Freemason

Uma aproximação do Zoroastrismo

✍️ Desconhecido 📅 23/10/2024 👁️ 6 Leituras

Zoroastrismo

A Maçonaria é permeada de tradições e símbolos que ecoam pela busca incessante pelo conhecimento e pela luz, e, assim, repleta de conhecimentos que remetem a mitologia persa. Existem poucas fontes que aproximem o estudioso da compreensão do zoroastrismo e do Mitraísmo. Neste sentido, o texto se propõe a servir de primeiro contacto com esse vasto universo, que nos intriga pela riqueza e complexidade das histórias.

Imaginemos um cenário onde o universo não é apenas palco de eventos visíveis, mas um teatro cósmico, onde forças invisíveis duelam, moldando o destino do mundo. É exactamente assim que a mitologia persa nos convida a reflectir sobre a realidade: um lugar onde luz e trevas travam batalhas eternas, personificadas em deuses, demónios e heróis que representam muito mais que simples personagens de lendas antigas. Nesta luta, o propósito maior é o equilíbrio, a busca pelo autoconhecimento e pela harmonia, temas profundamente ressonantes com os princípios da Maçonaria.

A antiga Pérsia, coração do actual Irão, era o lar dessas lendas que se entrelaçam com o Zoroastrismo ou masdaísmo, masdeísmo/mazdeísmo ou parsiano, uma das primeiras religiões monoteístas. O Avesta é o texto sagrado do zoroastrismo, religião fundada por Zaratustra (ou Zoroastro), e é considerado um dos livros religiosos mais antigos. Embora o zoroastrismo e a religião védica dos brâmanes compartilhem algumas raízes culturais, são tradições religiosas distintas. O zoroastrismo desenvolveu-se na antiga Pérsia, enquanto os textos védicos e o hinduísmo são originários da Índia. Os Vedas, que são os textos sagrados mais antigos do hinduísmo e da religião bramânica, são independentes do Avesta, apesar de ambos os sistemas religiosos terem influências arianas comuns na sua origem [BOYCE, 2001].

Zaratustra, também conhecido na versão grega de seu nome Zoroastres ou Zoroastro (Ζωροάστρης Zōroastrēs)
Zaratustra, também conhecido na versão grega de seu nome Zoroastres ou Zoroastro (Ζωροάστρης Zōroastrēs)

Zaratustra foi um profeta que viveu provavelmente entre 1500 e 1000 a.C. (as datas exactas são debatidas). Ele nasceu na região que corresponde ao actual Irão ou Ásia Central, e foi um reformador religioso que se opôs aos rituais antigos e ao politeísmo prevalente na sua época. A Ssua principal contribuição foi pregar o monoteísmo, centrado no culto a Ahura Mazda, o deus supremo, e uma ênfase na moralidade pessoal baseada no livre-arbítrio. [GATHA, s.d.].

Também é visto como um profeta que recebeu visões de Ahura Mazda, e os seus discípulos e seguidores ajudaram a preservar os seus ensinamentos, tanto oralmente quanto por escrito, posteriormente compilados no Avesta durante o período do Império Sassânida, por volta do século IV d.C. [BOYCE, 1979].

Zaratustra não deixou escritos directamente, mas os seus ensinamentos estão preservados nas Gathas, que fazem parte do Yasna. A sua mensagem central é a luta pela verdade (asha) contra a mentira (druj), e ele encorajava os seres humanos a escolherem o bem através do seu livre-arbítrio. [MEHR, 2003].

São os seus principais ensinamentos:

  • Dualismo moral: Zaratustra introduziu o conceito de uma luta eterna entre o bem (Ahura Mazda) e o mal (Angra Mainyu), com os humanos desempenhando um papel crucial na escolha entre essas forças.
  • Livre-arbítrio: Os seres humanos devem escolher entre a verdade (asha) e a mentira (druj), e  assuas acções determinam o seu destino no julgamento final.
  • Ressurreição e Frashokereti: O zoroastrismo ensina que, no fim dos tempos, haverá um julgamento universal e a vitória final do bem, com a renovação do mundo (Frashokereti) e a ressurreição dos mortos.

O Avesta contém os ensinamentos e hinos litúrgicos da religião, assim como instruções sobre leis de pureza e rituais religiosos. Ele é dividido em várias partes, sendo as mais importantes:

  1. Yasna: A principal seção litúrgica do Avesta, que inclui os Gathas, hinos atribuídos directamente a Zaratustra. Estes hinos enfatizam o papel do ser humano no universo, o seu livre-arbítrio, e a luta entre o bem e o mal.
  2. Visperad: Uma colecção de orações complementares ao Yasna, usada em cerimónias específicas.
  3. Yashts: Hinos dedicados às divindades menores, chamadas Yazatas, que são emanações de Ahura Mazda (o deus supremo do zoroastrismo) e estão associadas a elementos naturais, como a água e o fogo.
  4. Vendidad: Um conjunto de leis e mitos, incluindo instruções sobre purificação e protecção contra espíritos malignos.

A narrativa zoroastriana começa com Ahura Mazda criando o universo perfeito, cheio de ordem e harmonia e ele é o governante da criação e o protector da ordem moral. Ahura Mazda (“Senhor da Sabedoria”) cria o mundo em sete etapas ou criações: o céu, a água, a terra, as plantas, os animais, os humanos, e por fim o fogo, que é sagrado no zoroastrismo. Mas, Angra Mainyu corrompeu essa criação com o mal, introduzindo caos, doenças e morte. Este acto de corrupção dá início ao conflito cósmico entre as forças do bem e do mal.

O objectivo final do zoroastrismo é o Frashokereti, o tempo no qual o bem triunfará sobre o mal, Angra Mainyu será destruído, e o universo será purificado e restaurado à sua forma original, perfeita e imortal. Isso será seguido pela ressurreição dos mortos, o julgamento final e a vida eterna para os justos. Todos os mortos serão ressuscitados e julgados com base nas suas escolhas morais. De acordo com essa crença, no final do conflito entre Ahura Mazda e Angra Mainyu, haverá um renascimento do mundo. O mal será derrotado para sempre, Angra Mainyu será destruído, e o universo será purificado.

Esta visão de restauração final se assemelha a algumas crenças escatológicas de outras religiões, como o Apocalipse no cristianismo, onde o mundo será julgado e renovado.

No zoroastrismo, além de Ahura Mazda, o deus supremo, há várias entidades divinas menores chamadas Amesha Spentas (Espíritos Santos ou Benéficos) e Yazatas. Estes seres menores não são “deuses” no sentido de divindades autónomas, mas são emanações ou aspectos da criação de Ahura Mazda, ajudando na manutenção do mundo e na luta contra as forças do mal, representadas por Angra Mainyu (Ahriman) e seus seguidores.

Os Amesha Spentas são as seis emanações mais elevadas de Ahura Mazda. Eles são aspectos da sua divindade e também actuam como guardião de diferentes partes da criação. Eles simbolizam qualidades espirituais e virtudes que os seguidores do zoroastrismo devem cultivar. Os Amesha Spentas são:

  1. Vohu Manah (Bom Pensamento): Responsável por guiar os humanos a tomar decisões correctas e justas.
  2. Asha Vahishta (Melhor Verdade ou Justiça Divina): Representa a verdade e a ordem cósmica.
  3. Spenta Armaiti (Devoção Santa): Relacionada à piedade e devoção, ela é também associada à Terra.
  4. Khshathra Vairya (Domínio Desejável): Simboliza a paz e o governo ideal.
  5. Haurvatat (Integridade ou Perfeição): Guardiã das águas e símbolo de saúde e perfeição.
  6. Ameretat (Imortalidade): Guardiã das plantas e símbolo da imortalidade espiritual.

Estes seis Amesha Spentas, junto com Ahura Mazda, constituem uma heptade divina que supervisiona e protege a criação de Ahura Mazda. Eles estão associados a elementos do mundo natural e representam virtudes morais que os zoroastrianos devem seguir.

Além dos Amesha Spentas, o zoroastrismo reverencia os Yazatas, que são seres espirituais criados por Ahura Mazda para ajudar a guiar a criação e manter a ordem contra as forças do caos e da destruição de Angra Mainyu. Alguns dos Yazatas mais conhecidos são:

  • Mithra (Mitra): Divindade associada à luz, ao juramento e aos contratos. Mithra protege o pacto entre homens e entre homens e Ahura Mazda.
  • Sraosha: Yazata da obediência e da disciplina, ele também é responsável por proteger a humanidade das influências do mal.
  • Anahita: Divindade associada à fertilidade e às águas, também relacionada à pureza.
  • Verethragna: Yazata da vitória e da guerra, frequentemente invocado em batalhas.

Estes seres são intermediários entre Ahura Mazda e a humanidade, ajudando a garantir a ordem cósmica e a manter o equilíbrio no universo.

Mitra, nesse contexto, era originalmente uma divindade menor que se tornou um intermediário entre Ahura Mazda e os seres humanos. Ele era o defensor da verdade e o garantidor dos contratos e juramentos, assegurando que as promessas feitas fossem cumpridas. O seu papel de “guardião dos contratos” simbolizava não apenas acordos humanos, mas também o equilíbrio cósmico e a ordem do universo. Isto reflecte o seu papel de justiça divina e mediador da ordem cósmica, onde a palavra dada tem um valor sagrado.

Há uma relação simbólica com o ciclo do dia e da noite no zoroastrismo, representando a eterna luta entre luz e escuridão, entre o bem e o mal. O Sol, especialmente ao meio-dia, é frequentemente associado à vitória da luz e da verdade (asha), enquanto a noite representa a escuridão e as forças de Angra Mainyu.

  1. Meio-Dia: No simbolismo zoroastriano, o meio-dia, quando o Sol está no seu ponto mais alto, simboliza o ápice da luz e a presença máxima de Ahura Mazda. É um momento de pureza, clareza e verdade.
  2. Meia-Noite: O oposto ocorre à meia-noite, que representa o domínio das trevas e das forças de Angra Mainyu. No entanto, o nascer do Sol sempre simboliza o retorno da ordem e da justiça, restaurando o equilíbrio.

O cerne da mitologia persa, portanto, é a representação simbólica do conflito entre Ahura Mazda, o deus da luz, e Angra Mainyu (ou Arimã), a entidade das trevas e da destruição. Ahura Mazda é o deus supremo, criador do universo, fonte de toda luz e sabedoria. Já Angra Mainiu é a escuridão, o caos, o princípio destrutivo.

O zoroastrismo é fortemente dualista, essa divisão entre luz e trevas, vida e morte, é a sua própria essência, mas também é o cerne de muitos rituais maçónicos, onde a aprendizagem muitas vezes passa pelo contraste entre ignorância e sabedoria, entre o caos e a ordem, entre a ignorância, o erro e a luz do conhecimento.

O zoroastrismo também apresenta um universo habitado por diferentes tipos de seres, além dos deuses e espíritos:

  1. Ahuras: Divindades benéficas que seguem Ahura Mazda.
  2. Daevas: Espíritos malignos que seguem Angra Mainyu. Eles representam as forças do mal, da mentira e do caos.
  3. Fravashis: Espíritos protectores que representam tanto os antepassados quanto os aspectos espirituais das pessoas ainda vivas. Eles ajudam a proteger a ordem no universo e combatem os Daevas.
  4. Ahriman (Angra Mainyu): O espírito maligno que corrompe e destrói, em oposição a Ahura Mazda.
  5. Humans (Seres Humanos): Têm o livre-arbítrio e desempenham um papel central no universo zoroastriano. Eles são chamados a escolher entre as forças do bem (asha) e do mal (druj).

Embora umbilicalmente interligados, não se pode confundir o zoroastrismo com o mitraísmo. O mitraísmo foi uma religião de mistérios que se desenvolveu no Império Romano (especialmente entre o século I e IV d.C.) e era influenciada pelas crenças persas de Mitra. O culto a Mitra, ou Mithras, foi particularmente popular entre os soldados romanos. No mitraísmo, Mitra é representado como um “herói solar”, o “Sol Invictus”, e associado à luta contra as forças das trevas.

O mitraísmo era eminentemente iniciático, com vários graus de progressão. Os seus rituais eram realizados em locais chamados mithraeums, cavernas ou salas escuras que representavam o cosmos. A cena central da mitologia mitríaca é o tauroctonia, onde Mitra sacrifica um touro, simbolizando a vitória da luz sobre as trevas e a fertilidade da terra. Este sacrifício estava conectado à renovação e ao poder cósmico, reflectindo a crença de que Mitra ordenava o cosmos e estabelecia o equilíbrio.

O dia de adoração a Mitra era o domingo, dia do Sol, o que reflecte a conexão com o culto solar. Muitos estudiosos acreditam que o mitraísmo compartilha similaridades com o cristianismo, especialmente no simbolismo da luta entre o bem e o mal, o nascimento em 25 de Dezembro (nascimento do Sol invictus), e o banquete ritualístico.

Enquanto o zoroastrismo era uma religião estabelecida, com textos sagrados e uma estrutura teológica, e o mitraísmo, que era mais um culto de mistérios, sem um conjunto de escrituras e com base em rituais secretos.

O Zoroastrismo e o Mitraísmo, duas tradições profundamente enraizadas na antiga Pérsia, oferecem mais do que uma simples compreensão do passado. Como destacado por Mary Boyce, renomada estudiosa do Zoroastrismo, “estudar essas religiões é entender as fundações da espiritualidade humana, onde o bem e o mal são forças tangíveis que moldam o destino do mundo” (Zoroastrians: Their Religious Beliefs and Practices).

Estas tradições, embora antigas, continuam a nos desafiar a reflectir sobre a dualidade da existência e a luta eterna que travamos dentro de nós mesmos. Elas são um convite para que, como Zaratustra e Mitra, sejamos heróis nas nossas próprias vidas, buscando sempre a luz e trabalhando incansavelmente para superar as trevas, não apenas do mundo externo, mas também das nossas próprias limitações e ignorância.

A importância de estudar e observar essas antigas tradições não está apenas em desvendar mitos ou rituais, mas em reconhecer que os temas universais presentes nessas narrativas continuam a ressoar na nossa busca por equilíbrio e harmonia. A moralidade, o livre-arbítrio, e a jornada em direcção à luz são valores que transcendem o tempo, mostrando-se relevantes nas discussões modernas sobre ética e espiritualidade.

À medida que continuamos a estudar o Zoroastrismo e o Mitraísmo, não apenas expandimos o nosso entendimento histórico, mas também encontramos reflexões profundas sobre o papel do ser humano no universo. A busca incessante pela verdade, como pregada por Zaratustra, e a simbologia da luz representada por Mitra, nos convidam a questionar as nossas próprias escolhas e acções num mundo que ainda luta entre a luz e a escuridão. Essas tradições são, portanto, não apenas relicários do passado, mas guardiãs de sabedoria atemporal, fundamentais para qualquer estudioso comprometido com a busca por autoconhecimento e compreensão espiritual.

Esta jornada de investigação é essencial para aqueles que buscam conectar o conhecimento ancestral e, especialmente para aqueles que vão enfrentar os graus filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito, além de servir de base para inspirar reflexões sobre a natureza humana e a relação com o cosmos.

Lucas do Couto Santana

Referências

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo