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Inteligência Artificial – Ser ou não ser, eis a questão

✍️ Desconhecido 📅 25/03/2025 👁️ 4 Leituras

Inteligência Artificial

Introdução

A cobertura, sobretudo nos últimos 24 meses, que as medias de todo o tipo (escrita, radiofonia, televisiva, canais abertos, fechados, etc.) e nas suas mais diversas expressões (podcasts, entrevistas, documentários, etc.)  têm dedicado à Inteligência Artificial (IA), elevou o tema à condição de “assunto do momento”, daí não surpreende, por exemplo, que o mote do V Concurso CMSB [1], edição 2024/25 tenha sido “Maçonaria e as Novas Tecnologias”, assim como, mais recentemente, a Academia Maçónica Virtual Brasileira de Letras (AMVBL), no seu Desafio Literário 2025, tenha elegido como tema “O Desafio da Tecnologia para a Maçonaria”.

Todavia, o tema, a IA, enquanto objecto de interesse, não é novo: já há décadas (seguramente mais de meio século) tem ocupado as melhores mentes e os maiores orçamentos de pesquisa e desenvolvimento, sobretudo os concentrados na ecologia do complexo industrial-militar. Portanto, o que hoje se assiste é a chegada ao mercado de produtos-serviços destinados ao consumidor (usuário) final, lastreados em tecnologias já há tempos de uso restrito a determinados sectores, tanto no ambiente público quanto no corporativo. O que ora despontam são os resultados dos esforços ao longo desse processo: as novas plataformas (um conjunto de algoritmos e “ferramentas”) que, a partir do processamento dos registros (constituídos por tudo o que puder ser digitalizado: texto, imagem, som, etc.) armazenados em Banco de Dados massivos (Big Data) são capazes de, mediante ao que é assemelhado a um processo de “aprendizagem-treinamento” (deep learning), gerar “novos” conteúdos (porque originalmente não programados) e, com base nestes, tomar decisões, daí porque identificada como Inteligência Artificial Generativa (IAG) – a máquina actuando como, e quiçá superando, o homem: a partir do conhecimento acumulado, gerando “novos e inusitados” (?) conhecimentos.

Entre tantas publicações, o best-seller de Kurzweil (2018) [2], originalmente lançado em 2005 e, no Brasil, em 2018, já antecipara os principais assuntos que, ao que parece, somente agora (e cabe pensar: por que motivos?) passaram a ocupar os corações e as mentes dos pensadores e estrategistas: preocupações face aos riscos à humanidade em decorrência da perda de controle das tecnologias [3]; dilemas éticos e morais; transformações radicais no mundo do trabalho, nos modelos de negócios, nas estruturas organizacionais e formas de gestão, nas oportunidades de geração de bens, serviços, riqueza e valor; questões relativas à propriedade intelectual; degradação e mesmo retrocesso da condição humana, notadamente no que refere ao desenvolvimento dos processos cognitivos-criativos como sentidos de realização no contexto produtivo; no meio de tantas outras repercussões directas e indirectas, algumas já em curso, outras iminentes e/ou como expectativas.

Se não velho, já amadurecido para alguns, mas novo para muitos (dos que só têm as grandes mídias como fontes de informação), certamente a maioria, o tema da IA, em meio às manifestações entusiasmadas tem sido submetido a vários xeques. Crítico comedido, não à IA propriamente dita, mas ao peso demasiado que ora lhe é atribuído, para M. Nicolelis (2020, 2011) [4], neurocientista brasileiro, a IA não é nem inteligente e nem artificial, mas sem dúvida (mais) uma tecnologia disruptiva cujos impactos ao longo do tecido social são de difícil antecipação e avaliação; ademais, não a vê como a locomotiva do futuro, inclusive pelos constrangimentos que já enfrenta, a exemplo do elevado consumo de energia para manter as fazendas de provedores. De outro lado, em posição mais extremada, dezenas de académicos, empresários e outros, Elon Musk e Steve Wozniak à frente, apreensivos com as prospecções sombrias, publicaram através da ONG Future of Life Institute um manifesto para promover uma moratória no desenvolvimento da IAG [5]. Y. Harari (2024, 2018), também signatário do documento, revela uma apreensão mais moderada; todavia, o cenário de possibilidades de desenvolvimento futuro da IA, prospectado em Nexus (Harari, 2024) seja preocupante.

O leitor atento observou que, acima, algumas expressões foram colocadas entre aspas (“…”), com o que se pretende sinalizar as ambiguidades, controvérsias e incertezas, o que remete à condição de ingenuidade, temeridade e talvez mesmo de irresponsabilidade a qualquer assertiva com ânimo categórico acerca do tema; ainda restam muitos estudos e avaliações, ora dificultados também em razão de estarmos no “olho do furacão”, no centro do palco dos acontecimentos; portanto, sem o distanciamento e a isenção mais do que necessárias, indispensáveis à avaliação crítica de qualquer fenómeno. Ademais, se o que já foi tornado público acerca da IAG tem suscitado apreensão, o que pensar, então, do estado-da-arte que por razões estratégicas ainda é mantido sob sigilo, seja voluntariamente e por interesses “do mercado” (isto é, das corporações envolvidas) ou por determinação governamental em nome da segurança nacional?

Por fim, não se pode ficar à margem do facto de que os questionamentos hoje levantados acerca da IA surgem no meio do acirrado debate, em nível mundial e já há tempos, porém inconcluso, no que tange à regulação (alguns preferem regulamentação) das redes sociais e o nível de responsabilização das bigtecs. São muitos os temas interrelacionados (IA, redes sociais, bigtecs, chatbots, direitos de propriedade, à liberdade, à individualidade e outros), daí porque muito provavelmente não haverá, por certo a médio e mesmo provavelmente a longo prazo, uma solução definitiva e tampouco universal, parece ser necessário dar tempo para que as propostas já colocadas em práticas, em diferentes países, sejam devidamente avaliadas quanto à eficácia, à eficiência e à efectividade, bem como, e quiçá sobretudo, à contribuição agregada no sentido à uma civilização mais harmónica e pacífica.

Portanto, na esteira da CMSB e AMVBL, que elevaram o tema à primeira pauta da Ordem, revela-se oportuno continuar as reflexões sobre o binómio “novas tecnologias – inteligência artificial”, todavia por um enfoque que, talvez, desaponte o leitor mais entusiasmado com as novas tecnologias. Escrito na forma de ensaio, este texto traz uma outra perspectiva. A ver.

Esta brevíssima contextualização histórica teve por objectivo registrar que a IA, apesar da sua relevância e de actualmente estar sob os holofotes, não justificaria, per se, ocupar um lugar diferenciado no contexto da Maçonaria, pelo menos não maior do que as muitas outras e tantas tecnologias às quais sob determinados aspectos até se assemelha, razão pela qual neste texto não lhe será conferido destaque específico. De outro lado, para não repetir, mas também para dar continuidade ao trabalho de Pinheiro e Dutra (2023), na sequência se pretende demonstrar que a história da Maçonaria tem sido pontuada por sucessivos encontros com as tecnologias emergentes – momentos de inovação -, algumas incrementais, outras radicais e em meio às quais as oportunidades e as ameaças se alternaram na forma de constantes desafios. Nessa linha, a IA, que à primeira vista inaugura um novo paradigma, é considerada tão somente como mais uma “nova tecnologia” com a qual a Maçonaria ora se encontra.

Seguindo a clássica divisão, que se não reúne a unanimidade é a mais difundida, na primeira seção este texto comenta o surgimento e o carácter disruptivo de algumas das tecnologias empregadas durante a Fase Operativa da Maçonaria. A passagem da primeira para a segunda, a Fase Especulativa, em primeiro lugar, se não eliminou, reduziu a importância da evolução das tecnologias de construção enquanto aplicações técnicas. Em segundo e em consequência, promoveu o deslocamento das atenções, desde então voltadas para o impacto exercido pelas mudanças tecnológicas sobre o tecido social para além dos limites do ambiente de trabalho, o que se espraia e repercute por entre todas as relações humanas – tópico apreciado na segunda seção. E é importante não perder de vista, para não incorrer no equívoco de situar a Maçonaria no centro do mundo, que o marco de referência da inauguração da Fase Especulativa é o ano de 1717, período em cujo entorno se verificavam profundas e generalizadas transformações (políticas, sociais, económicas, tecnológicas e outras) que a literatura sintetiza na expressão Modernidade, já no seu ápice e em meio ao Iluminismo. E no que refere especificamente à Maçonaria observa-se um ponto de inflexão: com a introdução [6] do Terceiro Grau, da Lenda que o acompanha (alçada à condição de landmark obrigatório a todos os Ritos), bem como do Templo de Salomão como palco das representações e especulações, das quais doravante deverão se ocupar os maçons, as tecnologias (o malho, o cinzel, o prumo, a régua, o nível, o esquadro, o compasso, a trolha e a tábua de delinear enquanto instrumentos fundamentais de trabalho, assim como o corte, o desbaste, o polimento e o assentamento enquanto técnicas de construção) ficaram, por motivos a seguir esclarecidos, como que congeladas no tempo e no espaço. Nos anos seguintes a 1717, ao passarem de significante a significado simbólico, tanto os instrumentos quanto as técnicas ganharam inusitada flexibilidade, o que lhes permitiu pela via da associação ou extensão especulativa (figuras de linguagem, imagens, etc.) a estarem permanentemente actualizados, aí sim, com as novas e quaisquer que venham a ser as tecnologias, o que confere universalidade espácio-temporal à Ordem. E não é o que se espera do Maçom Especulativo, estar atento às transformações no mundo e estar sempre pronto a colaborar na sua (re)construção tendo por base, as agora simbólicas funcionalidades dos instrumentos e das técnicas hegemónicas à época do acto fundador?

Construtor, pedreiro, talhador, assentador, engenheiro, arquitecto, projectista, entre outras, ainda que não sejam sinónimas, são expressões que se alternam por vezes de forma indistinta e mesmo se confundem quando a literatura sobre as tecnologias de construção é revisitada em perspectiva longitudinal, razão pela qual, apesar das eventuais e pontualmente procedentes objecções, neste texto não se fará distinção, afinal, todos os construtores de catedrais (se pedreiros, mestres de obras, construtores em geral ou arquitectos) foram alçados à condição de construtores sociais.

A fase operativa

Enquanto colector e caçador o homem não se preocupava com a moradia fixa, a sua actividade exigia o constante deslocamento errante, por longas distâncias e nem sempre com a perspectiva de ir-vir, embora já ocupasse grutas e cavernas; as suas primeiras ferramentas de trabalho, quer para a sobrevivência alimentar ou defesa-ataque (armas), rústicas, sejam de madeira, de osso ou de pedra (esta, a tecnologia mais avançada), já estavam constituídas. O cineasta S. Kubrick, adepto do evolucionismo, em 1968 imortalizou esse momento numa das cenas mais icónicas do seu “2001 – Uma Odisseia no Espaço” [7], quando um símio (proto-humano) descobre que o uso de uma ferramenta-técnica (o osso) o torna mais poderoso que os rivais – apto para ser o senhor das melhores fontes, o macho alfa. E desde então a revolução técnico-científica não sofreu descontinuidade, circunstância que Kubrick simbolizou, na cena subsequente, com o transporte imediato dos expectadores para os interiores de uma nave espacial em viagem para os limites do universo.

Após o uso do fogo natural, provocado pela queda de raios ou autocombustão, o próximo marco da evolução tecnológica foi o domínio do fogo, algo que ocorreu entre 750-200 mil anos. Os mais interessados nas repercussões dessa que é considerada uma das maiores revoluções tecnológicas na história da humanidade, podem consultar Wrangham (2010); no que ora interessa, importa registrar que sem o controle do fogo, não haveria, por exemplo, o cozimento do barro (que aumenta a resistência do tijolo) e tampouco a fundição dos metais que, tal como o fogo, foi descoberta por acaso – fundição natural. Um interessante paralelismo entre o fogo e a inteligência artificial encontra-se em Acemoglu e Johnson (2024, p. 39):

O Fogo, novamente […] A escuridão das cavernas era um lugar particularmente perigoso, a ser evitado por nossos ancestrais. Então a primeira evidência de fogo é encontrada nesse sítio [Swartkrans, África do Sul]: uma camada de carvão de cerca de 1 milhão de anos. A partir dessa camada o registro arqueológico se inverte completamente: os ossos passam a ser predominantemente de animais não humanos. O domínio do fogo permitiu que os hominídeos ocupassem as cavernas, virando o jogo do predador e da presa. Nenhuma outra tecnologia nos últimos 10 mil anos exerceu esse tipo de impacto fundamental em tudo que somos e fazemos. Mas agora há outra candidata, pelo menos segundo os seus defensores: a inteligência artificial. Sundar Pichai, CEO da Google, afirma explicitamente que “a IA provavelmente é a coisa mais importante em que a humanidade já trabalhou [8]. Penso nela como algo mais profundo que a electricidade ou o fogo”.

Pelo seu poder (criador-destruidor) e o desconhecido que o envolvia, de imediato o fogo passou a ser objecto reverencial e de culto, circunstância ainda hoje constatada nos rituais de muitas tradições, como pode ser visto, por exemplo, no Mito de Fénix presente em algumas Ordens, onde simboliza o subtil, o etéreo, a vida e a morte, o alfa e o ómega, entre outras representações.

O final da última glaciação e da longuíssima Idade da Pedra com a passagem do meso para o neolítico (15-10 mil anos a.C. [9]) trouxeram a sedentarização, a Era da Agricultura e a domesticação dos animais, todos eventos simultânea e reciprocamente considerados causa-efeito, bem como reconhecidos pelas suas características tecnologicamente revolucionárias; logo na sequência viria a roda, inovação que, hoje, poucos se dão conta do impacto trazido à civilização. Alavancado pelas novas circunstâncias e necessidades, o ânimo construtor ganha impulso, seja para o abrigo próprio ou o dos animais, mas também para guardar os excedentes de produção e os utensílios em geral. As primeiras edificações foram construídas pelo empilhamento de pedras, madeira, barro ou tijolos de barro cozido. Tudo ainda muito rude e no âmbito de comunidades fechadas (familiares, tribais) e rivais entre si.

Sucede que

A civilização não começou enquanto o homem não aprendeu a construir a sua morada, pelo que a mais antiga, e talvez a mais nobre arte ou profissão humana, é a do construtor. A Religião assumiu a sua forma externa quando o homem, pela primeira vez, ergueu um altar de oferendas e o cercou de um santuário de fé e reverência, de piedade e consolação, e juntou pedras para assinalar as tumbas onde enterrou os seus mortos. A História não é mais velha do que a arquitectura (Newton, 2000, p. 190-1).

A Era dos Metais – cobre, bronze [10] e ferro -, iniciada entre 5,0 a 3,5 mil anos a.C., também é considerada um divisor de águas, os povos que dominaram as novas tecnologias – a fundição e o forjamento – deram origem, pela superioridade das armas no campo de batalha, às primeiras grandes civilizações do Crescente Fértil – que se estende dos rios Tigre e Eufrates ao Nilo -, caracterizadas, entre outros aspectos, pelas grandes construções: cidadelas muradas; guarnições militares; residências (castelos, palácios); prédios públicos-administrativos; depósitos para alimentos e silagem; templos; túmulos (os zigurates, as pirâmides); estradas; pontes; barragens; canais; infra-estrutura (aquedutos, cisternas, banhos públicos, sistemas de drenagem e esgotos, etc.) e tantas outras mais. Cada uma dessas construções exigia uma variedade de profissionais e o domínio de técnicas específicas desenvolvidas com muito custo, risco e lentidão, na maioria das vezes por tentativa e erro, daí a sua limitada difusão, inclusive também porque consideradas segredos para assegurar os mercados aos seus profissionais.

Em meio aos povos da mesopotâmia e a civilização egípcia [11], a Maçonaria foi buscar o legado que ainda hoje a acompanha: o da cultura judaico-cristã. Desnecessário enumerar os inúmeros episódios e personagens que, provenientes dessa matriz, povoam as doutrinas e os ritos maçónicos; todavia, no contexto ora em tela, um evento merece ser ressaltado: a Torre de Babel. Independentemente da historicidade do acontecimento, pois há controvérsias, a Torre é o primeiro grande empreendimento de alvenaria [12] relatado na Bíblia, antecedido apenas pela Arca de Noé, mas esta construída à base de madeiras. Contudo, para além desta primazia, a Torre deve a sua notoriedade ao simbolismo que representa: 1) a desobediência do homem à divindade, que o instruíra a se dispersar e povoar a terra; 2) seguida do orgulho, da soberba, da vaidade, do se imaginar e equiparar como a Deus. São incontáveis as leituras já realizadas e as lições morais extraídas desse episódio, mas a que ora cabe ressaltar, e que pelas preocupações já reveladas frente a IA permanece actual, é que o uso das tecnologias (conhecimento, lato sensu) deve ser sopesado e orientado por valores mais elevados, tão sublimes que, para alguns, provenientes de um plano transcendente. O cultivo da Árvore do Conhecimento demanda cuidados, esconde segredos e nem sempre todos os seus frutos serão adocicados. A mitologia grega, a exemplo das lendas de Prometeu e Ícaro, também traz alertas sobre os riscos da busca desmedida pelo conhecimento, por novas tecnologias, mas também aponta os benefícios colhidos pelos que ousam, como bem expressou o contemporâneo Bach (2017, p. 60): “vê mais longe a gaivota que voa mais alto”. À luz dessa realidade a Maçonaria reforçará a importância das virtudes cardeais, directamente aplicáveis ao caso, a Temperança e a Prudência.

Já na Antiguidade, período que se estende até 476 d.C., seja pelo projecto expansionista do Império Romano que no seu curso deixava um rastro de destruição, que por sua vez gerava a necessidade de (re)construção, seja por outros motivos, a exemplo das indispensáveis guarnições militares, mas também pela necessidade de ganhos de produtividade, tornou-se evidente a conveniência e a oportunidade de uma nova instituição dedicada ao estudo e ao aperfeiçoamento sistemático das técnicas de construção: as primeiras associações profissionais [13] – os collegia romanos:

[…] as antigas ordens de arquitectos foram as predecessoras da Maçonaria moderna seguindo as suas pegadas, que se perdem de quando em quando em vazios, através da fraternidade dionisíaca de Tiro e dos Collegia [14] romanos, até os arquitectos e Maçons da Idade Média […] ainda é incerta a data do surgimento dos Arquitectos, em Roma. Alguns já os colocam na fundação [séc. VIII a.C.] da cidade, enquanto que outros, durante o reinado do rei Numa, amigo de Pitágoras (Newton, 2000, p. 81);

[…] um vasto e abrangente império, o homem individualmente se tornou menor e mais só. Este sentimento, unido à crescente especialização da indústria [de construção], despertou o desejo de associar-se, organizando-se numerosos Collegia […] grande desenvolvimento das artes manuais e de quão minuciosa era a sua especialização. Cada ramo do comércio se constituiu em ordem secreta, e tão poderosa tornou-se a sua influência, que os imperadores se viram compelidos a abolir o direito de livre associação […] desejo universal de associação. Logo, encontrou-se um meio de contornar a lei que havia excepcionado das suas restrições, as Ordens consagradas por sua antiguidade ou as de carácter religioso. A maior parte dos Collegia se transformou em instituições beneficentes ou funerárias […] (op. cit., p 82);

Desde os primeiros tempos parece que os Colégios de Arquitectos gozaram de privilégios especiais e regalias, devido ao facto de que os seus serviços eram mui valiosos ao Estado, e, apesar de não sabermos se se denominaram Pedreiros-Livres, o certo é que o eram de facto, antes que se lhes desse esse nome. Permitia-se-lhes ter as suas constituições e regulamentos seculares e religiosos. Os Colégios romanos se pareciam muito, por sua forma, emblemas e cargos, às modernas Lojas Maçónicas (op. cit., p. 82-3).

É importante ter em conta que as formas (ou modelos) organizacionais ao responderem às novas condições ambientais, grosso modo, às alterações no mercado (condições de oferta e demanda – de produtos e serviços, matérias-primas, mão de obra, qualidade, preço, logística, etc. -, alterações nos marcos regulatórios, etc.) se equiparam, por extensão de significado e finalidade, às demais tecnologias, agora então consideradas como “tecnologias de gestão” (quem ainda não escutou a expressão “software de gestão”) e, tais como as “tecnologias duras”, sempre em busca de inovações destinadas à exploração das novas oportunidades ou mesmo para a defesa frente às hostilidades. As questões sucessórias, as guerras, as pestes, o surgimento da moeda, dos tributos, dos regulamentos sanitários, entre outros eventos, mutatis mutandis, tal como ainda hoje, constantemente modificavam o cenário relevante (a exemplo do mercado) e exigiam novas alternativas de enfrentamento para a sobrevivência e o sucesso.

Por oportuno, vale lembrar que não é ao acaso que a noção de Pessoa Jurídica – com exigências, responsabilidades, direitos e deveres -, com existência independentemente dos indivíduos propriamente ditos (vivo ou morto), seja individual [15] ou corporativa [16], pública ou privada, é uma herança da cultura romana. E desde então o mundo passou a ser povoado, também, por outras espécies do género (autarquias, autarquias especiais, fundações, os diversos tipos de sociedade, administração directa, consórcios, organizações não governamentais, no Brasil a figura do MEI [17], etc.), cada qual à disposição dos interessados à luz das suas necessidades, conveniências, estratégias e objectivos. Assim, a organização tipo collegia, associação precursora da Maçonaria, foi identificada como a melhor resposta aos desafios ambientais do seu tempo. Um salto na História conduz a 1717, quando o modelo das Grandes Lojas, introduzido na Inglaterra logo ganhou disseminação no continente devido a compreensão de que era a melhor alternativa de equacionamento com vistas à solução dos problemas de então e para alcançar os objectivos à época pretendidos.

Infelizmente, são poucos os que percebem as estruturas organizacionais (em si mesmo) e os modelos de gestão enquanto tecnologias que podem favorecer ou dificultar a missão institucional, as suas estratégias e o sobretudo o atingimento dos objectivos. Olhar as Organizações (a exemplo de Lojas e Potências) a partir de metáforas (como uma máquina, como um cérebro, uma rede de informações … uma tecnologia) é amplamente explorado na literatura específica, a exemplo de Mintzberg (1995), Morgan (1996) e, mais recentemente, em carácter mais abrangente, por Harari (2024).

No Brasil, o Regime (Rito) Escocês Rectificado (RER) possibilita uma interessante reflexão acerca dos modelos organizacionais enquanto tecnologias teleológicas: estruturado em 6 (seis) Graus, os 4 (quatro) primeiros [18] são referidos como simbólicos-maçónicos, enquanto que os demais são considerados Graus de Cavalaria [19]. Todavia, em razão da estrutura tradicional da maçonaria brasileira, os 3 (três) primeiros Graus Simbólicos (Lojas Azuis) são administrados pelas Potências pluri ritualísticas (Grandes Lojas, Grandes Orientes e Grande Oriente do Brasil), enquanto que o quarto (MESA, Loja Verde), ao lado dos subsequentes (EN e CBCS) são administrados pelo Grande Priorado Rectificado do Brasil. Dado que as Potências e o Priorado são instituições autónomas e independentes, ainda que próximas por laços de amizade eventualmente institucionalizados mediante Acordos e Tratados, não é possível deixar de antever, nesse arranjo, dificuldades operacionais que podem mesmo comprometer os objectivos últimos de ambas as instituições. Entretanto, no Brasil, o RER também é oferecido pelo Gran Priorato Rectificado de Hispania que, de origem, reúne e administra todos os Graus, do primeiro ao sexto. Esta diferença, nada subtil, faz com que, no primeiro caso a administração se dê, sobretudo, na estrita perspectiva de cada Grau, na grande maioria das vezes apreciados de forma isolada, quase estanque. Enquanto que no segundo, a perspectiva do Regime, sob administração unificada, favorece que os Graus sejam conduzidos (apresentados, estudados) de modo integrado: o subsequente em complemento ao antecedente que, por sua vez, levanta as questões que os subsequentes trarão as respostas e a plena compreensão da totalidade – o sentido do Regime. O motivo do descompasso é evidente: no primeiro caso, como não é (e nem pode ser) obrigatório aos Veneráveis e aos Vigilantes das Lojas Azuis terem sido Iniciados no Grau de MESA (administrado pelo Priorado, quando encerra o simbolismo, esclarece o sentido de toda a narrativa), estes não detêm os conhecimentos necessários para conduzir os trabalhos e desenvolver a doutrina de forma integrada; enquanto no segundo, a condição de ser Mestre Escocês de Santo André pode ser instituída como exigência aos pretendentes à condição de Luzes da Loja. Os primeiros seguem como que à esmo, enquanto os segundos têm um claro norte a seguir. A questão que de pronto se levanta, bem como se antecipa a impossibilidade de respondê-la em razão de a Maçonaria não oferecer abertura suficiente para estudos desta natureza, é: qual das duas tecnologias é mais eficaz, eficiente e efectiva à luz dos objectivos últimos? O exemplo ilustra que, mesmo em instituições tradicionais, há espaço para alternativas de arranjos institucionais, como revelado em Pinheiro (2023a). As Lojas que total ou parcialmente operam no ambiente virtual, bem como a actividade docente à distância, também são exemplos de inovações organizacionais que se valem das novas tecnologias para trazer maior efectividade às demandas explicitadas ou latentes.

Com a desestruturação das instituições, a desorganização social, económica e as perseguições que sucederam à queda do Império Romano ocidental (séc. V), por motivos que fogem à exploração neste texto, muitos integrantes dos collegia buscaram refúgio em Como, cidade e região da Lombardia, Itália, aonde floresceu um núcleo associativo que preservou e desenvolveu as tecnologias aplicadas à construção – a arquitectura Comacine. Tendo sido elevado à condição de religião oficial de Roma [20] e estando em franca organização e crescimento, foi no entorno do cristianismo católico, sobretudo após Carlos Magno [21], que o Velho Mundo se reorganizou. O ambiente (relativamente) mais estável e a oferta de patrocínio estatal, monástico, clerical ou privado (mecenas), possibilitaram que os Mestres Comacines, notáveis pela sua extraordinária habilidade, difundissem a sua arte pelo mundo. A citação a seguir, embora longa, se revela oportuna, se não indispensável:

[…] que na época em que Roma era um monte de ruínas sob os bárbaros, o collegium, ou um collegium, não sei qual, fugiu para Como independente; e lá, séculos depois, eles foram empregues pelos lombardos e acabaram tornando-se novamente uma poderosa guilda […] que vários deles, descobrindo que o seu trabalho em Roma havia desaparecido nos tempos da invasão, se uniram para fazer esse trabalho noutras partes do mundo (Scott, 2023, p. 24) [22];

[…] a Lombardia, onde a superioridade da arquitectura, sob os reis lombardos, era tal que o termo Magistri Comacini se tornou quase um nome genérico para arquitectos […] construtores e escultores formavam uma única fraternidade, cujo objectivo era encontrar trabalho fora da Itália. Na verdade, a distância e os obstáculos não eram nada para eles; eles viajaram para a Inglaterra sob Agostinho [vide parênteses a seguir], para a Alemanha com São Bonifácio, para a França com Carlos Magno e novamente para a Alemanha com o seu irmão magister Alberto Magno; eles foram para o leste sob os imperadores orientais, para o sul sob os duques lombardos e, de facto, são encontrados em todos os lugares por muitos séculos. Os Papas, um após o outro, deram-lhes privilégios. De facto, os construtores podem ser considerados um exército de artesãos trabalhando no interesse dos Papas, em todos os lugares onde os missionários que os precederam prepararam o terreno para eles […] eles assumiram o direito de depender total e exclusivamente do Papa, que os absolveu da observância de todas as leis e estatutos locais, decretos reais e regulamentos municipais, e os liberou da servidão, bem como de todas as outras obrigações impostas ao povo do país. Eles não tinham apenas o poder de fixar os seus próprios honorários, mas o direito exclusivo de regular nas suas próprias lojas tudo o que pertencia ao seu próprio governo interno. Estes diplomas e bulas proibiam qualquer outro artista, estranho à guilda, de estabelecer qualquer tipo de competição com eles […] Encorajado [sic] por tal protecção especial, os romanos em grande número ingressaram na Guilda Maçónica, principalmente quando se destinavam a acompanhar os missionários enviados pelo Papa a países até então não visitados por eles (op. cit., p. 25).

(Preliminarmente, importa esclarecer que o Agostinho referido na citação não é o Agostinho de Hipona [23], o mais conhecido – no Brasil – entre os católicos. Em segundo lugar, dadas as controvérsias acerca da origem da Maçonaria, assume especial relevância a citação a seguir, extraída de Preston (2017, p. 148-9) [24]: “A Maçonaria continuou num estado decadente até o ano de 557, quando Agostinho, com mais quarenta monges, entre os quais as ciências [leia-se: a teoria e as tecnologias de construção] haviam sido preservadas, chegou à Inglaterra […] A Maçonaria floresceu sob o patronato de Agostinho e muitos estrangeiros vieram à Inglaterra nessa época, introduzindo o estilo gótico na construção”.)

O que extrair dessas citações? Em primeiro lugar, um necessário alerta histórico: se de um lado a conexão defendida por Scott (op. cit.) – collegia-Como enquanto eixo de preservação e transmissão dos saberes da construção, da Alta [25] para a Baixa [26] Idade Média -, encontra referência em Preston (op. cit.) e é abraçada por Newton (op. cit.), do outro, e é importante esclarecer, não reúne a unanimidade, como pode ser visto, por exemplo, em Haywood (2023). Todavia, o que mais importa no contexto ora em pauta é observar o quanto de poder e privilégios a Maçonaria reuniu em razão dos seus saberes e da excelência no uso das técnicas, só possíveis mediante acurados estudos e pesquisas, mas também da flexibilidade para adaptação conforme a disponibilidade dos recursos, dos usos e dos costumes locais. O facto de a Maçonaria Operativa ter sido, em si mesma, um exemplo do poder do conhecimento, e que não foi exercido sem abusos [27], em princípio contribui para entender aqueles que hoje se preocupam com o alcance e a difusão da IA.

Do românico ao gótico. A narrativa de Gombrich (2013, p. 139-40) permite entrar no ambiente, no momento e apreender a importância da descoberta das novas tecnologias:

[…] uma ideia inaudita fez com que todas as igrejas normandas e românicas parecessem desajeitadas e obsoletas. Oriunda no norte da França, era o princípio do estilo gótico. O que, a princípio, poderia ser considerado basicamente uma inovação de ordem técnica, acabaria se tornando muito mais que isso: a descoberta de que o método de construção de abóbadas por meio de arcos transversais podia ser desenvolvido de um modo muito mais sistemático e com objectivos bem mais ambiciosos do que os arquitectos românicos jamais sonharam. Se era verdade que os pilares bastavam para sustentar os arcos da abóbada entre os quais as pedras serviam como mero enchimento, então também as paredes maciças entre os pilares eram supérfluas […] ao contrário, nas paredes podiam ser abertas amplas janelas. O ideal dos arquitectos passou a ser construir igrejas quase como hoje construímos estufas – excepto pelo facto de que eles não dispunham de esquadrias de aço nem de vigas de ferro; tinham de erigi-la em pedra, o que requeria um sem-número de cálculos rigorosos. Contudo, se eles estivessem correctos, tornava-se possível erguer igrejas de um tipo inédito: construções em pedra e vidro, como o mundo nunca vira antes.

Se inicialmente voltado para ao estilo românico-bizantino prevalecente na Alta Idade Média (basílicas [28], igrejas, abadias, pontes, etc.), o desenvolvimento tecnológico viria a culminar, na Baixa Idade Média, no gótico das catedrais – notadamente no arco ogival, no arcobotante e nas abóbadas que lhes são características. As tecnologias de construção, combinadas às aplicadas ao vidro, possibilitaram praticamente eliminar as paredes, substituídas por majestosos vitrais. Harmoniza e completa a obra, o aperfeiçoamento da arte da escultura, também em alto e do baixo-relevo, sem a qual não teria sido possível prover as catedrais da miríade de peças (distribuídas internamente, nos frontispícios, nas laterais, na cobertura e onde mais houvesse espaço) que organizam as narrativas colhidas nas Escrituras e que lhes justificam o epíteto de Livros de Pedra, cuja leitura e compreensão, infelizmente, escapam ao Maçom contemporâneo. O trecho a seguir, também extraído de Gombrich (op. cit.) esclarece a origem da expressão:

[…] foi o Papa Gregório Magno, que viveu no final do século VI d.C. e lembrava àqueles que eram contra a toda e qualquer pintura que muitos membros da Igreja não sabiam ler nem escrever e que, para fins didácticos, as imagens eram tão úteis quanto as figuras de um livro ilustrado para crianças: “As pinturas podem fazer pelo analfabeto o que a escrita faz pelos leitores” […] a história tinha de ser contada com a maior clareza e simplicidade possíveis, e tudo o que fosse capaz de distrair a atenção desse objectivo central e sagrado devia ser omitido (p. 104-5);

Assim, quase todas as figuras que se aglomeram nos pórticos das grandes catedrais góticas são claramente identificadas por um emblema, de modo que o seu significado e mensagem fossem compreendidos e inspirassem a reflexão por parte dos fiéis (p. 143).

Todavia, como bem demonstra Fulcanelli (s.d.), no meio aos elementos cristãos-católicos os artífices ocultaram outros símbolos, notadamente os alquímicos (pagãos!). Embora dominada desde a Antiguidade, foi somente na Idade Média, e lentamente, que as tecnologias do uso do ferro ganhariam difusão.

Após o ciclo das catedrais a Maçonaria Operativa entra em declínio. A reconstrução de Londres, após o grande incêndio de 1666, é o marco da última grande reunião de profissionais provenientes das mais diversas partes do mundo, bem como um dos seus últimos estertores. Muitas questões exógenas, de ordem política (a ex. da consolidação do Estado-Nação), económica (que resultou no desaparecimento dos mecenas) e religiosa (a Reforma), contribuíram para o seu ocaso; mas também as de ordem interna, como a degeneração dos costumes, as brigas e as dissidências, bem como a crescente admissão, por variados motivos, de membros não vinculados ao ofício.

O impacto da Reforma Religiosa sobre a Maçonaria mereceria um capítulo à parte, notadamente a partir da Inglaterra, epicentro das iniciativas de Henrique VIII [29] que “[…] destruiu todas as corporações religiosas; elas morreram rapidamente com o advento do sistema capitalista” (Haywood, op. cit., p. 108) e que aos poucos, conforme se desenvolvia o capitalismo, se estenderam para todo o continente: “A França as baniu em 1789-1791, a Espanha e Portugal em 1833-1840, a Áustria e a Alemanha em 1859-1860; a Itália em 1864; a Escócia, onde o desenvolvimento seguiu linhas continentais, em1846, e Inglaterra em 1835” (id., ibid.). A relevância, aferida pela amplitude e pela profundidade das mudanças iniciadas por Henrique VIII pode ainda hoje ser aquilatada pelas citações trazidas aos textos mais contemporâneos que, se de um lado estão distantes do escopo maçónico, de outro estão próximos do tema central deste texto, a questão tecnológica: “Henrique VIII dissolvera os mosteiros e vendera as terras dos monges em meados do século XVI. As elites rurais eram agora a pequena nobreza da gentry: grandes proprietários de terras com o olho cada vez mais afiado para a modernização do campo e o incremento dos excedentes” (Acemoglu e Johnson, op. cit., p. 126).

E curiosa e paradoxalmente, o que antes contribuíra para o fortalecimento e a expansão da Ordem, o domínio tecnológico, com a emergência das novas tecnologias aplicadas à construção e frente às novas configurações do mercado (as rígidas fronteiras nacionais, os marcos regulatórios trabalhistas, a maior intervenção estatal, os sistemas de ensino de maior alcance, etc.) passaram, já no alvorecer da Modernidade, a operar no sentido inverso.

Em um mundo no qual o conhecimento se transmitia pela oralidade ou através dos raros e inacessíveis manuscritos, os Livros de Pedra exerceram um papel ímpar e de grande relevância, sobretudo tendo em vista a cosmovisão cristã que orientou os corações e as mentes durante o período medieval; todavia, com o maior acesso à educação, as edições impressas e em série, a começar pela Bíblia, só tornadas possíveis com a prensa de J. Gutenberg (séc. XV), as sementes de uma nova ordem estavam lançadas ao vento. Assim, pouco a pouco as catedrais perdem a condição de referências como de centros de instrução, a ponto de hoje, para a maioria, corresponderem a não mais do que pontos obrigatórios à visitação turística e, claro, para umas tantas selfies.

A advento da Modernidade trouxe novos requerimentos, que embora fora do alcance das guildas, repercutiram com grande intensidade no seu seio, como é o caso das inovações tecnológicas que, se até então eram produtos do empirismo assistemático e das incansáveis (morosas e custosas) tentativas e erros, passaram a ser decorrentes do metódico e continuado empreendimento científico, sobretudo dos estudos e pesquisas nos campos da física, da química, da matemática e outros, todos calcados em evidências e submetidos a testes cada vez mais rigorosos. Todavia, é provável que mais do que qualquer outro factor, que o gradativo deslocamento do eixo de uma cosmovisão cristã para uma secularização crescente, que atingirá o seu ápice no Iluminismo, tenha sido o responsável pela perda, por parte da Maçonaria Operativa, de um dos seus principais substratos.

E desde então, o avanço (sem fim) das ciências aplicadas às técnicas (tecnologias) de construção – concreto, aço, novos materiais, mecanização, automação, projectos e produção assistidas por computador, etc. -, bem como outras tantas acessórias, passarem a ser de somenos importância directa para a Ordem, cujo foco ao que tudo indica oportunamente passou a ser direccionado à especulação simbólica, o que a mantém viva e actuante até os dias actuais. A título ilustrativo, a questão da sustentabilidade, particularmente a que refere à ecologia ambiental, tem sido um dos temas mais frequentes nas pautas dos debates contemporâneos, alçada mesmo à condição de sobrevivência do planeta, razão pela qual os seus desdobramentos inexoravelmente se estendem também às tecnologias de construção; não obstante, não são enquanto tais que ocupam a atenção do maçom contemporâneo.

A fase especulativa

Embora cindida desde 1054, às vésperas da Modernidade a cosmovisão cristã ainda conferia unidade à Ordem; todavia, a Reforma do séc. XVI trouxe à cena novos elementos que modificaram, fragmentando, o cenário. Cada vez mais e mais constrangida pelo novo ambiente, com a cosmovisão cristã, já fracturada, na esteira do Renascimento, do Humanismo e em plena Modernidade Iluminista, a Maçonaria Operativa cede, em definitivo, o lugar à Especulativa que, assim, já nasce dividida, uma das partes, catalisada pela centralidade da razão e no desenvolvimento científico-tecnológico, mais secular. E desde então, séc. XVIII, para se ajustar ao novo ambiente, o que se assiste é uma profusão de Ritos, de Ordens e Graus, muitos já em desuso como se a dar lugar para o surgimento, quase que diário, de tantos outros.

É importante não esquecer que desde J. Kepler [30] e G. Galilei [31] – para citar apenas 2 (dois) dentre os marcos mais conhecidos -, os cânones bíblicos vinham, crescentemente, enfrentando xeques provenientes dos avanços lastreados em dados colhidos em diversos estudos e pesquisas sobre a natureza; e ao final da Modernidade, também a exegese bíblica passa a enfrentar dificuldades que se tornaram ainda mais agudas com as descobertas arqueológicas e documentais ocorridas o séc. XX.

Até então, nos estertores da Maçonaria Operativa, todos os aspectos da vida, inclusive os ofícios, eram orientados no sentido à salvação (da alma) a ser alcançada mediante a obediência quotidiana, senão às Escrituras [32] aos seus intérpretes oficiais, e quando por ocasião de um porvir transcendente (o advento da parusia). Porém, no contexto da Maçonaria Especulativa se observam mudanças em alguns casos não de grau, mas de natureza, por isto radicais: de um lado, a secularização da cultura, se não elimina, reduz sobremodo a relevância das Escrituras enquanto texto basilar dos valores e norteador dos usos e costumes; de outro, há os que defendem que o conteúdo destas mesmas fontes não mais deve mais ser submetido e compreendido apenas a partir do sentido literal ou oficial, mas às metáforas, às fábulas, às parábolas, às alegorias, enfim aos símbolos que reúne, devem ser aplicados outros níveis de leitura e interpretação capazes de extrair os entendimentos que ocultam, em especial os que se apresentam na forma de lições morais aplicáveis ao quotidiano [33]. E não se pode negar a existência de um terceiro contingente, de difícil mensuração, mas certamente não desprezível, que se mantém fiel ao velho paradigma, qual seja, admitem, sem maiores questionamentos, a literalidade do conteúdo oficial das Escrituras.  Os maçons, sem que se possa, com precisão, quantificar os efectivos, podem ser encontrados em qualquer um dos 3 (três) grupos apresentados. Todavia, independentemente do grupo de origem, se o construtor de edificações e obras deu lugar e foi substituído pelo construtor social, o papel e a relevância das novas tecnologias devem, por todos, ser ressignificados.

E se até aqui os argumentos deste ensaio tiveram como alicerces a farta literatura disponível, doravante as fontes complementares serão suplementadas com a experiência e o posicionamento do autor.

Em primeiro lugar e em perspectiva mais próxima, no novo ambiente o foco das atenções do construtor social, deveria, em princípio, estar voltado para transformações que as tecnologias emergentes (em todos os domínios) [34], incessantemente, submetem a sua matéria-prima, a sociedade, desde aquelas cujo impacto é considerado incremental, mas sobretudo as avaliadas como disruptivas; pois ainda que não houvesse mais motivos, e os há, muitos até, pelas repercussões mais imediatas no mundo do trabalho, onde o seu, assim como o emprego dos que lhes são mais próximos e caros, estão em permanente risco (Christensen, 1997; Christensen e Raynor, 2003). Estas reflexões, diga-se, não são novas, vide, entre tantos, além dos já citados, também Bridges (1995), Rifkin (1995), Forrester (1997), Gray (1999) e, mais recentemente, Schwab (2016) – Fundador e Presidente Executivo do Fórum Económico Mundial. As competências até então adquiridas se revelam obsoletas para fazer frente às novas tecnologias, e para além das pressões económicas e financeiras mais imediatas (tempo e custo para a aprendizagem continuada ou, alternativamente, o desemprego), trazem uma nova ordem de problemas: o sofrimento psíquico (sentimento de insignificância, vazio existencial) e o desalento (por incapacidade e impotência) que, se não devidamente acompanhados, para além das tensões nos relacionamentos (familiares, profissionais, etc.), no limite e em acto de desespero podem mesmo levar ao cometimento de desatinos (Sennett, 1999; Frankl, 2015).

Em perspectiva mais alargada, também já há tempos que as mudanças técnicas – e talvez os melhores ícones contemporâneos sejam a internet e a telefonia móvel – têm sido apontadas como o gatilho das mudanças que dariam constituição a uma nova realidade igualmente submetida a novas atitudes, comportamentos, valores, modelos de relacionamentos, jogos de poder, entre outros tantos aspectos da vida social, daí porque escolhidos como o objecto de estudos de vários pensadores contemporâneos, a exemplo de Ortega y Gasset (s.d.) [35] e Bauman (2001). Mais recentemente, Harari (2024, 2018) e Han (2017, 2018) se encontram entre os principais porta-vozes que chamam a atenção para as repercussões no tecido social provocadas pelas mudanças técnicas.

O intento, aqui, não é fazer uma enumeração sem fim de títulos (e poderia citar outros tantos), mas antes trazer à evidência para o leitor o lugar e a importância deste debate na contemporaneidade que, frise-se, não é novo, mas que, de regra, ainda ausente na Maçonaria, sobretudo nas Lojas, mas crescente na produção textual.

À luz desses factos, chega a surpreender, na Maçonaria brasileira, que ao invés de auscultar o que está iluminado pelo farol de milha, em Loja os olhos estejam voltados, predominantemente, para o retrovisor; tudo se passa como se a Ordem ainda estivesse na Fase Operativa: a constante evocação do passado (desde os filósofos e pensadores aos seus maiores vultos) e, sessão após sessão, a insistência na reafirmação da importância do esquadro, do compasso, do malho, entre tantos outros instrumentos sem que, entretanto, se dedique maior tempo em reflexão acerca dos seus correlatos na actualidade. Quais são, actualmente, os efectivos instrumentos (lato sensu) e as tecnologias colocadas à disposição do construtor social? Como fazer das tecnologias emergentes e em permanente mudança, ferramentas de trabalho? Quais os elementos do plano de trabalho devem ser considerados essenciais (e não detalhes acessórios) à luz da realidade na qual as Lojas estão inseridas? Enquanto forem deixados do lado de fora, como se temas exclusivos do mundo profano, a Maçonaria brasileira não terá, efectivamente, passado da fase Operativa à Especulativa, ao que se adiciona um agravante: o facto de que, na grande maioria das vezes, as Lojas se reúnem no nível de Aprendiz, o que faz crer que os Mestres já dominam todo o conhecimento. Mas passado um tempo, os mais novos Iniciados se questionam: como os Mestres aprenderam se eles mesmos não se reúnem para estudar? A resposta é o velho escapismo: a trajectória do Maçom é individual.

Salvo engano, parece que não é claro o significado, e tampouco a abrangência e a flexibilidade inauguradas com a Maçonaria Especulativa, onde a miríade de Ordens e Ritos, independentemente dos questionamentos quanto ao mérito são, antes de tudo, uma expressão da nova realidade; não obstante, interna corporis as críticas recíprocas podem ser sintetizadas na frase “nós é que somos, conhecemos o verdadeiro caminho, a verdadeira maçonaria”. O outro lado da moeda é constituído pelos enormes desafios da Fase Especulativa; e se as lideranças internas não dominam a essência do significado do “ser-especulativo”, o que pensa criticamente, e tampouco se esforçam ou minimamente revelam interesse em conhecer, por pouco que seja, alguns dos temas contemporâneos pelo que a partir deles é projectado, está instalada a contradição interna responsável pela percepção e indagação de muitos: afinal, o que eu estou fazendo aqui, o que é que isto (a permanente evocação e celebração do passado, a ritualística, as instruções, etc.) agrega no sentido à expectativa de contribuir num projecto de construção social? É necessário, antes, construir a ponte entre a Fase Operativa e a Especulativa para, na sequência, efectivamente especular: primeiro, passar do significante operativo (instrumentos e técnicas) para os seus correlatos contemporâneos, em permanente actualização; segundo, a partir dos princípios e valores acolhidos pela Maçonaria em geral e cada Rito em particular, efectivamente especular: como, a partir desses instrumentos e técnicas, e sendo fiel aos princípios da Ordem, o Maçom pode ocupar o seu lugar como agente proactivo na sociedade?

Paradoxalmente, porque obrigou o indesejável distanciamento físico dos Irmãos, um dos subprodutos positivos da pandemia causada pelo vírus corona (CoViD – corona virus desease) foi trazer a Maçonaria brasileira para o ambiente virtual que, devido ao alcance das suas possibilidades, aproximou aqueles que nunca pensaram um dia estar próximos, e menos ainda estabelecer contacto, inclusive, senão com especialistas, com pessoas cujas expertises não são habituais nas Lojas tipo. A nova realidade foi abordada a partir de diferentes perspectivas na colectânea organizada por Morais (2021) – experiências, prospecções, análises críticas, propostas, etc. -; todavia, até então, com raras excepções, eram grandes as resistências “a essas modernidades”, o que leva à triste conclusão de que a adopção das novas tecnologias, pela Maçonaria, foi antes uma contingência imposta por um acontecimento externo do que o resultado de uma estratégia com objectivos e metas deliberadas, o que explica o retardo e as dificuldades enfrentadas por muitos, inclusive ao nível institucional. Este episódio, per se, é merecedor de profundas reflexões, assim como explica as dificuldades actuais para desenvolver e aperfeiçoar o estado-da-arte nas Potências.

O retorno à normalidade – às sessões presenciais -, aliado ao esgotamento que se verifica no modelo de podcasts e lives (muitas insistem no enfoque predominantemente histórico, outras expõem a falta de preparo dos apresentadores que se limitam à leitura de um conjunto sem fim de slides repletos de conteúdos que fogem à vista do expectador, mas também dos entrevistadores-moderadores que, por desconhecimento da matéria, deixam passar a oportunidade de explorar a bagagem de conhecimento trazida pelos interlocutores-entrevistados, etc.) pode levar a um retrocesso na diversidade e profundidade dos temas que então vinham sendo debatidos no seio da Fraternidade. Premidas pelo tempo exigido pela ritualística ordinária, e também pela necessidade de ampliação ou progressão dos Quadros, sobra muito pouco tempo, às Lojas, para que o estudo livre, a especulação e o debate interno prosperem. Já os Quadros, que antes substituíram o tempo em Loja-física pelo tempo em Loja-virtual, com o retorno também das demais ocupações, tiveram reduzidos os seus graus de liberdade para identificar janelas de tempos livres. O que não significa, em absoluto, que não se possa pensar e criar alternativas.

Considerações finais

Por oportuno, não se ignora a relevância das tecnologias aplicadas à gestão propriamente dita, à elaboração estratégica, à tomada de decisão, aos programas, projectos e processos e outros aspectos, sejam das Lojas ou das Potências; todavia, por opção, não foi este o foco deste ensaio.

Este texto, através do resgate de alguns marcos históricos, pretendeu chamar a atenção para o facto de que o encontro com as novas tecnologias, a exemplo da Inteligência Artificial, não são novidades à Ordem Maçónica, pois é o contrário que se verifica, sobretudo quando posto em foco a sua Fase Operativa. E mais, a Maçonaria cresceu e ganhou força, em parte também em razão das tecnologias que reuniu e desenvolveu, bem como daquelas que soube fazer orbitar no seu entorno, qualificando e embelezando o ofício. Entretanto, aos olhos e ao entendimento de quem não acompanha com regularidade e atenção o que se passa ao derredor, senão tudo, quase tudo se lhe apresenta como novidade, daí as surpresas, mas enquanto alguns enxergam as oportunidades que se descortinam, outros receiam porque sobrevalorizam os riscos. Todavia, ainda mais antiga do que a Ordem, é a lição de que virtus in medium est.

A sucessão de inúmeras mudanças ambientais levou a que, da Fase Operativa se tenha passado à Especulativa, quando os avanços tecnológicos, até então vistos tão somente como ferramentas de trabalho, deixaram de ser centrais à Ordem, conditio sine que non à sobrevivência e ao sucesso. A Fase Especulativa promoveu o deslocamento do eixo das atenções: das tecnologias de construção per se (instrumentos e técnicas) para os seus correlatos simbólicos-axiológicos aplicados ao projecto de construção pessoal e, por extensão, do ambiente social (familiar, profissional, público, enfim, do grupo de referência ao alcance das iniciativas). E desde então, não mais importam apenas as tecnologias aplicadas à construção, mas toda e qualquer inovação técnica que repercuta nos usos e costumes sociais, simultaneamente, a matéria-prima, o objecto e o instrumento da acção do Maçom, inclusive do seu próprio eu, daí a célebre recomendação: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, que com algumas variações se encontra incorporada em várias celebrações iniciáticas.

No novo ambiente, em permanente dinamismo, já há mais de 3 (três) séculos, ao contrário do que à primeira vista sugere, as habilidades e as competências ideais esperadas dos gestores das Lojas e Potências – cultura geral, perspicácia, criatividade, flexibilidade, liderança, etc. -, nem sempre são fáceis de encontrar e tampouco reunir, o que faz com que, para muitos, a passagem da Operação à Especulação ainda seja uma miragem, como bem atestam as agendas de algumas Lojas (sem projectos, sem docência, sem especulação) e incontáveis manifestações públicas, orais ou escritas, no meio das quais predominam as louvações das reminiscências. Concluo, por coerência, e também por convicção, com o resgate da finalização de texto já comentado:

A nós, além da automação, optimização e expansão das aplicações gerenciais (processo já em estágio avançado de disseminação) parece-nos que se abre um amplo e relevante espaço à Maçonaria: a começar pela qualificação das Instruções, isto é, desenvolver a leitura, a decodificação e a ressignificação das lições morais veladas em fábulas, alegorias, etc., a partir de aplicações extraídas do dia a dia (familiar, profissional) dos Irmãos […] em segundo, ampliar as oportunidades de orientações e debates qualificados, isto é, fundamentados e conduzidos com profissionalismo multi, inter e transdisciplinar no âmbito de um programa de trabalho que transcenda os voluntarismos e as descontinuidades tão próprias da gestão de um Venerável. O entendimento formado é o de que se a Maçonaria – os líderes das Potências e das Lojas – desempenharem a contento a missão histórica da Ordem, na síntese de aperfeiçoar o homem integral (físico, psíquico e espírito), este estará apto para o trato responsável em qualquer ambiente, desde o seu íntimo, ao familiar, ao profissional e na sociedade em geral com plena responsabilidade social independentemente do cenário tecnológico (Pinheiro e Dutra, op. cit.).

Em outros termos, para o Maçom a questão título (to be or not be?), inspirada no dilema de Hamlet [36], a rigor não deveria ser colocada com o nível de apreensão imobilista evidenciada por alguns, por exemplo, frente à Inteligência Artificial, pois esta, como a História revela, é tão somente mais uma etapa (reconheça-se, radical) no curso do desenvolvimento científico-tecnológico da humanidade e, mutatis mutandi, tudo o que hoje se diz e prevê sobre os impactos da IA, de algum modo já foi dito e previsto sobre outras tantas tecnologias hoje consideradas maduras, algumas já ultrapassadas. De outro lado, para os que souberem aproveitar as oportunidades, a IA, per se, é tema que se presta à abertura de um largo espectro para o debate especulativo sobre mais diversos assuntos (relações familiares, profissionais, usos e costumes, geopolítica, cenários prospectivos, redução ou ampliação das (des)igualdades sociais vis-à-vis a ampliação ou redução de oportunidades de toda ordem, etc.) a partir dos quadros referenciais disponibilizados pela Maçonaria.

Ivan A. Pinheiro

Mestre Maçom, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. O autor agradece a leitura prévia e as considerações do Irmão, Mestre Maçom, Lucas V. Dutra, do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com. Não obstante, o autor é o único responsável pelos pontos de vista, erros e omissões remanescentes no texto. Porto Alegre-RS, 22.03.25.

Notas

[1] Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil.

[2] O livro não se restringe à IA, abrange também as biotecnologias, as nanotecnologias e outras. O leitor interessado na matéria pode ainda consultar um texto mais específico: A Medicina da Imortalidade (Kurzweil e Grossman; 2019).

[3] Tema antecipado e presente já nos primeiros livros de Isaac Azimov (1920 – 1992), um dos mais afamados escritores de ficção científica.

[4] Recentemente, dada a popularização do tema, M. Nicolelis participou como entrevistado em diversos podcasts disponíveis em:

[5] https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/o-que-diz-a-carta-assinada-por-musk-e-milhares-contra-experimentos-de-ia/.

[6] Não cabe, porque fugiria ao escopo, mas sobretudo porque irrelevante ao tema em foco, debater se foi introdução ou reestruturação dos Graus, bem como se as considerações sobre o Templo e a Lenda são anteriores ao marco da Maçonaria Especulativa – 1717.

[7] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QCaHi3H_lBo. Acesso em: 09.12.24.

[8] Por oportuno, uma observação: impossível não perceber no ufanismo do Executivo, também os interesses que representa. Harari (2024, p. 245), por exemplo, declara e alerta: “[…] os empresários que encabeçam a revolução da IA já bombardeiam o público com diversas previsões optimistas sobre elas. Meu objectivo aqui é equilibrar essas visões utópicas concentrando-me no potencial mais sinistro do reconhecimento de padrões algorítmicos. E torcer para que possamos aproveitar o que há de positivo nos algoritmos enquanto regulamos a sua capacidade de destruição”.

[9] A datação, neste período, varia muito.

[10] É uma liga que tem por base o cobre e o estanho; fundidos e combinados em proporções variáveis com outros elementos (zinco, alumínio, fósforo, chumbo, etc.) apresenta cara

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