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Iniciativas ocultas & benefícios públicos: uma conversa sobre Maçonaria e beneficência

✍️ Desconhecido 📅 30/05/2023 👁️ 7 Leituras

beneficiência

Introdução [1]

Recentemente um Irmão de Ordem disse: “Maçom escreve para Maçom”! Não é possível tirar-lhe a razão: com efeito, é suficiente um olhar fugaz pela literatura maçónica para vislumbrar que a maioria dos autores dirige o foco para os aspectos históricos, ritualísticos ou simbólicos, quando não combinados, razão pela qual predominantemente só interessam aos maçons, pois muito pouco do que abordam diz respeito a quaisquer das inúmeras facetas da sociedade.

E a multiplicidade de Ritos, semelhantes em alguns aspectos, mas diversos em tantos outros, é determinante para que nesse universo ressaltem duas características:

  • a primeira, é a de que inexiste um estado da arte a partir do qual poderiam ser registrados efectivos progressos, daí que quando tudo efectivamente não se repete – sendo mais do mesmo -, é por demais parecido; já
  • a segunda, é que a priori revela-se incorrecto qualquer intento de generalização, pois o que se aplica a um Rito (e por extensão aos seus adeptos), por exemplo, pode não ser admitido (nos mesmos termos) a outro(s) [2].

E nesse nicho crescente à exploração do mercado editorial, escasso de reflexões inusitadas e criativas, muitas produções, senão a maioria, seriam antes e melhor enquadradas como “textos históricos” do que como “maçónicos” propriamente ditos, e alguns até poderiam ser considerados como almanaques de curiosidades.

É notável o júbilo (sobretudo nas redes sociais) [3] quando alguém descobre e refere (sob aplausos) que ao invés de tal evento ter ocorrido em 31.02.1628, de facto aconteceu um ano antes (ooh!); ou ainda, ao invés de algum movimento dever ser realizado com o pé (ou mão) direita, o correcto é que o seja com a esquerda; e, por fim, que algum detalhe da indumentária deve ser deste e não daquele tom; e a matéria, sem as devidas reflexões quanto ao significado e implicações efectivas, é dada por encerrada. E assim, pouco a pouco, a Ordem se afasta dos seus mais sublimes princípios e desideratos.

Oportunamente, a questão da auto-reflexividade maçónica será objecto de considerações mais aprofundadas, em texto próprio, mas porque em alguma medida relacionada com o tema ora a ser desenvolvido, convém antecipar em apreciação mais ampla: é extraordinariamente surpreendente [4] observar o quanto, senão toda a Maçonaria, parte significativa está insulada, vive apartada da realidade, à margem das reflexões acerca das grandes transformações tecnológicas, ambientais, culturais, sociais e políticas entre outras tantas ora em curso e que, de um modo ou de outro, em menor ou maior grau, reverberarão no quotidiano da vida (familiar, profissional, relacionamentos, etc.), nos valores, nas crenças, em síntese, nos comportamentos lato sensu. E as mudanças, alguns afirmam, são de ordem paradigmática. Não se espera, é claro, que essas questões propriamente ditas sejam debatidas em Loja (mas nada impede que ilustrem e se prestem como eixos temáticos no estudo das Instruções) e tampouco que daí emerjam soluções inusitadas [5], mas que estas (as Lojas) sejam espaços catalisadores de aprendizagem e fomentadores do pensamento crítico [6] capaz de preparar os condutores (líderes) desses mesmos processos que, afinal, a todos circunscrevem e impactam. Há evidências de que a Ordem carece de lideranças com visão, conhecimento e método, sem os quais as portas se abrem, senão ao pior, à inércia.

Mas se um lado resta espaço para a crítica e ao humor cáustico, de outro fica estampada a existência de uma grande lacuna a ser explorada por aqueles que efectivamente percebem a Ordem como um instrumento (indutor, facilitador) de mudanças, tanto internas quanto externas. E se a Maçonaria é antes meio do que fim, conhecer a sua História, bem como as doutrinas e os Ritos (incontáveis), tão somente corresponde a cumprir as etapas propedêuticas de um processo de formação e desenvolvimento que passa pela construção das plataformas que possibilitam alçar aos domínios mais elevados de reflexões, como é o caso da Filosofia. Contudo, já desde aí, dos primeiros passos, é esperado que os Irmãos de algum modo expressem [7] os ensinamentos morais inicialmente repassados na forma de aforismos ou pequenas fábulas de imediata apreensão, daí porque largamente exploradas nas redes sociais. Ademais, há uma ordem de ensinamentos que, por estarem ocultos em meio à ritualística que dá forma aos mitos (de origem, de passagem, do herói, e outros), requerem a decodificação pelos mais experientes para que deles se extraia o real significado.

Todavia, superadas essas duas primeiras etapas, o ciclo de formação e aprendizagem ainda não está concluso, pois o processo não se esgota na leitura e na aplicação da hermenêutica aos textos – “à teoria”. Trata-se, sem dúvida, de condição necessária, porém não suficiente ao ser Maçom; “a teoria” é indispensável para todos porque estimuladora de iniciativas e manifestações concretas e objectivas, quer realizações no plano individual ou colectivo, efectivos produtos dos antecedentes propedêuticos. O que equivale a dizer que o conhecimento adquirido só realiza o seu sentido quando colocado em prática, da vontade passa à acção, do potencial à realização (a propósito: não é esta a razão de ser da Fraternidade?), o que se dá mediante novas atitudes e comportamentos, em si reveladores das transformações operadas, quer as experimentadas em carácter pessoal, íntimo até, mas sobretudo, por serem modelares (pois esta é a expectativa), as que de algum modo possam servir como referências que pela via do efeito demonstração impactem positivamente as comunidades do seu entorno. Trata-se, aqui, de provocar uma efectiva reacção em cadeia capaz de ser iniciada por tão somente um agente catalisador, por exemplo, um Irmão de Ordem.

Como subproduto dessa linha de raciocínio vislumbra-se outra lacuna que chega a ser surpreendente na produção intelectual maçónica: a da acção beneficente da Maçonaria. A literatura maçónica nacional é sempre pródiga quando alude à participação da Ordem nos movimentos políticos-marcos da História, como o da Independência e o da Proclamação da República, assim como, já adentrando ao tema central deste texto, nas acções de carácter social e humanitário [8] no contexto da Abolição da Escravatura. E o que se passa, como se diz, “no varejo”, principalmente quanto à sua continuidade? É como se, por não haver interesse, não se justificasse a perda de tempo com pesquisa e produção textual. Em exercício de reflexão colectiva, com Pellegrini e Varejão, um dos autores deste texto, quando abordou o tema, a partir da reunião de vários argumentos institucionais e doutrinários teve por objectivo desconstruir, a tese – defendida por vários no seio da Ordem – de que não cabe à Maçonaria, directa ou indirectamente envolver-se com acções de beneficência, devendo estas ser deixadas à livre iniciativa dos maçons, de outras Ordens ou instituições – públicas ou privadas e, dentre estas, as Organizações Não-Governamentais (ONG). Desta feita, mantido o tema e o objectivo principal, os objectivos específicos, assim como a estratégia, ainda que complementares são diversos do anterior.

Este texto é o produto da convivência, identidade de ideias, interesses e preocupações de dois Irmãos de Ordem, ora identificados como os autores. O objectivo principal é trazer a público as iniciativas, o esforço e o modus operandi, assim como os resultados de alguns trabalhos que, com grande dedicação, têm sido realizados por alguns maçons, sem que se possa referir à Maçonaria enquanto instituição. Ademais, espera-se que a publicidade do que anuncia não só actue como elemento motivacional como, ao transmitir ainda que sucintamente o know-how dos que estão à frente, contribua com aqueles que não sabem por onde e como começar. Finalmente, este texto também pretende ser um estímulo para que outros Irmãos reportem as suas experiências, ampliando não só o leque de oportunidades, mas também antecipando os primeiros passos a partir dos quais cada um e todos poderão adaptar e aperfeiçoar às suas circunstâncias. Assim, passado um tempo, espera-se ter constituído a massa crítica que dá forma ao estado da arte a partir do qual, através de correcções, aperfeiçoamentos e mesmo tentativas e erros, todos se aproximem da perfeição [9].

Ainda que existam identidades de ideias, interesses e preocupações, as abordagens e os estilos de cada autor são distintas, o quê, acredita-se, não só enriquece o trabalho como o converte em evidência em si mesmo de como é possível conciliar as diferenças sem abrir mãos das idiossincrasias e tampouco conteúdos, razão pela qual os mesmos foram preservados no que têm de original. O leitor atento notará as nuances ao longo do texto: enquanto uma abordagem se caracteriza pelo distanciamento e pela objectividade técnica que identificam o gestor, sendo, por isso, até mesmo frio, o outro transborda em emoção ao trazer não só o necessário como o indispensável humanismo à problemática em foco que clama e reclama pela caridade e pelo amor cristão posto em prática. Como será dado a perceber, são abordagens complementares que se fundem, jamais confundem.

Por fim, este texto é também uma contribuição ao preenchimento da segunda dentre as lacunas citadas, agora na forma de relatos de experiência, o que torna, metodologicamente, assemelhado aos Estudos de Casos (YIN, 2001), mas também, conforme o entendimento de Thiollent (2009), pode ser considerado um relato de Pesquisa-Acção. Os dados que o amparam foram colectados na forma de entrevistas bem como mediante observações a campo e a partir da própria experiência dos autores. As transcrições das entrevistas foram apresentadas aos interlocutores que as aprovaram para publicação nos termos das subsecções 2.1 e 2.2. Entretanto, a seção 2.4, essencialmente, é um produto de pesquisa bibliográfica. Àqueles que revelarem interesse pelos argumentos mais “teóricos” quanto ao papel da beneficência no contexto da Maçonaria, sugere-se a leitura de Pinheiro, Pellegrini e Varejão (2020), texto referenciado ao final.

1 – Um breve, porém indispensável quadro conceitual

Qualquer iniciativa para ser levada à frente e de forma exitosa (com optimização dos recursos, atingimento dos objectivos sem prejuízo à qualidade, etc.), não pode abrir mão dos conhecimentos acumulados que dão forma a uma curva de aprendizagem em constituição há milénios, razão pela qual esta seção inicia com alguns conceitos relativos à Gestão (estruturas organizacionais, o que é gestão, processos, projectos, eficiência e outros). Todavia, se o domínio das técnicas é condição desejável, de modo algum, ainda que exercido com elevada proficiência, se revela suficiente ao atendimento integral das necessidades em vista das complexidades geralmente envolvidas, o que justifica, então, o humanismo trazido pela segunda parte deste quadro conceitual que explora a “questão do amor” (do conceito à operacionalização) que é tão cara à Fraternidade.

1.1 – Gestão [10] – noções elementares

Grosso modo, um grupo de pessoas reunidas no sentido a convergir esforços para atingir objectivos comuns pode ser reconhecido como uma Organização. Relações de confiança, a divisão (departamentalização) do trabalho, lideranças, processos internos, coordenação, senão tudo, quase tudo aos poucos e quase que naturalmente se estabelece a partir de um pequeno núcleo, quando não de um só empreendedor, e logo se estende aos demais envolvidos. No caso em apreço, motivação, colaboração e índole altruísta, enquanto valores pessoais, se colocam como conditio sine que non à participação nos empreendimentos, pois ao contrário das Organizações empresariais, todos trabalham voluntariamente, condição que, entretanto, de modo algum afasta o elevado e indispensável sentido de comprometimento.

Ademais, actividade voluntária não é sinónimo de amadorismo e tampouco de improvisação. Os diferentes modos de fazer afectam igualmente de modos diferentes os custos e os resultados dos empreendimentos. À guisa de ilustração, foi Moisés, a conselho do seu sogro, Jetro, quem introduziu uma das primeiras departamentalizações referidas na História (Êxodo 18), tendo dividido e entregue as tarefas que até então realizava às lideranças das tribos, sem o que não teria sido possível a saga que iniciava. Adiante, já em Levítico e Números, é o próprio Yhwh quem orienta Moisés quanto à organização, à divisão do trabalho, às normas e procedimentos, os controles, bem como a preparação de novas lideranças e sucessores – a exemplo de Josué, dos Levitas e dos Aaronitas -, e sem os quais tampouco a travessia do Sinai e a conquista de Canaã teriam sido possíveis.

Parece estar claro que não faltam motivos para se apropriar das tecnologias de gestão que já há séculos (milénios até) têm sido desenvolvidas e aperfeiçoadas para conferir algum grau de “profissionalização” às iniciativas; afinal, por que reinventar a roda? Segue-se, pois, algumas indicações para os que desejarem aperfeiçoar as iniciativas e melhorar os resultados: maiores entregas ao menor custo, maior satisfação do “cliente”.

Conforme apontado, fazer deste ou daquele modo não é indiferente à eficiência (custos, rendimentos, produtividade, etc.), à eficácia (atingimento das metas e objectivos) e à efectividade (entregas pertinentes às reais necessidades da “clientela” [11]) – tradicionalmente referidos como os 3 Es da Gestão. De regra, frente às condições dadas, sempre há o melhor modo de fazer, aquele que deve ser identificado e perseguido à exaustão. Ainda, dizer que um processo está submetido à Gestão significa que, no limite das possibilidades, todas as iniciativas devem ser submetidas ao (1) Planeamento (pensadas com antecedência, inclusive “um Plano B”, etc.), à (2) Organização (quem faz o quê, à clara identificação dos subprocessos, das actividades, etc.), à (3) Direcção (lideranças com conhecimento e habilidade de comando), à (4) Coordenação (a ordem e o tempo certo de cada “entrega”, qual deve ser a antecedente, a seguinte, a próxima, quais são as pré-condições, as fases críticas que podem comprometer o empreendimento [12], etc.) e, finalmente, ao (5) Controle de toda e cada etapa para, se necessário [13], tempestivamente corrigir os desvios.

Ao longo dos tempos os estudiosos criaram várias tipologias organizacionais; entre tantos, Cury (2010), mas uma das mais usuais é a de Mintzberg (1995), que embora antiga, pela sua simplicidade aplica-se com propriedade ao caso em apreço. Para o autor existem 5 (cinco) configurações: a estrutura simples; a burocracia mecanizada; a burocracia profissional; a forma divisionalizada; e, a adhocracia. Na realidade, cada Organização possui elementos de praticamente todas as configurações; todavia, uma delas tende a ser prevalecente e por isto a identifica. As evidências empíricas revelam que algumas características de gestão (a exemplo dos problemas – conflitos, falta de materiais, comprometimento da coordenação, qualidade aquém do esperado, etc. -, assim como as soluções), com grande frequência são comuns a determinadas configurações, o que evidentemente traz vantagens (previsão-solução) se elas forem reconhecidas com antecedência. Isto é, reconhecer o tipo de Organização a partir da qual se opera, assim como as que com ela se relacionam, de regra também contribui para qualificar os 3 Es. Sem dúvida que as iniciativas e os grupos de trabalho envolvidos nos relatos a seguir correspondem ao tipo “estrutura simples” (prevalece o “olho no olho”, os comandos orais, a informalidade, etc.), mas sem dúvida que para alguns relacionamentos, notadamente com o sector público e com os financiadores, é importante conhecer as características da burocracia (hierarquias, formalidades, aspectos legais, etc.). Todavia, eventualmente emergem e sobressaem as características adhocráticas, a exemplo da capacidade, ou mesmo antes, a necessidade de inovar para responder às exigências inusitadas (que exigem respostas e soluções ad hoc), razão pela qual a adhocracia também se revela nas grandes corporações. Nas palavras de Waterman Jr. (1992, p. 16), “em sentido amplo, adhocracia é qualquer forma organizacional que desafia a burocracia com o intuito de criar o novo” [14], ou ainda, como consta na capa, provavelmente extraído de um dicionário: “Ad-hoc-ra-cy: qualquer forma de organização que atravessa as linhas burocráticas normais para capturar oportunidades, resolver problemas e obter resultados”.

Parece claro, porque intuitivo, que o tipo de configuração guarda alguma relação com estágio (ciclo de vida) da Organização, daí que as Organizações nascentes tendem a ser pequenas, simples, informais e flexíveis, já nas incumbentes predominam os elementos tradicionalmente associados às burocracias. Por outras palavras, as Unicórnios de hoje (grandes estruturas divisionalizadas) um dia já foram startups (configurações simples).

Finalmente, convém estabelecer, ainda que de modo bastante sucinto, a diferença entre processos e projectos. Tantos os projectos quanto os processos podem ser rotineiros numa Organização, mas sem dúvida que estes muito mais do que aqueles que, pela sua permanente continuidade, se confundem com o dia a dia organizacional. De regra os processos são bem conhecidos e juntos compõem o grande sistema (dividido em subsistemas) que é a própria Organização, enquanto que um projecto sinaliza para algo novo, fora da rotina. Por certo que, em alguma medida, no contexto da Organização, ambos devem estar relacionados, mas não sendo rotina, o projecto tem como características principais a clara delimitação de equipe (que pode ser apenas de uma pessoa), de recursos, de prazos, de metas e de objectivos – na expressão popular, “tem princípio, meio e fim” [15]. Para além de considerar as possibilidades de novas rotinas, produtos ou serviços, o projecto proporciona um grande envolvimento e comprometimento da equipe e, ao final, um senso de realização, de missão cumprida, o que de regra tem efeito motivacional. Mas como tudo que é novo e desconhecido, os erros tendem a ser mais frequentes nos projectos, assim como o aprender fazendo, muitas vezes por tentativa e erro. Os que desejarem maiores informações poderão consultar, entre tantos, Stoner e Freeman (1985) e também Cury (2010).

Felizmente, hoje em dia, quase tudo o que diz respeito à Gestão encontra-se disponível, gratuitamente, para acesso on line ou mesmo download a partir da internet, seja na forma de textos ou tutoriais (vídeos, podcasts) – entre tantas [16], uma das principais fontes é o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas -SEBRAE.

1.2 – Sobre o amor – da teoria à prática

Os competitivos tempos actuais, oriundos da conjunção de inúmeros factores (e se não bastasse, problematizados pela pandemia) estão a demonstrar as mazelas que as pessoas têm sido submetidas, sendo as mais cruciais o isolamento social, as pressões que surgem dos relacionamentos pessoais (em especial as no trabalho, como por exemplo o sempre presente temor do desemprego), a escassez de tempo para conviver com os amigos e familiares, os padrões estéticos impostos pela ambiência imediata da pessoa, o estresse ocasionado pelas redes sociais… a lista é enorme. O resultado de tais condições redunda, expressa-se em indivíduos angustiados, deprimidos, insones, o que leva muitos a procurar paliativos ou fugas, como p. ex., ao abuso de drogas, lícitas ou não.

Uma das formas que a Sociedade emprega para mitigar o amplo rol de provações é o apoio solidário fornecido nas suas diversas modalidades de modo a atender múltiplas, polifacetadas necessidades. Pessoas ou grupos se articulam – constituem Organizações -, sob as mais diversas motivações para ajudar àqueles que sofrem. Com a Maçonaria não poderia ser diferente pois, não obstante a caridade ou beneficência não serem as suas metas principais (mas alguns desavisados consideram-na mesmo uma religião), a preocupação com o próximo decorre da sua natureza de constituir-se em fraternidade que utiliza de cerimónias de iniciação para ensinar aos eleitos as preciosas lições simbólicas sobre filosofia, moralidade e carácter (KOLTKO-RIVERA, 2011). O objectivo destas lições simbólicas é que cada membro da Maçonaria percorra um caminho pessoal de aprimoramento de tal ordem que também resulte beneficiar toda sociedade, Destarte, pertencer à Maçonaria faz decorrer para o homem uma série de deveres, livremente assumidos e conscientemente a si mesmo interpostos, de sorte que a partir do exercício desses deveres o Iniciado alcança objectivos tanto inefáveis (para si) quanto práticos, com efeitos que se estendem da Fraternidade (e espera-se) à sociedade, assumindo-se, assim, como vero construtor social.

O exame dos ensinamentos maçónicos, pela via da doutrina, da ritualística e das Instruções deixa à evidência o valor e a justeza das suas mensagens admitidas como verdades – é precisamente o conteúdo, o “o quê” se deseja ensinar ou facultar ao estudioso o acesso, a descoberta. A dificuldade surge quando se intenta averiguar como essas verdades podem ser materializadas no agir e fazer quotidiano – é a maneira, o “como”. Existe grande diferença na consideração destes dois domínios; saber “algo” não significa conjunta e necessariamente saber “como” realizar, materializar, executar este “algo” (RYLE, 1963).

O que se segue, ainda em forma de esboço, é uma proposta em forma de equação (A=Z+C+R) de como aplicar algo aprendido, intuído, concebido meritório, ou seja, como executar uma peculiar acção virtuosa, no caso, a beneficência. Na sequência, o que se discute tem origem e fundamento nas lições do Aprendiz Maçom na interpretação do Rito Escocês Antigo e Aceito (GLESP, 2019, p. 723; 845), onde se entrelaçam os termos “acto”, “trabalho”, “acção”, “zelo” (devotamento), e “juramento” (aqui, implicitamente, a noção de “compromisso”). Trata-se, aqui, de uma ilustração de como, pela Razão, os imbuídos das sãs aspirações morais podem passar da “teoria” à prática maçónica.

A Maçonaria faculta aos seus membros tanto a aprendizagem quanto o exercício intrínseco de uma das expressões mais sublimes que o Homem pode operar: o amor. Quando se especula sobre a natureza desta noção surge a dificuldade de operacionalizá-la, por vezes tendendo meramente a identificá-la com etéreos, nebulosos e fugazes estados de espírito ou determinados actos. Todavia, são necessárias evidências palpáveis, factuais para discernir o verdadeiro, o real amor dos arroubos ou enganosas intencionalidades que se desmancham no ar, ou mesmo ilusórios e desgastados modos de proceder. Quem ama efectivamente, pratica acções que permitem ao amado constatar, averiguar, distinguir de modo inequívoco no amante, naquele que ama, precisamente o “amor em acção”.

E como poucas agremiações, ela proporciona aos seus membros Instruções e espaço – como já anunciado – para o efectivo exercício desta tão desgastada quanto sublime palavra. Pela ordem, os argumentos devem iniciar pelos conceitos, esclarecimentos e mesmo o clareamento das diferenciações, ainda que breves, como requerem as expressões “acção” e “acto” (aqui, o que vulgarmente é denominado “comportamento”). A noção de “acção” (que ora se cinge à acção humana) envolve considerar os seus três componentes, coerentemente associados dentro de determinado contexto (hora e lugar): (i) um agente (quem age), (ii) uma intencionalidade (toda uma série de pensamentos, tais como considerações e decisões, que toma o agente para actuar do modo como actua), e (iii) o acto (conduta, comportamento) que o agente realiza na oportunidade. Assim, exemplificando, imagine o movimento, o acto de apertar o gatilho de um revólver – uma acção pequena e discreta. É de se notar que, ainda que o acto em si seja o mesmo, existe a possibilidade de 3 (três) acções diferentes: (i) se o agente que pratica o acto for um assaltante, ou (ii) um soldado ou (iii) uma criança que brinca com um revólver que achou no armário do pai. Isso porque as intencionalidades, respectivamente, serão diversas: roubar, defender a pátria ou brincar. Esclarecidos os termos, pode-se, agora, discutir a natureza da acção de amar.

Pode-se descrever (ou definir) “amor” como constituindo a expressão harmónica (equilibrada) de 3 (três) instâncias que deve, aquele que ama, concretamente executar: zelo, comprometimento e respeito. Quem ama deve revelar, comunicar, expressar nas sua(s) acção(ões) de amor, diversos comportamento (actos) que, na sua essência, abarcam ao mesmo tempo essas três concomitantes e intercaladas dimensões. Pense num banquinho de 3 (três) pernas, se uma for removida ele desabará ao chão. Se determinada acção expressa somente uma ou duas destas dimensões, não se constitui em “amor”, e sim situações que beiram ao oportunismo, à conveniência, ao interesse (por pode mesmo ser escuso), em síntese, auto engano até mesmo com intuito expiatório. Estabelecidas as instâncias, que sejam então apreciadas com maior detalhamento:

  • quem ama cuida: o que significa Zelar, tomar conta, amparar. Quem ama actua concretamente, considerando, atendendo, defendendo, protegendo, acompanhando, prestando atenção, interessa-se pelo amado; como que estuda o objecto do amor: escuta-o, acolhe-o, ampara-o, incentiva-o, educa-o, orienta-o, informa-lhe, dialoga, etc.;
  • ama quem se Comprometeu, quem tem projecto a longo prazo com o objecto do seu amor – não é acção (ou acto) passageira, de fugaz ocasião. Quem ama tem visão de horizonte, visa na amorosidade a continuidade, o desenvolvimento, o crescimento, o progresso. Ama quem intencionalmente fez pacto, criou liame, engajou-se, considera-se partícipe, patrocina, responsabiliza-se, desenvolve-se precisamente através da continuidade do relacionar-se; e, por fim,
  • quem ama Respeita o contexto, nuance(s), as regras da relação (ou leis da instituição), a pessoa nas suas características personalísticas, o(s) modo(s) de vinculação, os critérios que abarcam a ambiência mesma da amorosidade. Respeitar é posicionar-se acolhedoramente frente a outro referencial, a um outro-não-eu, outra constelação de valores, por vezes oposta(s) ou mesmo contrária(s) às daquele que ama.

Já a operacionalização implica verificar precisamente neste ente conceituado se as cláusulas ou ferramentas têm (estão tendo) aplicação conforme a sua própria natureza. Considerando que Amor = Zelo + Comprometimento + Respeito (A=Z+C+R), se alguém afirma amo meu filho, deve averiguar, acto contínuo, como que realizando um check-list (imagine a pessoa conversando com ela mesma):

  1. Zelo por ele? Tomo conta, educo-o, levo ao médico quando adoece, oriento sempre que necessário etc.?
  2. Estou comprometido via a minha paternidade com este filho, exercendo sem prazo as tarefas paternais, ou espero ansiosamente que meu filho se “liberte’’ de mim quando atingir idade legal? Vejo o filho como fardo ou, de certo modo, a minha “continuidade”?
  3. Respeito este filho nas suas características constitucionais, de temperamento, de estágio de desenvolvimento, de valores idiossincráticos, de pessoalidade idiossincrásica situada no tempo e espaço? Ou imponho agendas que pretensamente o tornam ou tornariam uma cópia de mim, pois determino no meu pátrio julgar o que seria bom para ele? Aceito as suas condutas próprias da idade ou fico a exigir outras que acho que ele deveria se comportar?

Sem perder de vista, conforme salientado, que as 3 (três) instâncias devem ser concomitantes, em tempo de projecto.

Estabelecidas as bases conceituais, bem como os inter-relacionamentos que as conectam, a próxima etapa consiste na extensão do raciocínio, eis que nada escapa à capacidade de amar que distingue os Homens, de sorte que a mesma fórmula subsiste e pode ser aplicada não importa o objecto. Considere os seguintes exemplos:

  1. amas teu trabalho?
    • zelas por ele; estuda ou treina como melhorar o seu desempenho?
    • estás comprometido com as tuas tarefas?
    • respeitas a natureza do teu trabalho, todas as suas expressões?
  2. amas a tua Pátria?
    • zelas pela tua condição de cidadão?
    • estás comprometido com os seus valores?
    • respeitas o que ela representa?
  3. amas a Deus?
    • zelas por tua relação com Ele?
    • estás comprometido com tua Fé?
    • respeitas a palavra d´Ele?
  4. amas a Maçonaria?
    • …?
    • …?
    • …?
  5. amas a ti mesmo?

Lembre-se: de acordo com o modelo sugerido para operacionalizar a expressão “amor” (ou o verbo amar), somente será possível afirmar que alguém ama quando as 3 (três) respostas forem concomitantemente afirmativas, caso contrário não se configura a igualdade descrita pela equação.

É chegado o momento, então, de estabelecer as ligações entre os conceitos apresentados. Como realizar concretamente as acções do amor nas vidas das pessoas? Uma das mais objectivas e constatáveis manifestações de amor é o consciente e voluntário agir com beneficência. Quando um agente pratica acções de beneficência, efectivamente pratica respeitosos actos de zelo dentro de compromissos que cônscia e autonomamente assume. Desde o século XVIII a Arte Real esposa tais valores fraternais, como visto nas Constituições dos Franco-Maçons, obra publicada na Inglaterra em 1723, onde se lê: “Vós cultivareis o amor fraternal que é o fundamento, a pedra angular, o cimento e a glória dessa antiga Confraria” (LIRA, s/d, p. 22). Não se trata mais, somente, de cumprir no âmbito da Fraternidade os tradicionais antigos mandamentos e disposições: sabe-se, conhece-se pelos ensinos e reflexões – cada um ao lapidar a sua pedra bruta – os amplos valores humanos abarcados e, tendo-os, torna-os o Aprendiz efectivamente seus, e assim pode intencionalmente expressá-los em múltiplos e virtuosos actos. Não se necessita muito para amar fraternalmente – uma aplicada, esclarecida, determinada e conscientizada vontade inicial é o que basta.

Finalmente, no Preâmbulo da Constituição & Regulamento Geral (GLESP, 2019a), consta que a Potência além de aceitar formalmente os 25 Landmarks codificados por Albert G. Mackey, proclama aceitar diversos princípios, tais como o “II – praticar a beneficência de modo discreto” (op. cit., p. 13).

É pois, com este espírito que as subsecções 2.1 a 2.3 trazem o testemunho e a experiência recente dos maçons que anonimamente realizam acções efectivas de beneficência.

2 – Ações beneficentes

Na sequência serão apresentados, de modo bastante sucinto, 3 (três) casos de iniciativas beneficentes que têm à frente Irmãos de Ordem; os dois primeiros foram identificados no Rio Grande do Sul (um no município de Canoas e o outro em Porto Alegre), sendo o terceiro no município de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Os dados referentes aos primeiros foram colectados em entrevistas, uma com cada líder dos respectivos grupos. Infelizmente não foram possíveis entrevistas complementares e tampouco com outros integrantes – quando, por exemplo, poderiam ser identificadas as motivações que os levaram a participar da iniciativa, os respectivos perfis, etc. -, bem como não ficou claro os motivos da recusa silenciosa em que pese a insistência por novos contactos, provavelmente devido ao calendário: em meio às férias e às vésperas do Carnaval. Já o terceiro caso tem como um dos protagonistas o segundo autor deste texto, o que possibilitou que combinasse a sua própria vivência com a experiência colhida junto a outros Irmãos. Finalmente, a quarta apresentação não é um caso propriamente dito, mas possibilidades de participar, como colaborador financeiro, de várias iniciativas sem que, entretanto, seja necessário “tirar um tostão do bolso” – a ver.

2.1 – O caso dos “amigos em acção” [17]

Sob a liderança de “A”, Irmão de Ordem, empresário com mais de 75 anos de idade, o grupo que hoje conta com mais de 15 integrantes, uns mais, outros menos assíduos, há mais de 5 (cinco) anos semanalmente entrega aproximadamente 150 refeições – almoço aos domingos – aos carentes de toda natureza: migrantes, desempregados, moradores de rua, alberguistas, sós ou reunidos em famílias.

Empresário activo, sério e afável no tracto, ao longo da vida, em razão da projecção aos poucos adquirida, veio a exercer, concomitantemente, cargos em diversas instituições comunitárias, em síntese: um cidadão consciente da sua responsabilidade social e que, a partir das suas realizações, teve largamente ampliado o seu círculo de relacionamentos. Os êxitos acumulados fazem com que, hoje, “A” encontre as portas sempre abertas às suas iniciativas, o que tem sido fundamental para o patrocínio das actividades dos Amigos em Acção, dependente das doações (em espécie, em produtos, em equipamentos e utensílios, etc.) que, por serem esporádicas, requerem, “sempre dos mesmos”, a complementação dos recursos para o pleno atendimento das necessidades.

A entrega, ou a prestação de serviços dos Amigos em Acção se dá numa das extremidades de uma passarela que atravessa uma das principais avenidas da cidade de Canoas – melhor dizendo, a BR que corta a cidade. O local já foi outro, porém o que nele se verificava, no curso do processo eleitoral desagradou o poder político ora na situação, pois dava demasiada visibilidade – a partir das longas filas formadas – ao universo dos carentes. Aos domingos, em local parcialmente delimitado por fitas plásticas (semelhantes às utilizadas para isolar sinistros) são então justapostas algumas mesas (desmontáveis) que, assim, emulam uma “linha de montagem”, isto é, o processo de prover as marmitas com as iguarias produzidas e que ao final são entregues aos clientes organizados em fila que tem início já nas primeiras horas da manhã – no Verão (350/400 C), mas também no Inverno (50/100 C), independentemente das demais condições climáticas, se chuva, vento, etc.

Mas quais são as etapas que antecedem a linha de montagem e a entrega, ou melhor, como se dá o planeamento e a execução dos processos que tornam possíveis a entrega (o objectivo)?

Primeiramente é elaborado o cardápio por uma colaboradora voluntária, circunstancialmente graduada em Nutrição [18]. A menos do balanceamento nutricional, anos de experiência permitem, associando a prática a alguma teoria (hoje disponível até na internet), estimar quantos quilos de cada iguaria serão necessários para atender a demanda média da série histórica mais recente. Segue-se, então, a parte central do “modelo de negócios”: como inexiste uma cozinha capaz de suprir toda a demanda estimada, uma das lideranças promove o que é denominado de “leilão” entre os colaboradores habituais: quem (dentre os colaboradores habituais) se dispõe a prover o quê (arroz, feijão, ovos, litros de refresco, etc.) e em que quantidade? Em outros termos: se são necessários 15 Kg de feijão para o dia X (próximo domingo), busca-se então o comprometimento de entrega, isto é, quem, no próximo domingo e no local acordado disponibilizará os X quilos que, somados às demais entregas, totalizarão os 15 Kg estimados como necessários. Assim, no domingo, enquanto a fila da demanda cresce, a oferta chega aos poucos, 3 quilos de um, mais 5 quilos de outros e, assim, sucessivamente e também para as demais iguarias que compõem o menu do dia. Conforme o caso, as provisões são reunidas em grandes panelas, onde então o esforço de cada um é somado e diluído. Eventualmente os provedores (produtores) recorrem a “A” para se abastecerem de um ou mais itens. Tudo isso é planeado, comunicado, realizado e ajustado através de um grupo de WhatsApp e do qual todos participam; e enquanto a estimativa de demanda não estiver 100% atendida, “a rodada de negócios não se encerra”.

O modelo é deveras interessante pois: (1) não requer, como à primeira vista se imagina, de qualquer das partes colaboradoras a disponibilidade de uma “cozinha industrial”, isto é, grandes investimentos em activos fixos (fogões, panelas industriais, utensílios com dimensões superiores aos de uso doméstico, etc.); (2) possibilita que, aos recursos captados por “A”, cada voluntário aporte e colabore conforme as suas disponibilidades (ordinárias, ocasionais, etc.) e também aproveite as ofertas que se lhe apresentarem, por exemplo, por ocasião das suas aquisições pessoais e regulares.

Assim, aos poucos cada um adquire a expertise (maior eficiência) nesta ou naquela actividade (cozimento, preparação de sobremesas, sucos, etc., tudo em escala distinta do quotidiano) e o conjunto se beneficia das sinergias.

Disponibilizados os produtos e organizada a linha de montagem tem início, então, a entrega: uma refeição completa acondicionada em marmitex descartável e acompanhada de talheres de plástico para aqueles que desejarem consumi-la no local; mas não sem antes que todos estejam devidamente identificados: um adesivo com o prenome é afixado no vestuário à altura do peito – crachá. Essa iniciativa, quase um gesto simples e simbólico, pretende, momentaneamente que seja, conferir a todos algum grau de individualidade e dignidade em meio a anomia e a invisibilidade social; finalmente, o crachá proporciona que a comunicação seja directa, pessoal. Por oportuno, cumpre observar que todos os voluntários portam aventais (longos) com a identificação do colectivo (Amigos em Acção) e o próprio nome. Ademais, antes da refeição, com alguma solenidade são proferidas preces de agradecimento.

Finalmente, em caso de sobras (e sempre há) após todos terem sido servidos, tem início uma segunda rodada (até terminar a disponibilidade) que poderá ser consumida no local ou levada para consumo posterior. Detalhe: além de “A”, entre os Amigos em Acção, há apenas mais um Maçom com actuação operacional, embora outros colaborem como patrocinadores.

2.2 – O caso da associação [19]

O casal A (ele) e B (ela) já há tempos, desde 1982, cozinhavam em casa e distribuíam, à noite, sanduíches de mortadela com manteiga, café com leite ou suco, rotineiramente nas proximidades da Praça Conde de Porto Alegre, em frente a Santa Casa de Misericórdia, bem como no viaduto Loureiro da Silva, comumente chamado de Viaduto da Salgado Filho (locais com grande fluxo), à população carente – sem tectos residentes em Porto Alegre e algumas famílias que estavam com parentes hospitalizados e não dispunham de recursos para alimentação diária.

O passar dos anos e a persistência da fome entre os mais carentes levaram à mudança no “modelo de negócios”: ao invés de sanduíches o casal passou a oferecer refeições completas. A partir do acondicionamento em panelas semi-industriais, em rondas nocturnas o casal passou a entregar refeições (cardápio variado e com elevado valor nutricional) inicialmente servidas em caixas de leite (embalagens Tetra Pak) devidamente higienizadas. Por oportuno, devem ser salientadas as características do novo modus operandi: ao invés de entregar um sanduiche pronto e previamente embalado, a nova modelagem, conforme o caso, exigia a saída do veículo com a(s) panela(s) para atender (abastecer) os necessitados (quando agrupados) ou, alternativamente, no caso das demandas isoladas e com disponibilidade de “embalagem”, a entrega poderia ser realizada a partir do próprio carro. O sopão, principalmente considerando o clima típico de Porto Alegre, o temperado-frio, sempre foi um dos principais cardápios. Até então o custeio do empreendimento foi às expensas do casal.

Sempre sensível e envolvido com as questões sociais, ele e ela passaram a actuar como voluntários na Sociedade Espírita Ramiro D’Ávila, casa que há mais de 90 anos distribui alimentos aos mais carentes: moradores de rua e em situação de extrema vulnerabilidade. Transcorreram mais de 7 (sete) anos de convivência semanal com os peregrinos [20] – carentes assim denominados em razão da extrema mobilidade por entre as regiões da cidade com extensão pela região metropolitana.

Em 2016 o casal teve contacto com o projecto que distribuía alimentos sob o viaduto Conceição (no Centro Histórico de Porto Alegre, próximo ao complexo hospitalar da Santa Casa). Ao fim e ao cabo, a experiência foi como se tivessem, o casal, frequentado uma escola, tanto que, na sequência, expandiram o projecto para dois outros locais: (1) no viaduto Dom Pedro I, confluência das avenidas Praia de Belas e José de Alencar – bairro Menino Deus; e, (2) no Viaduto Obirici, esquina das avenidas Plínio Brasil Milano com Assis Brasil. O envolvimento muito intenso ao longo de 11 meses, para além do que habitualmente se inscreve como actividade voluntária – em meio aos excedentes de tempo -, levou o casal a deixar o colectivo.

Todavia, há tempos o casal já não actuava sozinho, tendo reunido um grupo de 32 pessoas, todas altamente envolvidas e comprometidas com a causa. Além das necessidades a olhos vistos, o envolvimento, a quase familiaridade que se criara com os peregrinos – com a elevada carga afectiva que não raro acompanha as iniciativas solidárias – foi determinante para que o afastamento fosse temporário ao invés de definitivo.

Foi nesse momento que um dos alimentados sugeriu que as entregas também ocorressem noutro local: sob o viaduto Tiradentes (sobre a Rua Silva Só, bairro Sta. Cecília, Porto Alegre). Junto ao viaduto, em área residencial-comercial próxima ao centro da cidade e com elevado fluxo de pessoas, havia uma unidade de recolhimento de lixo selectivo (reciclável), uma capatazia – juridicamente uma autarquia – do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre (DMLU). Foi então que “A”, motivado, procurou e contactou toda a hierarquia institucional da municipalidade para expor o projecto social com o intuito de conseguir a autorização de uso do local. Assim, após 4 (quatro) meses de “negociação”, surgiu a Associação Cozinhar e Servir – o empreendimento deixava, então, de ser uma iniciativa pessoal-familiar (várias famílias) para ganhar institucionalidade, o que, se de um lado exigiria maior formalidade mediante registros e controles oficiais (leia-se: contadores, advogados, prestações de contas, etc.), de outro abriria novas oportunidades, sobretudo para a captação de recursos necessários à continuidade e mesmo à expansão do empreendimento.

Amparado por um Contrato de Cessão de Uso da capatazia sob o viaduto, o colectivo se sentiu seguro para estabelecer uma cozinha que, no primeiro domingo de actividade (15.10.17) serviu 80 refeições, tendo chegado, no último (22.03.20), a 2186.

Aos poucos, aos recursos pessoais de A e B foram somadas contribuições pessoais (variáveis e esporádicas) e institucionais – patrocínios de acordo com as estratégias de marketing das corporações. Hoje, por exemplo, a Associação Cozinhar e Servir é cliente e beneficiária da Cooperativa Metropolitana Sicredi, tendo nos últimos 4 (quatro) anos sido contemplada com recursos financeiros do Fundo Sicredi, montante que possibilitou a aquisição de equipamentos, mobiliário, bem como investimentos para atender as normas de saúde relativas não só à qualidade dos “serviços prestados” como também das condições de higiene e segurança no ambiente de trabalho. Em síntese: a estrutura da cozinha corresponde a de um restaurante de pequeno porte, com fogões, geladeiras, panelas industriais e todos os utensílios essenciais à actividade. O espaço disponível, que aos poucos foi expandido, serve também para estocar as doações recebidas.

Curiosa e paradoxalmente, o sucesso do empreendimento foi a semente que precipitou o seu fim e a substituição por um novo “modelo de negócios”. Devido à limitação das mesas e cadeiras disponibilizadas (sob a cobertura do viaduto) para acomodar os necessitados, por vezes se formavam longas filas, o que levava alguns a se acomodarem junto ao meio-fio nas ruas adjacentes. Não se tem claro se foi devido à grande movimentação promovida no local, ou ao perfil do público, mas o facto é que as reclamações da vizinhança encontram receptividade junto à administração municipal que, então, intentou impor restrições. Cabe esclarecer que além do fornecimento de refeições o grupo de voluntários que actua junto à Associação sempre esteve atento à higiene do local e do entorno. Também contribuiu para o novo arranjo a declaração, pública, de que o poder político recém-eleito tinha por objectivo reurbanizar (ou seria desocupar?) os viadutos mediante intervenções arquitectónicas. Em meio às discussões políticas, institucionais e jurídicas junto à Prefeitura, as circunstâncias levaram ao casal de dirigentes e responsáveis pela Associação a “entregar os anéis para não perder os dedos”, em outros termos: para manter o direito de uso (sem ónus) do espaço deveria se comprometer a não servir refeições nem sob a área e nem nas adjacências do viaduto Tiradentes.

Assim, ao invés de servir refeições aos domingos, os voluntários cozinham, acondicionam e distribuem as marmitas descartáveis nos bairros no município de Porto Alegre que são reconhecidamente carentes, e nos quais o acesso, assim como a segurança pessoal e patrimonial foram previamente acordadas com as lideranças comunitárias. Mensalmente este número chega a mais de 4.000 marmitas, 2.000 lanches, sucos, refrigerante e doces.

Passado um tempo, em forma de projecto, uma nova “linha de produtos” foi introduzida: a distribuição mensal de Cestas Básicas – um mix com géneros alimentícios (leite, bolacha, achocolatado, etc.) e materiais de higiene e limpeza pessoal e doméstica [21]; entrega precedida de cadastramento e, em razão da escassez, da análise do grau de carência familiar.

2.3 – Os casos da barbearia e dos gestores polivalentes

Irmãos de Lojas e Potências diversas trabalham voluntariamente em organizações tais como a Associação Mais Saúde (que possui um Hospital Regional e um Plano de Saúde suplementar – cooperativa), a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e o Lar de Idosos São Vicente de Paulo, todas sediada em São João da Boa Vista (SP). Neste último, há mais de 10 (dez) anos um obreiro toda semana faz barba e corte de cabelos dos homens (da população de 80 idosos de ambos os sexos) cumpridos tanto na pequena barbearia de lá, quanto nos quartos e apartamentos daqueles idosos impossibilitados de locomoção. Das 8 (oito) horas até o meio-dia são cortados, em média, 4 (quatro) cabelos ou quinze barbas, o mais habitual é que haja um mix de actividades. Num dia típico, os homens, assim que chegam ao “barbeiro” são recepcionados, tal como “clientes” organizados em fila (com a respectiva anotação de ordem sendo visível para todos) e então esperam ao som do rádio ou da TV existentes no espaço.

Não se tem muitos recursos na barbearia do Lar de Idosos, como água quente para facilitar o barbear, mas uma espuma generosa e emoliente faz o necessário. Existem hoje em dia bons saponáceos para o espúmeo, coisa que se fazia antes com sabão, mas que irritava e ressecava a pele. Assim, com o rosto untado e água corrente (preferencialmente tépida) é possível fazer a barba com o usual aparelho de 3 (três) lâminas com fita deslizante; o segredo é esticar bem a pele, começando pelos lados e pelo pescoço, deixando o bigode e o queixo para o final, quando a espuma já amoleceu bem os pelos.

Na singela actividade de barbeiro voluntário é possível, semanalmente, ver e conviver com tantas vidas “desperdiçadas”, como que depositadas num canto, olhos esgazeados, aguardando a sua vez de barbear. A cadeira de barbeiro torna-se um local de “escuta do outro”, pois esta tradicional cena masculina, que todo homem, por mais que esteja senil, entende e adopta, facilita a prática do encontro entre as almas. Está muito aclimatada no homem a ideia do barbear-se, e mui prazerosa se torna se alguém o faz por ele.

Na Associação Mais Saúde e na APAE as actividades voluntárias consistem predominantemente em acções administrativas gerais, executadas em diversos níveis gerenciais, nos quais as múltiplas vivências dos Irmãos podem efectivamente cooperar. Existem Irmãos voluntários que são Servidores Públicos, Bancários, Advogados, Médicos, Contadores, Analistas de Sistemas, Militares (aposentados), Administradores, entre outras categorias profissionais. Na APAE, que abarca no seu quadro social diversas categorias de associados, os voluntários Maçons que trabalham na Directoria pertencem estatutariamente àquela modalidade que contribui regularmente com numerário, ou seja, pagam para trabalhar. Ocorre em geral que a posição como Director não espelha a formação académica do mesmo, e a sua contribuição pode abarcar outras áreas que necessitam apoio. Um dos Directores, além da posição de Secretário, ajuda nas actividades de Recursos Humanos, dada a sua especialidade como Psicólogo Organizacional e Empresarial, provendo acções de Organização, Métodos e Planeamento, Gestão da Qualidade, Recrutamento, Triagem e Selecção, Treinamento e Avaliação de Desempenho.

Os relatos correspondem a pequenos (ou grandes?) exemplos de amor em acção que, na voz dos interlocutores, presenteiam e significam mais ao agente do que as pessoas que são alcançadas pelas acções de beneficência, em síntese, o amor do próximo. Assim, o que era (é) uma acção com objectivos externos e mensuráveis, a fim e ao cabo se converte em benefícios internos com características inefáveis.

2.4 – O caso do “patrocínio sem desembolso”

Assim como há os naturalmente motivados e comprometidos com as actividades solidárias em consonância com o espírito cristão, mas também com o de outras crenças, a exemplo da prática do zakat, um dos pilares do islamismo – 2:43 (ALCORÃO, 2016, p. 10), muitos não poupam argumentos e criatividade para, “com razão”, justificarem o seu posicionamento à margem das iniciativas, quando ficam, então, em paz com a consciência. “Qual a diferença que uma gota d`água fará na imensidade do oceano?“; “não sei como fazer”; “não tenho tempo”; “não tenho dinheiro”; “não confio”; e “não …”, são os mais frequentes, mas a lista não tem fim. São raros os que, em autocrítica, reconhecem a carência de altruísmo e o excesso de vaidades. Os casos já relatados (2.1, 2.2 e 2.3), não por acaso vão de encontro a esses argumentos e em parte respondem às negativas desse discurso. Em complemento, a proposta que dá título a esta seção pretende sensibilizar, sobretudo aqueles que habitualmente alegam não ter tempo e nem dinheiro; a estes é sugerida a participação indirecta pela via da exploração de mecanismos já existentes (alguns de longa data), de largo uso mas a favor de interesses estritamente pessoais.

2.4.1 – Transferência e cessão de pontos dos cartões de crédito

Praticamente todas as instituições financeiras, notadamente os bancos comerciais, para lograr a fidelidade dos clientes, entre outras vantagens, instituíram os seus respectivos Programas de Milhagem [22] e Pontuação que, grosso modo, a cada uso do cartão faz corresponder determinada pontuação (uso comercial, aquisição de produtos bancários, débitos em conta, etc. – cada operação tem o seu correspondente de pontos) que, por sua vez, equivale a um valor de crédito.

Os Programas diferem, assim, cada instituição tem as suas próprias regras, alcances e benefícios – e é pelas diferenças que elas também competem, conquistam e mantêm os clientes -, o que torna necessário a consulta pessoal à homepage do Banco, da Operadora do Cartão ou mesmo do gerente da Agência ou da Conta (pessoal ou corporativa).

De regra, o montante pode ser transferido (creditado) [23] à conta corrente, quando então já na condição de saldo disponível pode ser sacado em espécie para o uso que melhor aprouver ao titular; alternativamente, pode ser transferido a qualquer Pessoa Física, Jurídica (Associação!) ou utilizado para a aquisição de produtos e serviços variados que, por sua vez, poderão ser doados.

Muitos utilizam os Programas para reduzir os seus custos junto ao “seu” Banco (taxa pela disponibilidade do próprio cartão, taxa de renovação de cheque especial, taxa disso, taxa daquilo, etc.), mas em se tratando de um montante que na maioria das vezes sequer consta dos orçamentos pessoais e familiares, por que então não aproveitar esta “receita” inesperada e destiná-la como contribuição às iniciativas de carácter solidário?

2.4.2 – Nota Fiscal Gaúcha

Criado pela Lei Estadual n0 14.020 (RIO GRANDE DO SUL, 2012), a Nota Fiscal Gaúcha é um programa que, por meio da distribuição de prémios, visa incentivar os cidadãos e cidadãs a solicitar a inclusão do CPF na emissão do documento fiscal no acto das suas compras, bem como conscientizá-los sobre a importância social do tributo. Através do Programa, os cidadãos concorrem a prémios em dinheiro, as entidades sociais por eles indicadas são beneficiadas por repasses e as empresas participantes reforçam a sua responsabilidade social com o Estado e a sociedade gaúcha [24].

A proposta, como se percebe, faz parte do que comumente se denomina de “jogo ganha-ganha” pois, como o ganho de um não implica em perda para os demais, todos ganham: o Estado (arrecadação), os cidadãos (na forma de serviços prestados e prémios mediante sorteios mensais), as empresas (pela concorrência livre de sonegação) e as entidades sociais credenciadas (prémios e repasses financeiros).

Qual o trabalho e o esforço de cada um – o cidadão? Preencher um cadastro extremamente simples junto à Secretaria coordenadora do Programa e, a cada compra, ao pagar (e pode ser com cartão; qual seja: nos termos do que ora se trata corresponde a “dois benefícios em um”!), solicitar o registro do número do CPF na Nota Fiscal correspondente – em geral os tickets emitidos pelas caixas registradoras de todos os estabelecimentos comerciais, já orientados, pela ampla publicidade, para alertar o cliente quanto à possibilidade. Benefícios: além dos prémios em espécie e que podem ser acrescidos de bónus, há descontos progressivos para pagamento do IPVA – quanto mais Notas, maior o desconto.

Por ocasião do preenchimento do cadastro é possível indicar até 4 (quatro) instituições sociais que desenvolvem projectos nas áreas da Educação, Saúde, Trabalho e Desenvolvimento Social que, assim, também serão agraciadas com créditos e repasses.

Não cabe, aqui, entrar em detalhes acerca do Programa que conta ainda com outros atractivos; a partir do site informado e da legislação referenciada os interessados terão acesso a todas as informações necessárias.

Também neste caso não há qualquer desembolso para promover uma acção de carácter social e solidário.

O leitor atento já percebeu que os casos até o momento apresentados revelam o extraordinário potencial transformador à disposição das Lojas, desde que, é claro, lideradas por Irmãos efectivamente comprometidos com práticas alinhadas com os ideais da Maçonaria.

Aos Irmãos que por não integrarem a Maçonaria Gaúcha não puderem colher os benefícios do Programa Nota Fiscal Gaúcha, fica a sugestão de que actuem politicamente no sentido a conseguir, nos seus Estados e Municípios, iniciativas análogas – o primeiro passo pode ser a identificação dos Irmãos de Ordem que exercem mandatos nos respectivos Executivos ou Legislativos – “bancada maçónica”. Já aqueles que estão sob a jurisdição do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, podem verificar, individual ou colectivamente (acordo de Loja) se a(s) instituição(ões) da sua preferência [25] está(ão) ou não cadastrada(s) junto ao Programa. Em caso afirmativo, os próximos passos são auto evidentes; caso contrário, uma das maiores dificuldades das instituições menores é justamente a carência de expertise gerencial, de contar com pessoas que minimamente conheçam as leis (lato sensu) e os meandros da burocracia pública que, não raro, para esses fins (contar com os benefícios das leis de incentivo) requer o seu reconhecimento (o da instituição) como Organização Social de Interesse Público (OSCIP). O trâmite dos procedimentos para adquirir o reconhecimento implica no atendimento das exigências legais [26] (documentação, certidões, etc.), mas nada que alguém versado no assunto não consiga “tirar de letra”; ora, S.M.J., profissionais versados em ciências jurídicas, contabilidade, assim como servidores públicos são frequentes nos Quadros das Lojas, se não na sua, talvez naquelas que os Irmãos visitam com maior frequência.

2.4.3 – Imposto de Renda

Aqui, a expressão “Imposto de Renda” corresponde a espécie de um género, isto é, um conjunto maior – o das Leis de Incentivo – que, de regra, permite que a cada exercício fiscal as Pessoas Físicas e Jurídicas deduzam uma parte do imposto (no caso, o de renda) devido substituindo-a pelo direccionamento a um Fundo ou Instituição da sua escolha entre as habilitadas. Por outras palavras, a lógica aqui se repete: o imposto já é devido, portanto não haverá saída adicional de recursos, por que então recolhê-lo ao Tesouro, cujo destino (aplicação dos recursos) é desconhecido e muito vezes questionável se, ao invés, pode ser levado a crédito de uma instituição local e conhecida pelos resultados sociais decorrentes do zelo com os recursos públicos?

O caso do Imposto de Renda é certamente um dos mais conhecidos em termos nacionais, mas vários Estados e Municípios possuem legislação análoga que permite direccionar recursos que não só ficarão na comunidade, como podem ser direccionados para sectores específicos: infância e juventude, idosos, desportos, saúde, educação, portadores de necessidades especiais, entre outros.

E também neste caso chega a ser inimaginável, principalmente nas Lojas situadas nos grandes centros urbanos e nas áreas metropolitanas das capitais, que inexistam Irmãos que, se já não dominam o assunto [27] e actuam como profissionais liberais – consultores corporativos –, não teriam condições de fazê-lo. Já os demais podem somar as competências e esforços e, como se diz, “correr atrás” em prol de uma causa maior. Por fim, em muitos casos o passo a passo, “o caminho das pedras”, a legislação, etc., quase tudo já está disponível nas respectivas homepages.

2.4.4 – Colecta de Material Reciclável

Quem já não se deparou com alguém que nas reuniões está sempre atento e recolhe as tampas de garrafas pet ou os lacres das latinhas de refrigerante e cerveja? O destino é sabido: a venda para recicladores e, estes, para as indústrias que os utilizam como matéria-prima nos seus respectivos processos.

Actualmente já existem vários Programas (que quando formalizados tendem a ser PJ reconhecidas, pelos entes públicos, como OSCIP) que recolhem esses materiais e, com a receita das vendas fomentam programas sociais. Entre tantos disseminados pelo Brasil, vale a pena dar uma olhada nesses dois, bastante inspiradores:

Ora, mas por que não transformar a colecta num Projecto da Loja? Algumas referem, não sem orgulho, que possuem 50, 60 integrantes; quanto não poderia ser recolhido se todos agissem de modo coordenado? Ademais, trata-se de projecto que, ao contar com o envolvimento dos familiares pode proporcionar momentos e sentimentos ímpares, que não só fogem do quotidiano como, para além dos valores monetários que proporciona, contribui para a formação dos princípios e valores morais dos infantes. Estipular metas (cadeiras de rodas adquiridas, fraldas, quilos de alimentos entregues, etc.) e comemorar as superações amplia, sobremodo, os vínculos (interna corporis e junto à comunidade), a motivação e, por extensão, o alcance e as possibilidades das futuras iniciativas.

3 – Comentários

Os casos e as propostas apresentadas suscitam incontáveis comentários e reflexões, m

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