O Grau de Mestre Secreto: uma reflexão em 8 Actos

Constitui-se esta Prancha de Mestre Secreto – mais precisamente este Balaústre – como uma tentativa pessoal de reflectir sobre o Dever, a Honra e os limites morais da Obediência.
1) Introdução – o significado de ser Mestre Secreto em Maçonaria
O 4º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) representa uma etapa particularmente significativa no percurso iniciático. Depois dos três primeiros graus simbólicos, aprendidos, apreendidos, sentidos, vividos e trabalhados em Loja Azul, nos quais o Iniciado é conduzido ao Trabalho sobre si próprio, ao conhecimento simbólico das ferramentas usadas na lapidação da Pedra Bruta e à construção da chamada “Catedral Moral virtuosa”, o Mestre Secreto é chamado a aprofundar a sua relação com o Dever, a Fidelidade e a Responsabilidade.
Não de trata, somente, de conhecer novos símbolos, sinais, toques ou palavras-passe, de conhecer e compreender novas alegorias ou adquirir novos conhecimentos reservados. Trata-se, sobretudo e essencialmente, de transformar o conhecimento adquirido em consciência e a consciência em conduta. Para que desta resulte um Legado e deste derive um Destino.
Ser Mestre Secreto significa compreender que nem tudo aquilo que sabemos deve ser imediatamente revelado, que nem toda a ordem recebida deve ser executada sem reflexão, sem sopesar efeitos e consequências, e que nem toda a Fidelidade é, por si só, uma virtude.
O Segredo, quando legítimo, exige Discrição. A Fidelidade exige Coerência. E a Obediência exige discernimento – sobretudo quando quem ordena nem sempre o tem …
E os três, para conservarem a sua Dignidade Moral, deverão sempre permanecer subordinados à Justiça.
É neste equilíbrio que reside, a meu ver, uma das questões fundamentais do Grau: como conciliar a Lealdade aos compromissos assumidos com a independência da consciência individual?…
É neste potencial dilema que reside parte relevante do Trabalho no Grau de Mestre Secreto.
2) O Silêncio – entre a Prudência e a Omissão
O Silêncio é um dos símbolos mais fecundos da reflexão sobre a condição humana.
Vivemos numa época em que a Palavra é frequentemente usada de modo gratuito, sem ponderação, em que a Opinião se antecipa e sobrepõe ao Conhecimento – é o triunfo dos “Achismos” – e em que a necessidade de responder parece sobrepor-se à necessidade de compreender num frenesim mediático totalmente avesso e hostil à maturação a apreensão de conhecimentos que faz a Sabedoria.
Nessas circunstâncias, o Silêncio pode constituir uma forma de Sabedoria ou, pelo menos, o primeiro passo rumo a Ela.
Saber “escutar”, mais do que meramente “ouvir”, antes de decidir e conhecer antes de afirmar ou “sentenciar” são manifestações saudáveis de prudência intelectual.
O Homem que reconhece os limites do seu conhecimento revela, por vezes, maior sabedoria do que Aquele que apresenta todas a s suas convicções como certezas absolutas.
Mas o Silêncio possui, também, uma dimensão moral.
Guardar uma confidência legítima é um acto de responsabilidade. Preservar a intimidade alheia é uma manifestação de respeito. Evitar a divulgação despudorada, descontextualizada ou extemporânea de informações é uma exigência de prudência.
Contudo, o Silêncio não é necessariamente virtuoso.
Pode esconder o medo, proteger interesses ilegítimos ou permitir a perpetuação de uma injustiça. Pode transformar-se num instrumento de cumplicidade quando é utilizado para impedir que a verdade seja conhecida. Pode servir, também, como conveniente refúgio de cobardes e oportunistas … porque “dar a cara” tem um preço!
Por conseguinte, importa distinguir o Silêncio prudente do Silêncio cobarde, a Discrição da Dissimulação e a Reserva legítima da Ocultação abusiva.
O Mestre Secreto deverá interrogar-se não, somente, sobre aquilo que pode revelar mas também sobre aquilo que, em sã consciência, não deve calar.
Porque, como diria Santo Agostinho, um dos maiores Doutores e Filósofos da Igreja Católica, essa mesma “Sã Consciência é a suprema demonstração da presença de Deus no Coração e na Mente do Homem”.
A verdadeira discrição não consiste em silenciar a Consciência; consiste antes em saber quando o Silêncio protege um “Bem legítimo” e quando a palavra se torna um “Dever Moral”.
3) A Fidelidade – a Honra como Coerência
A Fidelidade constitui outra dimensão essencial do Grau.
Ser fiel significa respeitar a palavra dada, cumprir os compromissos assumidos e permanecer coerente com os princípios que livremente se aceitou perfilhar – em total liberdade de consciência.
Contudo, a Fidelidade não deve ser confundida com submissão incondicional.
Um Homem pode ser fiel a uma pessoa (Esposa, Progenitores ou Superiores Hierárquicos) e discordar das suas opiniões e tomadas de decisão. Pode respeitar uma Instituição e criticar os seus erros. Pode reconhecer autoridade legítima de um Superior sem renunciar ao seu próprio julgamento moral.
A Fidelidade verdadeiramente digna não exige a suspensão do pensamento. Exige antes, pelo contrário, que o pensamento seja exercido com honestidade.
A Honra não reside na defesa obstinada de todas a s decisões tomadas, mas na capacidade de reconhecer os próprios erros, corrigir o que está errado e assumir as consequências das próprias escolhas. Porque viver é fazer escolhas – e aceitar as condições do trilho de vida que se escolheu percorrer …
A este respeito, a Fidelidade deverá começar por uma exigência interior: a coerência, a harmonia entre o que proclamamos “para fora” e aquilo que vivenciamos “por dentro” e praticamos no nosso Quotidiano.
É relativamente fácil defender a Justiça quando ela vai de encontro aos nossos interesses e conveniências conjunturais. É mais duro e difícil quando ela nos obriga a contrariar pessoas ou valores que estimemos, uma Instituição a que pertençamos ou uma posição de vantagem e conforto que desejemos preservar.
É precisamente nessas circunstâncias que a Fidelidade revela a sua verdadeira natureza. E é aí que o Maçom é chamado a revelar a sua verdadeira “fibra moral”, aquilo de que é feito “quando os lobos uivam” …
O Mestre Secreto não deverá perguntar apenas se permaneceu fiel aos seus compromissos mas, também, se esses compromissos continuam a ser compatíveis com os princípios éticos que lhes conferem legitimidade.
Numa palavra, se são compromissos dignos d´Ele e da sua condição maçónica.
Porque, sucintamente, a Fidelidade sem consciência pode converter-se em Servilismo; a Lealdade sem justiça pode transformar-se em Cumplicidade; e a Honra sem verdade e autenticidade não passa de mera Aparência.
4) Obediência – Autoridade e autonomia moral
A Obediência constitui, talvez, o mais delicado dos três temas.
Nenhuma Instituição organizada pode funcionar sem regras, responsabilidades definidas e reconhecimento de uma autoridade legítima. A Disciplina, a Confiança e a Cooperação são condições necessárias à realização de objectivos comuns.
A Maçonaria, enquanto Instituição Iniciática organizada, não constitui excepção.
Contudo, reconhecer a necessidade da Autoridade não significa atribuir-lhe um Poder Moral ilimitado.
A História demonstra que a Obediência, quando desligada do discernimento, pode permitir a execução de Actos contrários à Dignidade Humana. A Responsabilidade individual não desaparece pelo simples facto de uma ordem ter sido emitida por Alguém investido de Autoridade.
Immanuel Kant (1724-1804), na sua “Crítica da Razão Pura”, faz uma reflexão sobre a autonomia moral, defendendo a importância de uma vontade capaz de se orientar racionalmente por princípios, em vez de depender exclusivamente de imposições exteriores ou de interesses particulares.
Aplicada ao nosso tema, esta perspectiva conduz a uma conclusão relevante: cumprir uma ordem não dispensa o indivíduo de avaliar a sua justiça e legitimidade moral.
A Autoridade pode organizar a acção mas não substitui integralmente a consciência. A Hierarquia pode distribuir responsabilidades mas não elimina a responsabilidade de quem decide obedecer – porque a obediência, por mais herméticas que sejam as cadeias de respeito hierárquico consideradas, é sempre um acto individual, de concretização de uma liberdade de consciência, exercida por Homens, por definição, livres.
Daí que a Obediência moralmente responsável exija, sempre, discernimento e sentido de equilíbrio.
Implica respeitar as regras legítimas, reconhecer os limites da própria competência e aceitar a disciplina necessária à vida colectiva.
Mas implica, igualmente, conservar a capacidade de questionar, recusar e denunciar aquilo que seja manifestamente injusto ou ilícito.
O Mestre Secreto deverá, assim, compreender que a verdadeira disciplina não consiste em abdicar da liberdade de pensamento – consiste em saber utilizá-la com responsabilidade. Ou não fosse um Mestre Maçom um “livre Pensador”.
5) O Segredo e a Verdade – os limites da reserva
A simbologia do Segredo convida-nos a reflectir sobre a relação entre Conhecimento, Confiança e Responsabilidade.
Hã segredos que merecem ser preservados: os que protegem a intimidade, a confiança legitimamente depositada, a segurança de Terceiros, a integridade do Estado de Direito ou a natureza reservada de um compromisso lícito.
Mas existem, também, segredos utilizados para proteger abusos, encobrir comportamentos ilícitos, “fora-da-lei” ou evitar a responsabilização de quem exerce o Poder – dando sustentação, neste caso, à prática de Abusos ou, mesmo, de crimes.
A natureza confidencial de uma informação não lhe confere, por si só, legitimidade moral.
É necessário distinguir a confidencialidade que protege um Bem legítimo da opacidade que protege um interesse ilegítimo ou, mesmo, ilegal.
Esta distinção é particularmente importante quando pensamos nas Instituições, sejam elas Públicas ou Privadas. A confiança institucional não se constrói, somente, através da reserva; constrói-se, também, através da integridade, da transparência adequada e da responsabilização.
No Estado de Direito, o segredo profissional, privacidade e a confidencialidade possuem fundamento legítimo e merecem protecção. Mas essa protecção não deve ser confundida com uma imunidade absoluta perante a Lei ou com uma autorização para ocultar a prática de Ilícitos.
A mesma exigência ética pode ser formulada pra a vida maçónica: a discrição deve proteger a dignidade da Instituição e dos seus Membros mas nunca substituir a Integridade que lhes dá sentido; deve, isso sim, complementá-la.
O Segredo mais importante talvez não seja aquele que impede os outros de terem acesso a uma informação mas aquele que nos obriga a preservar a rectidão do nosso próprio carácter quando ninguém nos observa.
6) O Templo Interior – o Trabalho permanente sobre si Próprio
O simbolismo da construção permite-nos compreender o aperfeiçoamento moral como um trabalho que nunca que nunca se encontra definitivamente concluído.
O Templo interior não se constrói, apenas, com conhecimentos adquiridos, fórmulas repetidas ou símbolos compreendidos intelectualmente.
Constrói-se através de escolhas concretas.
Cada acto de justiça, cada compromisso cumprido, cada erro reconhecido e cada preconceito superado contribuem para a construção do Carácter. Do mesmo modo, cada acto de vaidade, cada injustiça tolerada e cada concessão consciente à desonestidade poderão comprometer esse compromisso de aprimoramento moral do indivíduo e poderão deitar por terra essa Obra.
O aperfeiçoamento exige, portanto, autocrítica.
Não basta identificar as imperfeições dos Outros; é necessário reconhecer as nossa próprias incoerências e contradições. Não basta proclamar princípios – há que verificar se a nossa conduta os confirma.
Sócrates (470 – 399 ac) associou a vida examinada à procura de uma existência intelectualmente consciente. Aristóteles, por seu lado, destacou a importância da formação do carácter através da prática das virtudes.
Embora provenientes de tradições filosóficas distintas da Maçonaria, estas perspectivas permitem aprofundar uma questão essencial do Grau: o conhecimento de si mesmo não é um exercício de contemplação passiva mas uma condição para a transformação moral.
O Mestre Secreto deverá, portanto, procurar menos a aparência da perfeição do que a honestidade do aperfeiçoamento.
A verdadeira elevação não se mede exclusivamente pelo Grau alcançado, pelos conhecimentos adquiridos ou pelo reconhecimento dos seus pares.
Mede-se, também, pela capacidade de agir correctamente quando a decisão é difícil, quando os interesses pessoais aconselham o contrário e quando não existe qualquer recompensa exterior.
7) A Honra sem Testemunhas – a Prova decisiva do Carácter
Existe uma pergunta simples que pode servir de critério à nossa reflexão: Agiríamos da mesma forma se ninguém pudesse conhecer a nossa decisão?…
Quando uma pessoa cumpre um dever apenas para obter reconhecimento, evitar uma censura ou preservar uma posição, a sua conduta permanece dependente de factores exteriores ou extrínsecos.
Quando, pelo contrário, actua correctamente, mesmo na ausência de Testemunhas, revela uma relação mais profunda com os seus próprios princípios.
A Honra não necessita de ser permanentemente proclamada aos “quatro ventos”. Manifesta-se, antes, na coerência silenciosa dos actos e dos gestos.
A Integridade revela-se na forma como tratamos quem não possui Poder para nos recompensar, na maneira como reconhecemos os nossos erros na coragem com que assumimos responsabilidades que seria mais cómodo e conveniente transferir para Terceiros …
Também se revela na capacidade de discordar sem humilhar, de corrigir sem perseguir e de exercer Autoridade sem abusar dela.
Ser Mestre Secreto não significa que se possa presumir que se alcançou algum tipo de superioridade moral sobre os outros. Significa aceitar uma exigência acrescida sobre si próprio.
O Grau não deverá constituir motivo de vaidade mas, antes, um convite à responsabilidade. Não uma autorização para julgar os outros mas uma razão adicional para eu examinar a minha própria conduta.
8) Conclusão – o Dever de permanecer livre
O Silêncio, a Fidelidade e a Obediência não são virtudes absolutas, independentes das circunstâncias e dos princípios que lhes conferem sentido.
O Silêncio deve ser orientado pela Prudência, sem se transformar em Cumplicidade.
A Fidelidade deve ser sustentada pela Honra, sem degenerar em Servilismo.
A Obediência deve respeitar a Autoridade legítima, sem anular a autonomia moral de cada um.
E o Segredo deve proteger a Confiança, sem se converter num instrumento de Impunidade.
Estas distinções conduzem-nos à questão central do Mestre Secreto: a responsabilidade de conciliar a pertença a uma comunidade com a liberdade interior de quem sente, pensa, julga e decide.
Uma Instituição verdadeiramente digna de confiança dos seus Membros não deverá recear a integridade das suas consciências; pelo contrário – deverá encontrar nela uma das suas melhores garantias.
A Disciplina sem Liberdade pode gerar Conformismo. A Liberdade sem responsabilidade pode originar Arbitrariedade. E a Fidelidade, sem Discernimento, pode desencadear Cumplicidade.
O Desafio do Mestre Secreto consiste em conciliar Disciplina e Liberdade, Compromisso e Autonomia, Discrição e Verdade.
Talvez esse seja um dos sentidos mais profundos do seu Trabalho: compreender que o aperfeiçoamento iniciático não se conclui com a aquisição de um Grau, porque a verdadeira medida do progresso permanece na qualidade das nossas escolhas.
A Chave Simbólica pode representar o acesso a um conhecimento mais profundo. Mas, nenhuma chave abre, por si só, a porta da Integridade.
Essa porta só se abre através do trabalho continuado da Consciência.
E, quando chega o momento de escolher entre a conveniência e a justiça, entre a submissão e o discernimento, entre a aparência e a verdade, cada um de nós permanece responsável pela decisão que toma.
Porque a Fidelidade mais exigente é a Fidelidade àquilo que reconhecemos, racional e conscientemente, como justo.
E a Honra mais elevada não consiste em nunca questionar a Autoridade mas em nunca abdicar da responsabilidade moral pelos nossos próprios actos.
Que o Silêncio nos ensine a Prudência, que a Fidelidade nos preserve a Honra e que a Consciência no impeça de confundir o Dever com a submissão cega.
ECE, M. M.
