O analfabetismo funcional e a Maçonaria: a leitura está em extinção?
Este texto é uma adaptação de “O analfabetismo funcional e o direito: o que é um texto?” de Lenio Luiz Streck, publicado em 8 de Junho de 2023 na coluna do CONJUR intitulada Senso Incomum
Existem irmãos que, apesar de saberem ler e escrever formalmente, não conseguem redigir um texto de forma correcta, muito menos uma pequena mensagem. E não conseguem interpretar. Talvez por isso o ChatGPT faça tanto sucesso. Ele escreve no lugar de quem não sabe redigir. Bizarro.
Informações do INAF (índice nacional de analfabetismo funcional) dão conta de que 38% dos universitários – sim, dos universitários brasileiros – são analfabetos funcionais. Bom, parece alto o índice. De todo modo, fosse 20% já seria demasiado. Imaginem vocês se houvesse uma pesquisa no seio da Maçonaria tupiniquim? Qual seria o índice de analfabetismo funcional na Maçonaria?
Vejamos o tamanho do buraco. E mais: quantos analfabetos funcionais estão na fraternidade maçónica? Assim, em tese, um em cada três maçons (aproximadamente) não consegue entender o conteúdo dos textos – inclusive este. Isto explica os comentários que tenho recebido, algumas ameaças, inclusive. E explica o que circula nas redes sociais. Eles são muitos. Vencerão.
E muitos se tornam influencers. Na Maçonaria, diversos são os irmãos com canais no YouTube, Instagram, Facebook e quejandos, espalhando a mensagem maçónica com chamadas apelativas: “O segredo maçónico”, “Pelé era Maçom”, “Descubra os segredos da Maçonaria”, “Aprenda a ser Maçom”, “Os símbolos secretos da Maçonaria”. Basta colocar a palavra “secreto” e pah! Virou Maçonaria.
Tendo escrito a trilogia sobre a nescionaria, dei-me conta que um dos principais problemas da fraternidade maçónica é o analfabetismo funcional, o mesmo que assola a sociedade brasileira. Aliás, há uma barreira do senso comum que impede a compreensão mínima. Não há aquela “barra”, a metáfora entre significante e significado. Eis a razão pela qual muitos irmãos rechaçaram os textos sobre a nescionaria.
O Maçom analfabeto funcional é um psicopata epistemológico, por assim dizer. Dá para entender, assim, por que a TV tem uma linguagem que liga directamente a coisa à palavra. Lembro de uma reportagem na TV sobre a Maçonaria, onde o Repórter apresentava a notícia: “os maçons foram responsáveis…” em frente a uma Loja Maçónica.
Na Maçonaria brasileira, o problema vem de muito tempo. Com os plágios descarados em “peças de arquitectura” apresentadas em Loja e, algumas vezes publicadas em meios de comunicação! Pasmem! Em determinada data, um estudioso irmão traduziu um determinado texto inédito. Passados 3 meses, outro irmão, este famoso, ocupante de cargo na Potência, apropriou-se e republicou a tradução como se ele fosse o tradutor! Até as notas de rodapé do tradutor original foram copiadas. Pior! Como o texto era importante para determinado sistema de ensino, passou a ser divulgado aos quatro cantos do mundo maçónico que o “tradutor” seria o tal ocupante de cargo na Potência. Um detalhe simples: o “copiador” não dominava o idioma do texto que supostamente traduziu.
Mas não para por aí! A bola da vez agora é o conhecimento maçónico por doses, pílulas, resumos, resumos de resumos, traduções de wikipedias maçónicas e quejandos. E as fontes? Irrelevante! O importante é escrever! Seja F… em Maçonaria! Escreva, mesmo que não entenda do assunto, coloque termos como “secreto”, “egrégora”, “GADU” dentre outros e pah! Tem-se a fórmula de um especialista em Maçonaria, ainda que não compreenda aquilo que lê.
E se alguém criticar os resumos, resuminhos e resumos dos resumos? Enfrente-os. Diga que são irmãos arrogantes, não passam de académicos petulantes. Ofenda-se e espalhe as peças de xadrez no tabuleiro. Pronto! Tudo resolvido! Voltando a temática do analfabetismo funcional, indaga-se: Quem lê peças de arquitectura? Quem lê textos, artigos, estudos sobre a Maçonaria? Quem lê livros sobre a fraternidade? Por que TikTok, Reels do Instagram e similares fazem tanto sucesso? Viva o império do simples. Do fácil.
Ler exige tempo, foco e dedicação. Vivemos num mundo instantâneo. Tudo tem que ser para ontem, o imediatismo do prazer impera e nesse contexto, o foco, a concentração não consegue ultrapassar o tempo de um “reels”, de um “tiktok”. Ao que consta, assim o é na fraternidade maçónica também! Logo, tudo indica que a leitura entrará, se é que já não entrou, em extinção.
As palavras estão morrendo. Em 1726, Jonathan Swift já denunciava isto, com o seu sarcasmo e às vezes nem tão subtil ironia. Um cientista de Lagado (Se não sabe onde fica, leia “As viagens de Gulliver”!) descobriu que as palavras podiam ser extintas. Bastava carregar em seu lugar as coisas. Mostrar. Apontar com dedo. Não diga “malhete”; apenas mostre o objecto…
Swift também foi o primeiro a denunciar os “emojis”. Em “Viagens…”, outro cientista, para eliminar frases, propõe monossílabos e onomatopeias. A literatura sempre chega antes. Séculos antes! Com Swift (e cito apenas ele) dá para aprender sobre o status quo da Maçonaria actual “melhor do que nas Lojas” (onde, na maioria das vezes, apenas repetem-se, de modo vazio, o teatro alegórico descrito nos rituais). Com Machado de Assis também. Mas não com machado.. E o que dizer da crítica filosófica aos empiristas, quando “descreve” o conteúdo dos bolsos de Gulliver? Ah, os factos brutos…
Bom, esforçamo-nos e parece que chegamos lá. E vamos para a terra dos Houyhnhnms. Com a certeza de que 38% dos brasileiros (universitários) – e mais um percentual dos já formados – não entenderão este texto. Provavelmente, por analogia, o mesmo número de irmãos. Vamos romper este círculo vicioso?
Rui Aurélio De Lacerda Badaró, V. M. da Justa e Perfeita Loja de São João, nº 680, Or. de Sorocaba, GLESP
