Freemason

Todos todos todos?

✍️ Desconhecido 📅 26/05/2026 👁️ 5 Leituras

maçonaria e igreja católica, todos todos todos

Sumula das dissensões entre a Igreja Católica e a Maçonaria.
Duas visões irreconciliáveis ou um diálogo ainda possível ?

Introdução

As relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria foram historicamente marcadas por desconfiança mútua, divergências filosóficas e distanciamento, quando não por uma oposição aberta.

A Igreja Católica é a expressão de uma religião baseada numa estrutura hierárquica e doutrinária bem definida, que se pode sintetizar na declaração “Extra ecclesiam nulla salus” (fora da Igreja não existe salvação) formulada no Concilio de Latrão de 1215.

O Catolicismo nasceu de uma evolução espiritual que partiu da tradição monoteísta judaica, com a adopção do conceito d’O Yahvé de Moisés e os ensinamentos dos profetas, sendo revolucionada pela predicação de Cristo, que lançou as bases de uma nova Lei Divina de que Ele é único intérprete, por mandado directo de D_us Seu pai. (MATEUS V). A sua consolidação foi realizada pelos Apóstolos, especialmente Paulo de Tarso que, ao ligar a filosofia dogmática da nova religião cristã com a filosofia greco-latina, tornou-a inteligível aos pagãos, facilitando assim a sua difusão.

A Maçonaria é uma “sistema de moralidade, velado por alegorias e ilustrado por símbolos” que se baseia nos valores do amor fraternal, na prática da caridade e na procura da verdade, promovendo a liberdade, a igualdade e a tolerância fraterna.

A Maçonaria dita especulativa surgiu a partir de uma evolução científico-racionalista associada ao Iluminismo, que se foi verificando no seio das lojas operativas ao longo do fim do século XVII e início do século XVIII. Este fenómeno iniciou com a “aceitação” nas lojas operativas dos construtores-pedreiros, de outros membros honorários que exerciam profissões totalmente diferentes tais como advogados, mercadores, médicos e eclesiásticos (J.A.BENIMELI 2005).

Estes foram progressivamente eclipsando os maçons operativos nas lojas até ai “mistas” dando origem a uma nova associação de “homens, livres e de bons costumes”, já não operativos, mas conservando escrupulosamente o espírito, organização e terminologia da anterior confraria mantendo os seus princípios, usos e tradições.

Desde os seus primórdios a Maçonaria nunca foi uma seita de ateus, como acreditam os Católicos mais preconceituosamente intolerantes, nem muito menos apenas uma associação de mutuo socorro como acreditam os profanos.

De acordo com a visão “deísta” das Old Charges o seu entendimento do Grande Arquitecto do Universo sendo absoluto, não escraviza os seus iniciados, pois deixa-os livres de escolher o D_us que melhor responde ás suas exigências espirituais. ( PONTEVIA 1977)

Estas duas “mundovisões” partilham valores essenciais, como a busca da  verdade, a promoção da caridade e o aperfeiçoamento moral. Poderiam assim ter sido um complemento da outra, formando em conjunto um complexo harmonioso para guiar a Humanidade para objetivos comuns mais elevados moral e espiritualmente, mas a História, como veremos, não quiz que assim fosse.

Apesar das diferenças, desconfianças e oposição, tem havido tentativas de diálogo e entendimento entre a Igreja Católica e a Maçonaria em alguns momentos da História.

A perspectiva de uma reconciliação completa entre estas duas instituições permanece desafiadora, mas a busca fundamental pelo diálogo e pela compreensão mútua ainda é incompleta e incipiente para poder promover o respeito e a paz entre ambos.

Uma longa Historia de uma divergência que dura há 300 anos

A Historia da Maçonaria latu sensu é certamente muito extensa e rica, nomeadamente no que concerne as suas origens medievais ou a sua existência prévia e funcionamento organizado na Escócia (D. STEVENSON 1990) mas para melhor enquadrar o tema vou restringir-me apenas ao período partir do surgimento da Maçonaria especulativa.

Após os tempos conturbados da Glorious Revolution, liderada pelo puritano Oliver Cromwell, onde se verificou uma violenta perseguição aos católicos e judeus, a Maçonaria dita especulativa, filosófica ou moderna, nasceu no dia 24 de Junho, dia de S. João Baptista, de 1717 em Londres sendo a sua criação realizada a partir da federação de quatro lojas que se reuniram numa assembleia conjunta na taberna (public house) Goose and Gridiron próxima da Catedral de St. Paul. Concordaram em designa-la Grand Lodge of London and Westminster e realizar quatro reuniões plenárias por ano e uma assembleia anual para eleição do Grão Mestre tendo sido eleito para esse cargo Anthony Sayer, Gentleman sobre o qual pouco se conhece de concreto. Foi sucedido no ano seguinte por George Payne e sucessivamente por John Theophilus Desaguliers, baptizado em La Rochelle como Jean Théophile Desagulier (de seu segundo nome de conotação claramente cristã).

De ascendência huguenote escapou com seus pais para Inglaterra onde após uma formação eminentemente científica em Oxford e doutoramento em Cambridge veio a tornar-se membro da Royal Society. Simultaneamente foi ordenado diácono e posteriormente pastor precisamente em 1717.

Desaguliers foi instrumental, com o pastor da igreja presbiteriana da Escócia James Anderson, na elaboração da “Constituição de Anderson” ou melhor dito “The Constitutions of Free-Mason. Containing the History, Charges, Regulations &c. of the Most Ancient and Right Worshipful Fraternity. For the Use of the Lodges” publicadas em Janeiro de 1723 em Londres.

No seu clausulado é claramente referido que:

“  Um Pedreiro é obrigado, pela sua condição, a obedecer à lei moral. E, se compreende correctamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Mas, embora, nos tempos antigos, os pedreiros fossem obrigados, em cada país, a ser da religião desse país ou nação, qualquer que ela fosse, julga-se agora mais adequado obrigá-los apenas àquela religião na qual todos os homens concordam, deixando a cada um as suas convicções próprias: isto é, a serem homens bons e leais ou homens honrados e honestos, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir. Por consequência, a Maçonaria converte-se no Centro de União e no meio de conciliar uma amizade verdadeira entre pessoas que poderiam permanecer sempre distanciadas. “

E ainda:

“ Portanto, não se tragam para dentro da porta da loja rancores nem questões e, menos ainda, disputas sobre religião, nações ou política do Estado. Somos apenas pedreiros, da religião universal atrás mencionada.”

Sendo estes princípios de crença num D_us e na imortalidade da alma imutáveis, a regularidade Massonica só é garantida pela aceitação indisputável dos mesmos, bem como das Old Charges e das restantes obrigações nela explicitadas.

O Século XVIII foi assim o século da “invenção da Maçonaria” mas como bem compreendemos, a Maçonaria não apareceu feita; foi-se fazendo … ao sabor dos estímulos ou travões que lhe vinham do processo histórico global ( G. & J.S. da SILVA DIAS 1986) .

Podemos constatar que o restante século XVIII viu uma progressiva expansão da Maçonaria a partir das ilhas britânicas para a Holanda a França, e em Italia e Espanha de modo mais lento, como na Suíça e na Austria.

A sua expansão em França esteve associada à presença da Corte do católico James II Stuart ( Jacobus em latim, donde o termo Jacobita ) refugiada em Saint-Germain-en-Laye junto da Corte francesa de Luis XV.

A primeira Loja de Paris é criada em 1725 com a designação de Saint Thomas nº 1 provavelmente em homenagem a Thomas Beckett, santo canonizado pela Igreja Católica em 1173. Esta Loja era constituída essencialmente por aristocratas ingleses católicos ( B. BOUCHARD 2013). A partir dessa data surgem em varias cidades francesas inúmeras Lojas ditas “escocesas”.

É neste contexto Jacobita que se destaca a figura de Andrew Michael Ramsay popularizado com o nome de “Chevalier Ramsay” por ter sido investido Cavaleiro da Ordem de San Lazaro pelo duque de Orleans, então Grão Mestre da Maçonaria Francesa. Sendo membro da Igreja Presbiteriana da Escócia sentiu uma atração pelo misticismo “quietista” levando-o a permanecer no círculo de Mme Guyon durante alguns anos. Sob a influência de Fenelon converteu-se ao Catolicismo. Iniciado possivelmente numa Loja Inglesa encontramo-lo como Grande Orador da Grande Loja de França em 1737, tendo proferido o célebre discurso em que define as qualidades necessárias para se pertencer à Maçonaria Francesa : filantropia, valores morais, secretismo e empatia pelas ciências e artes. ( A. RAMSAY 1737)

Assim no segundo quartel do século XVIII a Igreja Católica encontra-se confrontada com o crescimento da Maçonaria em toda a Europa, uma Ordem iniciática de origem Inglesa, Anglicana e anti-papista, mas também amplamente implantada em França numa elite de orientação claramente Católica, que cedo afirmou a sua independência (affecting independency) da United Grand Lodge of England como claramente referido na segunda edição da “Constituição de Anderson”  ( J. ANDERSON 1738 ).

Esta aparente contradição existente entre as facções anglicana versus católica poderia ter levado a “Corte de Roma“ a não tanto apoiar a facção Francesa da Maçonaria, mas pelo menos a não hostilizá-la abertamente como seria de esperar que fizesse em relação á Maçonaria Inglesa. Tanto mais que é sabido historicamente que nas Lojas de várias cidades europeias conviviam livremente católicos, protestantes, e clérigos de todas as ordens.

Contudo em 1738, o Papa Clemente XII emitiu a primeira condenação formal da Maçonaria com a Carta Apostólica “In Eminenti Apostolatus Specula “ condenando con pena de excomunhão todos os católicos que a ela aderissem.

Nessa bula papal é expressamente decidido:

“condenar e proibir (…) os centros, reuniões, grupos, agremiações ou conventículos de Liberi Muratori ou Franc-Massons.”

Ordena a todos os fiéis, leigos ou clérigos, seculares ou regulares, que “se abstivessem completamente dessas associações ou assembleias, sob pena de excomunhão”.

Também ordenou “aos bispos, prelados, superiores e ao clero ordinário, bem como aos inquisidores ” que procedessem “ contra os transgressores de qualquer grau, condição, ordem, dignidade ou preeminência; e que trabalhassem para redimi-los e puni-los com as penas que merecem como pessoas veementemente suspeitas de heresia. Para tanto, damos a cada um deles o poder de persegui-los e puni-los segundo as formas da lei, recorrendo, se necessário, ao braço secular.” ( CLEMENTE XII )

No ano seguinte, o Cardeal Giuseppe Firrao, então secretario de estado do Vaticano agrava esta condenação nos Estados Pontifícios condenando à morte os maçons descobertos nessas jurisdições, bem como ao confisco dos seus bens e demolição da sua residência. Como bem refere uma autor insuspeito “nem o Tribunal da Inquisição podia então condenar à morte um individuo suspeito de heresia, limitando-se à pena de prisão”. (J.A.BENIMELI 2015)

O sucessor Bento XIV na bula papal “Providas Romanorum” de 1751 condenou de novo a Maçonaria com base em seu suposto naturalismo, pela forma dos seus juramentos, caracter sigiloso, e possível ameaça à Igreja e ao estado. Reforça assim a prévia condenação da Maçonaria recordando que já na bula “In Eminenti Apostolatus Specula“ os Franc-Massons eram condenados e proibidos perpetuamente … com a pena de excomunhão … da qual ninguém os pode absolver a não ser o Pontífice. (BENTO XIV)

Como consequência, ou em coincidência temporal com estas condenações da Santa Sé,  verifica-se que esta não foi a única nem a última a condenar a Maçonaria.

Príncipes e governos católicos, protestantes e muçulmanos tomaram medidas semelhantes contra a Maçonaria desde o seu aparecimento e difusão.  A primeira condenação surge logo em 1735 na Holanda protestante, seguida em breve (1737) pela República de Genebra calvinista, e pelos Reinos católicos de Portugal e Espanha (1740) bem como pelo Império Austríaco de Maria Theresa e ainda pelo islâmico Império Otomano.

Entretanto, numa aceleração da História, verificou-se o mais radical facto que colocou simultaneamente em causa quer a Monarquia quer a Igreja , foi a Revolução Francesa.

Se a “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen “ de 1789 teve uma clara influência de muitos maçons como Lafayette e outros iluministas esclarecidos, foram os muitos membros da “Société des amis de la Constitution” mais conhecidos como Jacobinos, que acabaram por influenciar os acontecimentos subsequentes  (S. SCHAMA 1989).

Após o período conhecido como o Terror, período caótico em que a par de muitos eclesiásticos também inúmeros Maçons foram sacrificados de modo acrítico pela Revolução, seguiu-se o Directório que tentou restabelecer a estabilidade perdida e que desembocou na ascensão de Napoleão Bonaparte. Este general vitorioso em inúmeras batalhas levou a França a novas conquistas em vários países, nomeadamente em Italia.

Foi sob o Império de Napoleão que se verificou uma enorme expansão da Maçonaria em todas as terras conquistadas, transformando-a quase numa nova religião de estado. A sua influência foi particularmente sentida na península Italiana quer nos estados do Norte quer nos do Sul.

A identificação da Maçonaria com os ideais revolucionários vindos de França desencadeia uma primeira onda de anti-maçonismo feroz em vários países, iniciada em França pelo escritos do Abbè Barruel.  Neste âmbito em 1791-2  sob o reinado de D. Maria I,  é celebre a repressão que se verificou na ilha da Madeira onde foram perseguidos cerca de 200 II :.  membros de várias Lojas  fundadas por franceses e ingleses ( R.RAMOS 2009)

Contudo foi nos estados a Sul de Roma que os ideais maçónicos vieram a sofrer uma modificação substancial com o surgimento da Carbonária, que lutava activamente contra o poder das Monarquias e da Igreja, nomeadamente opondo-se ao poder temporal da mesma exercido nos Estados Pontifícios.

Em pleno século XIX encontramos enraizadas na Europa essencialmente dois tipos de Obediências, umas sob influência da Grande Loja de Inglaterra são teístas , reconhecem a existência de um princípio criador e exigem a crença numa fé revelada, outras, também conhecidas como maçonarias latinas, possuem uma inspiração racionalista e liberal sendo estritamente laicas quando não deliberadamente anti-clericais.

São precisamente as várias obediências latinas que no século XIX promovem campanhas a favor da laicidade do ensino, combatendo activamente a influencia da Igreja e sua responsabilidade no ensino nos seus diversos graus. Também elas estiveram na base dos movimentos que levaram ao Risorgimento italiano procurando a unificação dos estados da península italiana estabelecendo uma guerra aberta contra os Estados Pontifícios.

O papado do século XIX ameaçado directamente, condena sucessivamente com veemência todos esses movimentos.

Pio VII com a constituição apostólica “ Ecclesiam a Jesu Christo “ (1821) condena a pertença a Carbonária como emanação da Maçonaria ressaltando a sua indiferença religiosa.

Leão XII publica a constituição apostólica “Qui gravora” (1825) onde reafirma a condenação, afirmando que possui múltiplas provas de que esta associação não só é suspeita mas é uma acérrima inimiga da Igreja.

Pio VIII publica a encíclica “Traditi Humilitati” (1829) que embora não mencionando explicitamente a Maçonaria condena todos quantos acreditam que a salvação eterna é possível para todos os de qualquer religião.

No rescaldo do movimento revolucionário ocorrido em Roma, que obriga o Papa a refugiar-se em Gaeta, perto de Nápoles, Pio IX condena a Maçonaria por considerá-la como única responsável pela usurpação dos Estados Pontifícios com as duas alocuções “ Quibus quantisque e Multiplices inter “ e na encíclica “Qui Pluribus “ (1846) .

Por fim unifica todo o corpus jurídico respeitante a Maçonaria na constituição apostólica “Apostolicae sedis” (1869) na qual se determina de novo a excomunhão de todos quantos maçons, carbonários ou membros de seitas semelhantes conspiram abertamente ou em segredo contra a Igreja.

Surgiu então outro tema controverso proposto por diversos maçons que motivou o furor da Igreja nesse tempo, foi a luta pela legalização da cremação dos mortos por motivos de saude publica.

Leão XIII durante os vinte cinco anos do seu pontificado consegue emitir 226 documentos de condenação da Maçonaria e demais sociedades secretas, sendo a mais importante a encíclica “ Humanus genus” (1884)  onde sintetiza todas as acusações proferidas pelos seu antecessores respeitantes a Maçonaria.

Nesta encíclica condenou a comunidade dos “livres-pensadores”, bem como uma série de crenças e práticas supostamente associados a ela ou por ela inspiradas, incluindo o naturalismo racionalista, e a soberania popular, alegando que não reconhecem D_us e que impõem a ideia de que o Estado deve ser “sem D_us”. ( S BISI 2019)

Esta condenação absoluta da Maçonaria foi vertida no Código de Direito Canónico (Codex Juris Canonici) promulgado pelo Papa Bento XV em 1917, no âmbito da maior revolução da lei canónica desde o Decretum Gratiani  de 1150 .

No seu Cânone 2335 decreta-se que “aqueles que aderem a uma seita maçónica ou a outras sociedades do mesmo tipo, que conspiram contra a Igreja ou contra a autoridade civil legítima, incorrem ipso facto numa excomunhão exclusivamente reservada à Santa Sé.”

Esta posição canónica de condenação mantêm-se inalterada durante toda primeira metade do século XX em que se verificou um aumento do anti-maçonismo feroz associado ao surgimento do Fascismo em Italia (muito embora muitos dos fundadores do Movimento Fascista Italiano tivessem sido maçons), do Nacional Socialismo na Alemanha, do Estado Novo em Portugal , do Franquismo em Espanha e do Comunismo Estalinista na Russia. Desta perseguição impiedosa resultou o extermínio de muitos II:. e o quase desaparecimento da Maçonaria em muitos países da Europa.

Na segunda metade do século XX, uma nova aceleração da História, desta  vez surgida no seio da própria Igreja Católica, foi o Concilio Vaticano II convocado em 1961 pelo Papa João XXIII, e que veio introduzir uma nova visão ecuménica da Igreja e do papel da mesma no Mundo.

Muitas destas novas ideias, liturgias e interpretações da doutrina abriram a Igreja á modernidade levando a sua abertura para com a sociedade. Se rapidamente foram adoptadas pela grande maioria dos Católicos, alguns houve que activamente condenaram e condenam ainda, esta visão “modernista” tendo desencadeado campanhas anti-conciliares que ainda hoje, passado mais de meio século, se mantém muito activas.

Foi precisamente durante uma sessão conciliar que o bispo mexicano Méndez Arceo perguntou abertamente qual fosse a atitude da Igreja em relação á Maçonaria, “a qual nem sempre, nem em todo o lado, foi anti-religiosa“, propondo mesmo em outra sessão a revogação das leis contra essas associações, de acordo com o claro espírito de tolerância que caracterizou o Concilio.

A resposta surgiu célere considerando a Maçonaria como adversária encanecida da religião, sustentada em grande parte pelos judeus…

Ja no pontificado de Paulo VI, sob o qual se concluiu o Concilio Vaticano II, ele emitiu a encíclica “Ecclesiam Suam” afirmando que “a Igreja deve estar pronta a dialogar com todos os homens de boa vontade, dentro e fora do seu âmbito, pois ninguém é estranho ao seu coração”.

Foi neste período post-conciliar que existiram algumas ténues tentativas de estabelecimento de algum diálogo entre as maçonarias francesa e italiana e alguns prelados como Rosario Esposito e Giovanni Caprile que não tiveram consequências de maior.

Já em 1983 na sequência de uma questão apresentada pela Conferencia Episcopal da Alemanha, sobre qual atitude tomar para com os católicos filiados na Maçonaria, esta foi respondida pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fe, Cardeal Ratzinger com a “Declaratio de associationibus massonicis” emanada em 1983 e com o placet do Papa João Paulo II.

Nesta declaração reafirma-se serem inconciliáveis os princípios maçónicos com os da Igreja e afirma-se que os fiéis que pertençam a associações maçónicas encontram-se em estado de pecado grave não podendo aceder á santa comunhão.

Esta renovada condenação coincidiu com a revisão do Código de Direito Canónico de 1917 levando ao desaparecimento do cânone 2335 com a sua referência explicita da pena de excomunhão,  sendo substituído pelo Cânone 1374 em que se define que “quem der o nome a uma associação que conspire contra a igreja será punido com justa pena e quem promover ou dirigir essa associação será punido com a interdição, isto é, proibição de acesso aos lugares sagrados”.

Neste clima de aparente mitigação das consequências da condenação perpétua da Maçonaria por parte da Igreja Católica, houve mais tentativas de estabelecimento de algum diálogo entre ambas as partes, por exemplo com a celebre carta  do Cardeal Ravasi endereçada aos maçons intitulada “ Caros irmãos maçons “ de 2016 .

Sem por em causa a inconciliabilidade da maçonaria e do catolicismo sobre os conceitos de verdade, religião, D_us, homem e mundo, espiritualidade, ética, ritualidade e tolerância, afirma que “precisamos ir além da “hostilidade, insultos e preconceitos” recíprocos, pois “em comparação com os séculos passados, o tom e a forma de manifestar [nossas] diferenças melhoraram e mudaram”, mesmo que essas diferenças ainda permaneçam de uma forma claramente distinta.” Obviamente foi criticado por muitos e silenciado por outros.

E assim chegámos ao tempo actual do Papa Francisco (Jorge Bergoglio S.J) que emitiu em 2020 a encíclica “ Fratelli Tutti “ (2020)  que tem o subtítulo “sobre a fraternidade e a amizade social”.

Papa Francisco que na Jornadas Mundiais da Juventude de Lisboa reafirmou que  “Igreja é para todos, todos, todos.“.

Porem foi também em 2023, que o Papa Francisco subscreveu a posição do Dicastério para a Doutrina da Fé, datada de 13 de Novembro de 2023, reiterando que “a filiação activa de um fiel à maçonaria é proibida, devido à irreconciliabilidade entre a doutrina católica e a maçonaria”.

E assim foram os tempos.

Das fundamentais razões da discórdia

Como vimos antes, para a Igreja Católica existe apenas uma só verdade absoluta objectiva e revelada que apenas a ela pertence.  Qualquer outra concepção do Homem é um erro.

Para ela, a Maçonaria é entendida como uma religião universal (á semelhança da concepção napoleónica) que se atribuiria o conhecimento de uma outra verdade absoluta. Mas…

“A Maçonaria não é uma religião ou um substituto da religião”, esta é a afirmação constante da Declaração Fundamental (Fundamental Statement) de 21 de Junho de 1985, emitida pela Grande Loja Unida de Inglaterra e que deve orientar a nossa procura das razões da discórdia.

A Maçonaria regular, não sendo uma religião, observa todas as religiões com o distanciamento de um observador externo.

Nenhuma religião possui a verdade absoluta e exclusiva.

Para a Maçonaria todas as religiões são, melhor dizendo, “relatiivisticamente” verdadeiras, isto é, cada religião é verdadeira do ponto de vista específico da sua realidade histórica, geográfica, social e cultural.

Assim existindo diversos pontos de vista e dogmas, para a Maçonaria cada um é verdadeiro, mas não de modo absoluto. Só a fraternidade é absoluta.

Do ponto de vista do indivíduo, iniciado ou não, se ele escolhe aderir a uma religião revelada, para ele essa religião torna-se verdadeira de modo absoluto e exclusivo.

Ergo, para a Maçonaria todas as concepções do Homem são relativamente verdadeiras no plano da objectividade. Cada uma por si e em si mesma.

Assim o primeiro pomo da discórdia entre Igreja Católica e Maçonaria é a acusação de relativismo da Maçonaria.

Este argumento cai por terra quando a Maçonaria reafirma não ser uma religião, pois que para ela todas as religiões têm igual dignidade do ponto de vista ético e moral.  (G. DI BERNARDO 2024)

A Igreja Católica exige a aceitação como dogma a transcendência de D_us e a fé absoluta na sua única possibilidade de salvação do Homem, através da aceitação de uma relação individual com D_us que se exprime através dos sacramentos.

Na concepção da Maçonaria Regular, exige-se a crença num “Ente Supremo“ designado por GADU, concebido como expressão unificadora do ideal ético e moral do maçom, não sendo para o maçom necessário fazer a distinção entre o ideal de aperfeiçoamento moral do Homem e a transcendência do GADU.

A ritualidade maçónica nada tem a ver com o conceito de sacramentos, pois visa essencialmente o aperfeiçoamento moral do Homem através da pratica do ritual e dos ensinamentos que lhe são transmitidos através da simbologia e das alegorias.

O indivíduo, moralmente aperfeiçoado pela pratica ritual e pelos ensinamentos que vai adquirindo, também se aperfeiçoa espiritualmente, nunca pondo assim em causa o princípio da imortalidade da Alma, que está de acordo com o ensinamento de todas as religiões reveladas.

Este segundo pomo de discórdia entre as duas visões refere-se á não aceitação da transcendência de D_us por parte dos maçons.

Ele fica posto em causa pois a Maçonaria não exige a crença num “seu D_us” transcendente, mas sim no princípio ético e moral que é imanente ao conceito de GADU.

Para a Igreja Católica a Maçonaria alimentaria a indiferença religiosa, socorrendo-se de uma visão teista da sociedade, inspirada num naturalismo racionalista.

A Maçonaria não é teísta, nem ateia, nem mesmo positivista. Uma instituição que afirma e pratica a solidariedade humana, é estranha de per se a todos os dogmas e credos religiosos. O seu único princípio é o respeito absoluto pela liberdade de consciência (J A BENIMELI 2005).

Ergo cai por terra a acusação de indiferença religiosa ou de racionalismo porque a Maçonaria não sendo teísta nem ateia, concede aos seus iniciados a liberdade de consciência bastante, que permite ao maçom escolher livremente a sua pertença a uma religião revelada.

Regressando á Declaração Fundamental da UGLE de 1985, podemos todos concordar que, para evitar que a crença nO “Ser Supremo” seja elevado à condição de religião maçónica, a Declaração (Statment) esclarece cabalmente que “não existe D_us maçónico. O D_us dos maçons é o D_us da religião manifestada por ela mesma. Os maçons mantêm um respeito mútuo pelo “Ser Supremo”, pois Ele continua a ser Supremo nas respectivas religiões” (A MOLA 2023)

Citando Paulo de Tarso: “e ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, mas não tivesse caridade, nada seria.” (Coríntios 13)

Se o Catolicismo tivesse sabido manter este elevado grau de espiritualidade que lhe foi inicialmente imprimido por Cristo, talvez a Igreja Católica, como instituição temporal, não tivesse sido objecto das críticas, aversão e combate por parte de muitos racionalistas. E os tempos talvez, fossem outros.

Considerações finais

Em Fevereiro de 2024 vários G:. O:. em representação do Grande Oriente de Itália, da Grande Loja de Itália dos Antigos e Aceites Pedreiros Livres e da Grande Loja Regular de Itália reuniram á porta fechada com o Arcebispo de Milão e outros prelados e teólogos. Na sequência deste encontro que aparentemente decorreu de modo cordial o M:.R:.G:.M:. do G.O.I.  Sereníssimo I:. Stefano Bisi afirmou : “ Porquê a loja maçónica é bonita e porquê as autoridades eclesiásticas não gostam dela?” e explicou: “Porque sob o mesmo céu – que representa a Criação – cada homem é irmão do outro, o vínculo de fraternidade é independente da fé. Basta acreditar no Grande Arquiteto do Universo. O céu estrelado é o mesmo para o budista, para o católico, para o valdense, para o islâmico, para todos aqueles que acreditam num Ser Supremo”.

Outra fonte referiu também que o encontro “culminou num consenso unânime sobre a conveniência de estabelecer um painel de discussão permanente”.

Será esta mais uma tentativa fruste de aproximação? As reações oficiosas não se fizeram esperar por parte da Curia condenando e desvalorizando mais uma vez o sucedido ( New Catholic , 2024)

Muito embora esta questão da dissidência e confronto permanente entre a Igreja Católica e a Maçonaria diga respeito apenas a uma pequena parte da Fraternidade Maçónica Universal, ela reveste-se de aspectos históricos por vezes desconhecidos dos Irmãos (que foram aqui sucintamente apresentados) e que merecem certamente ser aprofundados para fins historiográficos e massonologicos.

Outra questão é a interpretação individual das respectivas posições filosóficas que merece um estudo profundo por parte dos Irmãos que, como eu próprio, educado num são ambiente Católico, se questionam diariamente sobre o porquê da irreconciliabilidade da dupla filiação.

Passado mais de meio século sobre o Concilio Vaticano II, que abriu a Igreja ao mundo, num papado que reafirma que “todos somos irmãos” e que a Igreja é para “todos todos todos” , a pergunta que se impõe é se, passados 300 anos, será ainda possível que a Igreja não seja capaz de compreender o pensamento maçónico por aquilo que ele realmente é?

Termino este modesto mas já longa contribuição para a Academia Massonica da GLLP/GLRP com o Salmo 133

Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.

Como o orvalho de Hérmon, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

Paolo Casella, M:. M:. (GLLP / GLRP)

Nota

Trabalho apresentado na Sessão de Verão da Academia Maçónica em 13 de Julho de 2024 – Lisboa

Bibliografia

  • ANDERSON, James. The constitutions of the free-masons. London: Brother Caesar Ward and Richard Chandler, 1738.
  • BENTO XIV, Papa. Providas Romanorum Pontificum. Roma, 1751.
  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Evangelho segundo Mateus, capítulo 5. Tradução da Vulgata Latina. Lisboa: Difusora Bíblica, várias edições.
  • BISI, Sérgio. A maçonaria e os seus mistérios. São Paulo: Madras, 2019.
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  • CLEMENTE XII, Papa. In eminenti apostolatus specula. Roma, 1738.
  • DI BERNARDO, Giuliano. Filosofia della massoneria contemporanea. Roma: Gangemi Editore, 2024.
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  • STEVENSON, David. The origins of freemasonry: Scotland’s century, 1590–1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

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