Freemason

Você leu a prancha ou só o resumo dela?

✍️ Desconhecido 📅 03/10/2026 👁️ 19 Leituras

três grandes luzes, prancha

“Não é por acaso que os trabalhos maçónicos se chamam pranchas. A prancha de traçar é onde o Mestre desenha os planos para que os obreiros possam construir”.

Vivemos a era do atalho. Tudo cabe em tópicos. Tudo pode ser condensado, embalado, despachado. O livro vira resenha, a resenha vira post, o post vira meme. E o meme, por fim, vira verdade. Simples assim. Ou melhor: simplificado assim.

Em recente coluna no Conjur (STRECK, 2026), Lenio Streck lançou duas perguntas que incomodam mais do que parecem: escrevemos para quê? E para quem? A provocação nasceu no mundo jurídico, mas não respeita fronteiras. Atravessa as universidades, as redacções, os tribunais. E atravessa, também, a porta do Templo. Convém, portanto, levá-la para dentro.

A tentação do resumo é compreensível. O volume de informação cresceu, o tempo encolheu, e o resumo apresenta-se como a solução elegante para as duas coisas. Não se trata de demonizá-lo. Quem resume um texto depois de lê-lo com atenção faz trabalho de gente séria. Precisou compreender o argumento, separar o essencial do acessório, reescrever com as próprias palavras. O bom resumo é fruto de leitura. Revela um leitor que trabalhou.

O problema começa depois. Explica-se. O resumo serve plenamente a quem o fez, porque este percorreu o caminho e guarda na memória tudo o que ficou de fora. Para quem não leu, os mesmos tópicos são outra coisa: conclusões sem as razões que as sustentam. As palavras são idênticas. O conteúdo, não. Os tópicos dizem onde o texto chegou; o texto diz como e por que chegou ali. E uma conclusão arrancada do caminho que a produziu deixa de ser conhecimento. Vira opinião. Quando não, dogma.

A hermenêutica sabe disso há muito tempo. Gadamer mostrou, em Verdade e Método, que compreender um texto é compreender a pergunta à qual ele responde (GADAMER, 1997, p. 544-545). Sem a pergunta, a resposta fica solta no ar, disponível para qualquer uso. Pois é exactamente isso que o resumo entrega a quem não leu: respostas órfãs das suas perguntas.

A compreensão se move em círculo, do todo às partes e das partes ao todo (GADAMER, 1997, p. 400-406). Cada frase ganha sentido pelo conjunto, e o conjunto só se revela frase a frase. O resumo oferece partes sem o todo que lhes dá sentido. Fragmentos que parecem dizer muito e, desligados, dizem pouco. Ou dizem qualquer coisa. E, como Lenio não se cansa de repetir, não se pode dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa.

Dirão: isso vale para as humanidades, esse território de gente que gosta de falar demais. Pois vale sobretudo para as exactas. Nenhum matemático aceita que se pule a equação para ir directo ao resultado. Nenhum. Quem salta as etapas não sabe onde errou, não sabe quando o resultado deixa de valer, não sabe aplicá-lo a um problema novo. Na matemática, resultado sem demonstração não é conhecimento. É palpite com boa aparência.

E aqui a tradição maçónica tem algo a ensinar, se houver quem queira aprender.

O frontispício das Constituições de Anderson, de 1723, património comum de toda a Maçonaria regular, traz a 47ª proposição do primeiro livro de Euclides, o teorema que a tradição associa a Pitágoras. E o que se estampa ali? A fórmula que qualquer estudante recita? Não. Estampa-se a figura: o triângulo e os quadrados erguidos sobre os seus lados, acompanhados de uma palavra grega, eureka. Encontrei. O desenho da demonstração, e não o resultado. A Ordem, desde o documento que a funda na sua forma moderna, não celebra a resposta pronta. Celebra o caminho que leva até ela e a alegria de percorrê-lo.

O Direito conhece o fenómeno de perto. A ementa de um acórdão é indispensável: orienta, situa, anuncia. Mas o jurista que invoca a ementa sem ter lido o voto não está citando uma decisão. Está citando a porta de um edifício onde jamais entrou. E quem mora na porta mora ao relento.

Há, ainda, uma chave que costuma passar despercebida: a hospitalidade. Ler é hospedar. Receber um texto é abrir a casa a um estrangeiro que chega com a sua língua, os seus hábitos, as suas exigências. A hospitalidade verdadeira não exige do hóspede que se apresente em dez linhas. Dá-lhe tempo. Lugar à mesa. A chance de dizer quem é. Só assim os horizontes se fundem, o do texto e o do leitor (GADAMER, 1997, p. 457).

Quando o resumo pretende substituir a obra, porém, passa a operar como um visto de entrada: só atravessa a fronteira da atenção a ideia que cabe no formulário. As outras, as que precisam de digressão, de nuance, de contexto, ficam retidas no posto de controle. Eis o apartheid documental aplicado ao pensamento. Ideias de primeira classe, que circulam porque são curtas. Ideias sem passaporte, que não circulam porque são densas. E, como em toda triagem de fronteira, o critério deixa de ser o valor de quem chega. Passa a ser a conformidade com o carimbo.

Ora, se existe uma instituição vocacionada a resistir a essa lógica, é a Maçonaria. Em qualquer rito, em qualquer obediência, em qualquer Oriente, a Ordem é uma pedagogia da demora. A pedra bruta não se desbasta com a descrição de como se desbasta uma pedra. Os interstícios entre os graus não são burocracia; são método, porque certas coisas só se compreendem depois de vividas por tempo suficiente.

A aprendizagem começa pela escuta, antes da fala, e pela compreensão, antes da opinião. E o ritual se repete, sessão após sessão, com as mesmas palavras e a mesma cadência, precisamente porque o símbolo não se entrega na primeira leitura. Exige retorno. Exige paciência. Exige aquilo que o nosso tempo mais despreza: a espera.

Façamos um teste simples. Alguém aceitaria substituir a iniciação por dez tópicos descrevendo o que acontece nela? Ninguém. Todo Maçom sabe que a descrição de uma iniciação não é uma iniciação. Pois bem: o estudo, a instrução e a reflexão são a continuação da iniciação por outros meios. Por que, então, aceitar que sejam reduzidos àquilo que jamais se aceitaria para ela?

Hegel afirmou que a coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer. A sabedoria chega tarde, depois que o dia foi vivido. Quem exige a coruja ao meio-dia terá, no máximo, um pombo.

E o que se vê quando o atalho vira regra? Basta abrir os grupos de mensagens. Frases atribuídas a maçons ilustres que jamais as pronunciaram. Vídeos de trinta segundos revelando “segredos” de altos graus. Lendas repassadas como história, enquanto a história documentada é tratada como erudição inútil. Discute-se landmark com a convicção de um tratadista, sem que as Constituições de Anderson tenham sido sequer folheadas.

A isso cabe um nome, já amplamente divulgado nos últimos anos, com a licença do neologismo: nescionaria. A Maçonaria que conserva as palavras e perde o sentido. Que mantém as formas e esvazia a substância. Que repete o ritual sem compreendê-lo e confunde o resumo com o estudo. E não se trate isso como problema local. É global, porque global é o ecossistema que o alimenta.

O mais grave, porém, não é a ignorância. Esta sempre existiu, e a Fraternidade Maçónica nasceu justamente para enfrentá-la. O mais grave é a ignorância satisfeita. Aquela que já não sente falta do que não sabe. A pedra bruta convencida de que já é cúbica. E quem pensa ter chegado para de caminhar.

Lessing, dramaturgo, filósofo e Maçom, autor dos diálogos entre Ernst e Falk sobre a Maçonaria, deixou uma imagem que diz tudo. Se Deus lhe oferecesse na mão direita toda a verdade e, na esquerda, apenas o impulso sempre vivo de buscá-la, ainda que com o risco de errar para sempre, escolheria a esquerda. Porque a verdade pura pertence somente a Deus.

O resumo, tomado como substituto, oferece a mão direita: a verdade pronta, embalada, portátil. Oferta enganosa, diga-se, porque nenhum resumo contém a verdade, apenas a sua silhueta. Mas, ainda que a contivesse, a vocação do Maçom estaria na mão esquerda. Na busca. No trabalho. No maço e no cinzel, e não na estátua comprada pronta.

Por que escrever, então, se o texto longo se tornou suspeito e o leitor paciente, espécie em extinção? Porque escrever não é despachar conclusões. É o próprio trabalho de chegar a elas. Quem escreve descobre, no meio do caminho, que a ideia inicial era mais frágil do que parecia, que havia uma objecção não enfrentada, que a conclusão precisava ser outra. A escrita é o lugar onde o pensamento se põe à prova. Escrever é desbastar a própria pedra. E essa tarefa ninguém pode fazer por outro.

Não é por acaso que os trabalhos maçónicos se chamam pranchas. A prancha de traçar é onde o Mestre desenha os planos para que os obreiros possam construir. Nenhuma Loja maçónica foi erguida a partir do resumo de uma planta. As medidas, os ângulos, as proporções, tudo aquilo que o resumo descarta como detalhe, é exactamente o que impede o edifício de ruir.

Resumir é bom trabalho de leitor. Escrever é trabalho de obreiro. A Ordem precisa de ambos. O que não pode é permitir que o primeiro ocupe o lugar do segundo. Por isso este texto não termina com os dez pontos principais. Termina com um convite:

que cada irmão, em vez de apenas condensar o que outros escreveram, tome a sua própria prancha e trace nela o seu caminho. Com todas as etapas da demonstração. Eis a reflexão!

Rui Badaró, V.M. da A.R.L.P.M. Quatuor Coronati São Paulo nº 333, GLESP.

Referências

  • GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1997.
  • STRECK, Lenio Luiz. Escrevemos para quê? E para quem? Consultor Jurídico, São Paulo, 23 jul. 2026. Coluna Senso Incomum. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-jul-23/escrevemos-para-que-e-para-quem/. Acesso em: 25 Set. 2026.

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