas antes uma prática, os sufis constituem um grupo à parte entre os muçulmanos. Portanto, quando mencionada (escutada ou lida) a palavra religião, a qual delas (e a tudo o que nelas se inscreve e implica) se está a referir? Frente a esse quadro é razoável admitir que mesmo entre 2 (dois) interlocutores cristãos a mesma expressão (escrita, imagética, metafórica ou outra) suscite o mesmo conjunto de ideias, significados e daí princípios, valores, expectativas, atitudes, comportamentos, etc.? As evidências revelam que não, assim como o mesmo ocorreria em meio aos demais monoteísmos. O contraste e as repercussões entre o discurso da unidade (então, só aparente) versus a diversidade real constituem um dos temas guarda-chuva deste ensaio analítico-crítico. O exemplo colhido a partir das crenças religiosas se justifica porque a Maçonaria ao longo da sua história tem sido (e ainda é) fortemente influenciada pelas crenças monoteístas gestadas na região do Crescente Fértil.
A perspectiva do olhar delimita, em amplitude e profundidade, o entendimento, as deliberações e, por consequência, as atitudes e iniciativas que podem advir a partir de um dado fenómeno – evento, acontecimento. Na sua expressão mais coloquial a questão que se coloca é: olhar a partir da árvore, desde dentro da floresta, ou à distância para contemplar toda a floresta? [2] Por certo que essa dicotomia reducionista comporta matizes, como por exemplo a existência de uma clareira em meio a floresta, ou mesmo a floresta ser constituída por diferentes espécies de árvores, ocorrências que podem originar entendimentos distintos ainda que a partir do mesmo prisma. Na Maçonaria equivale a pensá-la a partir de cada Rito ou como um todo – a Instituição. Qual a perspectiva mais adequada, talvez a melhor? A resposta tanto à primeira quanto à segunda questão, como quase frente a tudo, depende dos objectivos pretendidos, pois os objectos de pesquisa, os meios, assim como os resultados e os alcances serão completamente distintos conforme o ponto de partida – a perspectiva adoptada. De outro lado, há uma atitude que não é a mais adequada e tampouco a melhor: a insistência e a permanência numa só perspectiva, pois ambas são complementares entre si. Reitera-se: a perspectiva é tão somente o ponto de partida, necessita de continuidade e desdobramentos para chegar ao melhor e ao mais adequado entendimento dos fenómenos em estudo.
Completa-se, assim, a tecitura temática deste ensaio, a complementaridade da duplicidade de perspectivas: “unidade vs. diversidade” e “a parte pelo todo e vice-versa”.
O que, então, se constata em muitas publicações na Maçonaria brasileira? De regra, a não observância dessas distinções que, salvo objectivos específicos, são consideradas essenciais não apenas para o melhor entendimento das questões postas em debate, como também para orientar os eventuais desdobramentos, razões pelas quais ora são vistas como os problemas que motivaram as reflexões deste ensaio. Na situação ora levantada tudo se passa como se independentemente da circunstância seja possível recorrer à metonímia: que a parte (o Rito) é representativa do todo (a Ordem), e que também o inverso é verdadeiro, qual seja, que dada a unidade que caracteriza a Ordem, esta pode ser plenamente representada por qualquer um dos seus Ritos. Ora, sabe-se que nenhuma das assertivas é verdadeira, não obstante é um equívoco comum (e, dadas as condições de funcionamento da Maçonaria, até admissível) sobretudo entre os Iniciados mais recentemente, como pode ser visto em Bertan Jr. (2025) – o que observa, por exemplo, mesmo com a ressalva destacada não se aplica ao Rito Escocês Rectificado (RER), não obstante o texto refira à Maçonaria em geral. O que se segue, então, é um esforço não só para trazer à evidência as diferenças e mesmo incongruências internas à Maçonaria, mas sobretudo as consequências que advêm quando se cai nas armadilhas mencionadas.
E o facto de a maioria dos Iniciados [3] passar a maior parte da sua vida de Maçom activo dedicado a apenas um Rito, torna-se a circunstância determinante para não só acentuar a perspectiva da visão única (a de que o “seu” Rito se confunde com a Maçonaria) como, mesmo após conhecer outros Ritos, “[…] Acreditam que o rito que praticam é o correcto e os demais são errados […] E crêem que somente a obediência a que pertencem é, de certa forma, realmente regular” (Ismail, 2017, p. 155-6), o que por certo inclusive desestimula a exploração e a aprendizagem de outros Ritos. Em trabalho posterior (Ismail, 2018), que apesar da ampla cobertura (Potências, regiões, quantidade e perfil de respondentes, etc.) não pode ser considerado representativo da Maçonaria no Brasil [4], não há informação que altere o entendimento firmado logo acima [5]. Assim, o Maçom típico ao ater-se à perspectiva da árvore e sem perceber, entre elas, as diferenças, limita sobremodo o universo ao seu habitat, ao seu nicho florestal (quiçá reflorestamento).
Portanto, não chega a surpreender que não apenas para o leigo (profano), mas também o recém Iniciado e mesmo os maçons mais experientes mas que estudaram apenas a partir das publicações mais populares [6] (sem filtro), a Maçonaria seja vista como homogénea e monolítica; todavia, na literatura mais especializada já há um consenso: existem diversas maçonarias que se distinguem, entre outros aspectos [7], pelos Ritos praticados; cada um proclamando um corpo doutrinal, ritualísticas, simbolismos e liturgias próprias.
Raciocínio análogo por certo que se aplica a outros tantos construtos [8]: para aonde quer que se olhe à procura da unidade, o olhar mais acurado revela que a diversidade não é um evento ocasional, um ponto fora da curva, mas antes parte inerente à natureza e, por conseguinte, manifesta nos eventos históricos pela simples razão de estes serem modelados pelas mãos humanas. Assim, não surpreende que para além do Rito, tema-título deste ensaio, na Maçonaria e contrário ao senso exista também um efectivo mercado de landmarks à espera da escolha para a melhor adequação ao Rito objecto de consideração, sem que se possa excluir, no caso do projecto de um novo Rito, a hipótese da elaboração de um landmark ainda inexistente – organizado com elementos de um ou de outro colhidos entre os existentes.
À primeira vista tal constatação (sobre a diversidade) não passaria da proclamação de uma mera realidade fática, e por isto não merecedora de maior atenção. Sim, seria o caso não fossem os discursos (doutrinas, orientações, etc.), de regra, como é o caso na Ordem, proclamarem a unidade como a excelência referencial, e por isto focalizada enquanto a aspiração de e para todos, sobretudo em razão da harmonia que encerra em si mesma e dos seus desdobramentos: paz, cooperação, sinergia, aperfeiçoamento e benefícios recíprocos, etc. No limite essa unidade-objectivo se confunde com o retorno às origens, à célula primordial, ao Uno, ao pleroma, à mónada, entre tantas outras denominações afins, todas especulações que têm ainda por pressuposto a “existência” de um plano supra-sensível, transcendente (metafísico) e já nos domínios do que é considerado como sagrado, razão pela qual aquele que manifesta dúvidas ou lhe dirige críticas pode ser acusado de falha ética-moral e apontado como apóstata e/ou herege. Nesses casos, ao invés de referir à unidade, para não confundir com o numeral 1 (um), costuma-se aludir à Unidade ou ainda à Verdade, para assim, então, distinguir da “verdade” – mais do que uma curiosidade, trata-se de uma atitude que dialoga com um paradoxo, pois contraria um dos princípios fundamentais da natureza, sobre o qual há consenso [9] na comunidade científica: a segunda lei da termodinâmica – a entropia –, de acordo com a qual a desorganização total do universo aumenta inexoravelmente, isto é, os processos (a exemplo da vida) não retornam à (suposta) ordem primordial [10]. A reflectir.
Superada as preliminares, considera-se atingido o primeiro objectivo deste ensaio: chamar a atenção, lato sensu, para a indispensável postura crítica quando frente às manifestações peremptórias ou indutoras acerca da existência, em qualquer domínio, de uma unidade absoluta (seja lá qual for a sua forma de expressão), no caso, no contexto da Maçonaria. No primeiro momento recorreu-se às crenças monoteístas – genericamente referidas como “religião” -, pois se estas permeiam a Maçonaria, e se nelas a diversidade é o traço acentuado, parece ser razoável admitir, tanto a, quanto em princípio, que no seio da Ordem, pelo menos por este motivo, também se encontre a diversidade ao invés da unidade.
Na sequência, ao abrigo dos guarda-chuvas, após passar em revista a cronologia do surgimento dos Ritos maçónicos, o objectivo é chamar a atenção para o segundo ponto: o quanto muda a compreensão acerca da Ordem quando esta é apreciada desde dentro da floresta, nos limites de um Rito, ou como um fenómeno histórico-institucional simultaneamente causa e efeito dos acontecimentos em curso no seu espaço-tempo, ou seja, desde fora; no caso em tela, senão o surgimento, o predomínio da actividade especulativa que se estende até maçonaria contemporânea. Quanto aos Ritos, embora cada um (pelas suas doutrinas, rituais, etc.) de regra não afirme explicitamente, mas antes os seus adeptos: todos se julgam como os melhores guias no caminho e no sentido à Verdade, à Unidade, curiosamente a mesma auto-avaliação que se observa nos sistemas de crenças e religiões.
Para os fins pretendidos o texto de Rocha (2021), um compilado a partir do grande trabalho do Irmão Xico Trolha [11], complementado com consultas eventuais a Ragon (2006) foram julgados suficientes. O leitor que já teve acesso a outras fontes, ao ter contacto com os detalhes do texto de Rocha provavelmente levantará questionamentos não só acerca da precisão de alguns Ritos & Datas, como também a ausência [12] daquele que, na visão de Mata (2020) teria sido o primeiro “rito moderno”, o mason word. Todavia, ao apresentá-los de modo agregado (Quadro 1, a seguir) as eventuais incorrecções que, em outras circunstâncias poderiam ser relevantes, perdem sentido à luz dos objectivos deste ensaio, pois para o que se segue não tem maior expressão se o Rito “A” foi criado em 197X, em 197(X+3) ou mesmo 197(X+7).
O Quadro 1 distribui, numa linha do tempo que inicia em 1356 e se estende até 1942, os Ritos inventariados por Xico Trolha (apud Rocha, 2021); reunidos, totalizam 322 ocorrências.
Fonte: Rocha (2021).
Os dados são eloquentes: o ano de 1717 foi, sem dúvida, o divisor das águas, e a proliferação dos Ritos maçónicos parece ter sido um fenómeno do seu tempo – o Iluminismo – que, em extensão ampliada, cobre da segunda metade do séc. XVII até a primeira metade do séc. XIX. Ainda citando Xico Trolha, Rocha observa que “A febre da criação de Ritos maçónicos esfriou no final da quarta década do século XX. Desde 1951 não se registra a existência ou criação de qualquer Rito maçónico específico (op. cit., p. 40)”, mas que “[…] por ocasião da Revolução Francesa (1789-1799), existiam cerca de 250 Ritos maçónicos diferentes (op. cit., p. 42)”. A criação dos Ritos foi, portanto, um fenómeno datado: com princípio, meio e fim.
Entre os esforços para sistematizar essa profusão de Ritos encontram-se os trabalhos de Ragon (2006) e de Naudon (1968). O primeiro adopta uma chave organizativa que apesar da riqueza de informações (o surgimento cronológico/países combinado aos legados e heranças doutrinárias) não foi considerada como a mais adequada aos propósitos deste texto, razão pela qual foi adoptada a chave sugerida por Naudon (1968, p. 109), que identificou 5 (cinco) Famílias de Ritos:
- a franco-maçonaria anglo-saxã, de carácter teísta;
- a franco-maçonaria tradicional de carácter deísta: Ritos Escoceses, Rito de Misraim, Rito de Mênfis;
- os ritos maçónicos culturais;
- os ritos maçónicos mágicos;
- a franco-maçonaria moderna, racionalista [13].
Como toda iniciativa no sentido à sistematização, pelo reducionismo que encerra, o trabalho de Naudon não escapa às críticas: por exemplo, nem todo Rito anglo-saxão é teísta, como nem toda franco-maçonaria tradicional pode ser reconhecida como deísta; não faltará ainda quem, correctamente, aponte este ou aquele aspecto para invalidar a ordem taxonómica. Contudo, sob o mesmo argumento, para os fins deste ensaio, como aos poucos ficará claro, são detalhes irrelevantes. Ademais, infelizmente não foi encontrado na literatura algo como um inventário actualizado, sobretudo que dê conta se e quando alguns Ritos foram descontinuados enquanto outros ainda são efectivamente praticados, notadamente nos Graus Simbólicos, nas chamadas Lojas Azuis – Aprendiz, Companheiro e Mestre. Mas a mera ausência ou em número muito reduzido de publicações para além dos “Ritos Universais” – York, Emulação, Escocês Antigo e Aceito, Rectificado, Moderno e Schröder – é um indicador da descontinuidade da maioria expressiva ou, se activos, em nichos bastante restritos. O que de pronto levanta a questão: por que o crescimento vigoroso e depois o ocaso igualmente acelerado? Por fim, porque já decorridos quase 75 anos da afirmativa de Rocha de que “Desde 1951 não se registra a existência ou criação de qualquer Rito maçónico específico”, ela mesmo deveria estar sob investigação para actualização.
Independentemente das críticas, Naudon conseguiu reduzir e reunir os mais de 300 Ritos em apenas 5 (cinco) grandes Famílias, o que, per se, já traz uma carga valiosa de informações por conta das características comuns encontradas em determinados Ritos. Assim, em razão das semelhanças apresentadas, de um lado torna-se possível analisá-los e tratá-los como um colectivo, mas também, pelo mesmo motivo, de outro lado eles podem ser discriminados por grupamentos – as Famílias. Por exemplo, a identificação de um Rito como deísta ou teísta evoca uma série de significados e desdobramentos que informam e mesmo explicam aos leitores outras tantas características do Rito em tela, assim como deveriam, dentro de uma certa razoabilidade, até antecipar as atitudes e comportamentos dos seus adeptos. A título de exemplo, por estranho que possa parecer, porque a concepção deísta origina princípios, valores e comportamentos completamente diferentes da concepção teísta, é como se ao invés de um, houvesse (pelo menos) dois Grandes Arquitectos do Universo e que fossem estranhos entre si. Ainda: em um Rito teísta não surpreende a presença de orações, intercessórias ou para agradecimentos, mas o mesmo não se coaduna com a visão deísta.
Ademais, há outro aspecto igualmente importante a ser levado em consideração: o que diz respeito à forma como o adepto-praticante ou o estudioso lê, decodifica e interpreta o Rito através dos seus documentos e práticas – a doutrina, a ritualística, a liturgia, os símbolos, enfim, os seus usos e costumes – isto é, trata-se aqui de como cada um focaliza o Rito à luz da sua cosmovisão, o que significa dizer: pensa, expõe e pratica as suas idiossincrasias. E de acordo com Leadbeater (1968), que antecedeu Naudon nos esforços no sentido à sistematização dos saberes maçónicos, há 4 (quatro) Escolas de Pensamento Maçónico: a autêntica, a antropológica, a mística e a oculta. Cada Escola admite (ou rejeita), valoriza (ou desconsidera), pondera e interpreta os elementos constitutivos do Rito (objectivos, cerimónias, símbolos, móveis e utensílios, indumentária, etc.) à luz de uma directriz que, em última análise, traduz uma visão de mundo. Todavia, se cada Rito traz em si uma doutrina, pelo facto de estar velada por alegorias e ilustrada por símbolos, está também submetida às interpretações, às visões de mundo de cada um dos seus integrantes que, por sua vez, não podem ser desvinculadas dos sistemas de crenças constituídos desde a infância, trazidos do seio familiar [14]. Este é, pois, um universo demasiado amplo, polissémico e complexo. O Quadro 2, a seguir, é um exercício especulativo e também um convite à reflexão: em que medida ou até que ponto as visões de mundo mantêm um diálogo profícuo com as Famílias de Ritos?
Quadro 2 – Escolas de Pensamento Maçónico x Famílias de Ritos
(Leadbeater x Naudon)
Nota: as células preenchidas sugerem a expectativa de algum nível de diálogo.
Essa realidade complexa, num ambiente no qual a harmonia fraterna é um dos pilares, a “preguiça kantiana” (logo adiante esta noção será melhor esclarecida) está sempre presente ao lado da falta de preparo da maioria dos Mestres no que refere à lógica interna do Rito em foco, levou a que os “tempos de estudo” em Loja sejam, antes de tudo, espaços largamente democráticos nos quais todos têm voz e, sob as bandeiras da liberdade interpretativa, senão tudo, quase tudo pode ser dito, não raro sem um pouco que seja de pesquisa histórica, análise crítica e reflexão. E pasmem, até mesmo a “ciência” tem sido chamada para corroborar algumas elaborações. O caso do recurso à ciência para validar o “quase tudo pode” é duplamente preocupante: pelo desconhecimento dos que falam com absoluta certeza e pelo embevecimento dos ouvintes; os primeiros proclamam que, finalmente, resta comprovado o que os Antigos já sabiam e que por Tradição hoje integra a Maçonaria. O argumento legitimador é linear e sedutor: afinal, a Teoria da Relatividade (concebida por um dos, reconhecidamente, maiores génios da humanidade) diz que … tudo é relativo, não existe verdade absoluta (mas, antes, convenções e acordos sociais), já a Teoria (Mecânica) Quântica prova que o observador é parte do fenómeno, o que então só reforça o relativismo – não se dão conta de que bastava recorrer ao Nominalismo, mas ainda assim enfrentariam outra ordem de dificuldades, como, por exemplo, quando levadas em consideração a religiosidade e as crenças que permeiam a Maçonaria. Ademais, objectivamente, também não se dão conta de que a carga de individualismo que o posicionamento relativista carrega vai de encontro aos demais postulados da própria Ordem.
Alguns certamente por desinformação, outros sabe-se lá com que intenções, parecem desconhecer: primeiro, que actualmente não cabe falar na existência de uma Teoria Quântica, mas antes das suas diversas Interpretações (a mais conhecida, a de Copenhaga) e implicações; em segundo, que um dos maiores desafios da ciência contemporânea tem sido encontrar a (ou pelo menos uma) Teoria que concilie as contradições (referidas como efectivos paradoxos) entre ambas as Teorias, qual seja, a tão procurada Unidade que seria capaz de esclarecer, entre outras tantas, as chamadas questões fundamentais (também referidas como existenciais): de onde viemos, para aonde vamos e qual o sentido da vida. Alguns acrescentam uma quarta, vista como síntese: por que existe alguma coisa ao invés de, simplesmente, nada? Todavia, não obstante todos os avanços da ciência, persiste a incompreensão sobre os fundamentos dos limites da natureza – do micro ao macro cosmo. Gleiser (2018), entre outros, ao mesmo tempo que chama a atenção para os limites dos actuais paradigmas da ciência [15], alerta acerca da tão esperada “verdade final”:
[…] precisamos perguntar-nos se a compreensão da mais fundamental da realidade é apenas uma questão de ampliarmos os limites da ciência ou se precisamos abandonar essa suposição e aceitar que o conhecimento científico tem limites (p. 21);
[…] a crença de que existe uma verdade final é uma fantasia, um fantasma criado pela nossa imaginação (p. 22);
[…] quando a Ilha do Conhecimento cresce, a nossa ignorância também cresce, delimitada pelo perímetro da Ilha, a fronteira entre o conhecido e o desconhecido: aprender mais sobre o mundo não nos aproxima de um destino final – cuja existência não passa de uma suposição alimentada por crenças infundadas – mas, sim, leva a novas perguntas e mistérios. Quanto mais sabemos, melhor entendemos a vastidão da nossa ignorância e mais perguntas somos capazes de fazer, perguntas que, previamente, nem poderiam ter sido sonhadas (p. 23)
Ora, das afirmações de Gleiser pode ser inferido que não cabe fazer ilações das chamadas ciências naturais (ainda repleta de dúvidas e incertezas) para as ciências sociais e humanas, e muito menos em carácter explicativo e peremptório. Não obstante e também sob perspectiva modificada, tais manifestações também são apropriadas e trazidas ao campo do “quase tudo pode”: afinal, provam que a Verdade, conforme legado pela Tradição, é inatingível, é incognoscível.
Ao abrigo do ambiente fraterno, livre e democrático, qualquer um e a qualquer tempo pode trazer esses temas à pauta da Loja e, dar-lhe um ar de suprema contemporaneidade, distanciar-se do esquadro, do compasso, da régua e das demais ferramentas do pedreiro. Enquanto isso, os que de facto produzem conhecimento científico, cautelosos nas suas divulgações, trabalham com conjecturas e hipóteses em meio às dúvidas e às incertezas. Embora já antigo, neste aspecto o livro de Weinberg (1996) permanece actual, mas pode ser complementado por Polkinghorne (2011), Rovelli (2017) e outros.
Cui bono a manutenção dessa realidade tão difusa quanto confusa e que pode mesmo comprometer o futuro da Ordem? Em primeiro lugar, por paradoxal que pareça, talvez à própria Ordem, que se um dia já foi secreta (não sem motivos) hoje tem no sigilo e nos mistérios efectivos instrumentos [16] de marketing a serviço da atracção e da manutenção permanente dos quadros na expectativa de que há algo a ser revelado – quiçá, e oxalá, a Verdade; em segundo, às Obediências que administram os Ritos e assim mantêm viva a crença de que “o seu Rito” é o melhor. No Brasil, a falta de interesse (leia-se: fomento) das Potências na realização de Estudos e Pesquisas, sobretudo sob o enfoque comparativo e cruzado entre as abordagens vis-à-vis as Famílias de Ritos (em meio às Potências) vis-à-vis os resultados entregues à luz dos objectivos maiores da Ordem, contribui para a manutenção deste ambiente aonde, democraticamente, “quase tudo pode”.
Em meio a tanto, as lacunas informacionais actuam como estímulos aos espíritos mais inquietos e investigadores, bem como abrem as portas ao exercício especulativo:
- que associação pode haver entre o Iluminismo e a criação dos Ritos Maçónicos?
- seriam, efectivamente maçónicos (nos termos hoje compreendidos) todos os 322 Ritos listados por Xico e Rocha? Para além da clássica definição pública e formal, porém demasiado genérica, de que a Maçonaria “é uma escola de moralidade, velada por alegorias e ilustrada por símbolos”, de A. Mackey (apud Feliciano, 2024), o que significa dizer que é Iniciática. Mas existem efectivamente elementos objectivos (doutrinários, ritualísticos, litúrgicos, simbólicos, etc.) que permitam conectar os Ritos (seja por similaridade, sucessão natural ou outro aspecto) e em razão das características formadas reconhecê-los todos como maçónicos? E se não existirem na forma de um conjunto coeso, com lógica interna, o que é, então, que identifica e singulariza a Maçonaria contemporânea – Especulativa – distinguindo-a de outras tantas instituições com propósitos análogos? Por oportuno, a quantidade de Ritos elencados (Xico e Rocha) e os subsequentes grupamentos identificados por Naudon sugerem, per se, que não cabe, pela ausência de representatividade, usar a parte pelo todo;
- e se a Maçonaria é uma Ordem Iniciática, é importante não perder de vista que nem toda Ordem Iniciática é e pode se dizer maçónica e, do mesmo modo, nem toda actividade Especulativa necessariamente remete à Maçonaria. O divisor de águas, em primeira aproximação já que não se pretende avançar sobre este tema, salvo melhor juízo, está na própria designação da raiz: pedreiro; assim, tudo o que objectiva ou metaforicamente se afasta e quanto mais do ofício propriamente dito – as actividades, as ferramentas, as condições do entorno, as relações, etc. – perde legitimidade, por desconexão com a origem, para evocar o carácter maçónico da especulação desenvolvida. Assim, teria então existido mais de 3 centenas de Ritos maçónicos ou a “marca” teria sido indevidamente apropriada para fins de outros interesses? De outro lado, é preciso reconhecer, que ao trocar o protagonismo do pedreiro pelo arquitecto ou construtor, os protagonistas de 1717 alargaram as portas e o escopo, ao que se soma também a amplitude da expressão “especular” – questões que, sem dúvida, também estão por detrás do “quase tudo pode” nos termos já referidos;
- a concentração do surgimento de Ritos no período já referido não seria um claro indicador de que a Maçonaria Especulativa foi produto de uma circunstância, de uma realidade muito específica e já situada no passado? Nesse caso, como justificá-la ainda hoje para os seus adeptos? Como afastar a pecha de ser um modismo que surgido no passado ainda insiste em se fazer presente e actuante na sociedade contemporânea? Essas, as anteriores e tantas outras são questões que quando o foco das actividades (“tempos de estudos”, trabalhos, etc.) beira ao diversionismo do “quase tudo pode” ou, no outro extremo, é direccionado exclusivamente ao Rito, passam ao largo de qualquer especulação e apreciação crítica que poderiam contribuir para pensar e delinear o futuro da Ordem;
- salvo informações mais completas, há indícios de que à época era relativamente fácil “qualquer um criar um Rito para chamar de seu”;
- teria havido na Maçonaria o mesmo fenómeno observado nas religiões e no campo político, isto é, o crescimento por dissidência? Seja a dissidência motivada pela reinterpretação e correcção de aspectos doutrinários ou, entre outras, por questões sucessórias, vaidade e exercício do poder?
- As Potências, à semelhança da Grande Loja da Inglaterra e Westminster, ainda estavam sendo constituídas, buscando adeptos e apoiadores com recursos, ambiente em que, senão tudo, quase tudo pode ser relativizado e constituído como moeda de troca;
- por fim, convém observar que, se de um lado havia a oferta de Ritos é porque do outro havia demanda (efectiva ou potencial) de pessoas receptivas, seja por afinidade de problemas, identidade de pensamento, propósitos e meios de acção. Já a quantidade, em si mesma sugere um ambiente no qual a diversidade (de ideias, propostas, estratégias, etc.) era um dos traços presentes. Do mesmo modo, há indícios de que passado um tempo, devido a algum mecanismo, esse mercado teria atingido o seu ponto de equilíbrio pela sobrevivência dos mais aptos e a constatação de que as diferenças (em geral) não eram efectivamente discriminadoras e irreconciliáveis;
- e sobre os Ritos “sobreviventes”? Tiveram continuidade porque à luz do evolucionismo souberam se adaptar aos novos tempos? Nesse caso, seria mérito ou demérito quando se tem em conta que as Tradições são tão caras à Maçonaria? Deveriam, então, ser submetidos ao Tribunal do Paradoxo do Navio de Teseu? De outro lado, os Ritos descontinuados teriam então sido punidos por terem optado pela pureza e pelas Tradições, assim como ocorreu com algumas seitas religiosas, a exemplo dos cátaros?
Conforme visto, parece não haver caminho fácil. O levantamento de Xico Trolha e Rocha suscita um rol praticamente sem fim de questões com potencial para catalisar estudos, pesquisas e exercícios especulativos (no caso, focado nos binómios: unidade-diversidade; parte-todo); e, ao abandonar a perspectiva da árvore, que limita os horizontes, e olhar a floresta, um novo e até então inexplorado universo se descortina. Tão importante quanto responder a cada uma dessas (entre outras) questões, e que certamente encontram-se entrelaçadas, é reflectir sobre os respectivos desdobramentos, que pelo princípio da unidade deveriam estar conectados ao longo de uma linha do tempo da Modernidade Iluminista aos dias de hoje, portanto, do séc. XVII ao XXI. Nessa viagem interior, histórica e institucional, nada pode escapar à crítica.
Na impossibilidade de dissertar sobre todos os temas elencados, optou-se por focar nas características do Iluminismo e de que modo, então, a Maçonaria Especulativa, para além das iniciativas institucionais e políticas, cujo marco é o surgimento da Grande Loja da Inglaterra e Westminster, em 1717, teria encontrado a seara fértil para o seu desenvolvimento. Mas para falar do Iluminismo é preciso, antes, dar um passo atrás para resgatar as características de outro momento histórico, a Modernidade, pois aquele é produto desta, que se estende do séc. XV ao XVIII.
É habitual pensar os dias actuais como o ápice das grandes realizações humanas, das transformações paradigmáticas – que nunca antes a humanidade teria atingido tal nível de desenvolvimento e descortinado tantas alternativas, tão promissoras quanto assustadoras. Todavia, para alguns houve um momento anterior tão importante quanto, senão ainda mais, enquanto para outros é impossível fazer essa separação com nitidez, pois tudo é path dependent [17] (uma função do passado, de uma trajectória histórica), o que significa dizer que o mundo de hoje só é como é em razão de eventos passados, deliberados ou não, o que torna impróprio a sobrevalorização de um período específico em detrimento de outros. Nesses termos o Iluminismo é um produto do Renascimento e da Modernidade, fenómenos em parte contemporâneos (séc. XV) mas também contíguos porque o Renascimento é visto como a ponte entre o Medievo e a Idade Moderna. E como tudo é path dependent, para alguns não tem sentido falar em Renascimento e Modernidade sem aludir ao Nominalismo e ao pré-Renascimento (séc. XIII e XIV), e assim sucessivamente. Contudo, para fins práticos e didácticos, embora tudo seja processo, o estabelecimento, por mínimo que seja, de determinados marcos, da localização espácio-temporal, de ideias e conceitos são fundamentais para que qualquer elaboração ulterior se torne possível.
Assim, para que não haja uma extensão em demasia, afinal a Modernidade se estende por 3 (três) séculos, os eventos a seguir enumerados contribuem para formar a ideia que singulariza a grandeza (para muitos ainda sem igual) desse momento histórico. Preliminarmente, é preciso delimitar o parece já ter ficado claro: a Modernidade e o Iluminismo ora referidos são os fenómenos eurocêntricos, porque é no Velho Continente que podem ser encontradas as raízes da Maçonaria:
- ressalvada a divergência de maior ordem já apontada, mas também a tendência de cada autor chamar a primazia e a relevância para o seu domínio de conhecimento, há uma aceitação geral de que a Revolução Copernicana [18] (séc. XVI) constitui a génese da Modernidade, o ponto de inflexão que surgido de uma mudança paradigmática, do geocentrismo para o heliocentrismo, reverberou por entre todos os campos do conhecimento e da vida social, política e religiosa que, muito mais do que hoje (nos Estados laicos), à época estavam completamente imbricadas a partir do eixo capilarizado da fé cristã. As contribuições de Galileu Galilei (1564-1642) e J. Kepler (1571-1630) viriam a situar, definitivamente, a ciência e as tecnologias no epicentro da nova cosmovisão então emergente (Santos, 1990);
- a prensa de tipos móveis, introduzida por J. Gutenberg (1400-1468) e a nova pedagogia da J. A. Comenius (1592-1670), substituindo o Trivium e Quadrivium, que até então constituíam o cerne da educação clássica e medieval, revolucionaram a geração, o acesso e a difusão dos conhecimentos;
- as Grandes Navegações capitaneadas pelos países ibéricos, senão com a descoberta, com a colonização das Américas e a circum-navegação do mundo, eventos da primeira metade do séc. XVI, viriam a redefinir a geografia da economia política mundial com o surgimento e a hegemonia de novas potências;
- a Reforma conduzida por M. Lutero (1483-1546) e seguida por várias ondas de choque promovidas por J. Calvino (1509-1564), U. Zuinglio (1484-1531), Henrique VIII [19] (que em 1534 e com o apoio do Parlamento Inglês instituiu o anglicanismo) e outros reformadores abalaram ainda mais o cristianismo e as instituições católicas (alicerces da sociedade medieval) que fraccionadas desde o Cisma de 1054 enfrentavam dificuldades em novas frentes: as denúncias de simonia e a luta para conter a expansão do islamismo;
- à Reforma, sabe-se, sucedeu a Contra-reforma, cujo marco é o Concílio de Trento (1545-1563) [20] que provocou novas ondas de choque que se espraiaram por todo o tecido social; e por fim, mas sem a pretensão de exaurir o tema,
- a ascensão e o ocaso do Estado Absolutista e do mercantilismo, em favor do Estado Democrático e de Direito com lastro económico no novo capitalismo industrial-financeiro liberal, também ocorreram durante a Modernidade; como consequência, a realeza e a nobreza cedem o espaço (poder!) à nova burguesia em ascensão. A abolição de privilégios, no taxation without representation, “um homem-um voto”, sucessivas gerações de direitos individuais (ir e vir, liberdade de expressão, reunião, agrupamento partidário, etc.) e colectivos (que exigiram dos Estados & Governos a implementação de políticas públicas), entre outras são as bandeiras levantadas por um novo senso de cidadania que inclui novas formas e sistemas de governo (república, parlamentarismo, presidencialismo, etc.), de sistemas políticos e partidários (uni ou pluripartidário), sistemas eleitorais (voto directo, indirecto, distrital, etc.), de sistemas de representação (uni ou bicameral), entre outros aspectos com os quais hoje todos já estão acostumados, vistos até como naturais ao invés de resultados após um longo processo de lutas, reveses e conquistas não raro mediadas pela extrema violência.
A propósito, tendo sido a Inglaterra o berço da Moderna Maçonaria Especulativa [21] (MME), não deixa de ser curioso que as iniciativas de Henrique VIII sejam hoje apontadas como um dos factores que precipitaram a decadência da Maçonaria Operativa. E Haywood, Acemoglu e Johnson permitem verificar as conexões entre os últimos destaques:
Essa proliferação [das corporações de comércio e ofícios] sofreu seu primeiro revés sério durante a Reforma, quando Henrique VIII destruiu todas as corporações religiosas; elas morreram rapidamente com o advento do sistema capitalista e pararam, excepto em alguns casos menores no século passado […] No seu auge, o sistema corporativo estava intimamente relacionado à Igreja […] quase todas as corporações tinham seu santo padroeiro […] muitas reservavam somas de dinheiro para sustentar um padre, manter uma capela e para serviços religiosos, capelas, escolas e instituições de caridade (Haywood (2023, p. 108) [22].
Henrique VIII dissolvera os mosteiros e vendera as terras dos monges em meados do século XVI. As elites rurais eram agora a pequena nobreza da gentry: grandes proprietários de terras com o olho cada vez mais afiado para a modernização do campo e o incremento dos excedentes (Acemoglu e Johnson, 2024, p. 126).
Embora longe de ser exaustivo, acredita-se que o rol dos eventos listados seja suficiente para formar uma ideia do significado, do potencial de impacto e da capilaridade evocadas frente à expressão Modernidade. Mudanças paradigmáticas, complexidade, polissemia, incomensurabilidade, entre outros são adjectivos que se juntam ao esforço para exprimir a dimensão, a amplitude e a profundidade do período, talvez só igualado pela perplexidade que hoje, mesmo já transcorrido mais de um século das primeiras Interpretações, ainda acomete a todos que se dedicam ao estudo da Mecânica Quântica [23] e aos seus desdobramentos contra-intuitivos. Antes de explorar “o outro lado” da Modernidade, 3 (três) eventos bem sintetizam o ambiente, os conflitos de interesses e as tensões prevalecentes no período: a Revolução Inglesa (séc. XVII), a Revolução Americana (séc. XVIII) que levou à independência das 13 Colónias e, por fim, a Revolução Francesa, cujo lema Iluminista (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) foi adoptado por boa parte da MME; cada um deles, embora datados para referência histórica, sabe-se, foram produtos de um longo processo de gestação de crise e maturação até que fosse reunida a massa crítica para explodirem a ponto de ainda hoje serem sentidas as radiações de fundo que provocaram. Para alguns a Rev. Francesa corresponde ao divisor de águas entre a Modernidade e a Pós-Modernidade, também referida como Idade Contemporânea. Uma das principais consequências da Revolução Científica (copernicana) foi ter colocado em marcha um processo que perdura até hoje: na Idade da Razão, a crescente dessacralização da cultura (lato sensu), o que pouco a pouco confinaria Deus nas lacunas do conhecimento (Dawkins, 2007).
A revolução científica (copernicana) que inaugurou a Modernidade, grosso modo, foi concomitante a outro empreendimento muito citado na literatura: M. Ficino (1433-1499), a pedido de Cosme de Médice estava traduzindo as obras de Platão; todavia, o aparecimento de um exemplar do Corpus Hermeticum (Trismegisto, 2019) [24] na cidade de Florença (Itália), obra então considerada mais importante (sagrada), por determinação do segundo ganhou então prioridade.
Ficino, no seu comentário sobre o tratado, mostra-se imensamente impressionado pelas notáveis semelhanças entre este livro e o Génese. “Vê-se, aqui, Mercúrio [Hermes] a tratar dos mistérios mosaicos” […] Ele viu a criação surgir graças à Palavra Divina e o homem ser criado segundo a imagem de Deus e, depois, sua queda da esfera inteligível para o corpo. Utiliza quase as mesmas palavras que Moisés. […] Depois, ele instrui-nos sobre como podemos novamente nos elevar para aquela natureza inteligível e imortal de onde degeneramos […] o que impressionou Ficino foi, acima de tudo, aquilo que lhe pareceu semelhante a Moisés (e nem tanto a Platão) na sua obra (Yates, 1995, p. 37-8).
Gentile, citado por Sommerman (2019, p. 15-6) acrescenta que:
Ficino ressaltou a grande antiguidade de Hermes Trismegisto […] afirma que Hermes é o primus autor theologiae (o fundador da teologia), e o iniciador da teologia primordial e perene (prisca theologia), na sua essência sempre a mesma ao longo dos séculos, da qual fizeram parte, segundo ele [Ficino]: Orfeu, Aglaofemo [que teria iniciado Pitágoras aos mistérios órficos], Pitágoras, Filolau e Platão […] a prioridade dada por Cosme à tradução de Hermes em relação à de Platão é assim explicada pela grande antiguidade do sábio egípcio, cuja revelação, contida nos escritos atribuídos a ele, foi transmitida posteriormente pelas obras dos seus sucessores [os escritos de Hermes] continuavam a personificar uma teologia muito antiga: a mais antiga revelação da verdade […] a importância que Lactâncio deu a Hermes para a compreensão de alguns temas fundamentais da teologia cristã e a dimensão profética que atribuiu a ele estimularam muito o interesse dos humanistas pelas obras atribuídas a Hermes […].
Esse foi, então, o marco para o segundo Renascimento, que embora concomitante ao primeiro raramente é mencionado enquanto tal, posto que a marca ficou mais fortemente associada ao Renascimento cultural-técnico-científico; assim, o Renascimento das ciências ocultas (astrologia, alquimia, cabala, magia, teurgia e outras afins) ficou encoberto, restrito ao círculo dos Iniciados ou dos mais interessados. E desde então, incontáveis seguidores e autores que através das suas obras e pensamentos (das concepções de mundo às respostas às questões fundamentais) viriam a influenciar um número igualmente incontável de adeptos ainda hoje presentes na MME. Entre tantos, e também sem pretender ser exaustivo: G. Pico della Mirandola (1463-1494), Giordano Bruno (1548-1600), J. Boehme (1575-1624), E. Swedenborg (1688-1772), Martinez de Pasqually (1727-1774) e L. C. de Saint-Martin (1743-1803). O leitor mais familiarizado com o tema já terá identificado na enumeração anterior (bem como na citação à Sommerman) a ascendência e a influência intelectual desses ideólogos sobre os Ritos & Rituais que orientarão (e alguns ainda orientam) a Maçonaria que então estava em transformação e expansão – de Operativa à Especulativa, e da Ilha para o Continente [25]. Importante observar: de um lado havia, nessa Maçonaria em transição, o renascimento (talvez, melhor: o revigoramento) de uma actividade especulativa que em parte estivera ocultada durante o Medievo, mas de outro se observava o surgimento da especulação em nova modalidade, conforme distinção feita na Nota 21 deste texto.
Não é preciso enfatizar que os 2 (dois) Renascimentos, em grande medida e sobre quase todos os aspectos se opunham um ao outro: enquanto um se atinha ao velho paradigma (centrado na unidade do corpo-espírito e na primazia da fé judaico-cristã), o outro representava a ruptura a partir do dualismo (res extensa vs res cogitans) sugerido por R. Descartes (1596-1650) e, por consequência, a elevação da razão e da ciência (então chamada de moderna [26]) à condição de primazias. Em outros termos, a sociedade (medieval) que até então tinha como bússola histórica e moral a unidade da cosmogonia-teogonia [27] instituída pelo vector judaico-cristão, de repente, com a separação (a dualidade cartesiana) perde, por completo, a orientação, o rumo e o prumo. O movimento no sentido à dessacralização da cultura, então colocado em movimento, encontraria forte resistência e levaria os adeptos de todos os lados a formarem alianças para os embates que se estendiam por todos os espaços sociais: nas famílias, nos sistemas e nas estruturas educacionais, religiosas, no mundo do trabalho, nos clubes sociais e, sobretudo, no ambiente político. Ademais, nesse cenário (de vazio, de falta de orientação) não é difícil imaginar os desdobramentos e consequências: cada um, cada grupo, se arroga o direito de criar a sua própria métrica de valores, e ao fazê-lo e para fazê-lo no primeiro momento busca alianças com aqueles que lhes são mais próximos em identidade de pensamento, propósitos e meios (em suma: actuam no mesmo campo semântico); na sequência procura então disseminar este conjunto, fortalecendo-o para assegurar a longevidade e a reprodução das ideias e valores. É também uma estratégia de sobrevivência e condição de sucesso. Em grande síntese: torna-se flagrante o embate entre “as verdades” vs “a Verdade”.
Todavia, é importante observar que nem tudo “é preto ou branco”, “é tudo ou nada”, há os matizes delineados pelos processos que conduzem de um ao outro extremo. Entre tantos, há 3 (três) casos notáveis porque muito conhecidos: G. Galilei, J. Kepler e I. Newton (1643-1727), que de regra são associados e reconhecidos como “homens de ciência”, todavia eram também homens presos aos dogmas das Escrituras e de extrema dedicação religiosa, portanto, também “homens de fé”:
[…] para Kepler, o Sol era muito mais do que isso: ele era o trono de Deus, Seu poder permeando o sistema solar. O sistema de Kepler não era apenas heliocêntrico; ele era também teocêntrico. Como notou Holton, o Sol tinha três papéis complementares no Universo de Kepler: o de centro matemático das órbitas planetárias, o de centro físico, garantindo a continuidade dos movimentos orbitais, e o de centro metafísico, o templo da Divindade (Gleiser, 1997, p. 129);
As acções de Galileu tornaram a igreja que ele tanto desejava servir [28], numa inimiga, contra suas ideias e contra seus discípulos (op. cit., p. 162);
Newton via o Universo como manifestação do poder infinito de Deus. Não é exagero dizer que sua vida foi uma longa busca de Deus, uma longa busca de uma comunhão com a Inteligência divina, que Newton acreditava dotar o Universo com sua beleza e ordem (op. cit., p. 164);
[…] vou abraçar a verdadeira religião de Cristo com toda a minha alma […] e irei ou fazer da teologia o meu objecto principal de estudo, tornando-me membro do clero quando o tempo prescrito por esses estatutos chegar, ou renunciar à minha posição no College (op. cit., p. 174).
Assim, além de “homens de ciência” e “homens de fé”, foram “homens holísticos” – também praticantes das chamadas ciências ocultas (também referidas como esotéricas ou metafísicas) – como de sorte outros integrantes da The Royal Society (à época o mais significativo Templo da Ciência), o que lhes trouxe não só angústias e conflitos pessoais, mas também familiares e profissionais à medida que o avanço das suas investigações deixava à evidência as lacunas, as inconsistências ou quiçá as incorrecções nas Escrituras [29] (Gleiser, 2006; Fanning, 2016). Hanegraaff (apud Derosa, 2017, p. 36) aponta que: “[…] divorciada do catolicismo devido ao seu espírito revolucionário, a ciência moderna foi construída sob bases esotéricas e místicas, como mostra a história pessoal de nomes como Isaac Newton, René Descartes, Francis Bacon e outros”. Quanto a esse terceiro grupo Pearcey (2023, p.173-4) declara:
Durante uns trezentos anos depois da revolução científica, julgava-se que o cristianismo e a ciência fossem de todo modo compatíveis e mutuamente apoiadores. Muitos cientistas eram cristãos, e as pessoas conheciam um pároco que, nas horas vagas, coleccionava espécimes biológicos. As complexidades atordoantes da natureza reveladas pela ciência não eram temidas como desafio à crença em Deus, mas saudadas como confirmação da sua sabedoria e desígnio. Estudiosos tão diversos quanto Copérnico, Kepler, Newton, Boyle, Galileu, Harvey e Ray sentiam-se chamados para usar seus talentos científicos em louvor a Deus e a serviço da humanidade. A aplicação da ciência na medicina e tecnologia estava justificada como meio de inverter os efeitos da queda, aliviando o sofrimento e o enfado. As tendências de secularização ameaçavam a harmonia entre a ciência e a religião, mas seu colapso final ocorreu de forma repentina em fins do século XIX, quando Charles Darwin publicou a teoria da evolução. O darwinismo era, de modo implacável, naturalista, explicando a origem e o desenvolvimento da vida através de causas estritamente naturais.
O que se passava nos corações e nas mentes dos principais vultos, por certo e aos poucos acometeu as demais camadas da sociedade: comerciantes, trabalhadores em geral, estudantes, homens, mulheres, militares, políticos, clérigos, realeza, nobreza e outros, como a nascente burguesia industrial, entre eles, sem dúvida, muitos maçons.
Portanto, ao contrário do que muitos crêem, porque maioritariamente disseminado, é preciso observar que no período – Renascimento-Modernidade-Iluminismo – não havia um movimento exclusivo e hegemónico (o do curso inexorável da ciência moderna), mas pelo menos 2 (dois) e que a tensão entre os extremos era crescente. Embora da mesma raiz – a curiosidade e a dúvida que levaram à filosofia e à indagação das causas primeiras: as questões fundamentais – aos poucos foram mutuamente distanciando-se a ponto mesmo de em determinados campos e momentos serem observadas animosidades, ora veladas, ora mais explícitas ao limite do radicalismo. Ademais, conforme visto, um dentre os lados (ciência vs fé), o cristianismo [30] católico, encontrava-se sob severo ataque e já havia tempos apresentava fissuras e fracturas. Sobre o tema, sugere-se aos mais interessados, entre outros, a leitura de Yates (2007, 1995) e Carvalho (2012).
Mais do que dividida e fracturada, a sociedade se encontrava atomizada; esse era, pois, o ambiente de grande efervescência cultural (lato sensu), na maturidade da Modernidade, no séc. XVIII, período em que, já no Iluminismo, houve então a “explosão de Ritos”. Se basta uma mudança (ou mesmo que seja meramente cogitada) para deflagrar movimentos de resistências pelos mais diversos motivos (pois, de regra, sempre há um lado perdedor), imagine-se, então, quando várias mudanças (no campo das técnicas, das crenças, da economia, da política, nos usos e costumes, etc.), cada qual de carácter paradigmático, coexistem no mesmo espaço-tempo. Foi um momento em que a Modernidade para alguns já apresentava sinais de esgotamento em razão das promessas não cumpridas (maiores oportunidades e melhores condições de trabalho, redução das desigualdades, maiores acessos proporcionados pelas novas tecnologias – à saúde, à educação, à cultura em geral, etc. -, à maior participação política, etc.), mas para outros ainda era um projecto não concluído. As frustrações inauguraram também uma nova era de doenças físicas e psíquicas que viriam, inclusive, caracterizar a etapa subsequente – a Pós-Modernidade (ansiedade, angústia, depressão e outras).
Mas o Iluminismo, por seu turno, paralelamente ao esgotamento e ao desencanto frente às promessas da Modernidade, trouxe também a renovação das esperanças – talvez o exemplo mais conhecido seja a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – 1789. A leitura crítica da Modernidade & Iluminismo, ora a favor ora contra, ora in totum ora em parte, dirigida às falhas, aos exageros, às distorções, etc., que não é o objecto deste ensaio, mas se torna oportuno citar, foi (desde o olho do furacão) e continua tema permanente de discussão entre pensadores, críticos e literatos, a exemplo de B. Espinoza (1632-1677), I. Kant (1724-1804), A. Schopenhauer (1788-1860), F. Dostoiévski (1821-1881), F. W. Nietzsche (1844-1900), L. Tolstói (1828-1910) e S. Freud (1856-1939) que, por sua vez, viriam a influenciar os pensadores já na Pós-Modernidade, como é o caso, entre tantos, de Ehrenfeld (1992) que acusa a arrogância da razão científica, e também de Bobbio (2000), que tendo por mote a “democracia”, explorará este tema em larga perspectiva histórica. Um texto diminuto, mas de grande importância e ainda hoje muito actual, razões suficientes para a recomendação enfática da leitura, é “O que é Esclarecimento?”, de I. Kant (2011) [31], e para que fique o claro o que ora se intenta, alguns traduzem Esclarecimento, por Iluminismo; logo nas primeiras linhas o autor pontua:
Esclarecimento é a saída do ser humano de sua menoridade, menoridade essa na qual ele se inseriu por sua própria culpa. Menoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a condução de outrem […] Sapere aude [32]! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento! – este é, portanto, o lema do Esclarecimento (op. cit., p. 24-5).
Devido à preguiça [33] e à covardia (sim, são estas as palavras do autor) muitos preferem a menoridade, serem eternamente conduzidos pelas mãos, como crianças [34] pelos pais, mesmo quando já adultos preferem ser conduzidos por mentores, gurus, políticos, clérigos e outros.
Na impossibilidade de apreciar as ideias atomizadas, Santos (1990) trabalha com uma tipologia já bastante conhecida porque aplicável a diversas situações, as chamadas 3 (três) atitudes frente à mudança sociocultural: a reaccionária, a revolucionária e a liberal. Trata-se de um procedimento análogo ao de Naudon (op, cit.) que, frente à diversidade excessiva, categoriza por (des)semelhança para, assim, obter um conjunto de construtos operacionais. Assim, grosso modo: 1) o reaccionário tende a reagir contrariamente às mudanças porque identifica riscos ao status quo vigente, sobretudo se as mudanças forem demasiado aceleradas. Não se trata, conforme apontado por muitos, de ser aprioristicamente contrário às mudanças, mas o reconhecimento do valor da situação presente, resultado de muitos experimentos (tentativas e erros) e custos (de toda a natureza, inclusive vidas), o leva a recear mudanças (que muitas vezes não passam de modismos e casuísmos) abruptas, sem que antes tenham sido submetidas ao crivo de profundas reflexões e avaliações – não por acaso o reaccionário é também denominado de conservador; 2) já o revolucionário actua no sentido contrário, procura acelerar as mudanças porque se encontra insatisfeito com o status quo do presente – ele idealiza, para o curto prazo, um novo cenário no qual ele tenha maiores oportunidades e possibilidades de ganhos de toda natureza. A célebre frase atribuída a Lorde Keynes, de que “a longo prazo todos estaremos mortos”, poderia ser um epíteto desta atitude que, conforme se observa, com vigor se opõe à anterior; finalmente, 3) o liberal se encontra a meio caminho entre as posturas mais extremas, o que não o impede de circunstancialmente pender para um ou o outro lado. Não é demais salientar: são atitudes que podem ser encontradas quando frente às mais variadas situações, desde o ambiente familiar às grandes questões em debate no cenário nacional [35] e internacional [36], passando pela adopção de novas tecnologias, novas formas de organização e gestão, etc.
Seria possível, aqui, acrescentar mais um grau à complexidade da análise crítica (a essência da actividade especulativa): o cruzamento das Escolas de Pensamento, de Leadbeater (a autêntica, a antropológica, a mística e a oculta) com as Atitudes Frente à Mudança, de Santos (reaccionária, revolucionária e liberal), as quais, por sua vez, podem também ser associadas aos tipos vistos anteriormente: os homens de ciência, os homens de fé e os homens holísticos. E que não se pense que trata de mero exercício diletante, mas antes para melhor entender a realidade; assim, por exemplo: um perfil claramente identificado com as Escolas Mística ou Oculta e com a atitude reaccionária pode sugerir (e mesmo antecipar) alguém que é (e será) sempre contrário às mudanças e inovações em todo e qualquer campo, enquanto que o liberal será mais flexível e aberto às tentativas mesmo que possam resultar em erros e perdas. Para uns a descoberta de alguma regularidade na natureza, a exemplo da Sequência de Fibonacci, da constante alfa (1/137), entre outras constantes físicas, foram e continuarão sendo fenómenos merecedores de estudos e pesquisas continuadas com a expectativa de algum dia serem definitivamente esclarecidas, mas para outros trata-se tão somente da identificação de uma das Assinaturas de Deus, cuja mente é insondável, sendo, portanto, desnecessários e inúteis novos estudos, inclusive porque os mais intolerantes podem percebê-los como intromissão num domínio indevido, portanto passível de punição. A questão que se levanta é: será que o desenvolvimento de uma ferramenta de gestão com base nas categorias elencadas (Naudon, Leadbeater e Santos) não teria aplicação e utilidade nas Sindicâncias Maçónicas, bem na gestão geral das Lojas? Todavia, abandona-se este assunto para que não se fuja em demasia do escopo delimitado para este ensaio.
Relembrado, a partir de breves excertos, o ambiente – da Modernidade Iluminista – no qual se deu a “explosão de Ritos maçónicos”, é chegada então a hora de resgatar o tema para a análise que encaminha às considerações finais. Ao deslocar a perspectiva da parte (Rito) para o todo (Maçonaria), da árvore para floresta, é tornado saliente que:
- o surgimento da MME e a subsequente “explosão de Ritos” reflectem a natureza do seu espaço-tempo: múltipla, diversa, complexa, ambígua, contraditória, com elementos internamente competitivos entre si, ao mesmo tempo em que as artes técnicas (manuais) crescentemente [37] cediam espaço às actividades cognitivas, ao pensamento crítico e às novas tecnologias lastreadas no conhecimento científico. Assim, para abrigar tantas escolas de pensamento e atitudes a MME não poderia mesmo se organizar de outra forma que não fosse para abrigar a diversidade, ser universal. Não é claro, mas bastante provável, que a estrutura organizacional de uma fraternidade centenária, que aos poucos e já há algum tempo contava nos seus quadros com um número crescente de integrantes não praticantes do ofício (os chamados “aceitos”), actuasse, também, não só como um refúgio mais seguro [38] para o amplo debate, para o enfrentamento dos contraditórios, único meio de aprimoramento intelectivo, bem como para o aliciamento de apoiadores. É importante não perder de vista que apesar do florescimento de ideias, ou talvez justamente por isto, o ambiente inspirava cuidados adicionais (sobretudo para os de índole reaccionária-revolucionária), senão pelas disputas dinásticas sempre acompanhadas de perseguições, em razão da intransigência religiosa principalmente dirigida aos conversos (judeus e muçulmanos), sem esquecer que a Inquisição medieval, ainda por muito tempo, durante a Modernidade, estendeu os seus braços persecutórios pela Europa;
- historicamente é típico que nos momentos antecedentes às grandes mudanças (revolucionárias, paradigmáticas), inclusive como pré-condição de realização das mesmas, os interessados constituam alianças que sugerem existir unidade mesmo entre os dessemelhantes, sim, pois a prioridade estratégica é formar a massa crítica para a consecução do objectivo maior, remover ou superar os principais obstáculos. Superada a fase inicial, posta em marcha a mudança, as divergências tornam a emergir e afastam os que até então se mantinham próximos. Por oportuno e enquanto analogia, na actualidade não há exemplo melhor do que o que pode ser observado no am