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Os três pontos

✍️ Desconhecido 📅 22/11/2022 👁️ 7 Leituras

três pontos

A Origem do Símbolo

A utilização dos três pontos como símbolo de realidades espirituais é muito antiga e pode ser recenseada em todas as tradições religiosas da antiguidade. Na religião dos povos da Mesopotâmia, por exemplo, o universo era dividido em três regiões, cada qual sob o domínio de um deus. O céu cabia ao Deus Anu, a terra era governada por Enlil, e as águas estavam sob o domínio da deusa Ea. Eles formavam a tríade das deidades construtoras e governantes do mundo. Também entre os egípcios se acreditava numa tríade divina, formada por Osíris, Ísis e Hórus a governar o mundo, sendo estes três deuses representados através de um triângulo solar, no qual se inscrevia o Olho Omnisciente, como símbolo da presença divina no universo, ou seja, o próprio sol [1].

Também no Hinduísmo, a ideia de uma trindade de deuses a construir e governar o universo é bastante antiga. Esta ideia sustenta que o mundo é formado por uma trindade de deuses chamados de Brahma, Vixnu e Xiva. Brahma é o deus da criação, Shiva é o deus da destruição e Vixnu da preservação.

Mas é na tradição gnóstica dos neoplatónicos que a ideia da trindade iria ser desenvolvida na sua forma espiritual mais elaborada. Várias concepções, todas convergentes para uma única ideia, foram utilizadas pelos filósofos gnósticos para explicar como o princípio trinitário constrói e sustenta o universo.

Resumidamente poderíamos sintetizar o pensamento gnóstico dizendo que o primeiro ponto representa o éon (átomo) fundamental, criador de tudo o que existe, também conhecido como o Uno, a Mónada, o Princípio Fundamental, a Unidade, ou seja, Deus, na sua forma potencial. Os dois pontos inferiores são a Dualidade que dele derivam, também conhecidos como Demiurgo e Sophia, deidades gnósticas que representam os princípios masculino e feminino, que são gerados pelo primeiro ponto e se juntam para dar nascimento ao universo físico.

A ideia gnóstica de um princípio trinitário dando origem e sustentação ao universo foi inspirada na filosofia de Platão. Com efeito, foi aquele filósofo que teve essa intuição, ao intuir que o universo se assentava sobre um triângulo virtual que eram as Ideias Separadas, o Demiurgo e a Matéria. Por Ideias Separadas entenda-se o Princípio Único, incriado, que pode ser entendido como Deus em Espírito, ainda não manifestado em matéria. Demiurgo é o Princípio, que emanado das Ideias, contém em si a semente do universo. É Deus se manifestando como realidade a ser desenvolvida no plano do concreto. E a Matéria é tudo aquilo que resulta dessa manifestação de Deus no mundo das realidades concretas. É próprio universo material.

Daí Platão dizer que o universo é constituído de “formas criadas”, sombras projectadas pela mente do Demiurgo, que se formatam em ideias (arquétipos), e estas em realidades materiais.

Esta ideia foi desenvolvida mais tarde pelos seguidores das escolas platónicas, que nelas inseriram elementos de pitagorismo e conceitos atomistas. Assim a Ideia, o Demiurgo, a Matéria, da filosofia platónica, recebeu nomes como Logos, Éon, Sofia etc., os quais deram aos primeiros cristãos as noções de Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Mãe. Mais tarde, tendo em vista a orientação francamente misógina que a Igreja de Roma impôs ao Cristianismo, o conceito de Deus-Mãe, como partícipe da Trindade, foi substituído pelo de Deus-Espírito Santo [2].

Foi, portanto, no modelo platónico que a doutrina gnóstica foi buscar o seu conceito de trindade. Mas dada a intensa espiritualidade que se colocava nas suas teses, os gnósticos sublimaram as ideias platónicas, puramente filosóficas, dando a elas uma conotação amplamente religiosa.

Destarte, os neoplatónicos desenvolveram a ideia da Trindade como se ela fosse representativa de um processo, segundo o qual a Divindade Suprema actua e molda o universo. Plotino (c. 205-266), por exemplo, chama o Deus-Pai de Uno, e o coloca no alto desse processo; dele flui o Logos, que é o Seu pensamento, que se coloca à sua direita, logo abaixo; e finalmente a Alma Mundi, (Alma do Mundo), que se coloca à sua esquerda, formando a Trindade Suprema.

Interpretação cabalística

Na Cabala Filosófica, o universo, tal como é representado na Árvore da Vida, é formado pela conjunção dos três princípios fundamentais, simbolizados pelas três primeiras séfiras da Árvore. São elas a Séfira Kether, também conhecida como Ain, a séfira Chockmah, também conhecida como Ain Soph, e a séfira Binah, conhecida como Ain Soph Aur. Estas três séfiras são, na verdade, representações simbólicas de energias actuantes na composição do universo material e espiritual. Ain (Kether) é o Espírito de Deus, em potência, energia ainda não manifestada em matéria: Ain Soph é Deus já manifestado como Luz (como diz a Bíblia), e Ain Soph Aur é o universo material manifestado como criação divina. Assim se forma o triângulo cabalístico que pode ser representado na forma que segue:

onde Kether, a coroa, o primeiro ponto, Ain, é Deus enquanto Espírito. Ele pensa o Universo, por isso Ele é o Grande Arquitecto do Universo. É o Pai, Princípio Masculino, que detém a semente que dá origem ao universo.

Chockmah, o segundo ponto, Ain Soph, é o Filho, Deus Manifestado no mundo das realidades.

Binah, o terceiro ponto, Ain Soph Aur, é a Mãe (Schekinah), Princípio Feminino, pelo qual a divindade entra no mundo da matéria [3].

Estes três primeiros pontos, ou séfiras, dão origem e sustentação à Árvore da Vida, que representa o universo em todas as suas manifestações, materiais e espirituais.

Os três pontos na Maçonaria

No mundo maçónico, os três pontos assumem diversos significados. Em termos estritamente filosóficos eles são representativos das três virtudes que sustentam o edifício social e político que a Maçonaria se propõe a construir: estes alicerces são a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Moralmente são também as três virtudes de carácter que todo Maçom deve desenvolver: Justiça, Tolerância e Fraternidade.

Simbolicamente eles também formam o Delta Sagrado, sendo o ponto superior correspondente ao Oriente em Loja, local sagrado, onde fica o Venerável Mestre, e os dois pontos inferiores correspondem ao Ocidente, onde estão as duas colunas, (J e B) que correspondem ao mundo material. Ali estão os dois Vigilantes. Portanto, os três pontos são um símbolo e como tal está sujeito a múltiplos exercícios semióticos. Que cada Irmão construa o seu e assim estará contribuindo para o acervo da cultura maçónica.

Outros significados

Os três pontos também têm uma correspondência astrológica interessante. Eles correspondem à constelação de Virgem, que é cercada por três estrelas em forma de triângulo, que são Régula, Spica e Arcturo. Esta disposição geométrica é reproduzida no “céu maçónico”, presente em todos os templos.

Esta disposição astrológica foi repetida na planta dos edifícios públicos de Washington, capital dos EUA, onde Arcturo representa a Casa Branca, Régulo é o Capitólio e Spica o Monumento a Jorge Washington, que formam um triângulo simbólico, significativos das forças que construíram em regem a formação dos Estados Unidos como um país e simbolizam ser a América a nova “utopia” sonhada pelos maçons oitocentistas. Este simbolismo também teria sido adoptado na organização jurídico-administrativo da nação, inspirada nos ideais do Iluminismo. Desta forma, Arcturo representaria o Poder Judiciário, Régulo o Poder Executivo e Spica o Poder Legislativo [4].

João Anatalino Rodrigues

Do livro “Lendas da Arte Real”

Notas

[1]A trindade egípcia, formada por Osíris, Ísis e Hórus foi o ícone adoptado pela Maçonaria para representar essa concepção. Ela é encontrada em todos os templos maçónicos.

[2] O princípio feminino, tão importante nas filosofias orientais, como co-autor do universo, e tão reverenciado entre os filósofos gnósticos, que o desenvolveram através do conceito altamente espiritualizado da Sofia, a Sabedoria, que dá parto ao universo, não ganhou muito respeito entre os orientadores da Igreja católica. Para muitos teólogos da Igreja de Roma, a mulher não era portadora de dons espirituais capazes de conferir-lhes um papel tão relevante na construção do mundo.

[4] Estes três elementos também correspondem aos três factores que, na filosofia de Pitágoras, são os formadores do mundo, ou seja, a luz, o som e o número. E também às três leis fundamentais da formação universal que são a relatividade, a gravidade e a aceleração.

[4] Veja-se René Guenón – A Grande Tríade, op citada, e do mesmo autor, Estudos sobre o Esoterismo Cristão, Ed Pensamento, São Paulo, 1987. Veja-se também David Ovason – A Cidade Secreta da Maçonaria, São Paulo, Ed. Planeta, 2007.

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