Simbolismo da Maçonaria IV: A Maçonaria Espúria da Antiguidade
No vasto, mas estéril deserto do politeísmo – escuro e sombrio como eram seus domínios lúgubres – havia ainda, contudo, alguns poucos oásis de verdade. Os filósofos e sábios da antiguidade haviam, no curso de suas pesquisas eruditas, auxiliados pela luz da natureza, descoberto algo daquelas verdades inestimáveis em relação a Deus e a um estado futuro, que seus contemporâneos patriarcas haviam recebido como uma revelação feita a seus ancestrais comuns antes do dilúvio, e que haviam sido mantidas e promulgadas depois daquele evento por Noé.
Com essas percepções obscuras, mas ainda purificadoras, não queriam degradar a majestade da Primeira Grande Causa, partilhando os seus atributos com um Zeus e uma Hera na Grécia, um Júpiter e uma Juno em Roma, um Osíris e uma Ísis no Egipto; e não acreditavam que a alma pensante, sentida, raciocinante, hóspede e companheira do corpo, fosse, na hora da dissolução desse corpo, entregue, com ele, à aniquilação total.
Assim, nas primeiras idades após a era da dispersão, havia alguns entre os pagãos que acreditavam na unidade de Deus e na imortalidade da alma. Mas essas doutrinas eles não se atreviam a ensinar publicamente. As mentes do povo, envoltas em superstição, e devotadas, como São Paulo testifica dos atenienses, à adoração de deuses desconhecidos, não estavam preparadas para os ensinamentos filosóficos de uma teologia pura. Era, de fato, um axioma enunciado sem hesitação e frequentemente repetido por seus escritores, que “há muitas verdades com as quais é inútil que as pessoas sejam familiarizadas, e muitas fábulas que não é conveniente que elas saibam que são falsas.” [6] Tal é a linguagem de Varrão, como preservada por Santo Agostinho; e Estrabão, outro de seus escritores, exclama: “Não é possível para um filósofo conduzir uma multidão de mulheres e pessoas ignorantes por um método de raciocínio, e assim convidá-las à piedade, santidade e fé; mas o filósofo deve também fazer uso da superstição, e não omitir a invenção de fábulas e a realização de maravilhas.” [7]
Enquanto, portanto, naquelas primeiras idades do mundo, encontramos as massas rastejando no rebaixamento intelectual de uma religião politeísta e idólatra, sem apoio para o presente, sem esperança para o futuro, – vivendo sem o conhecimento de uma Providência suprema e superintendente, e morrendo sem a expectativa de uma imortalidade bem-aventurada, – encontraremos ao mesmo tempo amplo testemunho de que essas doutrinas consoladoras eram secretamente acreditadas pelos filósofos e seus discípulos.
Mas, embora acreditadas, não eram ensinadas publicamente. Eram heresias que teria sido impolítico e perigoso abordar aos ouvidos do público; eram verdades que poderiam ter levado ao desprezo do sistema estabelecido e à derrubada da superstição popular. Sócrates, o sábio ateniense, é um exemplo ilustre da punição que foi aplicada ao ousado inovador que tentou insultar os deuses e envenenar as mentes da juventude com as heresias de uma religião filosófica. Eles permitiram, portanto”, diz um escritor erudito sobre esse assunto, [8]” que a multidão permanecesse mergulhada como estava nas profundezas de uma idolatria grosseira e complicada; mas para aqueles poucos filósofos que podiam suportar a luz da verdade sem serem confundidos pelo brilho, eles removeram o véu misterioso e mostraram a eles a Deidade na glória radiante de sua unidade. Para os olhos vulgares, entretanto, essas doutrinas eram mantidas inviolavelmente sagradas, e envoltas no véu do mistério impenetrável.”
A consequência de tudo isso era que a ninguém era permitido ser investido com o conhecimento dessas verdades sublimes, até que, por um curso de provas severas e árduas, por uma iniciação longa e dolorosa, e por uma série formal de preparações graduais, ele tivesse provado ser digno e capaz de receber a plena luz da sabedoria. Para este fim, portanto, foram organizadas aquelas instituições religiosas peculiares que os antigos designavam como os MISTÉRIOS, e que, pela semelhança da sua organização, dos seus objectos e das suas doutrinas, têm sido chamadas pelos escritores maçónicos de “Maçonaria Espúria da Antiguidade”.
Warburton [9], ao dar uma definição do que eram estes Mistérios, diz: “Cada um dos deuses pagãos tinha (para além do público e aberto) um culto secreto que lhe era prestado, ao qual não eram admitidos senão aqueles que tinham sido seleccionados por cerimónias preparatórias, chamadas iniciação. Esse culto secreto era chamado de Mistérios.” Tentarei agora traçar brevemente a ligação entre estes Mistérios e a instituição da Maçonaria; e para o fazer, será necessário entrar em alguns pormenores da constituição dessas assembleias místicas.
Quase todos os países do mundo antigo tinham os seus Mistérios peculiares, dedicados ao culto oculto de algum deus especial e favorito, e à inculcação de uma doutrina secreta, muito diferente daquela que era ensinada no cerimonial público de devoção. Assim, na Pérsia, os Mistérios eram dedicados a Mitra, ou o Sol; no Egipto, a Ísis e Osíris; na Grécia, a Deméter; na Samotrácia, aos deuses Cabiri, os Poderosos; na Síria, a Dionísio; enquanto nas nações mais setentrionais da Europa, como a Gália e a Bretanha, as iniciações eram dedicadas às suas divindades peculiares e eram celebradas sob o nome geral de ritos druídicos. Mas não importa onde ou como eram instituídos, se ostensivamente em honra do efeminado Adónis, o favorito de Vénus, ou do implacável Odin, o deus escandinavo da guerra e da carnificina; se dedicados a Deméter, o tipo da terra, ou a Mitra, o símbolo de tudo o que frutifica nessa terra, – o grande objectivo e desígnio da instrução secreta eram idênticos em todos os lugares, e os Mistérios constituíam uma escola de religião na qual os erros e absurdos do politeísmo eram revelados aos iniciados. O candidato era ensinado que as multitudinárias divindades da teologia popular eram apenas símbolos ocultos dos vários atributos do deus supremo – um espírito invisível e indivisível – e que a alma, como uma emanação da sua essência, “nunca poderia ver a corrupção”, mas deveria, após a morte do corpo, ser elevada a uma vida eterna [10].
Que essa era a doutrina e o objectivo dos Mistérios é evidente pelo testemunho simultâneo tanto dos escritores antigos que floresceram contemporaneamente à sua prática, quanto dos estudiosos modernos que se dedicaram à sua investigação.
Assim, Isócrates, falando deles em seu Panegírico, diz: “Aqueles que foram iniciados nos Mistérios de Ceres têm melhores esperanças tanto quanto ao fim da vida quanto a todo o futuro.” [11]
Epicteto [12] declara que tudo nestes Mistérios foi instituído pelos antigos para a instrução e emenda da vida.
E Platão [13] diz que o objectivo da iniciação era restaurar a alma ao estado de perfeição do qual ela tinha originalmente caído.
Thomas Taylor, o célebre platonista, que possuía um conhecimento invulgar do carácter destes antigos ritos, afirma que eles “insinuavam obscuramente, através de visões místicas e esplêndidas, a felicidade da alma, tanto aqui como no futuro, quando purificada das impurezas de uma natureza material, e constantemente elevada às realidades da visão intelectual” [14].
Creuzer [15], um distinto escritor alemão, que examinou o assunto dos antigos Mistérios com grande discernimento e elaboração, dá uma teoria sobre a sua natureza e concepção que vale a pena considerar.
Esta teoria é a de que, quando foram colocadas sob os olhos dos iniciados representações simbólicas da criação do universo e da origem das coisas, das migrações e purificações da alma, do início e do progresso da civilização e da agricultura, foi extraída destes símbolos e destas cenas dos Mistérios uma instrução destinada apenas aos mais perfeitos, ou aos epoptas, a quem foram comunicadas as doutrinas da existência de um Deus único e eterno, e do destino do universo e do homem.
Creuzer refere-se aqui, no entanto, mais ao objecto geral das instruções do que ao carácter dos ritos e cerimónias através dos quais elas eram impressas na mente; pois nos Mistérios, tal como na Maçonaria, o Hierofante, a quem agora chamaríamos o Mestre da Loja, frequentemente, como Lobeck observa, proferia uma palestra mística, ou discurso, sobre algum assunto moral.
Faber, que, apesar do predomínio na sua mente de uma teoria que referia todos os ritos e símbolos do mundo antigo às tradições de Noé, da arca e do dilúvio, deu uma visão geralmente correcta dos sistemas da religião antiga, descreve a iniciação nos Mistérios como uma representação cénica da descida mítica ao Hades, ou à sepultura, e o regresso de lá à luz do dia.
Em poucas palavras, então, o objecto de instrução em todos esses Mistérios era a unidade de Deus, e a intenção das cerimónias de iniciação neles era, por uma representação cénica da morte e subsequente restauração à vida [16], para impressionar as grandes verdades da ressurreição dos mortos e da imortalidade da alma.
Não preciso de referir aqui a grande semelhança, em termos de concepção e conformação, que existia entre estes ritos antigos e o terceiro grau ou grau de Mestre da Maçonaria. Tal como este, todos eles tinham um carácter fúnebre: começavam com tristeza e lamentação, terminavam com alegria; havia um afanismo, ou enterro; um pastos, ou sepultura; uma euresis, ou descoberta do que se tinha perdido; e uma lenda, ou relação mítica, – todos eles de carácter inteiramente e profundamente simbólico.
E assim, olhando para esta estranha identidade de desenho e forma, entre as iniciações dos antigos e as dos maçons modernos, os escritores têm estado dispostos a designar estes mistérios como a MAÇONARIA ESPÚRIA DA ANTIGUIDADE.
Albert G. Mackey, M.D.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
Notas
[6] “Varro de religionibus loquens, evidenter dicit, multa esse vera, quae vulgo scire non sit utile; multaque, quae tametsi falsa sint, aliter existimare populum expediat.” – Santo Agostinho, De Civil. Devemos lamentar, com o erudito Valloisin, que os dezasseis livros de Varrão, sobre as antiguidades religiosas dos antigos, se tenham perdido; e o pesar é aumentado pela reflexão de que existiram até ao início do século XIV, e desapareceram apenas quando a sua preservação por menos de dois séculos mais teria, pela descoberta da impressão, assegurado a sua perpetuidade.
[7] Estrabão, Geog., lib. i.
[8] Maurice, Indian Antiquities, vol. ii. p. 297.
[9] Div. Leg., vol. i. b. ii. § iv. p. 193, 10ª ed. de Londres.
[10] As doutrinas ocultas da unidade da Divindade e da imortalidade da alma foram ensinadas originalmente em todos os Mistérios, mesmo naqueles de Cupido e Baco – WARBURTON, apud Spence’s Anecdotes, p. 309.
[11] Isoc. Paneg., p. 59.
[12] Apud Arrian. Dissert., lib. iii. c. xxi.
[13] Fédon.
[14] Dissert. sobre os Mistérios Eleusinos e Báquicos, no Pamphleteer, vol. viii. p. 53.
[15] Symbol. und Mythol. der Alt. Völk.
[16] Nestes Mistérios, depois de o povo ter lamentado por muito tempo a perda de uma determinada pessoa, supunha-se que ela finalmente fosse restaurada à vida. – BRYANT, Anal. of Anc. Mythology, vol. iii. p. 176.
