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O Sol não muda, nós é que mudamos de Hemisfério

✍️ Desconhecido 📅 04/06/2026 👁️ 0 Leituras

astrolabio, O Sol não muda

Na última sessão, durante o ágape, surgiu uma conversa, entre os poucos irmãos que lá estávamos, sobre o movimento solar, com a sua culminação a ser diferente nos dois hemisférios deste nosso planeta, quase, redondo. O que começou mera cavaqueira e também curiosidade, acabou por nos levar a um ponto muito mais profundo do que imaginávamos, pois se a culminação do Sol é diferente nos dois hemisférios, onde se sentam os aprendizes no hemisfério lá de baixo? No Norte? Ou mudam-se para o Sul?

Será que o simbolismo maçónico é geográfico-dependente?

A nossa cusquice, virou dúvida e não um mero detalhe técnico, pois vai tocar na estrutura do nosso Templo, como o conhecemos. Assim, e depois de algum pensamento apoiado pelo fogo de alguma pólvora amarela, o belo sugo de cevada refrescante, e apoiado no nosso grande conhecimento do ritual, suportado pelo irmão tradutor do mesmo que se sentava connosco, como sempre o faz, constatámos que, sem mínima dúvida, no nosso ritual, os Aprendizes sentam-se na Coluna do Norte.

O Norte é descrito como o lugar de menor Luz, o caminho que o Sol leva tende a deixá-lo ofuscado pelas sombras, quanto mais a Sul, mais curta é a sombra. (Isto no hemisfério norte até chegar ao equador, lá em baixo, é ao contrário)  É ali, naquela coluna do Norte, que o Aprendiz trabalha a sua pedra bruta, ainda na penumbra iniciática, afastado da plenitude representada pelo Sul.

Mas se no hemisfério Sul o Sol físico culmina a Norte, onde sentavam os nossos MMQQII irmãos do país do Samba, Fábio e Filipe, quando eram aprendizes? Seguramente no hemisfério Sul, o GADU mostrou aos nossos irmãos como inverter a disposição do templo, mantendo o Aprendiz onde há menos incidência solar real. Será? Parece lógico e até quase inevitável quando se cruza astronomia com ritual.

Mais uns tragos da bela “Pólvora Amarela” e decidimos aprofundar a pesquisa com base em estudos feitos pelo Exmo. Sr. Professor Doutor Google. Qual foi o nosso espanto, ou não, quando descobrimos que os irmãos Aprendizes da terra da cachaça, como também aqueles da terra dos Cangurus, tal como nós aqui neste pequeno rectângulo,  se sentam a Norte. Sem dúvida que ainda muito temos que malhar a nossa pedra bruta, com cinzel sempre alinhado para que não nos desviemos. Enfim, comprometi-me com os irmãos presentes a levar trabalho para casa e tentar dar mais algumas lapidadas. Hoje em dia temos a sorte do já bastante conceituado Doutor Google, mas temos também o novo nome da praça, o ajudante de campo ChatGPT, que nos permite fazer estes trabalhos de forma mais rápida, assim uma espécie de fast-track de conhecimento.

Com esta iluminação tecnológica, chego fácil à conclusão que Norte ritual não é o Norte que indica a bússola, nem que o Sul ritual é o lado do céu onde o Sol atinge maior altura. O Templo não é uma reprodução literal do céu naquele local, mas sim uma construção simbólica autónoma e uma arquitetura iniciática que transcende a latitude.

Já desde a Antiguidade que o homem constrói segundo o Sol, tive a oportunidade de visitar em Malta o templo megalíticos de Ħaġar Qim, mais antigo que as religiões, civilizações clássicas e a escrita, as pedras alinham-se com o nascer do Sol nos solstícios. Em Inglaterra os vários henges, sendo o mais conhecido Stonehenge, onde o alinhamento com os solstícios faz do horizonte um calendário de pedra, no Egipto muito dos seus templos permitem que a Luz penetre até ao mais íntimo do santuário em dias específicos, como no templo de Karnak. No Hemisfério Sul também, por exemplo o Templo de Sol (Torreon) em Machu Picchu ou vários outros nos Andes, ergueram-se centros solares onde o movimento do sol regulava o tempo sagrado, até fora dos andes há casos em África ou até o Wurdi Youang, na Austrália, têm o Sol como referência, marcando seus solstícios e equinócios.

Povos diferentes, céus diferentes, mas o mesmo impulso de se orientarem pela Luz.

Citando uma epopeia épico-narrativa em oitava rima real, ou oitava camoniana (ABABABCC), escrita em decassílabos heróicos (acentuadas na 6ª e 10ª silabas)  que exalta os feitos dos navegadores portugueses,

Que da Ocidental praia Lusitana,
por mares nunca de antes navegados,
passaram ainda além da Taprobana
e para tais feitos na
Praia, por vermos em que parte estou,
Me detenho em tomar do Sol a altura
E compassar a universal pintura.

Também os navegadores portugueses, mesmo ultrapassando os velhos do restelo, aprenderam a ler o Sol, ao meio-dia, mediam a sua altura com o astrolábio para determinar a latitude. Não perguntavam apenas onde estava o Sol, mas sim onde estavam eles sob o Sol. À noite, na escuridão tornava-se mais difícil, quando atravessavam o equador, a Polaris desaparecia do horizonte, mas surgia o Cruzeiro do Sul. A estrela fixa de uns deixava de ser visível, mas outra assumia o papel de orientação, o céu mudava de configuração, mas a necessidade de eixo permanecia.

Para todos os terráqueos, o Sol nasce no mesmo Oriente e põe-se no mesmo Ocidente,  o arco que descreve no céu, com culminação a sul ou a norte, depende da posição de cada um de nós. O princípio é comum, o fim comum é, mas o percurso? Este, inclina-se de modo diferente para cada um e no entanto ninguém afirma que existam dois ou mais Sóis. Todos nós, maçons somos iniciados e todos partiremos para o oriente eterno, agora o caminho é só nosso.

Penso que poderemos sem dúvida entender que o Norte iniciático não é uma medição solar, mas sim um lugar simbólico da menor Luz interior, o espaço onde o maçom ainda trabalha na sua imperfeição. Por consequência o Sul não é apenas a direção física do meio-dia aqui na terra do Fado ou um pouco mais acima em terras de sua majestade, mas sim a imagem da plenitude da consciência.

Quando o Sol atinge o Zénite, nos trópicos, a Luz é máxima, mas as sombras não desaparecem, tornam-se mais curtas, recolhem-se sob os nossos pés e esta imagem é uma lição profunda, a culminação não elimina a sombra, coloca-a sob domínio. O homem que cresce não deixa de ter imperfeições, mas aprende a reconhecê-las e a governá-las. Não deveremos adaptar a disposição ritual consoante o hemisfério, estaríamos a reduzir o símbolo à astronomia e a Maçonaria não se fragmenta pela latitude, ela cria um espaço comum onde a geografia exterior deixa de ser determinante.

E talvez seja aqui que a nossa realidade ganha um significado ainda mais belo, pois temos irmãos que nasceram sob céus que brilham de forma diferente, cresceram com as sombras do outro lado e aprenderam a orientar-se por estrelas que nós não vemos, no entanto, em Loja, trabalhamos todos sob a mesma disposição simbólica. A Maçonaria não segue o Sol físico, mas a Luz interior que não conhece hemisférios, não cria divisão, aprofunda sim a consciência da universalidade.

O início é universal, o destino é comum, mas o caminho revela-se de forma distinta para cada um, no fim, a Luz que buscamos é uma só.

João B., M∴ M∴R. L. Mestre Affonso Domingues nº 5 (GLLP / GLRP)

Fonte

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