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Modelo geral de análise e interpretação simbólica (I)

✍️ Desconhecido 📅 23/07/2023 👁️ 5 Leituras

modelo

Um exercício aplicado no contexto do Regime (Rito) Escocês Rectificado

Introdução

Uma das definições mais usuais para referir à Maçonaria é a de que ela é um sistema de moralidade velado por alegorias e ilustrado por símbolos, encontrada, entre outros, em Ismail (2020) e também em REAA (2007). E como à criatividade não se impõe limites, outras definições contam com a adição interminável de adendas, provavelmente porque os autores entendem que assim complementam e refinam a primeira. Ainda que essa atitude eventualmente possa resultar em alguns ganhos pontuais, a definição acima possui não só a elegância da simplicidade, como é de largo conhecimento, sobretudo pela predominância, no Brasil, da prática do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e, finalmente, ao que ora mais interessa: é uma definição passível de operacionalização, isto é, permite que se passe da teoria à prática, da abstracção à concretude. Isto, por si só, deveria motivar os gestores das Lojas – as suas Luzes – a tê-la como bússola orientadora no sentido à organização das agendas, ao estabelecimento de objectivos, à priorização de actividades, enfim, de como proceder a alocação do tempo (sempre escasso): para desvelar as alegorias e decodificar os símbolos com vistas a trazer a lume o sistema de moralidade, ao invés, por exemplo, de repetir à exaustão aspectos históricos hoje facilmente obteníveis em fontes fidedignas com a qualidade nem sempre observada nas manifestações orais e improvisadas em Loja ou mesmo nos grupos das redes sociais.

Embora aparentemente simples, a decomposição dos termos da definição traz à luz não poucas dificuldades, mas nenhuma insuperável desde que existentes a vontade e a orientação seguidas da acção transformadora da potência em acto.

Dito isto, entre os objectivos deste texto se encontram a problematização da definição apresentada acima, seguida da proposta de um Modelo Geral de Análise e Interpretação Simbólica (MGA&IS) e, finalmente, a sua aplicação no contexto do Regime (Rito) Escocês Rectificado [1].

1 Maçonaria – o desdobramento da definição

Parece ser imediato que uma das primeiras necessidades é o entendimento, e tanto quanto possível, o domínio dos “símbolos”. À primeira vista e no curso do quotidiano a expressão não encerra maiores dificuldades; todavia, o debruçar-se sobre o tema e com interesses mais específicos revela que o trato da simbólica se organiza e evolui através de sucessivos graus de complexidade e dificuldades. Em meio a tanto, para não fugir em demasia do escopo deste texto, a abordagem que se segue se atém aos limites minimamente necessários aos objectivos propostos; para o mais amplo e melhor entendimento da matéria, entre outras e em carácter preliminar são sugeridas as leituras de Santos (1959), de Alleau (s.d.) e também de Jung (2008).

Estabelecidas as primeiras balizas, por ora importa registrar que o tema transita pela análise e apreensão do entendimento (mediante analogia, extensão de raciocínio, comparação, contraste, ironia, sátira, etc.) escamoteado em meio às mais variadas formas de manifestação: se através da escrita, em geral na forma de metáforas (o que inclui as parábolas, as lendas, os mitos, as fábulas), mas também em textos ficcionais, e na forma de figuras, objectos, números, animais, etc. [2]  Seja por motivos estéticos, estilísticos, retóricos ou mesmo por cautela, há o intento deliberado de ocultação da mensagem, daí porque o tema sempre esteve presente nas Escolas e Ordens Iniciáticas, onde o conhecimento se adquire por gnose [3] e tem o claro sentido e propósito evolutivo (no limite, o saber transcendente), daí que gradualmente e por etapas que não devem ser antecipadas uma à outra.

Por oportuno, convém lembrar que todo e qualquer idioma é, em si mesmo, um conjunto de signos, símbolos e significados histórica e socialmente construídos, assim como a linguagem matemática actualmente utilizada para representar quase tudo no universo conhecido, e também o desconhecido [4]. E no caso dos idiomas e da matemática, os signos se fazem acompanhar pari passu das regras de sintaxe que não só conferem o sentido como ampliam o significado da mensagem [5]. Dentre as implicações desta afirmação, a mais imediata é a reafirmação de que a análise e a interpretação simbólica não só encerram complexidades e dificuldades, como estas se revelam escalonadas, crescentes – por exemplo, como aprender derivadas e integrais sem, antes, conhecer as operações elementares, bem como a álgebra? E no trato idiomático um dos níveis mais elementares da análise interpretativa corresponde à passagem do significado da expressão literal ao sentido figurado, com ou sem o recurso às chamadas figuras de linguagem, mas também aqui é conditio sine que non um estofo preliminar de “cultural geral”.

Um nível logo acima está a apreensão do significado implícito na representação (simbólica) a partir das imagens de objectos tangíveis (a exemplo da figura de uma escada, de uma espada, de um livro, de uma trolha, etc.), as quais, em si mesmas já carregam uma mensagem; por exemplo, ninguém questiona que a imagem de uma escada, de imediato, remete à ideia de subida ou descida e em ritmo gradual. Já de ordem mais complexa é a apreensão dos significados contidos nos símbolos utilizados para a representação dos intangíveis – valores, sentimentos, ideais, atitudes, etc.

Assim, e grosso modo, a análise simbólica transita do raciocínio concreto à mais elevada abstracção, e por vezes mesmo demanda considerações que beiram à transcendência (a exemplo da gnose mística), ao sobrenatural, como se verifica num dos campos de estudos em crescente expansão no domínio da Maçonaria Especulativa: a Geometria Sagrada (MOREIRA, 2016; ZATÓN, 2017). E sem que se possa estender em demasiado no assunto, dados os limites da racionalidade humana alimentada pelos sentidos, não há exagero em afirmar que, naturalmente, toda a representação do mundo realizada pelo homem é simbólica – porque amparada apenas numa fracção da realidade -, como têm afirmado as fronteiras das ciências, notadamente nos domínios da física, das neurociências e da cosmologia. Portanto, como foi dado a perceber, não restam dúvidas acerca da amplitude e complexidade da matéria em lide, o que vai ao encontro do conhecido aforismo maçónico: mesmo os Mestres já experientes são eternos Aprendizes.

Dessarte, resulta que a superação do “problema da análise e interpretação simbólica” requer não só o esforço continuado de exercícios cognitivos, como um lastro crescente de conhecimentos multidisciplinares; no caso da Maçonaria, a História (lato sensu) é disciplina propedêutica, pois é no curso da sua formação que são (foram) convencionadas e consolidadas as semânticas que organizam(ram) as comunicações que estão nas origens das civilizações. Ainda, a literatura, além de ampliar a plataforma de conhecimentos (o estofo de cultura geral) se constitui, em si mesma, como um dos principais exercícios (treinos) cognitivos para a análise simbólica que se requer sistémica; não à toa que se diz que todo “texto se insere num contexto”. Por exemplo, fora do contexto a frase “Que outra coisa poderia querer dizer meu tio com “a aliança que sempre vos acompanha”?” sugere uma simples aliança de compromisso, como a de casamento; mas quando apreciada no devido contexto revela tratar-se do “sinal da circuncisão”, cujo significado, ampliado (simbólico), não pode ser apartado da história e das tradições (ZIMLER, 1997, p. 84).

Feitas estas considerações, entende-se porque a análise simbólica (também) na Maçonaria tem merecido a publicação de inúmeros títulos [6]: Varoli Filho (1970), Guénon (1931; 1962), Sete Mestres Maçons (1995) e, entre tantos outros, também Boucher (2015). Entretanto, é importante não perder de vista que a análise simbólica é antes de tudo e tão somente um instrumento pedagógico, o meio através do qual a Maçonaria transita para trazer à luz o sistema de moralidade oculto nos e por entre os signos e símbolos. Portanto, o próximo passo requer envidar esforços no sentido a trazer à evidência o sistema de moralidade que será utilizado como referência.

Mas antes é preciso estabelecer as bases de uma das mais importantes “ferramentas conceituais” – o significado de “sistema”: por definição é um conjunto de elementos interconectados e destinados a determinada finalidade, onde cada um e todos (os elementos) possuem a sua função precípua, mas esta também é ordenada (e pode-se mesmo pensar em subordinada) à do sistema, de tal modo que qualquer alteração (formal ou funcional) em um dos elementos poderá comprometer a integridade (e, por extensão, a finalidade) do sistema [7]. E é habitual que num sistema coexistam um ou mais subsistemas constituídos por subconjuntos dos elementos integrantes do sistema de referência.

Trazendo ao domínio da Maçonaria e tendo em conta a noção de sistemas e subsistemas: o Templo, a sua decoração (fixa e variável), os utensílios e também as Instruções, cada um em si mesmo é um elemento (signo) dotado de conteúdo simbólico, mas quando reunidos na ritualística ordinária de cada Grau, bem como nas cerimónias Iniciáticas [8], constituem um sistema com uma nova ordem de simbolismo; mas essas (ritualísticas), agora vistas na perspectiva da doutrina do Rito, também se colocam como subsistemas. Analogamente, por exemplo, cada Instrução quando apreciada em si mesma carrega significado próprio – à semelhança de um sistema de informações -, mas quando encadeadas revelam um novo significado que complementa, ressignifica os anteriores, agrega e então eleva o conhecimento a um novo patamar.

Assim, este vasto conjunto de elementos, na acepção mais ampla dá forma à doutrina e define o próprio Rito. Mas também as ritualísticas do I ao III Grau constituem (sub)sistemas que, reunidos, constituem o sub(sistema) da Maçonaria Simbólica (as Lojas Azuis) dos mais diversos Ritos, e estes, por sua vez, reunidos ao sub(sistema) dos Altos Graus (também organizados em Corpos – (sub)sistemas), constituem o sistema de maior nível de agregação: a Maçonaria. E não é de surpreender que dada a diversidade de Ritos, produtos de diferentes contextos (história, circunstâncias, objectivos, etc.), que ao mesmo símbolo (elemento) seja atribuído significado distinto conforme o Rito (sistema). Daí porque, ao contrário dos que sustentam que cada um tem (pode ter) o seu próprio entendimento, a interpretação simbólica, embora flexível, não é de todo livre porque presa à lógica interna de um sistema específico e no qual os elementos possuem lugar e função singular. E sobre esta multiplicidade e relatividade de significados para o mesmo símbolo, leia-se, por exemplo, Dinsmore (2023). Por fim, qualquer semelhança com a expressão “todo texto se insere num contexto” não é mero acaso pois, fora do contexto, o símbolo pode ser portador de mensagem diversa da originalmente pretendida. Se no Oriente um ideograma, porque parte de um sistema maior – a linguagem -, traduz uma mensagem específica, no Ocidente, de regra ele não significa mais do que um adorno pessoal ou mesmo um objecto de decoração.

Resta ainda esclarecer, na definição que ora identifica a Maçonaria, a noção de moralidade. E também aqui, para não fugir em demasia do foco estabelecido, delimita-se a ideia de moralidade ao conjunto de princípios e valores que orientam os comportamentos admitidos, valorizados e estimulados, bem como o contrário aos seus opostos no grupo de referência, seja uma Loja, um bairro, uma cidade, uma região ou até mesmo um país. É o caso, por exemplo, da referência aos “valores ocidentais” – grosso modo (em razão das idiossincrasias pessoais e culturais locais), habitualmente se toma por base os princípios e os valores do chamado vector judaico-cristão [9] que, não por acaso [10], são os mesmos consagrados [11] nos textos seminais da Maçonaria Especulativa: as Constituições de Anderson (ANDERSON, 2012) [12]; a Ahiman Rezon (DERMOTT, 2016) [13]; e, os Esclarecimentos Sobre a Maçonaria (PRESTON, 2017). Uma proxy bastante usual e largamente utilizada na Maçonaria é a referência às virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e cardeais [14] (justiça, prudência, fortaleza e temperança), sobretudo as últimas, consideradas esteios da formação educacional ocidental – da Antiguidade ao Medievo -, às quais, a partir da Modernidade e aos poucos, outras se somaram em resposta aos novos tempos e demandas: tolerância, empatia, urbanidade, serenidade, resiliência, etc.

Por oportuno, Preston (op. cit.) também referiu que “a Maçonaria é uma ciência […]” (p. 32), tem “A virtude, [como] o grande objectivo em vista, luminosa como o sol meridiano […]” (p. 33), e também que “A Maçonaria Especulativa está interligada à religião, para nos colocar sob as mais fortes obrigações de prestar homenagem racional à Deidade […]” (p. 34). Depreende-se, a partir da primeira citação, dado que Preston [15] viveu já na maturidade da Modernidade, que desde então já se fazia a defesa da necessidade do uso do método (e supõe-se que alude ao científico) no trato das especulações internas à Ordem; a segunda reafirma a vida virtuosa (lato sensu) como o grande desiderato da Maçonaria; finalmente, a terceira deixo claro que não só Maçonaria e Religião não se confundem, ainda que ambas estejam interligadas, como também que os maçons não podem abdicar da racionalidade ainda que no trato com a(s) Deidade(s). É, pois, em linha com essas proposições, que se sugere o MGA&IS já anunciado na Introdução.

2 modelo geral para a análise & interpretação simbólica – MGA&IS

Ainda que modo bastante resumido, tendo visto: 1) o significado e a extensão da análise simbólica; 2) as características dos sistemas; 3) alguns elementos constituintes do sistema que é o universo maçónico; 4) assim como a noção da moralidade-referencial, resta agora explorar uma forma de como, a partir dos símbolos organizados (em projectos de arquitectura, em ambientes, em narrativas, em representações e dramatizações, etc.) é possível extrair significados aderentes ao sistema de moralidade no contexto da Maçonaria.

As reflexões preliminares podem ser encontradas em Pinheiro (2017) e Pinheiro, Pellegrini e Varejão (2023), mas o insight definitivo surgiu a partir do Ciclo de Palestras (2022-2023) oferecido pelo Grande Priorado Rectificado do Brasil da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa (CBCS) e apresentado pelo BAI [16] Jean-Louis Duquesnoy. O Quadro 1, a seguir, reúne a síntese das reflexões:

Quadro 1: Níveis de Leitura e Interpretação de Textos & Símbolos

Níveis de Leitura

Adler & Van Doren

Níveis de Interpretação

Bension

Sentidos de Interpretação

McGrath

elementar (parte) peshat (realidade) literal (realidade)
inspeccional (superficial) remez (entendimento) alegórico (interpretação)
analítica (profunda) darash (metáfora) tropológico (moral)
sintópica (descoberta) sod (revelação) anagógico (elevação)

Fonte: Pinheiro, Pellegrini e Varejão (2023)

Conforme se verifica: 1) não existe apenas uma única maneira de decodificar os símbolos para deles extrair significados, lições e conhecimentos; 2) todos os autores consultados reconheceram a existência de níveis de leitura (análise e interpretação); e, 3) como é possível estabelecer um paralelismo entre as diferentes abordagens, cabe então, ao interessado, optar pelo que melhor aprouver à situação em apreço. Como é próprio da natureza da matéria ora tela, não são absolutamente claras as fronteiras entre os níveis e domínios de análise e interpretação; portanto, não é de causar surpresa que as considerações transitem e mesmo eventualmente se verifique a superposição entre os níveis.

Por razões que aos poucos ficarão evidentes, por ora se opta pela abordagem de McGrath, e o caso a ser explorado para ilustrar o MGA&IS é o da cerimónia de Recepção ao Grau IV do Regime (Rito) Escocês Rectificado, cujo Iniciado faz jus à denominação de Mestre Escocês de Santo André, mais conhecido como Grau de MESA, e também como Mestre X.

Finalmente, para maior clareza e facilidade ao leitor, optei por expandir e esclarecer as 4 (quatro) categorias de análise (sentidos literal, alegórico, tropológico e anagógico) logo adiante, por ocasião da discussão dos casos – secção 4 (O MGA&IS no Contexto da Recepção ao Grau IV do RER) -, deixando assim, mais próximas, a teoria (o Modelo de Aplicação) e a sua prática (o exercício ilustrativo).

3 alguns aspectos do Regime (Rito) Escocês Rectificado – RER

Uma das particularidades do RER é a organização do seu simbolismo (também referido como Ordem Externa) estar estruturada em 4 (quatro) Graus: os 3 (três) primeiros (Aprendiz, Companheiro e Mestre) vinculados às Potências e, o último, o de Mestre X, vinculado ao Priorado [17]. Outra característica é que além do simbolismo intrínseco a cada Grau, é clara a existência de uma narrativa que os conecta – do primeiro ao quarto [18] -, assim, enquanto cada Grau complementa os antecedentes, ampliando as dimensões e os significados dos elementos (símbolos) que o constituem, também contribui para o estabelecimento do caminho que traz em si mesmo o objectivo final, a saber, a “reintegração dos seres na sua propriedade, virtude e potência espiritual divina”, título de uma das obras seminais – um midrash – do Regime (PASQUALLY, 2008). É de se notar que se está, então, à frente de um efectivo sistema.

Em razão da sua matriz judaico-cristã [19], como de sorte também outros Ritos, mas sobretudo por textualmente se afirmar como um Rito cristão (BERMANN, 2011), uma das principais fontes de consulta para a análise e interpretação simbólica das ritualísticas no contexto do RER é a Bíblia, o Velho e também o Novo Testamento.

Por exemplo, como legado veterotestamentário o RER herda o Mito da Criação, bem como o da Queda, ambos lidos conforme o midrash citado, narrativa que, a meu juízo, corresponde antes a uma homenagem de J. B. Willermoz ao seu tutor (M. de Pasqually) do que a uma efectiva necessidade, mas cuja leitura [20] desde então passou a ser obrigatória porque confere o substrato doutrinário a determinadas ritualísticas (PINHEIRO, 2021a). Sobre o tema há uma vasta literatura, a começar pela própria Bíblia (2006), mas também Pseudo-Dionísio [21] (2015a,b), Agostinho [22] (2003), D`Ávila [23] (2014), Cruz [24] (2002) e tantos outros que oferecem os elementos básicos constituintes da doutrina que ampara o Regime & Rito.

Como Rito cristão, o RER não poderia deixar de ter como alicerce estruturante o Novo Testamento, em especial a base constituída pelos Evangelhos (de onde extrai a chegada, o Baptismo, a vida pública de Jesus, bem como o seu martírio, morte, ressurreição e exaltação) e, entre estes, notadamente o Evangelho de João. E para estabelecer a ponte entre as duas Eras – da qual Sto. André é um símbolo -, também se faz necessário recorrer às profecias anunciadas nos Salmos e nos Livros Sapienciais, textos que não só antecipam a chegada do Messias, como testemunham (vide Novo Testamento – Actos dos Apóstolos, 13), como afirmado por São Paulo, de que Jesus era sim o Filho de Deus que fora anunciado – e as “provas” seriam o seu martírio e a morte não seguida da corrupção do corpo uma vez que ressuscitou e foi elevado aos Céus aonde se encontra à direita do Pai, todos acontecimentos profetizados com larga antecedência no Velho Testamento. Ademais, durante a sua vida pública, Jesus também teria antecipado inúmeros acontecimentos afinal realizados, a exemplo da sua negação por Pedro e da traição de Judas. Estavam, pois, realizadas as profecias do Velho Testamento, daí que a comunidade judaica não precisaria mais ficar à espera do Ungido, o que significa que poderiam, como os pagãos, ser alvos do proselitismo e da conversão. Lastreado nesses argumentos e na flexibilização (pelo Concílio de Jerusalém) de algumas normas [25] que tornavam os judeus reticentes, São Paulo Apóstolo converteu os gentios, os judeus e deixou como legado a expansão e a presença do Cristianismo da Ásia Menor à Europa.

Demonstrados, pois, os nexos do RER com o Novo e também com o Velho Testamento, textos seminais para a análise e a interpretação dos simbolismos impressos no primeiro.

Todavia, resta ainda hoje em aberto a terceira fase da narrativa vetero-neo-testamentária, a que estabelece o horizonte escatológico: o retorno do Filho de Deus – a parusia – não mais com atribuições de Mestre e Salvador, mas na condição de Juiz para decidir sobre quem merece ou não viver a eternidade na Nova Jerusalém. Cabe então, hoje, aos futuros réus, a pergunta: quais as leis e a dosimetria que orientarão os julgamentos? A recomendação é clara: a estrita observância às Leis de Deus, à legislação mosaica (“infraconstitucional”) e uma vida ordenada às virtudes pregadas por Cristo – lastreadas no amor, no perdão, na humildade, na inclusão, na caridade, entre outras. Até que ponto este cânone admite ou não a actualização secular é questão permanentemente em aberto e foco de discussões intermináveis; vide, entre tantos, os questionamentos ao pontificado de Francisco I (2013 – …) e, no âmbito profano, à Grande Loja Unida da Inglaterra por inovar no trato das questões ao abrigo das expressões transgénero e homoafetividade. Aos mais radicais e intransigentes, não custa lembrar que o primeiro Concílio, o de Jerusalém [26], foi convocado em resposta à querela entre as igrejas de Jerusalém (à frente Tiago e Pedro) e a de Antioquia (à frente Barnabé e Paulo); a primeira mais ortodoxa e conservadora, enquanto que a segunda mais liberal e revolucionária – a tese vencedora foi a de Paulo, tendo-se assim ampliado, largamente, as portas à conversão dos pagãos e dos seguidores de outras religiões.

A temática da ressurreição trouxe à ordem do dia duas novas questões: a imortalidade da alma e a Doutrina Trinitária; esta reconhece Deus como uno, mas admite a sua manifestação consubstanciada na forma de três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – raiz das heresias que só vieram a ser pacificadas em 325 por ocasião do Concílio de Nicéia. A crença na imortalidade das almas é o consequente e a exigência lógica para a condição do julgamento no final dos tempos, quando aquelas se reunirão aos corpos então ressuscitados. Embora Orígenes [27] (2012) também tenha se pronunciado sobre a ressurreição e a imortalidade da alma, para o Maçom Rectificado não há palavras mais apropriadas do que as de Taciano [28] (1995, p. 79-80):

Gregos, a nossa alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela, porém, é também capaz de não morrer. Com efeito, ela morre e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; ressuscita, porém, novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber, como castigo, a morte na imortalidade. Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus. Porque, de si, a alma é treva e nada luminoso há nela, e é isso o que sem dúvida significam as palavras “As trevas não apreenderam a luz”. Não é a alma que salva o espírito, mas é salva por ele, e a luz apreendeu as trevas, no sentido que o Verbo é a luz de Deus e a alma ignorante é treva […] Originariamente, o espírito habitava junto com a alma, mas, não querendo segui-lo, o espírito a abandonou e ela, que conservava como que um resplendor de seu poder, mas pela separação já não era capaz de contemplar o perfeito, na sua busca de Deus, representou para si, por extravio, uma multidão de deuses, seguindo aos demónios enganadores. O espírito de Deus, porém, não está em todos os homens, mas somente desce para alguns que vivem justamente […] E aquelas que obedecem à sabedoria, atraem para si mesmas o espírito que lhes é congénito. Todavia, as que não obedecem, mas recusam aquele que é mensageiro do Deus que sofreu, mostram-se almas que fazem guerra a Deus, e não são religiosas.

A citação acima convida a inúmeras reflexões, como por exemplo a questão do livre arbítrio, tema discutível à luz das Escrituras e que demandaria um texto específico, mas que por ora é possível suscitar que, senão por completo, a salvação, ou o que quer que seja entendido como tal (pois, que não se esqueça, estamos no mundo das representações simbólicas [29]), em grande medida é dependente dos pensamentos, da vontade e das acções (iniciativas) individuais. Como parte desta visão, que não é exclusiva do judaísmo e tampouco do cristianismo, a crença de que o homem é constituído de matéria e espírito, embora alguns autores estabeleçam distinções e ampliem o espectro para 3 (três) ou mesmo 4 (quatro) componentes como refere Pinheiro (2021c, p. 24):

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objectiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isto implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsónico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito [30]. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs. alma.

Contudo, e em meio a tanto, há ainda outros importantes aspectos que ganham destaque nas Sagradas Escrituras, como é o caso da sua característica sistémica: se de cada livro é possível extrair mensagens e lições morais específicas a partir do episódio de fundo, só quando lido o conjunto (ou até mesmo parte) é possível observar, por exemplo, a emergência de modelos de comportamento. Porque se repetem com regularidade (em vários livros – em circunstâncias, ambientes, com personagens, etc., em tudo diferentes), depreende-se que são padrões inerentes à natureza humana, e por isso universais [31], o que autoriza o resgate e a extensão (das lições morais, mas nem todas) do legado do Velho Testamento até então restrito ao povo de Abraão, Isaac e Jacó. Nesta linha, por exemplo, uma das constantes na Bíblia é a dinâmica cíclica catábase vs. anábase (descida-subida; destruição-reconstrução; erro-acerto), ora no plano individual, ora no colectivo (famílias, tribos, reinos, etc.), sempre ditada em razão do afastamento da Lei (lato sensu), o que corresponde ao distanciamento Deus, seja pela via da vida não virtuosa ou mesmo pelo cometimento directo do pecado; todavia, Némesis segue a húbris (o castigo ao pecado). Ademais, só a leitura longitudinal proporciona o senso de dinamismo, das mudanças nos usos e costumes, nos valores, etc. ao longo dos tempos e em resposta à sucessão de novos acontecimentos; assim, por exemplo, são notáveis as transformações no senso de justiça, da misericórdia divina (sem paralelo entre o Velho e o Novo Testamento), no papel da mulher na sociedade, das práticas inclusivas, e do próprio significado do “amor” (em variadas acepções), noção tão cara ao cristianismo, entre outras.

Esta digressão sobre alguns aspectos do Velho e também do Novo Testamento destinou-se a chamar a atenção para a sua importância na análise e interpretação do simbolismo inserto no RER sem que seja necessário, obrigatoriamente, a lançar mão aos escritos dos principais mentores do RER, a saber, M. de Pasqually, J. B. Willermoz e L. C. de Saint Martin.

Em que pese os avanços da história da humanidade no sentido à secularização, torna-se desnecessário reproduzir, aqui, a importância e o impacto dessa narrativa que ainda hoje, notadamente no mundo ocidental, baliza os usos e costumes, modela (estimula ou reprime) comportamentos e está impressa nos principais textos normativos, inclusive nacionais. Contudo, antes de passar ao caso prático, dois alertas e esclarecimentos, sobretudo quanto ao uso da Bíblia como fonte de consulta:

  1. toda síntese corre o risco da excluir elementos que a juízo de outros deveriam ser considerados mais relevantes dos que os decididos pelo proponente; contudo, as sínteses constituem uma importante ferramenta didáctica;
  2. como é sabido, a leitura da Bíblia encerra inúmeros e alguns até insuperáveis problemas:
    • em primeiro lugar, não pode deixar de ser vista como mais uma narrativa em busca das respostas às questões fundamentais (também referidas como primeiras ou últimas) da humanidade: qual a nossa origem, o nosso destino e razão de existirmos? O empreendimento para chegar às respostas deu origem às inúmeras teocosmogonias, onde em meio à realidade (a exemplo de um cataclismo natural) proliferam os mitos, as lendas e os heróis que em manifestações teofânicas que dão formas à realidade fantástica que, entretanto, ao longo da História disputam espaço, nos corações e mentes, com os avanços da ciência [32];
    • não é apenas um livro, mas um conjunto de mais de 60 e, por conseguinte igual ou maior número de autores, pois há sinais de alguns textos foram escritos com a contribuição de várias mãos;
      • a maioria dos autores não se conheceram, há textos que sugerem ser autobiográficos, outros testemunhos (parciais) e a maioria escrita a partir de terceiros. E não se pode esquecer que à época poucos sabiam ler e escrever, prevalecia a tradição oral entre pessoas incultas que atribuíam significados diferentes às mesmas expressões;
    • há inúmeras Bíblias, nem todas constituídas pelos mesmos livros seleccionados a partir de diferentes critérios e intenções;
    • há vários textos (ou trechos de determinados textos) reconhecidos como históricos, cujos factos estão documentados ou foram validados por cruzamento, mas outros tantos são claramente fictícios, misturam personagens, dados e factos ocorridos em tempos distintos. Erro do autor? Talvez, mas o mais provável é que tenham sido escritos com motivação específica, com o intuito de transmitir uma mensagem subjacente que, por variadas razões, deveria ficar ocultada; e por fim, mas sem a intenção de ser exaustivo,
    • de tradução em tradução (do aramaico e hebraico para o grego, para o latim e outras línguas intermediárias – inglês, francês, alemão – até chegar ao idioma final, no caso o português), muito se perdeu, sofreu censura, assim como houveram acréscimos e interpretações motivadas ou por desconhecimento. A estas circunstâncias se somam as características comentadas na nota de rodapé nº 3.

Como subproduto destes senões e diversidades, uma hermenêutica igualmente diversa, rica, por vezes repleta de contrastes e até mesmo contradições que, entretanto, internamente devem guardar coerência com as premissas do sistema de referência. Assim, sujeita a tantas restrições, não seria o caso de se perguntar se o que mais importa não é o processo (o estudo, a reflexão crítica, os debates, etc.) ao invés de o resultado (a atribuição simbólica) final? Na mesma linha, há indícios de que a verossimilhança narrativa (=coerência interna do sistema) se sobrepõe à “verdade absoluta”. Sem dúvida que essas são questões complexas e irredutíveis, razões pelas quais não cabe, aqui, análise compreensiva, mas deixo-as à reflexão que, em parte, pode ser vista em Pinheiro (2021c).

(Continua…)

Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. O autor não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências, Potências e Instituições das quais participa, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. E-mail: mailto:ivan.pinheiro@ufrgs.br. Agradeço a leitura e as contribuições do Irmão Prof. Lucas V. Dutra, Companheiro Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista, Psicólogo, Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: mailto:dutralucas@aol.com; mas por certo que os erros e as omissões remanescentes são da responsabilidade exclusiva do autor. Porto Alegre-RS, 16.07.23.

Notas

[1] Regime ou Rito? O tema já foi desenvolvido por Pinheiro (2020a).

[2] Por exemplo, além das célebres parábolas e fábulas, a Bíblia, no seu texto original traz inúmeras mensagens ocultas em meio aos jogos de palavras proporcionados pela sonoridade do idioma e do alfabeto hebraico, razão pela qual os autores recorreram muito às aliterações, as quais, entretanto e infelizmente, na maioria das vezes se perdem quando se opera a tradução para os demais idiomas, circunstância agravada quando a tradução que se tem à mão, ademais, foi mediada por um terceiro idioma.

[3] Muito sucintamente, aquele que emerge por “um estalo de percepção”, o famoso “eureka” que Arquimedes de Siracusa (287 – 212 a.C.) teria pronunciado. Para alguns, a maioria, será necessário o apoio, a orientação; para outros a prática e a experiência mística (por definição, individual) elevam à gnose. De qualquer modo, não é um conhecimento obtenível simplesmente pelos 5 (cinco) sentidos.

[4] Refiro à matéria e à energia escura que, segundo os estudiosos, representam 95% do Universo. Por oportuno, subjacente (portanto, oculta) à esta constatação, uma mensagem bem como uma recomendação: a necessária humildade do homem no seu convívio com a natureza.

[5] Exemplo mais simples não há: conforme o lugar dos parênteses numa expressão matemática, o valor poderá ser alterado; analogamente, insira ou modifique o lugar de uma vírgula e o sentido da oração poderá ser completamente alterado. Entre tantos, vide em: http://www.tirodeletra.com.br/curiosidades/Aimportanciadavirgula.htm. Acesso em: 28.06.23.

[6] Infelizmente, a meu juízo, em quantidade bem menor, por exemplo, dos que se atêm aos aspectos históricos da Maçonaria, uma indústria em expansão, mais recentemente via crowdfundig, o que, por outro lado, reflecte o próprio interesse do mercado consumidor.

[7] O leitor mais exigente e que desejar ir mais a fundo verá que esta definição pode ser enriquecida com outros elementos e propriedades como, por exemplo, considerações acerca de se o sistema é aberto ou fechado, relativas ao feedback (se positivo ou negativo); todavia, para os fins ora pretendidos tal rigor torna-se prescindível.

[8] No caso do Regime / Rito Escocês Rectificado o mais usual é referir à Recepção ao Grau correspondente.

[9] Fosse outra a finalidade, não poderia deixar de considerar as contribuições das culturas grega e romana.

[10] Afinal de contas as principais referências da Maçonaria Especulativa se encontram no eixo Escócia-Inglaterra, o berço da Modernidade.

[11] Por certo que a grande diversidade de Ritos torna fácil apontar excepções, mas estas não comprometem o objectivo geral deste texto.

[12] A Constituição dos Modernos.

[13] A Constituição dos Antigos.

[14] Daí porque também referidas como virtudes morais ou humanas.

[15] 1742 – 1818. Portanto, penso que não cabe aqui a mesma crítica ao excesso de criatividade realizada anteriormente aos demais autores, dirigida sobretudo aos contemporâneos, pois Preston foi um dos fundadores da Maçonaria Moderna.

[16] Bem-Amado Irmão – tratamento habitual entre os Maçons Rectificados.

[17] Com atribuições análogas aos Supremos Conselhos dos demais Ritos é o órgão responsável também pelos Graus de Escudeiro Noviço (V) e Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (VI) – os Graus da Ordem Interna – que, com os 4 (quatro) primeiros constituem, então, o Regime Escocês Rectificado – o sistema na sua maior amplitude.

[18] O autor é Mestre Escocês de Santo André, portanto, a sua compreensão, além de pessoal (conforme esclarecido logo na primeira nota de rodapé) não pode ir além dos ensinamentos até este Grau. Sobre o Primeiro e o Segundo Grau o autor já teceu comentários, respectivamente, em Pinheiro (2021a) e Pinheiro (2021b).

[19] Não apenas porque a Maçonaria é uma construção social ocidental, mas porque entre os seus principais formuladores, M. de Pasqually e J. B. Willermoz, o primeiro era marrano e, o segundo, católico fervoroso. Além disso, entre os demais notáveis founding fathers, vários integravam a nobreza europeia, notadamente a alemã, e eram cristãos protestantes.

[20] Nada fácil, além de incompleto, o que talvez não tivesse maior importância se o próprio autor não tivesse distribuído “ganchos” que adiante (no livro) deveriam ser esclarecidos; por fim, falta refino à escrita do autor.

[21] Restam dúvidas quanto à biografia do autor, mas teria vivido entre os séculos I e VI, uma das possibilidades é de que tenha tido contacto com São Paulo, o Apóstolo.

[22] 354 – 430.

[23] 1515 – 1582.

[24] 1542 – 1591.

[25] A exemplo da exigência de circuncisão e restrição de hábitos alimentares – leis da pureza.

[26] Não confundir com o de Nicéia, que foi o Primeiro Concílio da Igreja; à época do de Jerusalém (séc. I – 48) a Igreja como a conhecemos sequer existia e a cristandade dava os seus primeiros passos na ausência de Cristo.

[27] 185 – 253.

[28] 120 – 172.

[29] “Salvação”, em primeira acepção sugere à alma, mas também pode referir a uma condição (de saúde, familiar, emergencial, contingencial) frente à qual se julgava o destino adverso e inexorável.

[30] Os interessados em aprofundar os estudos sobre essa concepção, também do ponto de vista científico, devem consultar a vasta obra de Victor E. Frankl.

[31] O que ia ao encontro das decisões do Concílio de Jerusalém.

[32] Não é o propósito, aqui, promover o debate sobre este tema, já realizado em vários outros textos.

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