Reflexões sobre algumas acepções da tolerância num breviário maçónico
“BREVIÁRIO MAÇÓNICO
7 de Julho
Tolerância
Do latim tolerare, que sugere suportar ou aceitar um acto ou uma presença.
Intolerar será deixar de suportar. Por sua vez, suportar sugere aceitar como sacrifício uma determinada situação.
Quem tolera estará, ao mesmo Tempo, abrindo mão de um direito, de uma reposta.
A tolerância é um dos esteios da Maçonaria, uma das suas colunas mestras.
O Maçom que pratica qualquer acto que os demais devam “tolerar” indubitavelmente está incorrendo em transgressão; porém, um irmão sempre perdoa e suporta.
É muito difícil a prática da tolerância, que por isso resulta ser uma virtude.
A tolerância deve ser praticada e usada a qualquer custo em toda oportunidade.
A intolerância é irmã do radicalismo simples ou “pirrónico”, sendo a fonte de discórdias e desamor.
Mesmo que resulte sacrifício, o Maçom tem o dever de tolerar os defeitos, as agressões e as falhas dos seus Irmãos.
Para que algum Maçom possa aspirar ser tolerado, é necessário que aprenda e se exercite a tolerar.
Breviário Maçónico
Rizzardo da Camino,
6. Ed. – São Paulo. Madras, 2014, p. 207″
Em BREVIÁRIO MAÇÓNICO, do ínclito Ir. Rizzardo da Camino, do dia 7 de Julho, tem como título e tema: Tolerância.
Lendo alguns trechos deste breviário do dia 7 de Julho, assim nos diz sobre a questão do Maçom que “teima” em errar nos seus comportamentos e, consequentemente, incorre em transgressão, mas, logo em seguida, salienta o Ir. Rizzardo, que “sempre” devemos perdoar e “suportar”. “Sempre!”.
Eis alguns trechos que me chamaram atenção:
“A tolerância é um dos esteios da Maçonaria, uma das suas colunas mestras.
“O Maçom que pratica qualquer acto que os demais devam “tolerar” indubitavelmente está incorrendo em transgressão; porém, um irmão sempre perdoa e suporta.”
“A tolerância deve ser praticada e usada a qualquer custo em toda oportunidade.”
“A intolerância é irmã do radicalismo simples ou “pirrónico”, sendo a fonte de discórdias e desamor.”
“Mesmo que resulte sacrifício, o Maçom tem o dever de tolerar os defeitos, as agressões e as falhas dos seus Irmãos.”
Às Reflexões Maçónicas:
Será, realmente, que o “sempre perdoar e suportar” estaria, a rigor filosófico e maçónico, verdadeiramente correcto? No que haveria de prospectividade, de sucesso, de aprimoramento pessoal e maçónico, de evolução, de justiça à luz das Leis profanas e maçónicas, de real prosperidade para o EU, para o OUTRO, para uma LOJA, fraternalmente, se praticássemos essa incondicional e intransigente “tolerância” cega? Seria Tolerância ou mera permissividade? Passaria esse tipo de “tolerância”, aludida pelo Ir. Rizzardo da Camino no seu Breviário do dia 7 de Julho, por um processo de plena conscientização e desbaste da P.B. de um Irmão carente de “eternas tolerâncias”? Seria realmente este o método absolutamente correcto, irretocável, de se ajudar a um Irmão com a virtude da Tolerância, com “T” maiúsculo?
A fraternal Tolerância é realmente TOLERÂNCIA, com letras garrafais, se for praticada “a qualquer custo”, como disse Ir. Rizzardo, mesmo que concorrendo, em detrimento disto, a danos ou prejuízos éticos e\ou financeiros para o Irmão, ou para os Irmãos ou para a Loja? Qual seriam o alcance e\ou limite do “qualquer custo” ou “sacrifício” para a tolerância, dissertada pelo Ir. Rizzardo da Camino?
É preciso a bem da justa necessidade, da justa fraternidade, a bem da Ordem, a bem de um Irmão, a bem do Quadro de Irmãos, a bem de uma Loja, a bem de um Rito, que se tenha bem clara a distinção entre TOLERÂNCIA FRATERNAL, (- escrita aqui propositalmente em letras maiúsculas!) e “tolerância permissiva”, (- grafada em letras miúdas e engelhadas, por ênfase neologística deste articulista nesta peça de arquitectura).
Ir. Rizzardo, – pensa este articulista, quis, no sentido conotativo, fazer referência a quem duvida ou finge duvidar de tudo, sendo um intolerante, não tendo, portanto, a devida tolerância fraternal a um Irmão. Não obstante, “radicalismo pirrónico”, “irmão da intolerância”, colocado pelo Ir. Rizzardo da Camino, neste Breviário do dia 7 de Julho, refere-se a um radicalismo céptico, “rabugento”, que duvida sempre e é inflexível, não solidário, aludindo figurativamente ao filósofo Pírron de Élis (cerca de 360 a.C.- cerca de 270 a.C.), ou à sua escola. Mas Pírron de Elis não andava mundo afora sendo intolerante, ele reflectia e questionava, indagava, filosoficamente, sobre a verdade das coisas, e assim era o seu método de elucubração filosófica no seu mundo.
Uma Pré-conclusão:
A TOLERÂNCIA é uma virtude maçónica fraternal e deve ser praticada por todos nós maçons e temos o dever maçónico de exercê-la para com os nossos Irmãos, mas, nunca uma negligente acção constante e infinda de “permissividade cega” ou inconsequente, por entender que a “tolerância é inquestionavelmente infinda e despropositada deliberadamente”.
Importante o é não confundir o termo “pirrónico” do filósofo Pírro de Élis (ca. 360 a.C. — ca. 270 a.C.), com o “pírrico” do rei Pirro de Epiro (Epiro, 318 a.C. — 272 a.C.), sendo este um homem impressionantemente belicoso e um líder infatigável, embora não tivesse sido um rei propriamente sábio, o rei Pirro foi considerado um dos melhores generais do seu tempo. Aníbal considerou-o o segundo melhor, a seguir a Alexandre Magno. Pirro era também conhecido por ser muito benevolente. Como general, as maiores fraquezas políticas de Pirro eram a falta de concentração e apetência para esbanjar dinheiro (grande parte dos seus soldados eram dispendiosos mercenários). O seu nome tornou-se famoso pela expressão “vitória pírrica” devido à Batalha de Ásculo. Quando lhe deram os parabéns pela vitória conseguida a custo, diz-se que respondeu com estas palavras: “Mais uma vitória como esta, e estou perdido.” Pirro escreveu ainda Memórias e vários livros sobre a arte da guerra. Os escritos perderam-se, mas sabe-se que foram usados por Aníbal e elogiados por Cícero.
Não se deve, pois, confundir a tolerância céptica e “pírrica” de Pirro de Élis, com o “pírrico”; a insistência de tolerância a todo custo, de Pirro de Epiro, ou, ainda, a atitude ou postura cega de ser “permissivo”, este último termo erroneamente levado a sinonímia de uma correcta tolerância, engendrado da negligência de conceitos maçónicos enviesados ou equivocados.
Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Referências
- Breviário Maçónico – Rizzardo da Camino, – 6. Ed. – São Paulo. Madras, 2014, p. 207.
- https://dicionario.priberam.org/pirr%C3%B4nico
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Pirro_de_%C3%89lis
