Ao espelho, ou “Conhece-te a ti mesmo”
Tenha cuidado com os homens que não veem qualquer mistério quando se olham ao espelho.
Richard Zimler,
Os anagramas de Varsóvia, p. 330
Os espelhos, quando apareceram na Antiguidade, criaram problemas religiosos e de identidade tremendos. Quem estava do lado de la da superfície brilhante e lisa? “Espelho meu, diz-me quem e a mais bela?”, diz a bruxa-má ao questionar o seu espelho sobre a sua beleza. Vemos o que vemos, mas vemos mais, vemos o que queremos. Se o não vemos, a identidade complica-se – como no caso da bruxa e da Branca de neve; o desejo e sempre facto de sobreposição em relação ao real. O que vemos é (um)a realidade que os nossos olhos nos facultam. Essa, apenas.
É, de facto, irónico que tenha sido o espelho o objeto usado ao longo dos milénios para confrontar, nos ritos de iniciação, o sujeito consigo mesmo, desmascarando a confiança em si, mostrando que o maior inimigo e a imagem ao espelho… isto é, nós mesmos. Aquele que esta no espelho, sou e eu e é também a minha capacidade, ou quase destino, como que inata, de me opor a mim mesmo.
Mas os espelhos não são apenas aquelas peças bonitas, de superfície atraentemente lisa e pura de rugosidades e impurezas. Apela Shakespeare: “não diga o meu espelho que envelheço”! O garante da juventude e o olhar para o amor, a dedicação e a entrega, que inebriando inibem a visão mais objetiva das rugas, das imagens do tempo e da sua voragem.
Reconheço-me no espelho? “Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu”, aponta Mia Couto (“Idades Cidades Divindades”); mas quem é quem neste jogo de olhares? Com a frase socrática que serve de epígrafe a este texto, somos obrigados a perceber que o espelho somos todos os outros que, ao nos distanciarmos, permitimos o olhar exterior. Mais descomprometido, ou não, ao estar em sociedade, todos somos espelhos. Diz a frase do azulejo setecentista que, “quem accepi, reddidi” (Quem aceita (acolhe), devolve). Ao ser-se espelho também se é espelhado, refletido. Somos análise ao outro e somos por ele também analisado e percecionado.
Mais que no geral da sociedade, numa Loja, somos ainda mais esse confronto que, no âmbito da diversidade, não é apenas acaso, mas é busca. Dar-se a ser espelho é também deixar-se atrair pelo espelho que são os outros, respeitando a diversidade e, valorizando-a, perceber que é com ela que me conheço.
Afinal, o espelho não deve ser simplesmente a dita superfície polida e sem impurezas. Deve ser fosco, deve ser convexo e concavo. Deve ser caricaturante! É na deformação, no exagero da caricatura que somos remetidos para os elementos essenciais que nos confrontam. Só nesse confronto tomo posição. Só nessa posição deixo de ser, potencialmente, um Narciso a gostar do que vê, ao ponto de se apaixonar pelo seu ego, e me encontrão na nudez das imperfeições, tomando-as como minhas.
Fonte
- Página no Facebook do Quatuor Coronati Correspondence Circle – Portugal
