Modelo geral de análise e interpretação simbólica (II)
Um exercício aplicado no contexto do Regime (Rito) Escocês Rectificado
(… Continuação)
4 O MGA&IS no contexto da recepção ao Grau IV do RER
A dramatização do Grau IV, representada em 4 (quatro) Actos, correspondentes aos painéis, se dá no contexto do retorno do povo hebreu depois do cativeiro na Babilónia. O Ritual alude a Nabucodonosor, mas foi o seu filho, Nabucodonosor II [33], quem atacou o Reino de Judá, cercou e saqueou Jerusalém, profanou, sequestrou os bens e destruiu o Templo e, por fim, levou os judeus, na condição de cativos, para a Babilónia, aonde permaneceram por cerca de 70 anos até que, autorizados por Ciro, retornaram para reconstruir, a pedido de Ciro, o Templo. O episódio é relatado nos livros 2Reis:25, 2Crônicas:36, Esdras e Neemias.
A título de exercício foram escolhidos 3 (três) eventos: 1) a entrada dos recipiendários, o que oportuniza também tecer considerações sobre o primeiro painel; 2) um objecto que desde o Primeiro Grau se encontra sobre o altar do Venerável (nas Lojas Azuis) e do Deputado-Mestre (nas Lojas de MESA) mas que sobre o qual até então não fora feita nada mais do que uma mera menção nos Graus precedentes; e, 3) uma citação extraída do Ritual do IV Grau. A escolha de cada um desses eventos atendeu aos objectivos específicos que consistem em explorar inclusive as limitações do MGA&IS, por ora o objectivo principal do trabalho, mais do que realizar um exercício propriamente dito sobre o simbolismo. À conclusão, espera-se que o Modelo se constitua em mais um instrumento (simbólico) de trabalho do Maçom.
Quadro 2: Matriz de Eventos da Recepção ao Grau IV do RER – Interpretados Segundo Proposta de McGrath
| OS SENTIDOS DE INTERPRETAÇÃO SEGUNDO McGRATH | EVENTOS | ||
| I
a entrada dos recipiendários |
II
a trolha |
III
o horário de trabalho do MESA |
|
| Literal | I.1 | II.1 | III.1 |
| Alegórico | I.2 | II.2 | III.2 |
| Tropológico | I.3 | II.3 | III.3 |
| Anagógico | I.4 | II.4 | III.4 |
Para aqueles que não dispõem do Ritual, os painéis (ligeiramente modificados) também podem ser vistos em Bermann (op. cit., p. 90, 96, 112 e 128). O primeiro painel, em Bermann, apresenta o Templo destruído, as paredes, as colunas e o Mar de Bronze em ruínas. À entrada, espalhadas nos 7 (sete) degraus de acesso, fragmentos de correntes. A mensagem geral (de destruição e correntes rompidas) trazida pela figura do Ritual é semelhante, porém com diferenças notáveis aos olhos interessados nos detalhes que reverberam na leitura simbólica: 1) enquanto que em Bermann as bases das colunas, claramente identificadas como J & B (porque ambas ocas), ainda estão erectas (no que se assemelham à adhuc stat do Primeiro Grau), as do Ritual se encontram completamente tombadas e não é claro se correspondem ou não às de J & B; 2) no primeiro há a sinalização dos quatro pontos cardeais, no segundo, não; e finalmente, 3) no segundo as correntes estão distantes das escadas. Com efeito, em 2Reis:25 se lê: “Queda de Jerusalém […] Fez executar os filhos de Sedecias [o Rei] na sua presença. Cegou Sedecias, pôs-lhe corrente de bronze e o levou para a Babilónia. E em 2Crónicas que “Levou para a Babilónia todos os objectos do templo […] Incendiaram o Templo, derrubaram a muralha de Jerusalém […] Levou desterrados para a Babilónia os sobreviventes […] foram escravos […] até o triunfo do reino persa”. Adiante, no mesmo capítulo, versículo 23:
Ciro [34], rei da Pérsia, decreta: O Senhor, Deus do céu, entregou-me todos os reinos da terra e me encarregou de lhe construir um templo em Jerusalém de Judá. Todos os que são desse povo e vivem entre nós podem voltar. E o Senhor seu Deus esteja com eles.
Assim e em linhas gerais, tem-se esclarecidas tanto a imagem de destruição e a presença das correntes no primeiro painel, como o modo da condução dos recipiendários à Loja: acorrentados. Feitas estas considerações e apreciadas em conjunto, o MGA&IS convida às seguintes reflexões:
- I.1 – a perspectiva literal não admite acréscimos, excepto a constatação de que a diferença de imagens (Bermann vs. Ritual) implica em considerações simbólicas igualmente diferentes. Por exemplo, as bases das colunas ainda em pé sugerem que a destruição não foi completa, talvez algo ainda possa ser (re)aproveitado, o que foi destruído é porque não era tão sólido, mas as bases ensejam confiança na reconstrução. A anotação dos pontos cardeais confere mais universalidade à realidade apresentada, assim como aos seus desdobramentos, situação análoga à disposição das correntes, em um caso sobre as escadarias e no outro à distância;
- I.2 – o olhar alegórico convida à ampliação das reflexões: quais as causas (as objectivas e também as subjectivas) da destruição, qual a sua extensão, é possível reaproveitar os alicerces, a quem atingiu, poucos ou muitos? Em não havendo personagens identificados o recipiendário é um símbolo e no seu entorno o enredo se desenvolve no contexto neo-veterotestamentário que singulariza o Rito e sobretudo o Grau, uma extensão do Mestre em III Grau, estágio a partir do qual a vida espiritual (interior) tem a primazia sobre a material. Portanto, como o corpo vive, o Templo destruído é o interior, o que acontece sempre que os vícios predominam sobre as virtudes e toma-se distância do divino. O Templo destruído não é mais o de Salomão, mas aquele que cada um carrega em si mesmo e se confunde com o próprio ser moral e espiritual. E a destruição também não é datada, deu-se, se dá e poderá se dar a qualquer momento, no ciclo catábase-anábase assemelhado ao eterno retorno de Eliade (s.d.). A solução também está à vista: libertar-se (quebrar as correntes) da escravidão dos vícios, pois só assim poderá ter início a reconstrução desejada, o que então é apresentado na sequência da dramatização e através dos demais painéis. A corrente fragmentada sugere o primeiro êxito, pois as mãos (e o pensamento) agora livres podem dar curso à vontade e à acção, após os desvios, no sentido à rectificação. Ademais, ao leitor atento não escapa o facto de que foi Ciro, e não um descendente de Davi, o grande responsável pelo retorno, pela oferta de (mais) uma oportunidade da reconstrução do templo interno tantas vezes destruído ao longo da saga épica. Fica também aqui, implícita a mensagem (tantas vezes presente na Bíblia) consagrada no aforismo já popular: “Deus escreve o certo por linhas tortas”, isto é, concede a chance da reconstrução (individual e colectiva), mas antes, para o despertar da consciência, foram necessárias a derrota, a humilhação, o desterro e, por fim, a intervenção de um “estranho” para que a história retornasse ao seu eixo e a bom termo. A extensão da análise simbólica, com o cuidado de não se afastar do eixo central, é vasta, depende tão somente do engenho, da arte e da habilidade de quem se propõe a realizá-la. Portanto, para concluir esta seção, mas sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, a lembrança de que as considerações sobre a destruição estampada no painel, a partir das colunas podem ser relacionadas, comparadas, sequenciadas, etc., com as mensagens subjacentes à ritualística do I Grau;
- I.3 – já as considerações tropológicas remetem à reflexão sobre como as lições apreendidas nas etapas anteriores (I.1 e I.2) podem ser aproveitadas como directrizes e mesmo aconselhamentos pragmáticos na forma dos valores fundantes das atitudes e comportamentos no curso das relações no quotidiano – nos ambientes familiares, profissionais ou alhures. Se a Maçonaria é ciência, como afirmado por Preston (op. cit.), é então ciência aplicada. E sendo o homem, como disse Aristóteles, um animal político, gregário, e que hoje predominantemente vive em grandes cidades, então as suas relações em meio as hierarquias necessariamente são mediadas por regras, e estas alicerçadas em valores e na cultura (respeitadas as idiossincrasias): heranças geracionais que, porque bem-sucedidas no processo evolutivo (levaram à paz, à prosperidade, à felicidade, etc.) foram transmitidas tanto na forma de lições estruturadas (a partir das famílias, das escolas lato sensu), mas também na forma de histórias, lendas, parábolas, mitos e heróis populares. E neste caso, ao contrário do que sugere a coluna adhuc stat [35], que remete ao trabalho essencialmente individual, o empreendimento ora a ser realizado, há indícios, de que só poderá sê-lo com o envolvimento e o comprometimento de todos, o que então remete ao respeito às regras – é típico, no Velho Testamento, que o erro e a falta de um resultem na punição para todos, o que sinaliza que de algum modo, direita ou indirectamente, todos são responsáveis e, por extensão, se for o caso, culpados. Ademais, é sabido que a força (resistência) de uma corrente é tão grande quanto a do seu elo mais fraco; assim, também por isso, o sucesso do novo (futuro) empreendimento suscita a colaboração, a instrução, a divisão de tarefas, a liderança eficaz, quem sabe a persuasão ou mesmo contenção. Assim, o sucesso de um depende dos demais, e todos dependem de cada um, e vice-versa. Esse entendimento, per se, já sugere algumas e exclui outras atitudes e comportamentos no grupo de referência.
Optei por trazer à parte as reflexões sobre a abordagem anagógica – I.4 – porque, penso e testemunho, que ela não é, tal como as anteriores, extensiva a todos, mas restrita a um conjunto de pessoas, tanto na sociedade quanto entre os Irmãos, inclusive os Rectificados. E um dos motivos mais robustos para essa afirmação é a clara identificação da falta de coerência, entre os Iniciados, do que habitualmente se denomina, teoria vs. prática – o sugerido e prescrito nos principais textos e documentos vs. o comportamento no quotidiano, inclusive no seio da própria Ordem.
Entretanto, há motivos anteriores e menos polémicos, como por exemplo, a de que ela (a abordagem anagógica) requer a admissão de algumas premissas, em parte já apresentadas, que necessariamente devem ser tomadas em conjunto como, por exemplo e muito sucintamente: a existência de uma sabedoria universal e transcendental (expressão máxima do bem, do belo, do justo e responsável pela ordem) que dirige a todos e a tudo; a vida, na Terra, é tão somente um estágio, uma primeira etapa de um destino também transcendente – o nível espiritual – que só será atingido no final dos tempos. Mas se esta sabedoria é inalcançável à razão humana devido à Queda, é possível dela se aproximar e mesmo, para alguns, apreendê-la em determinados aspectos, o que desde então passa a ser o sentido da vida (a resposta a uma das questões fundamentais); todavia, dependerá ainda das condutas e, sobretudo, que se goze (seja merecedor) da sua graça, a da sabedoria. A vida, então, deve ser ordenada por essa dupla visão: adventista e escatológica – a revelação (do destino) no final dos tempos que, por sua vez, será ponderada e condicionada aos pensamentos, às atitudes e às acções quotidianas.
Neste contexto, se todos os pensamentos, atitudes e actos devem responder nos termos já estabelecidos às demandas, às necessidades e aos objectivos do quotidiano (no plano material), devem, também, ter os olhos voltados para o porvir – a chegada da parusia – na busca de se aproximar tanto quanto possível da sabedoria universal – a vida na eternidade da Nova Jerusalém -, afinal, disse João 14-2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas […]”[36]. A pergunta que então se coloca é: em que medida as leituras anteriores (I.1, I.2 e I.3) fornecem elementos aplicáveis à formulação das directrizes e práticas no sentido ao desprendimento da matéria e à elevação bem-sucedida?
A resposta parece imediata, pois a menos de uma troca de palavras que em nada compromete a essência do que ora se discute, é de se notar que enquanto as religiões se ocupam da salvação (da alma ou da forma espiritual dos corpos ressuscitados), a Ordem Rectificada se propõe à reintegração à unidade original, à célula (mónada, átomo) primordial, quando prevalecia o estado de glória (espiritual, inefável) e anterior à matéria e ao tempo. E qual o caminho apontado e seguido por algumas confissões das primeiras e o sugerido pela última? Não por acaso, para o Maçom Rectificado é o que está prescrito em João:14-6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém vai ao Pai se não for mim” no livro (da Lei – Bíblia) que durante os trabalhos em Loja (em todos os Graus) é mantido aberto sobre o altar; o caminho consiste em seguir as lições e os exemplos do Mestre. Noutros termos, o conjunto de princípios e valores identificados nos níveis alegórico e tropológico corresponde ao mesmo aplicável ao nível anagógico, sendo ambos produtos da matriz abraâmica, ainda que hoje mescladas, quando não amalgamadas, com elementos seculares.
A conclusão anterior, se de um lado apresenta aspectos positivos, pois o mesmo Caminho [37] leva a dois destinos, a dois propósitos (salvação e reintegração), de outro traz para dentro da Maçonaria em geral, e ao RER em particular, o que não deixa de ser um incómodo, pois as semelhanças são determinantes para que muitos confundam a Maçonaria com a Religião, não apenas o público externo, mas também o interno. O caso RER ainda possui nuances próprias que acentuam essa problemática, pois se requer dos postulantes que se declarem como cristãos, não explicita quais dos elementos do Credo, internamente, são ou não aplicáveis por ocasião dos estudos, da análise crítica e da interpretação simbólica relativas à doutrina, à ritualística e à liturgia. Aos que se aventuram são grandes os riscos de cruzar as fronteiras ténues e difusas. Portanto, s.m.j., é uma questão a ser melhor esclarecida.
Por oportuno, cabe então esclarecer a expressão utilizada acima: “a menos de uma troca de palavras [salvação – reintegração] que em nada compromete a essência do que ora se discute”. Considere uma expressão muito usual no âmbito do Rito Escocês Antigo e Aceito, a de que a Maçonaria “É uma Instituição que tem por objectivo tornar feliz a Humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à religião” (REAA, 2007, p. 28). Ora, tanto o fim quanto os meios reportados na frase vão ao encontro do que também se espera do Maçom Rectificado, mas enquanto alguns destes trilham a senda com vistas ao advento, à revelação e à salvação, outros, mesmo identificados como Rectificados têm por expectativa a reintegração que, a rigor, prescinde da crença na transcendência; todavia, ambos compartilham das mesmas estratégias identificadas a partir das abordagens I.2 e I.3 como meios para o atingimento dos seus objectivos ainda que parcialmente distintos. Mas enquanto o que se poderia denominar de “maçom secular” [38] se limita aos desdobramentos da leitura até o nível I.3, o “Maçom genuinamente cristão” crê estar também trilhando a senda do nível I.4. E de facto, como visto, as ferramentas são muito semelhantes, mas o “Maçom genuinamente cristão” necessita do recurso a outras não disponibilizadas pela Ordem – vide, mais uma vez, D´Ávila (2014) -, razão pela qual deve buscá-las, cada qual, nas suas respectivas confissões.
Importante destacar: em que pesem todas e quaisquer diferenças entre as Crenças em geral e o mundo secularizado, é essa larga superposição e intersecções de princípios e valores (comuns aos níveis tropológico e anagógico) orientadores das atitudes e comportamentos no quotidiano (isto é, no mundo secular), que torna possível a Maçonaria ser “[…] o Centro de União e o Meio de conciliação da verdadeira Amizade entre as Pessoas que poderiam de outra forma ter permanecido perpetuamente Afastadas” [39] (ANDERSON, 2012, p. 149).
Feitas essas considerações, fica esclarecido o motivo pela escolha da abordagem de McGrath, como também poderia ter sido a Bension, mas não a de Adler & Van Doren, todos citados por Pinheiro, Pellegrini e Varejão (2023): a característica cristã do RER. Dessarte, ao “Maçom secular”, seja ele praticante do REAA ou do RER, é suficiente a leitura (exercícios cognitivos de análise, interpretação simbólica e desdobramentos pragmáticos) até o nível I.3 de McGrath, mas poderia também se estender ao nível I.4 da perspectiva de Adler & Van Doren. De outro lado, ao “Maçom genuinamente cristão”, o enfoque de Adler & Doren pode não prover os nexos necessários à cosmovisão que circunscreve o mesmo nível, porém em McGrath.
O Quadro 2a, a seguir, introduz a análise, agora mais sucinta, dos demais eventos:
Quadro 2a: Matriz de Eventos da Recepção ao Grau IV do RER – Interpretados Segundo Proposta de McGrath
| OS SENTIDOS DE INTERPRETAÇÃO SEGUNDO McGRATH | EVENTOS | ||
| I
a entrada dos recipiendários |
II
a trolha |
III
o horário de trabalho do MESA |
|
| Literal | I.1 | II.1 | III.1 |
| Alegórico | I.2 | II.2 | III.2 |
| Tropológico | I.3 | II.3 | III.3 |
| Anagógico | I.4 | II.4 | III.4 |
A história da reconstrução do Templo, das Muralhas e das Portas de Jerusalém pode ser lida em Esdras e Neemias (Ne), de onde também podem ser extraídos importantes subsídios para o estudo dos demais painéis que instruem a Recepção ao IV Grau.
A trolha, também conhecida como “colher de pedreiro”, é um instrumento bastante conhecido na Maçonaria em geral, e no caso do RER, como já lembrado, desde o Primeiro Grau e ao lado de outros objectos, a exemplo da espada, decora o Altar do Venerável Mestre, de quem está alcance imediato da sua mão direita (RITUAL, 2018, p. 40). Além dessa presença física, à trolha, do I ao III Grau não há qualquer menção ao seu papel no drama (das Recepções) e nas narrativas ordinárias, excepto por uma breve menção na terceira instrução ao Aprendiz: “Qual é o uso da Trolha? Os Franco-Maçons servem-se dela para elevar templos à virtude” (op. cit., p. 236). Qual significado atribuir à convivência simultânea dessa presença e ausência?
Mas antes de tecer considerações mais específicas acerca da trolha, 3 (três) questões que, no mínimo, podem ser vistas como curiosidades, mas também como tema para futuros estudos. O ponto de partida é o que pode ser lido em Neemias 4 -10:
Contudo, desde aquele dia a metade de meus homens enquanto a outra metade estava armada de lanças, escudos, arcos e couraças […] Os que construíam a muralha e os carregadores estavam armados; com uma mão trabalhavam e com a outra empunhavam uma arma. Todos os pedreiros levavam a espada cingida na cintura enquanto trabalhavam.
- ora, qualquer texto de história maçónica apresenta a Maçonaria Especulativa como, senão herdeira, sucessora das tradições da Maçonaria Operativa cujo marco temporal é o medievo, ainda que a obra símbolo, Landmark do III Grau, seja a construção do Templo de Salomão, evento ocorrido na Antiguidade. Mas no que tange ao RER, por coerência com a sua singularidade, ainda que codificado na Modernidade, as suas raízes poderiam ser localizadas não na construção, mas na reconstrução do Templo levado a efeito pelos pedreiros judeus retornados do exílio babilónico;
- e qualquer texto de história do RER pontua que a espada é essencialmente um adorno (ainda que eivado de simbologia) que remonta à nobreza, também medieval. Ora, o texto acima, ainda que não negue essa afirmativa, também situa a utilização da espada desde a Antiguidade – durante a reconstrução do Templo, da cidade e das muralhas. Combinada à observação anterior, o binómio trolha-espada no canteiro de obras dos pedreiros judeus da Antiguidade descortina novas possibilidades de análise e interpretação simbólica não só da história como do simbolismo que constituem a Doutrina Rectificada. Aqui não será analisado, mas essa abordagem vai claramente ao encontro do segundo acto da dramatização: a dobradura do véu que cobre o segundo painel pois, “[…] com uma mão trabalhavam e com a outra empunhavam uma arma”; finalmente,
- na mesma linha das indagações curiosas, praticamente todos textos da Ordem quando referem ao retorno do exílio e à reconstrução do Templo destacam o papel de Zorobabel. Entretanto, em Esdras 1:7-11, pode ser lido que
Ciro mandou tirar os utensílios do templo que Nabucodonosor tinha levado de Jerusalém para colocá-los no templo do seu deus. Ciro da Pérsia os entregou ao tesoureiro Mitríades, que os contou diante de Sasabassar, príncipe de Judá […] Total de objectos de ouro e prata: cinco mil e quatrocentos. Sasabassar os levou todos consigo quando os desterrados subiram da Babilónia para Jerusalém.
Ou seja, embora a fama e o reconhecimento sejam atribuídos quase que exclusivamente a Zorobabel, quem liderou a primeira onda do retorno e deu início ao empreendimento da reconstrução foi o Príncipe Sasabassar; ademais, aquele contou com a colaboração decisiva de Esdras e Neemias. É provável que o maior destaque conferido à Zorobabel se deva à sua linhagem davídica e à circunstância de ter integrado, com Esdras, o primeiro grupo de repatriados, enquanto que Neemias veio somente após e o seu empreendimento está mais relacionado à cidade (muralhas e portas) do que ao Templo.
Ademais, e é importante sublinhar, a reconstrução não se limitou aos aspectos físicos e materiais, foi necessária uma efectiva reengenharia urbana e social (para acolher as caravanas dos que retornavam [40]), o que também exigiu alterações nos códigos, nos usos e costumes e a instituição de um novo marco legal para solucionar os problemas emergentes. Assim, com propriedade, pode ser dito que os pedreiros que retornaram do exílio foram efectivos (re)construtores sociais, muito antes de esta denominação (marca, para se ater ao jargão dos operadores da pedra) ser apropriada pela Moderna Maçonaria Especulativa.
Retome-se, então, à “leitura” da trolha mediada pelo MGA&IS:
- II.1 – a trolha é uma das ferramentas mais simples como também importantes para o pedreiro, simplicidade esta que pode ser apreendida até mesmo pelo objecto que é o seu substituto natural: a colher, utensílio mais directamente associado à alimentação e, por extensão, à vida. E de pronto é dado a perceber, pelo seu formato e material constituinte (leve, porém resistente) que ela não se presta ao corte bruto, mas antes ao assentamento e à finalização. Assim, trata-se de instrumento que requer o prévio domínio de outras ferramentas a exemplo do malho, do cinzel, do prumo e do esquadro, até obter a pedra na qualidade ideal para o encaixe, o assentamento e o empilhamento indispensáveis à (re)construção. É, portanto, ao lado do compasso, uma ferramenta para uso do Mestre, o que então responde e explica as questões anteriormente deixadas em suspenso (p.17);
- II.2/II.3 – em que pese a sua grande importância, pela sua simplicidade é instrumento acessível a todos, o que significa que ninguém pode alegar a sua falta (de recursos, tempo, etc.) para se escusar de colaborar em qualquer empreendimento destinado à (re)construção – lato sensu – que seja o estender a mão a um necessitado ou simplesmente dar ouvidos. Todavia, ainda que simples, o seu manuseio requer expertise, um longo tempo de preparação que talvez possa ser abreviado pela orientação de um Mestre, o que requer perseverança, humildade e temperança para fazer frente aos erros. Ademais, para ser posta em uso, requer a matéria-prima, senão preparada pelo próprio, por terceiros, trabalhadores mais dedicados; buscar a colaboração (o trabalho em equipe) ao invés da auto-suficiência pode se revelar mais eficaz e eficiente. E se em paralelo à reconstrução do Templo (às virtudes) no seu entorno foram erguidas muralhas e instaladas portas (na cidade), no plano simbólico tropológico estas podem ser vistas como barreiras e defesas que devem ser criadas para se manter à distância dos vícios e evitar recaídas, a exemplo da mudança de hábitos: rotinas diárias (e dos seus inumeráveis gatilhos comportamentais [41]), locais visitados, e até companhias. E outra dentre as lições extraídas do ciclo bíblico (catábase-anábase) é a celebração das vitórias, das superações, inclusive com a instituição de festas regulares (vide, entre outros, o Livro de Macabeus), constituindo, assim, marcos para a lembrança permanente – algo muito típico da cultura judaica e que, pela força e efeito, irradiou-se por outras instituições. O estabelecimento de objectivos e metas, e a permanente reflexão e revisão dos procedimentos (lato sensu) também são estratégias que contribuem para a manutenção dos ganhos obtidos. Por fim, como as obras são muitas e variadas nas formas, nas funcionalidades e objectivos, ainda que com grande habilidade no domínio da ferramenta em determinadas circunstâncias, dificilmente alguém será proficiente em todos os usos e aplicações, o que implica que o Mestre sempre poderá, um dia, vir a ser o Aprendiz.
Finalmente, o Quadro 2b introduz algumas considerações acerca do terceiro evento: o horário de trabalho do MESA.
Quadro 2b: Matriz de Eventos da Recepção ao Grau IV do RER – Interpretados Segundo Proposta de McGrath
| OS SENTIDOS DE INTERPRETAÇÃO SEGUNDO McGRATH | EVENTOS | ||
| I
a entrada dos recipiendários |
II
a trolha |
III
o horário de trabalho do MESA |
|
| Literal | I.1 | II.1 | III.1 |
| Alegórico | I.2 | II.2 | III.2 |
| Tropológico | I.3 | II.3 | III.3 |
| Anagógico | I.4 | II.4 | III.4 |
A exemplo dos demais Graus, o de MESA também possui o seu horário de trabalho conforme pode ser lido em RER (2014):
V. M. – Irmãos Vigilantes, que horas são?
1º V. – Irmão Segundo Vigilante, que horas são?
2º V. – É o romper do dia, Respeitável Deputado-Mestre.
V. M. – É então o momento de iniciarmos os nossos trabalhos; mas primeiro invoquemos o auxílio do Ser Supremo para que se digne proteger os nossos trabalhos. Descobertos, meus Irmãos. (op. cit., p. 46)
V. M. – Em nome do Grande Arquitecto do Universo, em nome da Ordem, pelo poder que dela recebi, abro esta Loja de Mestres Escoceses de Santo André. (op. cit., p. 47)
[…]
V. M. – Irmãos Vigilantes, que horas são?
1º V. – Irmão Segundo Vigilante, que horas são?
2º V. – É o fim do dia, Respeitável Deputado-Mestre.
V. M. – É, portanto, altura de terminarmos os nossos trabalhos?
1º V. – Irmão Segundo Vigilante, é, portanto, altura de terminarmos os nossos trabalhos?
2º V. – Sim, Irmão Primeiro Vigilante. O Templo está reedificado e os obreiros precisam de repouso.
1º V. – Sim, Respeitável Deputado-Mestre. O Templo está reedificado e os obreiros precisam de repouso. (op. cit., p. 109)
V. M. – Em nome do Grande Arquitecto do Universo, em nome da Ordem, e pelo poder que dela recebi, encerro a Loja dos Mestres Escoceses de Santo André. (op. cit., p. 112)
E o que se encontra em Neemias 7-3? “E eu lhes disse: As portas de Jerusalém não serão abertas antes que o sol comece a esquentar, e deverão ser fechadas e trancadas antes que o sol se ponha”. E ao contrário dos casos antecedentes, desta feita não tecerei comentários organizados a partir do MGA&IS. Primeiro, porque a “questão do horário” é comum a vários Ritos, o que facilita aos praticantes de outros que não o RER, a exercitar o Modelo. Segundo, que os olhos mais atentos já devem ter captado que as citações acima, para além da “questão do horário”, trouxeram elementos cuja análise poderia trazer a público o que deve ser mantido à distância dos olhares profanos – PBEMPB [42].
Por fim, também por este evento sai reforçada a tese de que a Bíblia é, senão o principal texto-fonte, um dos mais relevantes subsídios à análise e à interpretação do simbolismo maçónico no contexto do RER; portanto, a menos dos aspectos históricos, são prescindíveis os originais em francês. Todavia, como visto, os trabalhos podem sobremaneira ser enriquecidos com outras fontes, todas em português, algumas free-download.
Considerações finais
Considerando que a Ordem é antes meio do que fim, as suas actividades (nas Lojas, nos debates e trabalhos apresentados) deveriam, então, estar ordenadas à consecução dos seus objectivos maiores, seja tornar feliz a Humanidade (usual no REAA) ou a reintegração ao estado primordial (a aspiração no RER). Há várias estratégias e formas de agir [43] que ao mesmo tempo que reflectem as especificidades de cada Rito se abrem como um leque de possibilidades para que cada um encontre o seu lugar e a sua forma de realização no contexto do universo maçónico.
Apesar, ou mesmo talvez em razão da diversidade com que se apresenta o universo maçónico, a produção intelectual no seu meio é predominantemente voltada aos aspectos históricos da Maçonaria. Assim, o entendimento de que existe uma lacuna a ser preenchida no sentido a instrumentalizar os Iniciados para que da teoria (doutrina e ritualísticas) passem à prática (a acção transformadora), levou o autor a propor o que denomina de Modelo Geral de Análise e Interpretação Simbólica – MGA&IS. Para tal, tendo como ponto de partida uma das mais usuais definições sobre O Que é a Maçonaria, recorreu aos modos de leitura e interpretação sugeridos por McGrath, estrutura que favorece a operacionalização das proposições maçónicas. O MGA&IS facilita que as informações esparsas superem a sua condição de eventos isolados e com valor histórico datado para, em sendo organizadas de modo sistemático, ao tempo em que proporcionam um novo patamar de conhecimento, se constituam em plataformas a partir das quais as reflexões sejam convertidas em acções com impacto prático no quotidiano de cada um e de todos.
Na percepção do autor, como anuncia o próprio nome, o MGA&IS é aplicável aos fundamentos (história, doutrina e ritualística) de todos os Ritos, mas como quase tudo, somente o seu uso regular e sistemático possibilitará identificar não só a necessidade de eventuais ajustes, como também o atingimento da expertise ou mesmo o virtuosismo na interpretação simbólica, a exemplo dos mestres cabalistas. Destarte, em caso de necessidade, a própria revisão bibliográfica que embasa este estudo já antecipou algumas alternativas.
Finalmente, conforme já salientado por Pinheiro (2020b, 2021d), exercitar a análise e a interpretação simbólica possibilita o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de inúmeras habilidades e competências para além das sempre citadas (realização de actividades em equipe, solução de problemas – no caso, verdadeiros enigmas -, tomada de decisões, e outras) e hoje bastante valorizadas no mercado de trabalho, a exemplo do pensamento mágico, da criatividade e da contação de histórias. Além de todos os benefícios e ganhos passíveis de apropriação individual, ao investir neste campo a Ordem não só estaria cumprindo com a sua missão institucional, como colocando em curso uma estratégia para atrair e reter quadros de multiplicadores qualificados. Por fim, se a Maçonaria é meio e ciência prática, resgata-se a questão já levantada: o que mais importa, o processo ou o resultado?
Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. O autor não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências, Potências e Instituições das quais participa, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. E-mail: mailto:ivan.pinheiro@ufrgs.br. Agradeço a leitura e as contribuições do Irmão Prof. Lucas V. Dutra, Companheiro Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista, Psicólogo, Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: mailto:dutralucas@aol.com; mas por certo que os erros e as omissões remanescentes são da responsabilidade exclusiva do autor. Porto Alegre-RS, 16.07.23.
Notas
[33] 642 – 562 a.C. Reinado: 605 – 562 a.C.
[34] Ciro II, o Grande: 600/550 – 530 a.C.
[35] Uma coluna que embora quebrada ainda possui a base firme.
[36] O texto admite várias interpretações, entre elas a de que existem vários níveis e estágios de aperfeiçoamento e perfectibilidade, de proximidade com a Luz; à semelhança do que diz D´Ávila (2014).
[37] Expressão também utilizada para designar o Cristianismo.
[38] Infelizmente, a clássica taxonomia binomial (Maçom vs. Profano, Iniciado vs. Não-Iniciado) não comporta a variedade de espécies abrigadas sob o género Maçonaria, o que obriga a criação de novas denominações na expectativa de que melhor traduzam a ideia que se pretende.
[39] Todos os destaques gráficos constam do original citado.
[40] Imagine-se os problemas e gargalos de produção e logística. A crise dos migrantes contemporâneos, mutatis mutandi, é a imagem actualizada dos problemas da época.
[41] O campo das neurociências oferece muitos títulos, mas um de fácil leitura e disponibilidade é o Poder do Hábito, de C. Duhigg (2012).
[42] Para bom entendedor meia palavra basta.
[43] Vide, por exemplo, Pinheiro e Dutra (2023).
[44] Original: Paris, 1976.
[45] Original: 1969, Éditions Gallimard.
[46] Data original da publicação em Paris.
[47] Data original da publicação em Paris.
[48] Há textos que o referem como O Assírio.
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