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A origem templária da Maçonaria: verdade ou mito?

✍️ Desconhecido 📅 10/10/2026 👁️ 19 Leituras

templários, maçonaria

Resumo

Este artigo analisa a relação entre os Cavaleiros Templários e a Maçonaria, confrontando teses sobre uma possível origem templária daquela Ordem. Busca-se distinguir continuidade histórica de influência simbólica.

Introdução

A relação entre a Ordem dos Cavaleiros Templários e a Maçonaria constitui tema controverso na historiografia maçónica.

Enquanto alguns autores defendem uma possível continuidade entre as duas tradições e, consequentemente, uma interligação entre as instituições, apontando muitas vezes a Ordem Maçónica como herdeira da Ordem Templária, outros consideram inexistentes as evidências capazes de comprovar essa sucessão institucional.

Diante desta controvérsia, este artigo analisa criticamente os principais argumentos das duas correntes, realizando uma breve contextualização histórica e buscando distinguir a hipótese de uma origem directa daquela referente apenas a uma possível influência simbólica e cultural dos Templários sobre a Maçonaria.

Os Cavaleiros Templários

A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão teria sido fundada por volta de 1118, em Jerusalém, por Hugues de Payns e mais oito cavaleiros, entre eles Godofredo de Saint-Omer e André de Montbar, com o propósito de proteger os peregrinos cristãos que viajavam para a Terra Santa após a Primeira Cruzada. O rei Balduíno II de Jerusalém permitiu que os nove cavaleiros se instalassem numa área do Monte do Templo, tradicionalmente associada ao antigo Templo de Salomão, circunstância da qual derivou a denominação “Templários”.

Com o passar do tempo, o poder, a riqueza e a influência dos Templários se expandiram por diversas regiões da Europa. Além da sua actuação militar nas Cruzadas, a Ordem desenvolveu uma ampla estrutura administrativa e financeira, administrando propriedades, recursos e transferências de valores entre diferentes localidades. Algumas dessas práticas são frequentemente apontadas como antecedentes de instrumentos financeiros posteriores, embora não seja historicamente preciso atribuir aos Templários a invenção do cheque ou do cartão de crédito.

Com efeito, segundo Ronaldo Bretas de Carvalho Dias (2020), o peregrino europeu que quisesse se aventurar além-mar para visitar a Terra Santa não podia levar consigo dinheiro ou riquezas em espécie, tendo em vista a longa e perigosa jornada. Como alternativa, poderia procurar um posto templário na sua cidade ou nos portos de embarque, onde deixaria depositados o seu dinheiro ou outros bens de valor, recebendo, em troca, um documento devidamente codificado, comparável a um cheque ou título de crédito moderno. Ao chegar a Jerusalém, bastaria procurar outro posto templário e, mediante a apresentação daquele documento, receber o valor correspondente.

Assim, os Pobres Cavaleiros de Cristo tornaram-se detentores de grandes propriedades, desenvolveram diversos negócios e passaram a realizar operações de crédito com nobres e, principalmente, com reis, muitos dos quais se encontravam cada vez mais endividados, inclusive em razão dos elevados gastos decorrentes das próprias Cruzadas. Um desses monarcas endividados com os Templários teria sido o rei da França Filipe IV, o Belo, que, além das significativas obrigações financeiras, também teria interesse em confiscar a vasta riqueza acumulada pela Ordem.

No seu livro “Templários: Ascensão e Queda dos Guerreiros de Deus”, Dan Jones (2021), premiado historiador britânico e especialista em Idade Média, explica que, por volta de 1307, o rei Filipe IV, o Belo, com o auxílio do papa Clemente V, de Guilherme de Nogaret, seu conselheiro e jurista de confiança, e de Esquiu de Floyran, um suposto ex-Cavaleiro Templário, articulou uma série de acusações contra os Templários, que incluíam blasfémia, imoralidade, sodomia, idolatria, negação de Cristo e práticas consideradas demoníacas [1]. Tais acusações culminaram num longo e tortuoso processo de perseguição, prisão, interrogatórios e condenações dos chamados “guerreiros de Deus”.

Em 22 de Março de 1312, o papa Clemente V promulgou a bula Vox in excelso, por meio da qual suprimiu oficialmente a Ordem dos Cavaleiros Templários. Dois anos mais tarde, em 18 de Março de 1314, o último Grão-Mestre da Ordem, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira, em Paris, após revogar as confissões anteriormente prestadas e reafirmar a inocência da Ordem.

A Tese da Origem Templária

O irmão Robert Lomas (2018), renomado escritor Maçom inglês, afirma que historiadores maçons ingleses clássicos, como Robert Freke Gould e J. S. M. Ward, consideravam que o envolvimento dos Cavaleiros Templários escoceses e ingleses teria marcado o início da Maçonaria Especulativa na Inglaterra, por eles considerada a Casa da Maçonaria.

Neste contexto, aqueles autores sustentavam, basicamente, que um grupo de Templários perseguidos na França pelo rei Filipe IV teria conseguido escapar das prisões e fugir para a Escócia, onde aqueles cavaleiros teriam se infiltrado e se escondido nas guildas de pedreiros.

Vejamos o que escreveu Lomas na sua obra “Os Segredos da Maçonaria”:

Gould reporta uma tradição entre os maçons da Escócia que, após a dissolução dos Templários, muitos dos Cavaleiros fugiram para a Escócia e se colocaram por si próprios sob a protecção de Robert Bruce, e após a Batalha de Bannockburn, a qual ocorreu no Dia de São João Batista no Verão de 1314, este monarca instituiu a Ordem Real de Heredom e de Cavaleiros da Cruz Rósea, estabelecendo a sua sede principal em Kilwinning […] Ward considerou como os Cavaleiros Templários ingleses e escoceses poderiam ter sido envolvidos no início da Moderna Maçonaria. Ele começou a olhar para os muitos símbolos que actualmente estão associados com a Maçonaria e são achados nas tumbas dos antigos Cavaleiros Templários. Estes emblemas maçónicos são esculpidos nas paredes de edifícios templários […] os cavaleiros que concordaram em apoiar Bruce foram feitos maçons.

(LOMAS, 2018, p. 156-158).

Na obra “A Chave de Hiram: Faraós, Maçons e a Descoberta dos Pergaminhos Secretos de Jesus”, Christopher Knight e Robert Lomas chegaram à conclusão de que, após a sua queda, os Cavaleiros Templários, baseando-se nos antigos segredos inspirados na Ma’at, deram ao mundo um novo e supremo nível de Maçonaria operativa, cujo remanescente teria evoluído, posteriormente, para aquilo que viria a constituir a Maçonaria moderna (KNIGHT; LOMAS, 2002, p. 287).

O irmão William Almeida de Carvalho, no seu livro “Ascenção e Queda da Maçonaria no Mundo”, traz a seguinte citação de Willermoz:

 (…) eu misteriosamente ensinei àqueles a quem conferi o 4 º Grau da Loja que eles se tornaram sucessores dos Cavaleiros Templários e da sua sabedoria”. Após, o autor questiona “O que seria o Grau 4º? Estaria ele limitado à revelar os princípios gerais ocultos sob a conexão entre Templários e a Maçonaria (…)?

(WILLERMOZ, apud CARVALHO, 2016, p.224)

Por fim, não poderíamos deixar de fazer, ainda que brevemente, uma referência à Oração ou Discurso de Ramsay.

Por volta de 1736, o “Chevalier” Ramsay [2] teria realizado um discurso perante a Grande Loja Provincial da Inglaterra, afirmando, basicamente, que os Cruzados teriam criado a Maçonaria. Segundo essa narrativa, aqueles nobres cavaleiros teriam descoberto, nos escombros das ruínas do Templo de Salomão, a doutrina e os ensinamentos maçónicos, incluindo cerimónias, ritos, rituais e manuais. Embora não tenha feito menção directa aos Cavaleiros Templários, o seu discurso exerceu significativa influência sobre o surgimento da tese de que a Maçonaria seria sucessora directa da Ordem do Templo de Salomão.

Esta idealização da origem da Maçonaria, que deixa de ser apresentada como decorrente de um ofício de pedreiros para ser associada a uma Ordem fundada por cavaleiros, contribuiu para conferir à instituição um carácter mais nobre e prestigioso, favorecendo o ingresso, nas suas fileiras, de membros da aristocracia, da realeza e até mesmo de príncipes.

A Tese da não origem Templária

Todavia, apesar do brilhantismo e do renome dos pesquisadores acima citados, as suas teses não encontram consenso no meio académico, como veremos adiante.

De facto, a tese da origem templária da Maçonaria, defendida por aqueles pesquisadores, não é amplamente aceita como historicamente comprovada, sobretudo pela ausência de provas inequívocas ou evidências documentais consistentes de que a Maçonaria contemporânea seja herdeira directa da Ordem dos Cavaleiros Templários.

Sobre o tema, Kennyo Ismail, na sua obra “Ordem sobre o Caos”, ao comentar um dos graus superiores considerado um “grau templário”, escreve:

Interessante observar que o grau ilustra o ingresso numa Ordem dos Templários pós-Jacques de Molay, seu último Grão-Mestre. Assim, trata-se de uma Ordem dos Templários clandestina, no sentido de funcionar ocultamente, e que supostamente teria dado origem á Maçonaria. Assim, coroa-se a teoria de Ramsay da origem templária da Maçonaria, que, apesar, de rechaçada pela escola autêntica e a maioria dos respeitáveis pesquisadores sobre o tema, gerou inúmeros graus nos mais diversos ritos, ultrapassando os limites alegóricos e conquistando fieis defensores e propagadores entre os irmãos.

(ISMAIL, 2020, p.239).

Em sentido semelhante, William Almeida de Carvalho (2020), ao analisar a influência do discurso de Ramsay e o seu impacto, especialmente sobre a incipiente Maçonaria do século XVIII, escreve que: “Desse modo, os maçons estavam instados a reclamar a natureza cavaleiresca da sua Ordem e a sua conexão com os Templários. E aí o mito começa a ser inflado até os dias de hoje” (CARVALHO, 2020, p. 224-225).

Um dos defensores da improbabilidade da tese dos Templários, o já citado Jones, assevera que:

Entre 13 de Outubro de 1307 e 18 de Março de 1314, os templários foram totalmente esfacelados […]. Apesar dos mitos fantasiosos acerca da sua sobrevivência como sociedade secreta, na terceira década do século XIV a ordem não mais existia em nenhum sentido significativo

(JONES, 2021, p. 399)

Neste contexto, cabe destacar, ainda, que muito dessa influência ou inspiração templária pode ter se originado de uma possível ligação entre a Ordem dos Templários e as guildas de construtores da Idade Média, cujos membros provavelmente acompanhavam os Cavaleiros Templários e teriam actuado na construção dos seus castelos, fortalezas, pontes e catedrais.

Além disso, segundo os autores defensores da tese templária, aqueles Pobres Cavaleiros de Cristo teriam chegado à Escócia em 1314, ao passo que a Maçonaria moderna, ou especulativa, viria a surgir oficialmente somente em 1717. Há, portanto, um hiato de aproximadamente quatrocentos anos entre os dois acontecimentos. Diante disso, algumas questões se impõem: qual seria a razão de um intervalo temporal tão significativo? Por que a Maçonaria moderna teria surgido apenas séculos depois? E o que teria ocorrido com aqueles Templários supostamente “infiltrados” nas guildas escocesas de pedreiros durante todo aquele período?

Desta forma, para os que refutam a tese templária acerca do surgimento da Maçonaria especulativa, além da ausência de documentos oficiais, faltariam fundamentos históricos consistentes capazes de comprová-la, de modo que tais formulações permaneceriam mais próximas do campo das hipóteses especulativas do que de uma continuidade histórica documentalmente demonstrada. Para estes autores, seria até possível admitir que os Templários tenham exercido alguma influência doutrinária sobre as guildas de construtores, inclusive na formação dos seus estatutos e ritos [3]; contudo, essa influência talvez tenha se limitado a esse âmbito, sem que disso decorra necessariamente uma relação de continuidade entre a Ordem Templária e a Maçonaria.

Considerações Finais

Ao longo deste estudo, procurou-se compreender a correlação entre a Ordem dos Cavaleiros Templários e a Maçonaria, a partir da análise de fontes e argumentos capazes de demonstrar a existência, ou não, de evidências documentais seguras e suficientes para afirmar que a Maçonaria contemporânea seja uma continuação ou herdeira directa da Ordem dos Templários.

Além disso, argumentos como o intervalo de vários séculos entre a extinção da Ordem dos Templários e o surgimento da Maçonaria especulativa constituem um relevante obstáculo à tese de uma sucessão institucional directa.

Contudo, isso não elimina a influência da tradição templária sobre a Maçonaria. A sua presença em graus, ritos e elementos simbólicos de carácter cavaleiresco revela uma dimensão significativa. Com efeito, é possível identificar, na Maçonaria como um todo, e não apenas nos seus graus superiores, uma inspiração nas Ordens de Cavalaria e nos valores a elas associados, como honra, lealdade, justiça, companheirismo etc. Assim, a chamada origem templária deve ser compreendida mais como uma tradição e influência simbólica do que como uma continuidade histórica comprovada.

Bruno César Miranda

Bruno César Miranda é advogado, Mestre Maçom na Loja Estrela do Ivituruy, nº: 351 do oriente de Serro/MG, filiada á GLMMG e membro da Loja de Perfeição Mestre Hiram no oriente de Curvelo, onde cursa o 14º grau do REAA. Pós-graduando no curso Maçonologia: História e filosofia da faculdade Uninter. E-mail:brcesarm@yahoo.com.br.

Notas

[1] Durante os interrogatórios dos Templários, alguns cavaleiros, muitos deles submetidos à tortura, “confessaram” venerar um suposto ídolo chamado “Baphomet“. O nome foi interpretado pelos acusadores como uma corruptela do nome “Maomé” (Mahomet em francês medieval), um aparente erro de tradução, que associava os Templários ao Islã. Isso reforçava a ideia de heresia, já que, na época, o Islã era visto como a principal religião rival do Cristianismo (Ismail, 2012). Séculos mais tarde, Léo Taxil (1854–1907), um escritor e jornalista francês, também associaria a figura de “Baphomet” à Maçonaria no contexto das suas conhecidas fraudes antimaçónicas, apresentando os maçons como adoradores daquela figura.

[2] Andrew Michel Ramsay era um nobre escocês que conquistou o título de Chevalier, tendo, inclusive, alcançado o cargo de tutor do Príncipe Charles Edward Stuart. Foi iniciado na Maçonaria em 1730, na Loja Horn de Westminster. (ISMAIL, 2020, p 20).

[3] O Rito de Heredom teria sido embasado em um rito templário e constituído um dos antecedentes do R.E.A.A. (ISMAIL, 2020).

Referências Bibliográficas

  • CARVALHO, William Almeida de. Ascensão e Queda da Maçonaria no Mundo. São Paulo: Madras, 2020.
  • DIAS, Ronaldo Bretas de Carvalho. Prelecções em Maçonaria. São Paulo: D’Plácido, 2020.
  • ISMAIL, Kennyo. Ordem Sobre o Caos. Brasília: Ed No Esquadro, 2021.
  • JONES, Dan. Templários: Ascensão e queda dos guerreiros de deus. São Paulo: Planeta, 2021.
  • KNIGHT, Christopher; LOMAS, Robert. A Chave de Hiram: Faraós, Maçons e a Descoberta dos Pergaminhos Secretos de Jesus. Tradução e notas José Rodrigues Trindade- São Paulo: Landmark, 2002.
  • LOMAS, Robert. Os segredos da maçonaria. São Paulo: Madras, 2018.

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