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O Cavaleiro do Sol – Grau 28 do REAA

✍️ Desconhecido 📅 13/05/2024 👁️ 5 Leituras
Avental do Grau 28 – Cavaleiro do Sol ou Príncipe Adepto (REAA)
Avental do Grau 28 – Cavaleiro do Sol ou Príncipe Adepto (REAA)

Origem hermética

O Grau 28 – O Cavaleiro do Sol – é de origem essencialmente hermética. Na sua essência reflecte ensinamentos alquímicos e gnósticos, o que o torna de difícil compreensão pelo Irmão que não tenha qualquer conhecimento destas tradições. Segundo Rogers, este grau teria surgido em meados do século XVIII, na Loja mãe escocesa de Marselha, fundado por um viajante chamado Georges de Walmon, um nobre que fazia parte do séquito do pretendente ao trono da Inglaterra, Carlos Eduardo, por volta de 1765.

Já Jean Palou sustenta ser o grau 28 dedicado ao Espírito Santo, representativo da evocação da unidade em oposição à pluralidade, o que em termos herméticos significa uma figuração da ideia da anima e do spiritus, ou seja, a alma e o espírito, que são respectivamente, a mente e a energia primordial que anima a vida humana, condensadas, ou sintetizadas no Cristo, conforme o simbolismo cristão, ou na pedra filosofal, segundo a simbologia alquímica.

A Palavra Sagrada do grau, expressa pelo vocábulo Abba (Pai) é uma das denominações hebraicas da Suprema Divindade, significando, segundo Ragon, rei sem mácula, denominação muitas vezes dadas por escritores gnósticos e herméticos a Jesus Cristo.

Da Camino, no entanto, informa que o grau 28 é uma criação do Padre Perrueti, fundador da seita “Os Iluminados de Avinhão”. Como este autor não revela a sua fonte, não é possível aquilatar a veracidade desta informação.

Todavia, pelo próprio desenvolvimento do ensinamento do grau, essencialmente gnóstico e alquímico, nos inclinamos a ficar com Rogers, que aponta o seu carácter hermético, ligado aos trabalhos do misterioso viajante cosmopolita, o cidadão do mundo, como gostavam de designar a si mesmos os adeptos da arte de Hermes, e mais tarde os próprios pensadores do círculo rosa-cruciano, que introduziram as tradições do hermetismo nos rituais da Maçonaria especulativa.

Rogers assinala ainda a analogia existente entre o primitivo ritual do grau do “Cavaleiro do Sol”, redigido por volta de 1765, e os ensinamentos alquímicos expressos no diálogo que dava inicio à cerimónia de elevação:

P.: – O que representa o sol?
R.: – A Unidade, o Ser Supremo, a única e exclusiva matéria da Grande Obra da Filosofia.

P.: – O que representam os três castiçais?
R.: – Os três graus do fogo a que se deve submeter a primeira matéria.

P.: – O que significam os sete planetas?
R.: – As cores principais que aparecem durante o regime.

P.: – O que representam os sete querubins?
R.: – O sete diferentes metais.

P.: – O que representa o Espírito Santo?
R.: – O espírito universal que dá vida a cada ser nos três reinos da natureza: o vegetal, o mineral e o animal.

P.: – O que representa a cruz?
R.: – Ela faz alusão a Jesus Cristo. Assim como ele nos purifica pela sua morte, a natureza, chegando ao seu grau de perfeição por meio deste novo Renascido dessa natureza sem mácula, purifica os metais imperfeitos e dá saúde ao corpo produzindo o ouro fixo e potável.

P.: – O que quer dizer o caduceu?
R.: – O mercúrio duplo que se deve tirar da natureza, isto é, o mesmo mercúrio fixo, que se torna prata e ouro.

P.: – O que quer dizer a palavra “stibium” ?
R.: – A senha do Filósofo, que significa antimónio, de onde se tira o Alkalës, que se chama “a Grande Obra, ou a Obra dos Filósofos.”

Este hermético interrogatório mostra o quanto este grau, na origem, estava impregnado de tradições alquímicas. Os acréscimos posteriores, que se traduzem nas alusões políticas expressas no ritual são interpolações motivadas pelos acontecimentos. Isto mostra o quanto a Maçonaria é flexível e se adapta perfeitamente à exigência dos tempos.

A Câmara do grau

Uma interpretação mais corrente da simbologia contida no titulo “O Cavaleiro do Sol”, no entanto, é aquela que evoca antigas tradições, principalmente egípcias e cadeias, do culto ao sol. Esta interpretação tem a sua razão de ser, partindo do principio de que praticamente todas as religiões antigas, com excepção do monoteísmo hebreu, tinham no mito solar o ponto central das suas doutrinas.

É preciso não esquecer também a revalorização das religiões solares, empreendida por Giordano Bruno e outros filósofos gnósticos no início da Idade Moderna e a sua grande influência no pensamento rosa-cruciano que influenciou os ritos da Maçonaria moderna.

A câmara do grau 28 é uma representação do Éden, guardado por sete querubins. Numa caverna, posta no centro desse território sagrado, se desenvolve a cerimónia de iniciação. Quando o casal humano dele foi expulso, Deus ordenou aos querubins que não deixassem mais ninguém entrar ali. Simbolicamente, o Jardim do Éden permaneceu como sendo aquele estado de inocência e perfeição individual, (ou a sociedade perfeita e ordeira) que o homem possuía antes da sua queda, estados esses que almeja recuperar desde então, através dos rituais iniciáticos ou da prática religiosa.

Este tipo de estado, (de consciência, ou estado social), sempre foi identificado ao mito solar. Giordano Bruno o associava ao ciclo solar e os egípcios antigos tinham em Rá, o Sol, a expressão máxima da divindade. A ciência moderna atribui à luz do sol a responsabilidade pela existência da vida na terra. Assim, nada há de estranho que os maçons contemplem com um grau do seu catecismo uma evocação a este princípio criador, que é, ao mesmo tempo, representativo da divindade e agente criador da natureza.

O quadro do grau também nos dá uma ideia do seu conteúdo hermético. Trata-se de um lugar iluminado apenas pela luz do sol. No centro, um triângulo marcado com um tríplice S, que significa science, sagesse, saint. Esta divisa quer dizer que a ciência, adornada pela sabedoria faz o homem santo. Este é um famoso postulado dos filhos de Hermes. Significa que adquirir conhecimento, sem saber o que fazer dele, ou utilizá-lo em proveito próprio, ou para o mal, é uma “ciência sem consciência’, que antes prejudica do que ajuda aquele que a pratica. Mas o conhecimento utilizado com sabedoria faz daquele que o detém um verdadeiro santo.

Para os alquimistas, entretanto, o tríplice S significava que o sol “era o rei do universo, assentado sobre um trono resplandecente”, (stelato sedet sólio), o que na moderna linguagem gnóstica poderia também significar a estrutura atómica do universo e as suas diversas interacções, que resultam nas realidades que formatam o mundo material.

Da mesma forma, a mulher coberta por um véu que aparece ajoelhada em atitude de êxtase no painel do grau, sobre uma nuvem que encima um globo terrestre circundado por um rio, com a palavra stibium em baixo, é “a virgem mineral” (a terra mãe), da qual foi tirado o primeiro homem. Ela é a Vénus, ou Minerva, ou ainda Ísis, A Virgem Maria e a Pistis Sofia, que aparece em toda simbologia arcana como a deusa da Vida, símbolo da terra que empresta o seu útero para a tarefa de regeneração.

Muito apropriadamente o presidente da Loja no grau 28 é chamado de “pai Adão, Primeiro Pai ou Pai dos Pais”. Ele representa o “homem desperto” das tradições iniciáticas, o “filósofo da Grande Obra”, ou o “homem universal“ da esperança maçónica. É também o arquétipo do “homem da terra” da tradição essência, feito à imagem e semelhança do “homem do céu”.

Como o Éden é uma representação do céu na terra, o homem que habitava no Éden antes da queda, ou seja, o casal terrestre, antes do pecado, era um arquétipo desses seres perfeitos. Desta forma, o presidente da Loja é uma representação desse arquétipo, um “Adão” antes da queda.

No ritual de 1765, segundo informa Rogers, “o rio que percorre todo o globo terrestre” (…) representava a utilidade das paixões necessárias ao homem no decurso da sua vida, como as águas são úteis à terra para fazê-la frutificar”.

Este rio, segundo o grego Hesíodo na sua obra gnóstica Teogonia, era chamado de Ôkénos, ou seja, o grande mar, o Oceano. Para ele, esse rio era o “pai de todas as águas” e junto com Tétis, a Lua, tinha gerado todos os deuses e os seres vivos. Nesta alegoria se percebe que os gregos, (e os gnósticos também), já tinham conhecimento das teses que situam a origem da vida no mar.

Aliás, Tales de Mileto, no século VI a C. já advogava essa ideia. Para o simbolismo maçónico, o rio que envolve o globo terrestre tem o mesmo significado que a serpente uraeus para os egípcios. Representa o dinamismo da renovação perpétua, num processo de vida que alimenta a si mesma, morrendo sempre para poder nascer eternamente.

No Génesis também há referência a um rio que se assemelhava a “um vapor que subia da terra e dava de beber a toda a face do solo”. Este “vapor”, como o rio do quadro do 28º grau, pode ser considerado como uma emanação da vida que flui eternamente e se renova sempre pela reposição.

O Primeiro Vigilante, chamado de Irmão Verdadeiro, representa o líder dos querubins guardiões do território sagrado, onde repousa, radiante, a Árvore da Vida. O Olho Dourado inscrito dentro de um triângulo no seu ceptro é o olho omnisciente de Deus (o olho de Osíris, ou Rá na mitologia egípcia), que “vê” o universo em todas as suas dimensões.

Nos sete altares que compõem o santuário do grau 28º, sentam-se os sete querubins, que além de guardiões do Éden são também os presidentes dos sete planetas que constituem o sistema planetário gnóstico: Sol, Mercúrio, Vénus, Lua, Saturno, Júpiter e Marte. Os nomes dos querubins, de acordo com o ritual são, respectivamente, Zaraquiel, Tsafiel, Ouriel, Rafael, Gabriel, Hemaliel e Michael. Alguns dos nomes desses querubins podem ser encontrados na Bíblia, (Gabriel, Michael, Rafael e Hamaliel), os outros são citados em obras gnósticas e no Zhoar, o livro da Cabala.

Na Doutrina Secreta, a força construtiva do universo chama-se Fohat, que é uma energia (electricidade) cósmica que brotou do Cérebro do Pai e do Seio da Mãe. Depois transformou-se em macho e fêmea, isto é, energia positiva e negativa. Fohat têm seis filhos que são também seus irmãos. (São formas de energia cósmica, que podem ser entendidas como Electricidade, Som, Magnetismo, Coesão, Calor e Força). Cientificamente podemos dizer que essas forças actuam como leis naturais, produzindo os fenómenos universais. Na simbologia maçónica, estas energias são o que chamamos “Obreiros do Universo”, que na tradição cabalística podem ser representados pelos “anjos” construtores.

Já vimos que na tradição da Cabala, a construção do cosmos é vista como uma actividade espiritual extremamente criativa, inspeccionada por seres inteligentes e não como uma actividade mecânica e material, presidida por leis exclusivamente naturais. Por outro lado, antigas tradições gnósticas, principalmente defendidas pelo Bispo Valentino, sugerem que a Igreja Romana sempre soube que Jeová era um Nome de 2º ordem na  Ordem de manifestações do Eterno. Jeová, na verdade, é um Elohim. O Deus que aparece no Génesis criando o homem “ à sua imagem e semelhança” também é um Elohin, ou seja, um anjo pertencente às hostes daquela Ordem angélica. Esta Ordem preside uma das fases de construção do universo mas não em absoluto a criação do mundo. São como “ Mestres construtores” de uma parte da estrutura do edifício cósmico, já que esse edifício é construído em dez etapas diferentes, cada uma presidida por uma Ordem angélica, e cada Ordem têm o seu Arcanjo Mestre, como é mostrado na Árvore da Vida, da Cabala. Isto explica a linguagem pluralística usada em Génesis 1;2 (façamos o homem à nossa imagem e semelhança) quando trata da formação do homem, como a denotar que o homem não foi feito por “um Deus”, mas por um grupo de Arcanjos, que o moldou à sua imagem e semelhança.

Desta forma, o grau 28, titulado como o Cavaleiro do Sol, ao mesmo tempo, que homenageia a Arte de Hermes , nleva-nos a uma verdadeira incursão pelas doutrinas gnósticas e cabalísticas, o que faz dele um dos mais belos e místicos graus da Escada de Jacob.

João Anatalino Rodrigues

Do livro “Mestres do Universo”, publicado pela Ed. Biblioteca 24×7 – São Paulo, 2011

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