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Solstícios, Equinócios e São João …

✍️ Desconhecido 📅 28/11/2024 👁️ 4 Leituras

solstícios

A Maçonaria, enquanto Augusta Ordem esotérico-espiritual, tem nos seus alicerces as mitologias e os conhecimentos científicos associados à Engenharia, Arquitectura, Alvenaria, Astronomia e Astrologia, para não falar da História, da Filosofia e da Mitologia que lhe são, também intrinsecamente inerentes. Vai buscar muito do seu imaginário à tradição medieval templária, intimamente ligada à era medieval no que esta teve de mais sublime, mas também aos conhecimentos daquela que foi, porventura, a mais portentosa civilização da Antiguidade, esses “Mestres Supremos” da leitura e decifração dos movimentos e evoluções dos Astros no Espaço Sideral – os Egípcios!

O Planeta Terra, além de executar um movimento rotacional em torno do seu eixo executa, também um movimento translacional em torno do Sol, o Astro-Rei, descrevendo, assim, uma Elipse, de acordo com as leis de Kepler, no seu movimento heliocêntrico. Para o Observador situado na Terra, todavia, é como esta fosse fixa e estática e o Sol se movesse em torno dela, seguindo uma rota chamada de elíptica.

No seu movimento em torno do Sol, a Terra, descrevendo uma elipse, ficará, portanto, mais próxima ou mais afastada do Astro central do Sistema Solar – o ponto mais próximo (a cerca de 147 milhões de km) é o Periélio; já o mais afastado (152 milhões de km) é o Afélio.

Se a Terra, no seu movimento de translação, girasse sobre um eixo vertical em relação ao plano da sua órbita, as suas diferentes regiões receberiam iluminação sempre sob o mesmo ângulo e a temperatura seria, sempre, constante em cada uma delas. Mas, como o eixo é inclinado em relação á órbita, essa inclinação faz com que os raios solares incidam sobre a Terra segundo uma angulação distinta, a cada dia que passa. É por este motivo que se vão sucedendo as diferentes estações do ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

Como os planos do Equador terrestre e da Elíptica não coincidem, tendo uma inclinação, um em relação ao outro, de 23º e 27 min, eles se intersectam ao longo de uma linha que toca a Elíptica em dois pontos distintos: são os Equinócios. O Sol, em sua órbita aparente, cruza esses pontos ao passar de um hemisfério celestial para outro; a transição de Sul para Norte marca o início da Primavera no Hemisfério Norte e do Outono no Hemisfério Sul; a passagem do Sol de Norte para Sul marca o início do Outono no Hemisfério Norte e da Primavera no Hemisfério Sul – são esses os Equinócios da Primavera e do Outono.

De outro modo, nos momentos em que o Sol atinge a sua maior distância angular do Equador terrestre, ou seja, quando é máximo o valor da sua declinação, ocorrem os Solstícios. Os dois Solstícios sucedem-se a 21 de Junho e a 21 de Dezembro: a primeira data marca a passagem do Sol pelo primeiro ponto do Trópico de Câncer enquanto a segunda é correspondente à passagem do Sol pelo primeiro ponto do Trópico de Capricórnio. No primeiro caso, o Sol está em Afélio e é Solstício de Verão no Hemisfério Norte e de Solstício de Inverno no Hemisfério Sul; no segundo, o Sol está em Periélio e é Solstício de Inverno no Hemisfério Norte e Solstício de Verão no Hemisfério Sul.

Daí que, o Solstício de Verão no Hemisfério Norte e de Inverno no Hemisfério Sul correspondam ao momento em que o Sol está na sua posição mais setentrional ou boreal, isto é, mais a Norte; no Solstício de Inverno no Hemisfério Norte e de Verão no Hemisfério Sul, o Sol encontrar-se-á na sua posição mais austral ou meridional, ou seja mais a Sul.

Como herança das Organizações e “Corporações” de Artesãos, Pedreiros e “Mestres-de-Obras” que, tradicionalmente, costumavam celebrar os Solstícios, tais práticas e costumes chegaram à moderna Maçonaria Especulativa temperada, de algum modo, pelas influências da Igreja sobre as citadas Corporações Operativas. Como as datas dos Solstícios são 21 de Junho e 21 de Dezembro – muito próximas das datas comemorativas de São João Baptista (24 de Junho) e de São João Evangelista (27 de Dezembro) – elas acabam por se confundir com estes Santos, tão representativos e emblemáticos da Maçonaria Regular Universal.

Eis-nos, pois, chegados a outro dos temas sobre os quais esta Prancha se propõe versar: qual “o verdadeiro” Patrono da Maçonaria? De que São João falamos quando falamos do nosso Padroeiro?… Mais do que ousar dar respostas, procuro perguntas sobre as quais reflectir a propósito desta interessante, para não dizer apaixonante, questão.

Do ponto de vista etimológico, a palavra “Patrono” significa “o que luta e/ ou defende uma causa, ideia, etc.”; “Defensor”, “Protector”, “Santo Padroeiro”, “Orago” [1]. Na Roma antiga, era “o Cidadão livre a quem estavam vinculados escravos” [2]. Já o substantivo “Padroeiro” é referente “àquele que defende”, “protege”; “diz-se daquele Santo escolhido como Protector ou Intercessor junto a Deus” [3].

O nome “João”, de raiz etimológica primitiva hebraica, “Yôhãnãn” (foneticamente, Yochanan), significa “Deus é propício”, “Deus mostrou favor”, “Deus foi clemente” ou “Graça divina” [4].

Tem diversas designações, consoante as várias línguas de matriz indo-europeia: “John”, diminutivo “Jack” (Inglês); “Jean” (Francês); “Johannes” (Alemão); “Juan” (Castelhano); “Joan” (Catalão); “Ion” (Romeno); “Ivan” (Sérvio; Croata ou Russo); “Jan” (Holandês, Flamengo ou Dinamarquês); “Janos” (Húngaro); “Jonas” (Lituano); “Janis” (Letão); “Jaak” (Estoniano) ou “Sean” (Irlandês) [5].

É, também, o nome de duas figuras absolutamente fulcrais na narrativa histórica do “Novo Testamento”. Compreendê-las permite-nos estabelecer interessantes e poderosas associações com a dimensão iniciática do Cristianismo: São João Baptista [1] e São João Evangelista [2]:

[1] São João Baptista – também chamado de João, “o Baptizador”, nasceu na Judeia no ano 2 a.c. e faleceu no ano 30 d.C. (i.e., aos 32 anos de idade). Filho do Sacerdote Zacarias e de Isabel, prima mais velha de Santa Maria, Nossa Senhora, Mãe de Jesus Cristo. Foi um líder religioso judeu, que se crê ter sido iniciado nos mistérios essénios, à semelhança de Cristo. Foi um Profeta e um precursor da Obra e da missão crística – ele anunciou a vinda do Messias (em hebraico Mashíyach), o “Ungido”, o “Redentor” de toda a humanidade pecadora e não somente do povo oprimido, pelo jugo romano, de Israel. Baptizou Jesus Cristo e introduziu o baptismo de pagãos nos rituais de conversão judaicos, tendo estes sido, mais tarde, adoptados e adaptados pela nova religião cristã que dealbava …

São João Baptista é o precursor da Luz e, graças à prática das purificação das almas pelo elemento Água, é considerado “o Profeta das Iniciações”. É celebrado liturgicamente no dia 24 de Junho, dia em que a Maçonaria Regular Universal comemora ritualisticamente o seu Solstício de Verão.

Foi a 24 de Junho que foi, oficialmente, fundada, no ano de 1717, a Grande Loja Unida de Inglaterra (“United Grand Lodge of England”, ou “UGLE”, segundo o seu acrónimo). Foi, também, neste dia, no ano de 1128, que os nobres portucalenses leais ao Príncipe D. Afonso (Henriques) derrotaram as tropas galaico-leonesas comandadas pelo clã dos “Peres de Trava”, que combatiam em favor da Condessa Dona Teresa (“Dona Tareja”), viúva do Conde D. Henrique de Borgonha, mãe daquele que viria a ser o fundador na nossa nacionalidade, e que ansiavam pela anexação e integração daquele pequeno e teimoso condado na Coroa do Reino de Leão e Castela.

Na sequência da vitória do exército patriótico e independentista leal a D. Afonso Henriques, este foi aclamado, pela primeira vez na nossa História, “Rei de Portugal” (Rex Portucallensiis). O Historiador, romancista e maçom português do séc. XIX, Alexandre Herculano, chamou à tarde do dia 24 de Junho de 1128, em que foi travada a vitoriosa Batalha de São Mamede, “a primeira tarde portuguesa” (sic).

Daí que, como não sou dado a acreditar em demasiadas coincidências, sobretudo quando são demasiado coincidentes, sou levado a acreditar que, desde a sua mais intrínseca e intestina génese, o meu país, Portugal, é, de facto, um “Estado Maçónico”. Desde o berço.

[2] São João Evangelista – o mais jovem dos doze discípulos de Cristo e aquele, segundo a tradição católica, que Jesus mais amava. Além do Evangelho que lhe é atribuído, foi autor de três Epístolas e o “Livro do Apocalipse”, palavra derivada do grego “Apokálypsis”, derradeiro volume constituinte da “Bíblia Sagrada” e que significa, etimologicamente, “revelação” e, não, “destruição cataclísmica” como, deturpadamente, se tem feito crer. Consta que seria solteiro, pescador de profissão, e que vivia com os seus pais, Zebedeu e Maria Salomé, em Betsheeba (em português, “Bethsaida”) sendo, também, apelidado de “O Apóstolo casto”. Junto de Cristo no momento do derradeiro suspiro no “Gólgota”, recebeu de Jesus a suprema honra, o compromisso e o legado de cuidar de Nossa Senhora, sua Mãe. O seu carácter ensimesmado e introspectivo, a par da sua actividade de reflexão, meditação, oração e escrita, sempre temperadas com comedimento e modéstia, valeram-lhe o título de “Teólogo”, tanto por parte dos seus contemporâneos como dos Sacerdotes e Altos-Dignitários da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que lhe sucederam em séculos subsequentes.

Foi discípulo de São João Batista, tendo dele recebido o baptismo, ritual iniciático preparatório da vinda de Jesus Cristo, “Messias Redentor” e Mestre Espiritual Supremo da Cristandade.

Tem a sua “Festa litúrgica” lugar no dia 27 de Dezembro, data quase coincidente com o Solstício de Inverno, o qual tem lugar, com exactidão, como foi já mencionado nesta Prancha, a 21 de Dezembro. Torna-se, pois, ressalvar o carácter fulcral da celebração destes dois Santos, tanto no calendário Hagiográfico da Igreja Católica como na Calendário das Sessões de Grande Loja da Maçonaria Regular – são comemorados em dias de Solstício, ou seja, em dias dedicados ao “Astro-Rei”, fonte de luz, vida e triunfo sobre as trevas da Morte.

As nossas Sessões Rituais têm lugar com a Bíblia Sagrada aberta no primeiro capítulo do Evangelho de sua autoria – são essas as escrituras que legitimam e “balizam” todo o Ritual subsequente.

Na minha interpretação, ambos os Santos de nome “João” são fulcrais e dignos de serem considerados “Patronos” ou “Padroeiros” “da mais antiga e honrada Ordem de que há memória”. São João Baptista é o Profeta, o Génio espiritual exaltado e inquieto, que “agita as águas” e enceta a Iniciação na nova religião, no novo culto da “Boa Nova”. São João Evangelista é o orador e escritor tímido e militante que, à custa da meditação, e pelo seu exemplo de caridade e virtude, vai crescendo na fé e vai adquirindo o seu estatuto preferencial, único entre os Apóstolos, no coração do Senhor Jesus Cristo.

São João Baptista é o “Venerável Mestre” que ensina e Inicia os seus semelhantes que aderem à nova fé. São João Evangelista é o “Aprendiz” que trabalha a pedra bruta e se torna um insuperável Mestre, de tanto a trabalhar, polir e amar.

Penso que, no fundo, todos nós, Maçons, oscilamos um pouco entre estes dois “pólos” e estes dois exemplos de vida cristã. Entre o Aprendiz que um dia fomos e o Venerável Mestre que, um dia, seremos (ou que já fomos, também, eventualmente …). E, quer um, quer o outro são, para mim e em meu entender, os Patronos da Maçonaria Regular Universal – não me sinto com coragem moral ou intelectual para, entre eles, estabelecer destrinça.

Termino esta Prancha com as duas derradeiras estrofes de um poema desse expoente máximo do Esoterismo filosófico, que muito estudou, amou e se interessou pela Maçonaria, não havendo provas cabais, conclusivas ou indiscutíveis de que tenha sido Iniciado na nossa Augusta Ordem e havendo, por isso, todo o espaço para as mais apaixonadas especulações e controvérsias a esse propósito: Fernando António Nogueira Seabra de Pessoa! O seu poema intitula-se “São João”, havendo óbvias alusões a São João Baptista, o “São João do Verão” (sic), por oposição ao São João Evangelista, ou do “Inverno” …

(…)

“E foi então que, para te vingar
E à maneira de Santo, os arreliar
Desceste mansamente à Terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os Homens da razão
Um milagre assignado. Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, São João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom, se bem que vagamente rocambóllico,
Eu a julgar-te, até, católico,

E tu sabes-me maçom.
Bem, ahi é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo,
E o teu cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer falar o coração, alto e bom som·
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo o que torna o Homem precário.
Se és maçom,
Sou mais do que maçom – eu sou Templário.
Esqueço-te Santo,
Deslembro o teu indefinido encanto.
Meu Irmão, dou-te o Abraço fraternal”.

E∴C∴E∴, M∴ M∴

Notas

[1] – Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, 2001, vol. XIV, pág. 6155. Editora “Temas e Debates”.

[2] – Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, 2001, vol. XIV, pág. 6155. Editora “Temas e Debates”.

[3] – Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, 2001, vol. XIII, pág. 6015. Editora “Temas e Debates”.

[4]www.wikipedia.com

[5]www.wikipedia.com

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