A influência da religião anglicana na Maçonaria inglesa

A Grande Loja Unida de Inglaterra é o corpo organizativo da maioria dos mebros da Maçonaria em Inglaterra e no País de Gales com lojas ainda em pontos importantes do ex-Império Britânico e nos países da Commonwealth.
A Obediência reivindica ser a mais antiga Grande Loja do mundo por descender da primeira Grande Loja formada em Londres em 1717.
Antes de 1717, havia lojas em Inglaterra, Escócia e Irlanda que agrupavam o que é habitual designar-se por maçons operativos e cuja métier era construir edifícios em pedra: catedrais, palácios, templos. A maioria das construções existentes na época eram em madeira e os incêndios eram frequentes.
A construção de edifícios em pedra obedecia a certas regras da arte que eram guardadas – como segredos – pelos maçons que as construíam. Estes tinham regulamentos, normas de conduta e uma estrutura laboral formada por aprendizes e companheiros e eram dirigidos por um Mestre da Obra, que funcionava como supervisor, arquitecto e director de obra.
Como ‘mestres da arte’ os maçons eram muito requisitados pelas monarquias europeias e viajavam de forma mais ou menos livre de estaleiro de obra para estaleiro de obra. Não existia forma de perpetuarem os seus trabalhos; os edifícios que construíam eram a prova da sua arte e perícia; as inovações morriam com eles;
Eram maçons “livres” porque ao contrário dos outros trabalhadores feudais não eram propriedade do senhor feudal, do bispo, do Rei, quer dizer não estavam “agarrados” à terra. Porque viajavam pelas cidades das Ilhas Britânicas e do continente europeu tinham formas especiais de reconhecimento. Essas formas não chegaram aos nossos dias embora se acredite que a Grande Loja de Londres tenha captado muitos deles nos seus rituais.
Em 24 de Junho de 1717, três Lojas londrinas e uma loja de Westminster organizaram um jantar na taberna Ganso e Grelha junto à Igreja de St. Paul, em Londres. Nessa reunião elegeram Anthony Sayer – um cavalheiro – como seu Grão-Mestre e passaram a designar-se por Grande Loja de Londres e Westminster.
Pouco se sabe das razões que levaram estas quatro lojas a federarem-se numa grande loja. Alguns autores referem o facto de as lojas terem tido necessidade de admitirem membros da “gentry” para poderem crescer e sobreviver e daí o crescimento impôs um tipo de organização mais estruturada;
Em 1718 Sayer seria rendido por George Payne e mais tarde por John Teophilus Desaguiliers, cientista e clérigo. Desaguiliers era filho de um pastor huguenote francês exilado em Inglaterra. Estudaria em Christ Church em Oxford e obteria o grau de mestre em Direito em 1712. Em 1710, havia sido ordenado como diácono da Igreja de Inglaterra sendo elevado mais tarde a padre.
Esta ‘regularização’ de clérigos oriundos de outras confissões religiosas multiplicar-se- ia nas décadas seguintes uma vez que o acesso às estruturas administrativas da monarquia e aos conselhos de cidade eram reservados aos que seguiam a religião oficial de Inglaterra.
Desaguilliers era membro da Loja nº 4 “Rum e Uvas” uma das quatro que participara no processo de criação da Grande Loja e era também um destacado membro da Royal Society, sociedade reservada a que pertenceram também Robert Boyle, Robert Moray, William Petty e Christopher Wren, todos eles maçons
Em 1721 a Grande Loja conseguiria ganhar a participação de um nobre, o Duque de Montagu que viria a ser o seu novo Grão-Mestre. John Montagu era membro do Colégio Real dos Médicos e fora ordenado Cavaleiro da Ordem de Garter, a mais prestigiada Ordem de Cavalaria fundada por Eduardo III em 1348. Era também membro da Royal Society.
Sob o comando de Montagu a Grande Loja consolidou a sua estrutura e começou a reunir numa base regular, filiando lojas fora de Londres e conferindo cartas-patentes a lojas que lhe requeriam admissão.
A redacção da Constituição de Anderson
Em 1723, o Grão-Mestre constituiu uma comissão interna para redigir os regulamentos internos da fraternidade encarregando um pastor protestante James Anderson de o fazer tomando como base de partido as antigas “regras” dos maçons operativos. Esse normativo publicado pela primeira vez em 1723 tomou o nome das Constituições de Anderson.
Quem era Anderson? Era um pastor presbiteriano nascido na Escócia em Aberdeen em 1679. Emigrara para Londres onde era o pároco da Igreja Presbiteriana de Swallow St até 1734 e da de Lisle Street Chapel até à sua morte em 1739. Porque é que um pastor presbiteriano, concorrente da Igreja Anglicana foi encarregue de redigir a constituição dos franco-maçons? Os autores dividem-se quanto a isso. Alguns dizem que Anderson era um homem de confiança de Desaguillers, outros que Anderson daria apenas o nome a um trabalho que foi colectivo. O que é certo é que a sua proposta seria objecto de várias correcções da parte da comissão designada pelo Grão-Mestre. Aliás no frontispício das Constituições, Anderson aparece numa posição relativamente secundária, atrás do Grão-Mestre.
As Constituições tiveram uma segunda edição revista em 1734 em que Anderson já não participou e constituem a base da Constituição da Grande Loja Unida de Inglaterra, ainda hoje.
Nos primeiros anos de funcionamento da Grande Loja de Londres um número significativo de lojas não aceitou filiar-se na organização. Eram designados por “Velhos Maçons”, “Maçons de S. João” ou “Lojas de S. João”. Ao mesmo tempo haviam sido criadas duas grandes lojas nas Ilhas Britânicas: a Grande Loja da Escócia [1736] e a Grande Loja da Irlanda [1725].
Durante as décadas de 1730 e 1740 gerou-se antipatia entre a Grande Loja de Londres e as lojas da Escócia e da Irlanda, por a Grande Loja de Londres se ter “desviado” das antigas práticas rituais da Fraternidade. Por essa razão, os contestatários fundaram em 17 de Julho de 1751 a “Grande Loja de Inglaterra em conformidade com as Antigas Instituições”. Participaram na sua criação cinco lojas e a fundação teve lugar na Taberna da Cabeça do Turco na Greek St, no Soho, em Londres;
O seu primeiro Grão-Mestre foi Robert Turner, seguindo-se William Stewart, Earl de Blissington e Thomas Erskine, Earl of Kerlie;
A nova Grande Loja considerava praticar uma forma mais antiga e mais pura de maçonaria e passou a chamar-se a Grande Loja dos Antigos. Referiam-se aos outros maçons, de forma depreciativa, como os “Modernos”.
À criação destas duas grandes lojas seguiu-se a criação de lojas nos mais distantes entrepostos do Império Britânico, nas Américas, na Índia e em África, a partir da década de 1730.
Cisão da Maçonaria em duas Grandes Lojas
A separação da Maçonaria em duas grandes lojas causava desconforto na aristocracia inglesa. Depois de 80 anos de separação a Grande Loja dos Modernos constituiu uma Loja de Promulgação com o objectivo de harmonizar as suas práticas rituais com os “Antigos” e as maçonarias escocesa e irlandesa.
Entre 1811 e 1813 representantes das duas grandes lojas inglesas negociaram os termos da reunificação. Em Janeiro de 1813, o Duque de Sussex tornou-se o Grão- Mestre dos Modernos e o Duque de Kent o Grão-Mestre dos Antigos. Em 27 de Dezembro de 1813, foi constituída no Maçons’ Hall, em Londres, a Grande Loja Unida de Inglaterra com o Duque de Sussex (filho mais novo do rei Jorge III) como Grão- Mestre. Foi formada uma Loja de Reconciliação para conciliar os rituais praticados pelas duas antigas Grandes Lojas.
A GLUI tem cerca de 200 000 membros espalhados por 7000 Lojas (fonte: www.ugle.org.uk). as lojas estão organizadas em 47 Grande Lojas Provinciais dirigidas por um Grão-Mestre Provincial. As lojas fora do território britânico estão agrupadas em Grandes Lojas Distritais dirigidas por um Grão-Mestre Distrital.
A GLUI tem grandes lojas provinciais no Chipre, em Gibraltar, em Malta, em Portugal, na India (Bengala, Bombaim, Madras, Norte da India) Hong Kong, Sri Lanka, Paquistão, em África (Nigéria, Gana, Namíbia, Zâmbia, África do Sul), nas Bahamas e Ilhas do Pacífico, na Austrália , Nova Zelândia e Papua Nova Guiné e também na América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai).
A Grande Loja é dirigida, pelo Duque de Kent, tendo sido eleito em 1967 é o Grão-Mestre que mais tempo serviu na história da UGLE. A posição do Grão-Mestre é sobretudo cerimonial pois quem dirige a Fraternidade no dia-a-dia é o Pro-Grão-Mestre, Jonathan Spence, coadjuvado pelos assistentes David Medlock, Steven Varley e John Paul Thomson.
O anglicanismo como fundamento teológico da Monarquia
O anglicanismo refere-se às denominações cristãs que seguem as tradições da estabelecida pela Igreja de Inglaterra. A Igreja Anglicana separou-se da Igreja Romana no seculo XVI devido a conflitos eclesiásticos e políticos em relação a um pedido do Rei Henrique VIII para se divorciar de Catarina de Aragão.
As raízes do anglicanismo residem no cristianismo celta, dos antigos bretões e da Igreja Católica introduzida em Inglaterra, por Augusto de Canteburry, nos séculos V e VI. De 1536 a 1539, Henrique VIII renunciou à jurisdição do Papa em Inglaterra e impulsionou a criação de uma Igreja Nacional com uma base doutrinal calvinista.
A doutrina teológica consta dos 39 Artigos da Religião [1]. A Igreja Anglicana manteve muitos elementos do catolicismo, mas foi influenciada mais tarde pelos reformistas protestantes.
No mundo existem 70 milhões de seguidores do anglicanismo. A Igreja Anglicana inclui 30 Igrejas autónomas no mundo inteiro que formam a Comunhão Anglicana. É uma religião católica, na forma como ordena os seus ministros e segue uma liturgia reformada, estabelecido no Livro de Oração Comum [2], o qual é seguido por quase todas as congregações anglicanas.
A estrutura organizacional foi fixada pelo Sínodo de Hertford (672-673). Desde o Estabelecimento Religioso de Elisabete I, a Igreja Anglicana reivindica-se de uma herança “católica” e “protestante” com o monarca britânico como seu “governador”. O monarca “chefia” a Igreja Nacional, mas não tem um papel constitucional sobre as Igrejas anglicanas espalhadas pelo mundo. Sob a Rainha Elisabete I, a Igreja de Inglaterra foi estabelecida como uma “Igreja Católica Reformada” aceitando a teologia calvinista e evangélica. Isso manteve-se sob o actual soberano, o Rei Carlos III.
A elaboração doutrinária do carácter distintivo do anglicanismo foi iniciada por Thomas Cranmer, arcebispo da Cantuária [com Henrique VIII] e continuada pelos teólogos Richard Hooker e Lancelot Andrewes. Cranmer e outros líderes da Igreja Anglicana foram ordenados por bispos anteriores pelo que se considera que mantêm a legitimidade histórica apostólica.
No protestantismo vigora o princípio de que todas as coisas devem ser provadas pelas Escrituras. A Igreja Anglicana observa a Bíblia, os três Credos (Niceia, Apóstolos e Atanásia), os 33 Artigos da Religião e o Livro da Oração Comum como as principais normas da doutrina;
Desde Elizabete I, o título do chefe da Igreja é “Governador Supremo”. Significa que o monarca deve assegurar-se que a gestão da Igreja corre bem e que novos bispos sejam ordenados quando necessário. O Arcebispo de Cantuária tem precedência sobre os outros arcebispos que formam a Comunhão Anglicana. Ele é um primum inter pares e não o “chefe” da Igreja. Não exerce autoridade sobre as províncias fora de Inglaterra.
Não há no anglicanismo uma estrutura central de uniformização da fé ou da liturgia. Nalgumas Igrejas provinciais é permitida a ordenação de mulheres [como diáconos e padres, mas não como bispos] noutras não.
Reflexos do Anglicanismo nos princípios maçónicos
O Livro da Lei Sagrada, em regra a Bíblia, está sempre presente em Loja e é sobre ele que se tomam os juramentos. São admitidos membros de diferentes religiões mas unidos na invocação de um Grande Arquitecto do Universo, designação dada à divindade mas que cada Maçom interpreta de acordo com a sua filiação religiosa.
Não são permitidas discussões religiosas ou políticas – os rituais são a base comum do rito seguido por todos [como o Livro da Oração Comum o é para todos os anglicanos]. Existem, no entanto, diferenças como os rituais são praticados nas várias províncias nos seus ‘working’ a designação inglesa para o trabalho em sessão.
A estrutura da Grande Loja segue no essencial o modelo de funcionamento da Igreja Anglicana. Da mesma forma que o
Rei é o ‘soberano’ da Igreja Anglicana e o Arcebispo da Cantuária é o governador da igreja, o Duque de Kent é o Grão-Mestre mas é o Pró-Grão Mestre que dirige a Obediência no dia a dia. Em termos similares da mesma forma que a Comunhão Anglicana é formada por 30 igrejas autónomas também a Grande Loja é composta por Grande Lojas Provinciais dirigidas por um Grão-Mestre Provincial que dirige as lojas na sua dependência com ampla autonomia.
Por sua vez a regularidade maçónica é a expressão, no campo da maçonaria inglesa, da fidelidade aos princípios informadores da religião anglicana, em termos de crença monoteísta e da centralidade de uma religião reconhecida e nacional. Isso expressa-se nas regras de reconhecimento das Obediências estrangeiras e na adequabilidade das suas regras constitutivas aos Landmarks pelos quais a Grande Loja Unida de Inglaterra se rege. O que se reflecte, por exemplo, nas regras de uma Obediência por país, da submissão à autoridade e governo de um Grão-Mestre, à crença monoteísta e da vida para além da morte e a presença do Livro da Lei como parte indispensável no ‘mobiliário’ de todas as lojas [3].
A Fraternidade tem por objectivo a evolução moral e ética dos seus membros e a prática da solidariedade para com os necessitados [como a Igreja tem por objectivo incentivar a prática das “boas obras”]. A Maçonaria Inglesa está associada a várias obras sociais e acções filantrópicas como a Igreja Anglicana o faz através das suas paróquias. Sendo a Maçonaria uma organização social e filantrópica legal é consentido que pastores da Igreja Anglicana sejam Maçons.
Arnaldo Gonçalves, Mestre Maçom
Notas
[1] Ver http://www.springsiac.org/thirty-nine-articles.
[2] Ver https://www.churchofengland.org/prayer-and-worship/worship-texts-and-resources/book-common-prayer
[3] Cfr. https://www.ugle.org.uk/images/files/Book of Constitutions – Craft Rules Sept 2017.pdf
