Freemason

Os donos da Loja & jogos de poder

✍️ Desconhecido 📅 05/05/2023 👁️ 5 Leituras

donos da loja

Introdução [1]

Diz-se da Maçonaria, e com acerto, que é uma fraternidade; com efeito, sólidos laços de amizade, só equiparados aos existentes entre irmãos consanguíneos, são iniciados e selados no seu seio. Uma das vertentes da Maçonaria Moderna, na qual prevalecem os Aceitos e daí as actividades Especulativas, salienta que:

O culto da amizade proporcionava parte do ímpeto por trás da febre das novas instituições sociais voluntárias, evidentes no fim do século XVII na Grã-Bretanha, e ajudou a justificar tal febre associando-as às emergentes crenças filosóficas: a sociabilidade em sociedades formais ou grupos informais podia ser vista como uma parte importante da prática religiosa, ágape em acção, numa extensão maior ou menor substituindo a adoração pública nas congregações. Para alguns, e Moray sem dúvida estava entre eles, o vínculo social proporcionado pela afiliação a uma Loja maçónica substituía o vínculo da religião organizada, com fortes implicações éticas e rituais para substituir, ou mais que substituir, aqueles presentes na religião pública protestante.

(STEVENSON, 2009, p. 223) [2].

Contudo, embora prevalecente na literatura, e parafraseando o poeta, “nem tudo são flores na Fraternidade”, como de sorte tampouco na vida e nas famílias, pelo menos é assim que se me afigura. Tanto uma Potência Maçônica, assim como as suas Lojas também podem ser vistas como efectivas arenas nas quais acirradas disputas são travadas com direito a golpes baixos, confabulações, acordos e negociações de interesse, falsas narrativas, traições e tudo o mais que a ingenuidade dos românticos não permite enxergar. As Lojas, e é mais fácil reflectir a partir delas porque estão mais próximas do horizonte das observações, são espaços onde a natureza humana, cedo ou tarde, se manifesta com toda a sua plenitude: sejam as virtudes, as paixões ou os vícios, por mais que sobre esses não se poupem esforços no sentido a mantê-los sob controle, a exemplo da sede pelo poder.

Ver uma Loja para além de um templo no qual se realizam performances ritualísticas e esotéricas, a exemplo de uma Organização que em muitos aspectos se assemelha a tantas outras, abre inusitadas perspectivas para a análise e o melhor entendimento deste espaço de sociabilidade. Para estudar as organizações Morgan (1996) recorre a um instrumento muito familiar à Maçonaria: a metáfora; assim, para ele, uma organização pode ser vista como (1) uma máquina (quando tudo é realizado mecanicamente, sem reflexão), como (2) um organismo (um sistema cujas partes estão interconectadas e reciprocamente afectam umas às outras), tal como (3) uma prisão psíquica (iniciativas motivadas por traumas, crenças e dogmas, eventualmente inconscientes e das quais não se consegue libertação) e também, entre outras, como (4) espaços de manipulação e dominação de algumas pessoas ou grupos sobre outros. E nessa arena, o domínio das informações e a constituição de alianças são factores chaves para o sucesso.

A complexidade das organizações contemporâneas não permite vê-las e enquadrá-las apenas numa perspectiva – vide, entre tantos, Waterman Jr. (1992) e Mintzberg (1995) -, mas antes perceber com maior clareza aquela que for a predominante; ademais elas podem ser mutantes conforme variem as pessoas, as políticas, as directrizes, etc.  Este texto segue os passos de Morgan, pois ver uma Loja como uma organização permite não só identificar os interesses, as estratégias e mesmo entender o comportamento individual de cada integrante do quadro, como também as suas eventuais patologias, individuais ou colectivas. Por outras palavras, em que pese a Loja Aberta estar reunida num templo (que convida à reflexão serena, à introspecção, ao apuramento dos sentidos, do intelecto e da alma), é a sua perspectiva organizacional que revela os jogos de poder travados no espaço então convertido em arena, bem como permite identificar o papel de um dos principais protagonistas: o(s) dono(s) da Loja. Quem, tendo chegado a Mestre, não conhece pelo menos um?

Alguns autores referem O Dono da Loja, enquanto outros ressaltam Os Donos da Loja; ficarei à margem dessa questão, e por isto as expressões se alternam neste texto, inclusive porque ela não altera a essência das reflexões que se seguem.

Trata-se de tema de interesse recorrente na Maçonaria, daí porque não é difícil encontrar algum material na web, e já havia começado a me ocupar dele quando escrevi um texto que me parecia ser o seu antecedente lógico: Dez Discursos – fundamentos para o atraso de uma loja maçónica (PINHEIRO, 2021); sim, porque por detrás dos Dez Discursos não raro se encontram os Donos da Loja. À época afirmei:

Daí que já se encontra no prelo o “+ 10 Discursos” onde, entre outras situações, são abordadas: a prática da constituição de Comissões (de estudo, análise, etc.), claro que sempre a partir dos mais louváveis argumentos, mas que, de facto, ou se presta a legitimar “decisões já decididas” ou tão somente encobre intenção protelatória; bem como o peso e a consequência da figura do “dono da Loja vis-à-vis ao tu quoque”.

Acontecimentos recentes motivaram o resgate e a complementação das antigas anotações.

A maioria dos autores se posiciona criticamente à figura do Dono da Loja (SPOLADORE, 2018, 2019; VIDAL, 2021; PINHEIRO, 2021), enquanto que apenas dois textos, diferenciados e favoráveis, foram encontrados: o de Alcântara FO (2021) e o de Teixeira (2022). Todos os trabalhos consultados são textos curtos, e porque não declararam explicitamente as fontes e os procedimentos metodológicos, depreende-se que correspondam às percepções dos autores colhidas ao longo das suas vivências na Ordem, sem distinção de Potência, Oriente ou Rito. De regra os autores apresentam o perfil do Dono da Loja acompanhado das consequências do seu modo de ser e das suas iniciativas. A proposta deste texto compreende: (1) apresentar a síntese das respectivas contribuições mencionadas acima, seguidas de algumas reflexões; e, (2) acrescer elaborações pessoais e autorais acerca dos mecanismos (ou seriam estratégias em curso?) que levam ao surgimento e à consolidação do personagem Dono da Loja, bem como das consequências (para as Lojas e para a Ordem) que então se somam às dos autores consultados. Considerando que os textos-fontes são reduzidos, sem ferir os princípios básicos (de reconhecimento da autoria e da localização) se passará à margem das determinações normativas textuais com vistas a evitar a poluição e a quebra da continuidade deste texto.

O que dizem os autores sobre o tema?

Na sequência, uma “bricolagem” que combina recortes extraídos dos autores destacados, seguida de breves comentários.

A percepção (negativa) de H. Spoladore

Apesar do título – Antigo Venerável “Dono da Loja” – o conteúdo do primeiro texto (2018) admite, a meu juízo, extensão: as incursões do antigo venerável (que não necessariamente é o mais recente e tampouco se restringe a este) não se limitam às tentativas de influenciar apenas o actual venerável, mas também os demais Oficiais – vigilantes, secretário e tesoureiro. Nas palavras do autor: “ele não sabe conter-se […] tem apego ao poder […]”. “O pior Antigo Venerável é aquele tipo de irmão matreiro, político, de fala mansa, que sorri para todo mundo, abraça a todos três vezes e que se derrete em falsos elogios aos Irmãos do quadro e procede assim porque é uma das suas estratégias para se manter no poder eternamente […] durante a gestão do seu proposto [ou preposto?], quem dirigirá de facto a loja, será ele […] tomará as decisões e o venerável de plantão cumprirá rigorosamente o que o seu chefe determinar […] ele tem o seu grupo, formado por outros irmãos que são coniventes, que antecipadamente já decidiu quem será o venerável […]”. No que refere ao perfil, Spoladore esclarece que “no fundo a sede de poder nada mais [é] que uma auto-afirmação, insegurança, incapacidade de ser transparente com os seus semelhantes e com o meio em que vive, vaidoso, mentiroso, geralmente tendo uma visão unilateral dos processos de interacção entre os Irmãos, tornando a sua personalidade a de um verdadeiro psicopata social”. E esclarece: “isto não é bazofia ou piada […] realmente acontece na Maçonaria num índice maior do que se pode imaginar […] muitos irmãos fingem não vê-la ou senti-la, porque os membros das lojas, com excepção de verdadeiros maçons, agem passivamente como cordeiros, esquecendo que uma loja aberta em sessão é uma tribuna livre onde ideias são criadas, sonhos são idealizados que podem mover o mundo – um verdadeiro laboratório social que pode mudar tudo para melhor e por isso todos os problemas devem ser discutidos e todos devem participar”. E para não me estender em demasia: “[…] esta situação de dono de loja é uma das causas maiores do afastamento de muitos honrados irmãos da Ordem. Se um irmão, sem medo, com coragem, falar em nome da democracia e dos verdadeiros princípios da Ordem, e isto ferir os desígnios destes déspotas, será marcado, perseguido e descriminado [sic] […] Você quer conhecer um maçom? Dê-lhe poder!”.

Já o segundo texto (2019), Radiografia do Poder dos Grão-Mestre, o próprio autor o delimita: “P.S.: Este trabalho foi escrito no ano 2000, para um certo grão-mestre da época”. Mas ainda que individualizado, os pontos de convergência com os destaques do texto anterior são evidentes, razão pela qual não cabe aqui reproduzi-los, mas antes destacar os novos elementos. Um dos principais é chamar a atenção para o facto de que se a Maçonaria é género (Organização), é também de uma espécie distinta: “antes de tudo, uma escola de vida”. Portanto, à Ordem e de regra são aplicáveis as ferramentas de gestão organizacional, mas cabe aos dirigentes promover os devidos ajustes, como, por exemplo, ter sempre em conta que os Irmãos ali estão (nas Lojas ou qualquer outro evento) voluntariamente e desejosos de saber, conhecer os mistérios, de algum modo buscam alguma forma de aperfeiçoamento; assim, não cabe exercer o estilo autoritário de liderança (estritamente lastreado na hierarquia e no aparato normativo), mas antes valer-se da empatia e do carisma, agir a partir do conhecimento da alma dos liderados ao invés de tratá-los tão somente como “números” – presentes, contribuintes, etc. Infelizmente, por vezes ocorre observar que “[…] irmãos que têm esta visão abrangente da Ordem começam a perceber que o líder não era bem aquele modelo que se esperava dele, ou por incompetência, ou então porque o poder e a vaidade tomaram conta da sua mente. Sentem o facto, mas se sentem impotentes para protestar, pois quando se apercebem já foram tomadas todas as providências camufladas em forma de actos ou decretos para abortar todo e qualquer movimento de protesto, ou de vozes livres que se levantam, afogando desta forma os pensamentos e a liberdade dos livres pensadores democráticos”. Adiante já discorre sobre as consequências: “[…] a nossa Ordem se formos analisar friamente a Maçonaria é uma conspiração contra si mesma, pois este povo maçónico se rende às pequenas divindades, aceitando-as sem discuti-las, desviando assim por comodidade o olhar de frente à própria realidade”. E para não me estender em demasia na manifestação de Spoladore, concluo com o seguinte trecho: “Fazendo cintilar as suas alfaias brilhantes repletas de lantejoulas e funcionando com os seus lacaios ou seguidores fanáticos, alguns até inocentes úteis, que são aqueles irmãos que gostam e sempre gostaram de estar ao lado do poder, para desfrutar das suas benesses tal qual as hienas e os chacais que esperam o resto das carcaças que os leões deixam para trás, e este grupo reinará até quando puder festejará o sabor de uma falsa liderança e de um poder nocivo. Esta é uma das razões pelas quais se esvaziam as lojas e também uma das razões pelas quais muitos honrados irmãos se afastam da Ordem, sem protestar. Isso é errado […] Zeladores da Ordem, verdadeiros guardiões, geralmente os livres pensadores da elite maçónica, são aqueles irmãos que primeiro percebem os sintomas da opressão, já que a maioria dos membros de uma potência, aceita passivamente tudo o que lhes é impingido, não querendo parar para pensar, não estudando, não lendo nada a respeito da Ordem, porém entulhando os “fundões” dos templos onde se realizam os banquetes após as sessões, que são muito mais importantes para estes irmãos, tudo em nome da pseudo fraternidade do copo e do colesterol. Os maçons de bom senso, suficientemente Homens têm a coragem de denunciar a farsa, mas correm o risco de serem eliminados. É uma luta que só o tempo e as ideias acabarão por vencer”.

Os traços e as tintas utilizadas pelo autor, sem dúvida, são vigorosos, talvez força da expressão de um momento (de tristeza, de desapontamento) muito específico; daí que, apesar de tudo, do poder, do alcance e das consequências das acções do grão-mestre, o próprio autor refere que os traços delineiam personagens ocasionais, a minoria no universo maçónico. Ao que eu acrescento: contudo, não se pode baixar a guarda, pois uma vez eleito (no caso do grão-mestrado) [3], salvo excepcionalidade, será preciso conviver com o erro da escolha durante todo o período de uma gestão, o que pode mesmo comprometer o trabalho de muitos e já de longa data, bem como provocar retrocesso no estágio de desenvolvimento e maturidade alcançados pela Loja. Entretanto, como se verá logo a seguir, a percepção de Spoladore não é um ponto fora curva, ao contrário, a maioria dos autores que se dedicaram ao tema seguiram essa linha.

A percepção (negativa) de R. Vidal

O título antecipa o conteúdo: “O Maçom Vaidoso e Arrogante”, ao que eu faço um reparo: nem todo vaidoso é arrogante, e tampouco a recíproca é verdadeira, mas tanto um quanto o outro são encontráveis e ambos tendem a ser tóxicos ao ambiente de convivência. Os quatro subtítulos do índice revelam o ordenamento da exposição: (1) baixa auto-estima e complexo de inferioridade; (2) comportamento em Loja; (3) comportamento na sociedade; e (4) prejuízo – o autor evolui das características da personalidade (daquele que ao final identificará como pretendente a Dono da Loja) ao comportamento, primeiro no ambiente estritamente maçónico, mas também extra Loja para, finalmente, inventariar os prejuízos (internos e externos) causados por esse personagem. Na sequência um apanhado dos 3 (três) principais tópicos:

  1. “Nenhum ditador provocou ou provoca tanto dano à Maçonaria quanto o Maçom vaidoso, este sapador inveterado, este Cavalo de Tróia que a destrói por dentro […] Uma característica marcante que se nota neste tipo de Maçom, logo ao primeiro contacto, é a sua pose de justiceiro e a insistência com que apregoa virtudes e qualidades morais que não possui […] para ele a Maçonaria não passa de uma vitrine […] Narcisismo num dos extremos, e baixa auto-estima no outro, eis as duas principais características dos maçons vaidosos e arrogantes. No crisol da soberba em que vivem imersos, podemos separá-los em dois grupos distintos, porém idênticos na maioria dos pontos: os toscos ignorantes e os letrados pretensiosos […] Ávido coleccionador de medalhas, títulos altissonantes e metais reluzentes […] Na sua marcha incessante em busca de distinções sociais que supram a sua insaciável necessidade de auto-afirmação, é comum vermos este garimpeiro de metais de falso brilho farejando outras organizações de renome, tais como os clubes Lyons e Rotary […]”;
  2. “Ao invés de defender e ressaltar a importância da liberdade de expressão e da diversidade de opiniões para a evolução da humanidade, como ele age? Censura arbitrariamente aqueles cujas ideias não estejam em harmonia ou sejam contrárias às suas! […] E, nos [debates] que raramente promove, como se comporta? Considera somente as opiniões daqueles que dizem “sim” e “sim senhor” aos seus raramente edificantes projectos! […] Dos actos indecentes mais comumente praticados por este falsário, o que mais repugna é vê-lo pregando “humildade” aos irmãos em Loja, em particular aos Aprendizes e Companheiros, coberto da cabeça aos pés de fitões, jóias e penduricalhos inúteis, qual uma árvore de natal. Outro é vê-lo arrotando, em alto e bom som, ter “duzentos e tantos anos de Maçonaria” e exibindo o correspondente em estupidez e mediocridade. O terceiro é vê-lo trajando aventais, capas, insígnias, chapéus e colares, decorados com emblemas que lembram tudo, excepto os compromissos que ele assumiu quando ingressou na nossa sublime e veneranda instituição […] mal conhece o significado das nossas belas e simples alegorias […] Fama e poder são os seus dois únicos objectivos, tanto na vida maçónica, como na profana […] Quando se mete a ministrar instruções aos Aprendizes e Companheiros ele o faz de modo precário, sem estar familiarizado com elas. Raramente sabe responder questões que os irmãos lhe dirigem. Tergiversa sempre com a mesma resposta: é preciso pesquisar!”; e,
  3. “O Maçom arrogante […] carece das virtudes necessárias para dirigir homens de carácter, mas mesmo assim quer assumir o cargo de Venerável e nele se perpetuar […] Sempre que pode procura manobrar as eleições para que os cargos em loja sejam preenchidos por integrantes da sua medíocre camarilha, que, uma vez empossada, vai aprovar os seus actos malsãos e alimentar a sua vaidade. Desta maneira ele trava as rodas da Loja, impedindo-a de progredir, de desfraldar as suas velas […] ele não age só, pois se assim fosse a sua eliminação seria fácil e sumária. Ele conta com o respaldo de pequenos grupelhos de gente sórdida e submissa, que aprova as suas acções, que corrompe e deixa-se corromper. Às vezes conta até com a cumplicidade dissimulada de alguns delegados, que, por motivos políticos ou de ordem pessoal, fazem vista grossa aos seus insidiosos manejos e prevaricam no que constitui uma das mais importantes missões dentro da Maçonaria […] Terminado o período da sua administração como Venerável este impostor passa a meter o nariz em assuntos que não mais lhe dizem respeito, usurpando funções de outros irmãos da loja, incluindo as do seu sucessor. Quer mandar mais do que os outros, quer ser o dono da Loja; quer admitir candidatos sem escrutínio para engrossar a sua camarilha; quer manobrar a todos e violar leis […] Aquele que for investigar as causas que levaram uma determinada oficina a abater colunas notará nos seus escombros a marca indelével da sua mão, que muitas vezes deixa impressa com orgulho!”.

Como visto, Vidal e Spoladore dialogam sem divergências. Todavia, s.m.j., Vidal se contradiz, assim como aos demais, quando afirma que o personagem não é assíduo à Loja. Ora, para exibir a sua vaidade e arrogância, o Dono da Loja necessita de plateia; ademais, ele precisar estar presente para articular, confabular, exercer e exibir a sua influência, colocar em jogo a sua estratégia de dominação, de perpetuação no poder.

A percepção (positiva) de Alcântara Filho

Já no início o autor afirma que “desde os meus primeiros passos na nossa Instituição já ouvia comentários por parte dos Irmãos, em tom pejorativo e sarcástico, que o Irmão Fulano era o dono da Loja”, o que sugere (ou melhor, confirma) que a discussão do tema é, de facto, antiga na Ordem. E na contramão aos demais, o autor identifica como o Dono da Loja, título honroso, aquele que possui frequência superior a 90%, falta apenas por motivo de força maior, não foge à responsabilidade de assumir cargos ou tarefas, é estudioso, dedicado, conhece profundamente as instruções dos graus simbólicos, da ritualística e as matérias administrativas. A enumeração dos adjectivos do perfil parece ser insuficiente para transmitir a verdadeira natureza deste personagem, cuja dignidade ganha ainda maior relevo em razão da sua responsabilidade à frente da mais importante estrutura operacional maçónica, as Lojas Simbólicas, “as únicas organizações maçónicas que possuem a prerrogativa de recrutar profanos e encaminhá-los na senda maçónica”. Motivado por amor, conhece tudo, das Obediências às Lojas, nos mínimos detalhes. “Indicam candidatos de muita qualidade e colocam sempre os seus interesses pessoais abaixo do interesse colectivo, são exemplos para os Irmãos mais novos; não se imiscuem em fofocas ou conversas de alcova. Dedicam-se integralmente a uma única Loja, pois aprenderam com a prática o quanto é difícil associar dedicação integral e assiduidade total a mais de uma. E, finalmente, são tocados pela emoção quando das sessões magnas […]”. E conclui: “todos os Irmãos possuem o direito, o dever e a obrigação de ser, de direito e de facto, donos das suas Lojas [4]”.

Não fosse pelo excesso – efectivo übermann – o personagem descrito talvez pudesse ter alguma representação na realidade, entretanto, não se pode afirmar e tampouco negar categoricamente porque a realidade na sua completude não nos é dada a conhecer. Mas sem dúvida que não é difícil encontrar Irmãos que reúnem alguns dos atributos e comportamentos elencados, porém dificilmente concentrados em apenas um indivíduo, mas antes bastante distribuídos, diversidade esta que simultaneamente não só confere a normalidade desejável como enriquece qualquer organização. Daí que crer na íntegra do perfil traçado para o personagem corresponde a fechar os olhos à natureza humana, sobretudo quando posta à frente de interesses conflituantes, confrontada com dilemas e situações extremas.

E se não é real, é um personagem idealizado, imaginário; contudo, penso eu, indesejável, pois dado que a Ordem é meio e não fim, tal como apresentado, sugere antes algum tipo ou grau de comportamento alterado, talvez compensatório ou mesmo patológico, o que, é claro, só poderia ser atestado por um especialista e (após profunda análise. De qualquer modo, à primeira vista o personagem não só parece irreal em razão dos atributos que acumula, como também não se prestaria a ser modelo a seguido pelas razões a seguir esclarecidas.

De outro lado, em meio aos traços do perfil apresentado, ainda que parcialmente, identifica-se a figura do empreendedor – o agente que em razão do seu potencial catalisador e propulsor é reconhecidamente de grande importância para qualquer organização, no caso, a Maçonaria, seja actuando na administração central (Potência ou Obediência) ou na capilaridade das Lojas. Torna-se desnecessário adentrar em detalhes em razão da vasta literatura, a exemplo de Pereyra (2003), Hisrich e Peters (2004) e Chiavenato (2006), que descreve em minúcias as características tipo dos empreendedores: iniciativa e liderança (poder e influência), autoconfiança, necessidade de realização, comportamento intuitivo e oportunista, impetuosidade, emotivo, inovador, rompedor de regras, etc.

Tão ampla quanto a literatura sobre empreendedorismo é a que versa sobre liderança, sendo este um tema também abordado em meio àquele, daí que às primeiras referências podem ser somadas Stoner e Freeman (1985) e Drucker (1999). Mas se a figura do líder-empreendedor é de inegável importância ao desenvolvimento sócio-económico-organizacional (SCHUMPETER, 1961), não menos importante é a do gestor, este mais disciplinado, técnico e afecto ao planeamento, à organização, à direcção e ao controle geral das actividades, a exemplo das inerentes a uma Loja aonde nada pode (deve) ser deixado ao acaso.

Em síntese, a apreciação geral da bibliografia permite ressaltar: (1) que o líder, dado o seu poder e influência, tanto pode levar um grupo (organização) ao sucesso quanto ao fracasso; (2) que embora o construto “liderança” seja multifactorial, um dos principais determinantes do comportamento do líder – estilo, limites, etc. – é o comportamento (se de omissão, de submissão, de cooperação, de contestação, etc.) dos que se encontram sob a sua esfera de influência; e finalmente, (3) nem sempre o líder empreendedor, e se pode mesmo dizer que é raro, é um bom gestor, pois as atitudes e os atributos deste (predomínio da racionalidade, ponderação, planear antes de agir, disciplina, etc. – a ordem) diferem radicalmente dos daquele (o caos), o que favorece o surgimento de atritos e conflitos – talvez o exemplo recente e mais conhecido seja o do genial Steve Jobs [5] e o seu relacionamento com o board da Apple, sobretudo na primeira fase, quando era mais empreendedor do que gestor.

A percepção (positiva) de W. R. Teixeira

Em linhas gerais Teixeira vai ao encontro das ideias de Alcântara Filho, mas começa reconhecendo que muitas expressões, como é o caso de Dono da Loja, possuem vários significados e nem sempre na mesma direcção pois, como diz, “elogio e ofensa têm o mesmo número de letras”. O Dono de Loja descrito por Spoladore, o qual cita, seria uma excepção, uma patologia ocasional: “[…] não encontro um só irmão ao qual poderia atribuir tal denominação, que sempre adquire um carácter desdenhoso, depreciativo ou mesmo, animoso […] Conheço e sou agradecido sim, aos irmãos persistentes, valentes, sustentáculos da Ordem, que lutaram e trabalharam por e para mim quando ainda não estava presente; que, aliás, continuam lutando e trabalhando, agora ao meu lado, para os que virão”. Adiante, em estilo enfático, acrescenta: “Conheço e sou agradecido sim, aos irmãos altruístas e que colocaram, muito antes de tornar-me membro da loja, parte do seu tempo, da sua profissão, até recursos financeiros, por vezes, abdicando do convívio da sua família e que, agora ao meu lado, continuam nesta marcha, buscando através do exemplo de luta, a permanência da grandeza da entidade que ajudaram a construir, que amam e da qual querem continuar a se orgulhar”. Sobram adjectivos positivos para o Dono da Loja: além dos já citados persistentes e valentes, não temem desafios e adversidades, são perseverantes, abnegados, em favor da Loja (Ordem) sacrificam a própria família, entre outros. Chega mesmo a justificar práticas que não são livres de questionamento – seriam os fins justificando os meios? -, sobretudo no seio de uma Ordem que se propõe fraterna e democrática: “É verdade que quando se luta por uma causa justa, nem sempre se é tão gentil; é preciso muitas vezes, uma certa rudeza nas exigências e o líder ou aquele que ajudou a fazer a história tem sim, o direito de exigir que o ouçam, que poderem [sic] [6] as suas ponderações”.  Já os críticos do Dono da Loja são apontados como sendo: “amedrontados”, “adormecidos em actividade”, dotados de “ideias insossas, inodoras e insípidas, portanto, sem futuro”, e falta-lhes “resiliência, seja emocional, académica ou social”. Se em linhas gerais a visão de Teixeira está alinhada com a de Alcântara Filho, destaca-se quando ressalta que “O que falta é planeamento; a cada venerabilidade uma cabeça e muitas cabeçadas; uma sentença e muitos equívocos; existindo um planeamento para um período além do somente “ir resolvendo o que aparece”, seguramente muita angústia será poupada e todos terão o seu papel na continuidade do processo e na construção da história” – com efeito, aonde falta gestão, surgem espaços vazios que rapidamente são preenchidos pelo voluntarismo de ocasião, pelos achismos que se sobrepõem à técnica e à razão; nestas circunstâncias falar mais alto e (para) ser persuasivo é o que importa. Ressalta também aonde “tudo começa e termina: no relacionamento entre irmãos”, o que implica na importância da presença em Loja. Ou seja: o surgimento da figura do Dono da Loja é um processo que transcende aspectos relacionados apenas à personalidade e ao carácter “dos candidatos” – a Loja (enquanto ambiente, conjunto de pessoas, rotinas e processos) em si mesma tem uma grande contribuição para a génese, o desenvolvimento e a consolidação do Dono da Loja.

Finalmente, em texto mais recente (2023) e no qual discute o problema do conflito de gerações no seio das Lojas, Teixeira refere en passant à figura do Dono da Loja, pois, de regra, este tem idade mais avançada que os demais. Nesse contexto, o Dono da Loja é referido com neutralidade de juízo.

Percepções & especulações naturalmente pessoais

Para não ultrapassar em muito o número “desejável” de páginas e manter o equilíbrio, limitei as citações a quatro autores, dois favoráveis (Alcântara Filho e W. Teixeira) e dois contrários (H. Spoladore e R. Vidal) à figura do Dono da Loja, mas sem dúvida “os críticos” assinam a maioria das publicações, como deixa à evidência o texto “Dono da Loja: o câncer da maçonaria”, de A. Juliano Breyner [7].

Em primeiro lugar, chama a atenção que tema já tão antigo (o texto de Spoladore já tem quase 25 anos) e que provavelmente está na raiz de vários conflitos (como sugerem, inclusive os autores a favor), não tenha ainda sido objecto de estudos e pesquisas mais estruturadas, daí que tudo só pode ser apresentado como e nos estreitos limites das percepções pessoais. Ismail (2018, p. 138), mas sem maiores esclarecimentos metodológicos, refere “[…] o fenómeno muito conhecido no meio maçónico como “dono de Loja” e que, conforme os dados da pesquisa para a CMI indicam, é uma realidade em aproximadamente 40% das Lojas maçónicas brasileiras”. Destarte, s.m.j., o que reforça a tese em favor de um ou outro lado (negativo vs. positivo) são as vivências do quotidiano maçónico de cada um. Ora, se as Potências e as Lojas estão efectivamente preocupadas com os conflitos internos (na maioria das vezes identificados como geracionais), já deveriam ter se ocupado de modo mais estruturado das questões no entorno dos Donos de Lojas. Como não é o que se verifica, a Maçonaria se mantém ensimesmada sem conhecer a fundo a sua própria essência; preserva-se pelo segredo e alimenta a aura de mistério que historicamente a envolve. Com efeito, admitir sobretudo a versão negativa do Dono de Loja provocaria embaraços, pois equivaleria a reconhecer as falhas da própria pedagogia maçónica (da docência à gestão) e da insuficiência de resultados interna corporis; como, então, se apresentar como modelo ao mundo profano?

É lição antiga, sabedoria milenar – do ocidente ao oriente –, que entre os extremos, virtus in medium est. Note-se que nenhum autor questionou a existência do Dono da Loja, ao contrário, ele existe [8], é facto, e uns até o consideram mais do que uma figura desejável, antes necessária. Contudo, as cores fortes e acentuadas que foram utilizadas pelos expositores dos dois lados, até por questões metodológicas – pois, não é possível identificar as referências objectivas utilizadas – sugerem algum excesso e daí a indispensável cautela: inexiste o übermann (quase alçado à santidade) e tampouco o ditador demoníaco. O mais provável é que o ambiente das Lojas em geral apresente um comportamento Normal (gaussiano), assim como o mesmo se verifique no âmbito, no histórico e no quotidiano de cada uma; o que significa que os dois extremos teriam reduzida probabilidade de ocorrência. Em termos weberianos não existiriam os tipos ideais, mas perfis incompletos, híbridos, prenhes de elementos ambíguos e mesmo entre si contraditórios; em outros termos: os dois perfis reconhecidos seriam, na realidade, as duas faces da mesma moeda – constitutivos da essência do ser humano, mas com vivências e expressões alternadas sempre à espera da oportunidade. E se essa hipótese se confirmar verdadeira, os estudos e os seus desdobramentos práticos devem, então, seguindo a linha de pensamento de Morgan (op. cit.), tomar outra direcção, como por exemplo recorrer às ferramentas para a administração de conflitos e gestão de competências, tal qual fazem as demais organizações.

Assim, não é possível, por ingenuidade, ignorar a natureza humana. O que tende a assegurar a normalidade nos termos referidos é, em primeiro lugar, o facto de o ingresso na Ordem ocorrer já na fase adulta, quando os então candidatos, mesmo se ainda jovens, em algum grau já trazem introjetados os valores sociais mais básicos [9], o que equivale a dizer que para além dos seus freios axiológicos (valores trazidos da família, princípios e crenças), já estão habituados à contenção (das suas paixões e desvios) pelos inúmeros ordenamentos sociais aos quais foi submetido, da escola ao ambiente de trabalho e na sociedade em geral. Mas isso não é suficiente.

Destarte, a frase atribuída a Thomas Jefferson [10], “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, é a chave para os desdobramentos após o ingresso na Ordem e no sentido a evitar o surgimento e o desenvolvimento, sobretudo da versão negativa do Dono da Loja, mas também o da sua versão positiva que, s.m.j., ainda que em menor grau, também é considerada um desvio tendo em vista que um dos principais papeis do líder é justamente estimular e formar novas lideranças, sucessores, e não monopolizar os processos como se fosse uma figura insubstituível ou à beira da perfeição. A exposição ao risco de uma Loja submetida a uma liderança excessivamente centralizadora fica evidenciada quanto se imagina a ausência, por qualquer motivo que seja, do líder. E se?

Os autores, cada qual a partir da sua prática (e experiência), comentaram, e a teoria confirma, que não bastam as idiossincrasias pessoais (personalidades e temperamentos, inclusive com traços patológicos) para a génese e o desenvolvimento (e por vezes agigantamento) do Dono da Loja, são também necessárias condições ambientais favoráveis, antes de tudo a reunião de um determinado perfil de pessoas, pois sem liderados não há líderes, sem vassalos não há suseranos. Aonde não há acomodados, não se faz necessário que um, e sempre o mesmo, tome as iniciativas.

Ciente dessa realidade, bem como acerca da natureza humana, o legislador maçónico, inspirado na estrutura e no funcionamento do Moderno Estado Democrático de Direito, como imagem espelhada dotou a Maçonaria [11] da estrutura e dos mecanismos de governança no sentido a impedir o surgimento da concentração do poder nas mãos dos que, no caso, aspiram a ser o Dono de Loja, o correspondente ao ditador [12] no Estado e na vida civil – profana. Assim, tal como no Estado, na Maçonaria, da Administração central às Lojas, as competências, as iniciativas e os procedimentos estão devidamente distribuídos por entre os poderes políticos e administrativos: o Legislativo; o Executivo; o Judiciário; e, o Ministério Público; todos submetidos aos respectivos regramentos, da Constituição no topo da hierarquia, à legislação infraconstitucional, aos estatutos, aos regimentos internos e outros.

Por oportuno, nunca é demais lembrar a famosa manifestação de J. Madison [13]: “Se homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se os anjos governassem os homens, não seriam necessários controles externos nem internos sobre o governo” [14], bem como sugerir, também pelos tempos conturbados na vida nacional, a leitura de um dos maiores clássicos da literatura política ocidental, The Federalist Papers (Os Artigos Federalistas), parcialmente publicados em Hamilton, Madison e Jay (1979) [15]. Entretanto, na República (à que também, hoje, se pode acrescentar a Monarquia Constitucional), como Cícero [16] (s.d.) já alertara, a omissão dos cidadãos (no caso, dos seus equivalentes em Loja: os Irmãos) pela falta do exercício das virtudes cívicas (busca de informações, participação, controle etc. sobre os governantes) inexoravelmente levará à concentração e ao abuso do poder, no caso, o surgimento do(s) Dono(s) da Loja. Portanto, ainda que por temperamento algum Irmão tivesse a pretensão de ser o Dono da Loja, os mecanismos institucionais – efectivo sistema de freios e contrapesos –, desde que accionados, tenderiam a evitar os casuísmos e as atitudes voluntaristas.

Entretanto, como sói acontece, senão tudo, quase tudo depende das pessoas, e tal qual na vida política no contexto do Estado, o Dono da Loja nunca opera sozinho; como relatam os autores consultados, ele dispõe de um grupo de apoiadores que, quando necessário, inclusive actua como efectiva “tropa de choque”. E como se constitui, ao longo do tempo, este grupo de apoio? É um processo que se desenvolve em diferentes momentos:

  • em primeiro lugar, por sucessivas e numerosas indicações (directas ou indirectas – endosso dos indicados por terceiros, ainda não Mestres [17])! Quanto maior o número de afilhados, maior o séquito tendente a apoiar, por omissão ou mesmo apoio ostensivo, as iniciativas do (se não já, candidato a) Dono da Loja, independentemente dos respectivos méritos. Nessa fase, enquanto Aprendiz e Companheiro, ao invés de lealdade, o que se observa é a fidelidade (em agradecimento?) ao padrinho, que é quase absoluta – o que quer que sugira e submeta à votação terá o apoio incondicional dos seus indicados. Destarte, no que concerne ao tema, um dos indicadores com eventual poder de predição (e é um estudo à espera de realização) é o número de afilhados/padrinho/Loja, pois não é razoável que somente um ou poucos Irmãos conheçam tantos candidatos que reúnam o perfil adequado para formar fileiras na Ordem. Tem início, assim, a “bola de neve”;
  • as facilidades para ascender ao Grau de Mestre, de regra não mais do que o mero cumprimento dos interstícios, é a segunda etapa da estratégia que motiva as articulações do Dono em favor do(s) seu(s) candidato(s). O Exaltado passa então a ser alvo de um novo instrumento: a cooptação branda – a promessa (ou mera sugestão) de cargos -, pois são raros os Iniciados que, passado um tempo, não são picados pela Mosca Azul [18]. Ciente desta característica da natureza humana, o Dono da Loja joga com virtuosismo o jogo do articulador – promessas e compromissos, explícitos ou velados;
  • a Instalação, o terceiro estágio, é o prémio maior, o que é tornado evidente quando um Mestre é Instalado sem que tenha passado pelo treinamento e desenvolvimento naturais na Maçonaria: o exercício das vigilâncias, da secretaria e da tesouraria, dado que, como Aprendiz ou Companheiro já deve ter tido passagem por algum cargo, no Rito Escocês Antigo e Aceito, como Chanceler ou Arquitecto [19]. Mas ao “furar a fila”, interrompendo a ordem natural, o indicado não só passa por cima do princípio do mérito, tão caro à Ordem desde a fase Operativa (DERMOT, 2016; ISMAIL, 2018), como sacramenta as relações pessoais espúrias e até mesmo as injustiças; por fim,
  • concluída a gestão do preposto, este poderá actuar, então já ao lado do Dono, a partir de outra esfera – existente em várias Lojas, por vezes formalizada, outras não [20] -: o Colegiado (ou Conselho) de Mestres Instalados. Esse, como a própria denominação informa, tem o propósito de aconselhamento ao Venerável Mestre, sobretudo quando em primeira gestão; todavia, contrariando todos os princípios, à revelia do Quadro de Mestres [21] é tornado o principal locus decisório da Loja – o Conselho se arroga do Poder Executivo. Agora, então, já está “tudo dominado”, de alto a baixo os cargos (as iniciativas, as aprovações, etc.) estão devidamente controlados; assim, a narrativa do Dono e do seu grupo, se confunde (ou melhor: passa a ser), independentemente se verdadeira ou falsa, a narrativa oficial da Loja. Impossível não recordar o que disse Orwell (2007, p. 106): “todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”.

Há ainda um estágio mais avançado, o das relações do Dono da Loja com o “andar de cima”, a administração superior das Potências Simbólicas ou dos Corpos Filosóficos, o que certamente afecta as correlações das forças na condução dos assuntos internos às Lojas, mas sobre este, por ora, me manterei afastado.

Assim, e aos poucos [22], surge, opera e se desenvolve o Dono da Loja, que no seu entorno cria a “Loja Invisível” (ISMAIL, 2018) – grupo(s) informal(is) -, mas esta, tal qual a versão positiva do Dono da Loja, “não necessariamente está ligada a fins indignos ou tramando algo contra a organização. Pelo contrário, em muitos casos o grupo informal é o que salva uma organização” (op. cit., p. 137).

Mas não é apenas formando e consolidando grupos de apoio que o Dono opera, cresce e se consolida. Conforme também destacado por um dos autores consultados, a gestão, em si mesma, também oferece oportunidades para o Dono ampliar os domínios e fazer valer os seus intentos. Considere-se: qualquer organização que não disponha de um planeamento estará submetida ao acaso, ao sabor dos ventos (“ir resolvendo o que aparece”), ou melhor: à vontade do Dono da Loja. Já é célebre a frase de Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas: “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve” [23]. As situações são inúmeras, mas dois breves exemplos são suficientes para ilustrar o que se pretende:

  • excepto nos seus primeiros momentos, ainda que transcorram alguns meses [24], ou excepcionalidade, uma Loja não pode considerar normal, e tampouco desejável, fazer Iniciações frequentes, quando não por atacado, pois isto compromete, em primeiro lugar, o cronograma do planeamento da docência (Instruções obrigatórias, palestras com convidados, debates internos, trabalhos livres, visitação orientada, exames para aumento de salário, etc. – em última análise, uma das principais finalidades da Ordem) cuja contraparte específica com os objectivos e as metas (e tudo o mais que deve acompanhar o planeamento) deve, desde a Iniciação, ser apresentada ao recipiendário. E em segundo, quando realizada por atacado (ainda que autorizada pelas Potências), compromete, praticamente se perde, a qualidade (“o sentido mágico, a apreensão do simbolismo implícito”, etc.) da própria Iniciação. O planeamento geral da Loja é bem mais amplo (JAKOBI, 2017; ISMAIL, 2018; MACHADO, 2023), mas por ora se deseja enfatizar que também deve considerar não apenas o plano de docência e os aumentos de salário, mas também a trajectória do Iniciado, a exemplo de qual e quando exercerá determinado cargo (começando como adjunto ou ad hoc preferencial), bem como quando, mediante a superação das metas, entrará na linha de sucessão para ascender ao veneralato; e,
  • sessões sem edital ou agenda prévia se prestam a qualquer coisa, inclusive nada, o que leva ao descontentamento do quadro e ao subsequente esvaziamento das Lojas tão citado na literatura maçónica quanto, aparentemente, desconsiderado pelos gestores – Veneráveis e Vigilantes. Cada sessão deve ser planeada para ser enriquecedora, provocar a sensação de ter valido a pena, com aquele “gostinho de quero mais”.

Ambas as situações, reveladoras de completa anomia, constituem oportunidades para a intervenção, então vista como salvadora, do Dono da Loja; afinal, “se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”.

Surgem, então, no primeiro caso, as Iniciações extemporâneas e de conveniência (o grande amigo, melhorar o caixa da Loja [25]) que tendem a ser tanto mais gravosas quanto menor a frequência das sessões: se semanais, serão maiores os graus de liberdade para a gestão promover ajustes, mas se quinzenais, a Loja sequer fará (bem feito) o mínimo constitucional e regimentalmente exigido das Lojas Azuis; mas como não há acompanhamento e controle e nem todas as Administrações são zelosas, senão tudo, quase tudo vale. As Iniciações extemporâneas, se atendem aos objectivos do Dono (que amplia a sua área de influência com a expansão da Loja Invisível) e aos do Iniciado [26], nem sempre vão ao encontro dos interesses maiores da Loja: a qualidade da formação dos quadros e a manutenção da coesão fraterna. Já referi em outros textos: toda Loja deve buscar o seu tamanho ideal, aquele que possibilita o desenvolvimento de cada um e de todos, que seja mantida a harmonia e o espírito fraterno extensivo aos familiares, bem como o elevado comprometimento com todos os haveres. Mas para assegurar esses desígnios é necessário que cada candidato, e se for o caso aquela que receberá as luvas brancas, previamente conviva(m) com o quadro da Loja durante os ágapes e nas reuniões festivas para que se promova o conhecimento e a avaliação recíproca; trata-se de lição antiga, vide, por exemplo, Preston (2017). Um novo quadro não pode ser reduzido a apenas mais um na Loja, mas antes recepcionado como um conjunto de valores que vem para, em harmonia com o “plantel” pré-existente, contribuir para o desenvolvimento colectivo e da missão institucional da Ordem geral e da Loja em particular, e isto não se obtém com análises e aprovações formais e burocráticas. Assim, crescer desmesuradamente compromete o que é essencial à Maçonaria, daí que não pode ser a (pre)ocupação precípua da Loja, com chamados constantes à ampliação do quadro. Então, cui bono?

As implicações do segundo caso, que na verdade é a consequência mais eloquente do anterior, pois a falta de agenda/sessão é o seu decorrente lógico e imediato, deixa a Loja submetida, senão ao acaso, aos assuntos de conveniência e ao livre arbítrio do Dono da Loja que, lembre-se, actua tanto directa quanto indirectamente. Assim, ele pode assumir o comando dos trabalhos. E nesse contexto, para salvar as aparências, são então trazidas à pauta a votação de matérias importantes, mas que exactamente por isto deveriam merecer análise prévia, especializada (das Comissões) e trazidas à votação com o voto da Comissão, recomendando ou não, com justificativas, as deliberações solicitadas à Loja que, então, se funciona como uma assembleia. Ademais, em determinados casos, há exigência de quórum qualificado para a eficácia das deliberações.

Por oportuno, resgato um tema que já foi objecto de alguns textos, a exemplo de Pinheiro (2020): a Associação que abriga a Loja Simbólica, ambas umbilicalmente ligadas, gémeas, a primeira antecede à segunda; aquela é a pessoa jurídica que abriga e possibilita a existência dessa. É a primeira que confere a regularidade (civil e maçónica) à segunda, e não fosse a pessoa jurídica, todas as transacções (recebimentos, pagamentos, contratos, aquisições de activos, abertura e movimentação de contas bancárias, etc.) de uma Loja teriam que ser realizadas por uma pessoa física, por um dos Irmãos. Quem? E se o escolhido sofrer algum impedimento por qualquer motivo (problemas pessoais ou familiares, doença, afastamento profissional, impedimento judicial, etc.)? Há Lojas pequenas, mas admita-se para a formulação do raciocínio um quadro com 25/30 integrantes; se a mensalidade for de R$ 150,00, o orçamento anual será de R$ 45 a 54 mil, aos quais devem somadas as taxas de Iniciação e demais para concessão de aumento de salário, entre outros recebimentos: tronco, eventos, doações, etc. Não deveria, esse património, ser objecto da atenção de todos?

E talvez inspirado na já citada frase de T. Jefferson (“o preço da liberdade é a eterna vigilância”) os legisladores, o civil e o maçónico, prescreveram salvaguardas.  A título de exemplo, tome-se o que dispõe o Artigo 109 do Regulamento Geral da Federação (GOB, 2022):

  • As sessões ordinárias de finanças serão realizadas no Grau I, sendo convocadas por edital com antecedência mínima de quinze dias:
    • Para a realização da sessão ordinária de finanças é indispensável o parecer prévio da comissão de finanças, não se admitindo que seja tratado qualquer outro assunto.
    • Aos Aprendizes e Companheiros é vedada qualquer participação que não seja a apresentação de propostas, discussão e votação dos assuntos constantes da pauta da sessão.

Fica claro, pois, que enquanto no trato das questões doutrinárias, simbólicas e ritualísticas, em Loja Aberta, deve ser observada a hierarquia dos Graus, no trato das questões financeiras (com efeito, a síntese das decisões e actos administrativos) todos os associados em dia com os seus compromissos, independentemente do Grau, são chamados e estimulados a participar. E como se trata de matéria que requer conhecimento mais especializado e por isto não reunido pela maioria dos quadros (regramentos fiscais, exigências cartoriais, bancárias, informações às autoridades públicas, contratos, projecções orçamentárias, custos, etc.) é exigida (conforme delineado acima) a prévia manifestação da respectiva Comissão (de Finanças, com carácter permanente) que deve ainda, trimestralmente, apreciar a prestação de contas do Tesoureiro, a quem cabe, de acordo com o Artigo 125:

[…] IV – apresentar à Loja os balancetes trimestrais conforme normas e padrões oficiais; V – apresentar à Loja, até a última sessão do mês de Março, o balanço geral do ano financeiro anterior, conforme normas e padrões oficiais; VI – apresentar, no mês de Outubro, o orçamento da Loja para o ano seguinte […].

Não há evidência maior do chamamento e do estímulo do legislador à participação dos associados (e Irmãos em Loja) nas actividades da sua competência, do que o disposto no Artigo 96 (Deveres da Loja):

[…] X – fornecer aos iniciados um exemplar da Constituição do Grande Oriente do Brasil, do Regulamento Geral da Federação, da Constituição do Grande Oriente a que pertencer, do Estatuto Social da Loja, do Regimento Interno da Loja e um exemplar do Ritual respectivo; […].

Conforme se verifica, abertura às informações e a transparência nas iniciativas, actos e decisões, determinadas pelo legislador, parecem ser as palavras-chave para, senão assegurar, manter o estado de vigilância referido por T. Jefferson; talvez não por acaso a última – transparência [27] – constitua um dos valores institucionais estampados na página do Grande Oriente do Brasil [28].

Convido os leitores a uma enquete: quantos na sua Loja receberam e, entre estes, os que leram os documentos acima relacionados? E quantas orientações e debates foram promovidos para o devido esclarecimento, bem como a responsabilização do quadro, chamando-o à participação consciente na formulação e implementação dos destinos da Loja e da Associação?

Poucos, muito poucos maçons, inclusive Mestres Instalados, se dão conta da coexistência dessas duas entidades. E o que me parece pior: alguns Mestres, aproveitando-se da falta de conhecimento dos Aprendizes e Companheiros (que por falta de estímulos são mantidos na ignorância), querem exercer sobre estes, nos assuntos administrativos-financeiros, a hierarquia que é própria e exclusiva do simbolismo, ou seja, insistem na deliberação em petit comité (quando não no Colegiado de Mestres Instalados), de assuntos que deveriam ser extensivos à assembleia de todos os associados. E assim, até mesmo irregularidades são transfiguradas em legalidades sob o argumento de que foram, democraticamente, aprovadas pelo quórum presente. Cabe a pergunta: cui bono?

Por consequência, também desconhecem as repercussões desta dupla realidade: uma entidade é essencialmente dedicada às questões de ordem administrativa e financeira – a Associação -, enquanto a outra deve, integralmente e desde o surgimento da Maçonaria Especulativa, se ocupar das questões pertinentes à doutrina, à liturgia e à ritualística; mas por evidente que ambas andam juntas, o que ocorre numa, em alguma medida repercute na outra e vice-versa. Se a primeira se torna insolvente, é de se esperar que a segunda tenha as colunas abatidas. Enquanto que na primeira por serem absolutamente iguais em direitos e deveres todos os associados são detentores de voto, na segunda, na Loja Simbólica, é o grau que delimita as competências nas matérias da sua esfera (acesso aos conhecimentos, docência, exercício de cargos, deveres e direitos), inclusive o voto que, neste caso, antes de tudo, tem significado simbólico. Em geral, a troca regular da administração da Loja (o seu quadro de Oficiais) implica na troca da administração da Associação, havendo, inclusive, uma correspondência que se pode dizer biunívoca entre os titulares: o Venerável Mestre da Loja é o Presidente da Associação, o Tesoureiro de uma, exerce a mesma função na outra e, assim, sucessivamente, o que em parte é natural, pois os mesmos que receberam o voto de confiança dos Irmãos para administrarem a Loja, devem ser merecedores da confiança para administrar a pessoa jurídica que lhe representa. Ocorre que a escolha do Venerável Mestre, que deveria ser por eleição e mérito, de regra é pensada a partir das suas habilidades e competências pertinentes ao simbolismo, por isso eleito pelos pares; todavia, elevá-lo simultaneamente à Direcção da Associação, fere o princípio da necessidade de consultar também os demais membros contribuintes – Aprendizes e Companheiros. E a depender do tamanho da Loja, do estágio do seu ciclo de vida, bem como das suas circunstâncias, nem sempre as competências para o exercício de uma actividade (orientação e condução doutrinária-simbólica-ritualística) são as mesmas exigidas para as outras – essencialmente, de gestão. Já pensou nisso? E na sua Loja/Associação, como funciona?

E qual a razão dessa longa digressão, como se tivesse havido uma fuga do tema principal, o Dono da Loja? Porque é na falta de conhecimento e participação do quadro, na desídia, nas lacunas e nos vazios que o Dono de Loja transita com desenvoltura aos aplausos do séquito constituído ao longo dos estágios mencionados.

Considerações finais

Este texto se propôs a discutir o papel de um personagem tão conhecido quanto polémico no seio da Maçonaria: O Dono da Loja. Nas revistas impressas ou virtuais, ou mesmo nos grupos de discussão, não faltam manifestações sobre o assunto, mas ainda carentes de maior estruturação; contudo, elas podem ser reunidas em dois grandes grupos: o dos que o identificam como um efectivo demónio, um efectivo atraso (ora denominado Tipo I); e, o dos que o percebem como um personagem com atitudes e comportamentos positivos (em relação à Loja e à Potência), quase santificado (por oposição, Tipo II). A meu juízo, embora sejam mais evidentes os aspectos nocivos produzidos pelo Tipo I, o Tipo II apenas aparentemente é menos lesivo, pois se no curto prazo as suas atitudes e comportamentos se revelam como soluções (porque está sempre disposto a fazer o que ninguém se dispõe a fazer), no médio e longo prazo não só aumentam a exposição da Loja ao risco, a excessiva dependência, como comprometem o desenvolvimento dos próprios Irmãos, fazendo “letra morta” a própria missão institucional da Ordem. Ademais, nem sempre é dado a discernir com clareza se as iniciativas do Tipo II primeira e efectivamente concorrem no sentido ao benefício da Loja e dos Irmãos, ou tão somente correspondem a um comportamento egóico-estratégico à luz de objectivos estritamente pessoais que podem, inclusive, se estender para além dos limites e interesses da Loja.

Mas ainda que os autores consultados sublinhem os aspectos relativos à personalidade (e mesmo ao carácter) para explicar o comportamento do Dono da Loja, lastreado nesses mesmos autores, no que poderia denominar de observações a campo em 3 (três) Lojas Simbólicas, bem como na troca de ideias com Irmãos em diversos espaços de convivência maçónica (eventos, Corpos dos Altos Graus, Lojas de Estudo e Pesquisa, etc.), sou levado a pensar que o Dono só se desenvolve porque encontra um campo fértil:  a desídia do quadro, circunstância que por conveniência e estratégia ao Dono e à sua “tropa de choque” não interessam modificar a partir, por exemplo, de esclarecimento activo (planejado, orientado) e motivação do quadro para a mudança de postura.

Curioso que pareça, que tal assunto seja trazido só agora, ao final: por que o uso consagrado da expressão Dono da Loja, hoje quase que uma categoria reificada e à espera de reconhecimento formal? Ora, porque o Dono da Loja, seja o Tipo I ou II, se comportam tal como qualquer dono (mas isto só é dado saber agora, após colhidos todos os “depoimentos”), a quem, por tradição e direito são conferidos e reconhecidos largos graus de liberdade para dispor [29] do que é seu, a exemplo do gozo do usufruto, bem como da contratação (admitir, demitir, comprar, alienar, modificar, etc.) desde que lícitos os meios e que, a seu entendimento, corresponda à melhor decisão. Do ponto de vista da gestão [30] essa categorização pode ser muito útil, pois permite criar instrumentos, a exemplo uma escala [31] para a realização de diagnósticos e prognósticos, ou seja, que a administração e os quadros se antecipem e reajam, institucionalmente, antes da eclosão do “ovo da serpente”.

Por fim, o que mais me chama a atenção é que, conforme já mencionado, a estrutura das Potências Maçónicas no país, notadamente a do Grande Oriente do Brasil, é um espelho do arranjo político tripartite (com Ministério Público à parte) e federado nacional, das suas instituições, dos marcos regulatórios, dos instrumentos de governança, dos mecanismos de check and balances, etc. Assim, com alguma licença e elasticidade reflexiva (afinal, estamos no domínio do simbolismo), o ambiente e o dia-a-dia nas Lojas podem ser considerados um microcosmo da vida sócio-política-institucional do país, um efectivo laboratório psico-social-político. Eu não tenho dados e tampouco outras evidências para afirmar categoricamente, mas sou capaz de apostar que os mesmos que reclamam das omissões dos agentes públicos e políticos, dos erros das escolhas eleitorais, da ignorância e omissão (dos outros, é claro), da escolha e da condução das políticas públicas, entre tantos outros aspectos da vida nacional, são os mesmos que, no seio das Lojas, por omissão e acomodação adubam o campo fértil para o surgimento, o crescimento e a consolidação do Dono da Loja. E assim, por não enxergarem o próprio umbigo, a Ordem se corrói desde dentro; como então pretender ser a pedra angular de uma nova estrutura social?

Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. O autor esclarece que se expressa como livre pensador, os seus pontos de vista são absolutamente pessoais, não representam as Potências, Obediências e Lojas das quais participa, razão pela qual não raro se manifesta também com o recurso à primeira pessoa do discurso. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 02.05.23.

Notas

[1] Sinceros agradecimentos à leitura e revisão realizada pelos Irmãos: Lucas V. Dutra, Companheiro Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista, Psicólogo, Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com; Valdir Gomes, Advogado, MI do Quadro da SBGBARLS Luz e Ordem, 9, Or. de Porto Alegre, GLMERGS, e-mail: vgomes.adv.@gmail.com; Cesar Leites, Grau 33, LEP Acácia Canoense, 252, Or. de Canoas, GLMERGS; e, Jorge A. Mendes, MI do Quadro da ARLS Namaste, 172, Or. de Esteio, GLMERGS, e-mail: jorgemendes2017@hotmail.com.

[2] A longa citação, já logo no início do texto, é para deixar claro que o fenómeno não pode ser reduzido e circunscrito apenas à questão da amizade, como o autor deixa bem claro também em outros trechos do livro.

[3] Conforme adiante ficará mais claro, nas Lojas, embora formalmente ocorram eleições, na prática e na maioria das vezes elas são direccionadas, de regra, concorre apenas um candidato: o de consenso conforme escolha do Colegiado de Mestres Instalados. Também aqui o processo reúne vantagens e também desvantagens, podendo ser completamente instrumentalizado para fins espúrios. A questão da escolha do Venerável Mestre deveria ser tema de estudos mais detalhados.

[4] Destaque no original.

[5] 1955-2011.

[6] Escutem ou façam valer as suas ponderações? Que modelem as suas ponderações?

[7] Infelizmente não foi possível o acesso ao texto porque publicado em veículo exclusivo para assinantes: Revista Universo Maçónico.

[8] Não encontrei quem tenha se dado ao trabalho de escrever para contestar a sua existência, seja na manifestação positiva ou negativa.

[9] Pelo menos é o que se espera da pré-selecção realizada pelos padrinhos.

[10] Disponível em: https://www.boletimdaliberdade.com.br/colunas/iee/2022/06/09/o-preco-da-liberdade-e-a-eterna-vigilancia/#:~:text=A%20conhecida%20frase

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