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Goteira: a origem do termo

✍️ Desconhecido 📅 17/12/2022 👁️ 6 Leituras

ouvir, goteira

Um termo muito comum e curioso, na linguagem maçónica, é o “Goteira”, servindo para identificar o não Maçon, que se utiliza de artifícios para descobrir os nossos Mistérios, ou até mesmo para se introduzir no seio de uma Loja Maçónica, tentando fazer-se passar por um iniciado. Desde a Antiguidade, que as escolas de ofícios, portadoras dos segredos da sua arte, se resguardaram de intrusos, que tentavam, ilegalmente, beneficiar-se dos direitos restritos aos membros daquelas classes organizadas.

Há relatos de que, no antigo Egipto, muito antes da Maçonaria se estabelecer nas suas Lojas de Ofício, existiam diversas outras Ordens, detentoras dos Mistérios da Construção (Medidas Canónicas, transmitidas através da Geometria Sagrada, aos iniciados), que já utilizavam sinais, toques e palavras para a identificação dos seus membros, afim de preservar os seus segredos.

Tais curiosos e “vantagistas” existem até aos dias de hoje e, entre os maçons brasileiros, são tratados pela alcunha de “Goteira”. Alguns autores mais imaginativos alegam que a sua origem remonta aos tempos em que os Maçons, afim de se esconderem da perseguição dos inquisidores, se reuniam às escondidas em cavernas, e quando um curioso se tentava infiltrar no grupo, era colocado debaixo da goteira de uma estalactite, onde permanecia de castigo. É facto notório que, ainda hoje, nos nossos rituais, antes da Abertura dos Trabalhos, a primeira providência é a de se certificar da segurança do Templo, cabendo ao Ir∴ Cobr∴ Ext∴ a protecção do Templo contra as indiscrições profanas. Somente, após este acto, se declara que o Templo está a coberto. Ao Ir∴ Cobr∴ Ext∴ , cabe fazer o Telhamento de todos os visitantes que pedirem ingresso, afim de não permitir a entrada de intrusos, os “Goteiras”.

O termo Telhamento, quando executado pelo Ir∴ Cobr∴ Ext∴ , é um acto constituído por perguntas e respostas, com a finalidade de se certificar se o visitante, de facto, é Maçon, aferindo-se o seu grau maçónico, sendo necessário que o visitante dê as respostas na íntegra e de memória, além do mesmo ter de comprovar a sua regularidade através dos seus documentos maçónicos. O termo Trolhamento está relacionado com o acto de se utilizar a Trolha, ferramenta do pedreiro, conhecido em diversos lugares como “colher de pedreiro”, usada pelo Mestre, para corrigir as imperfeições da Obra executada pelos Aprendizes e Companheiros.

Nos países de língua inglesa, este Irmão recebe o nome de “Tyler” (Telhador), que vem de “tile” = telha; nos países de língua francesa, o de “Tulleur”, oriundo de “tuile” = telha; nos de língua italiana “Tegolatore”, que vem de “tegola” = telha).

Enfim, Telhamento é o acto de cobrir uma construção com telhas, afim de a proteger da chuva, das goteiras. Portanto, somente, após ser certificado quanto à segurança do Templo, ou seja, ser declarado que “o Templo está coberto”, é que os Trabalhos maçónicos poderão ser abertos. Tudo isto evidencia o termo “Goteira”; porém, ainda não revela a sua origem, de facto.

Nas nossas pesquisas, estudando os tempos da Maçonaria Operativa, deparamos com o termo “Cowan”, que era utilizado para se distinguir o pedreiro comum, grosseiro, que não era conhecedor dos segredos da arte de construir, reservado, apenas, aos pedreiros formados e iniciados nos mistérios da construção. Tais pedreiros desqualificados, recebiam bem menos que os demais e tinham de se submeter a executar trabalhos de menor importância.

O termo “Cowan” não possui, na língua inglesa, um significado em si, e nem encontramos uma tradução literal para o Português, por ter sido um termo utilizado, somente, entre os Maçons da época, talvez, uma espécie de apelido maçónico; porém há quem diga que vem do escocês arcaico. Eventualmente, os “Cowans” tentavam infiltrar-se no meio dos maçons de ofício, com o objectivo de tomar posse dos seus conhecimentos e de se beneficiar das regalias de um pedreiro livre.

Existem relatos sobre “Cowans” que tentavam infiltrar-se no seio de uma Loja Operativa, e que, quando descobertos, por castigo, eram surrados e colocados à chuva, ou na beira do telhado, debaixo de uma calha de chuva, até ficarem totalmente encharcados. Muitos afirmam que o cargo de Cob∴ Ext∴ (Telhador), nasceu da real necessidade de impossibilitar o acesso à Loja de tais sujeitos, e que foi criado no Séc. XVIII, devido ao crescente assédio dos “Cowans” às Lojas Maçónicas.

Em Inglaterra, em Outubro de 1730, o inglês Samuel Prichard, um traidor da Ordem, publicou num jornal local, um Ritual Maçónico na íntegra. Não satisfeito, lançou o livro “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada), revelando, em detalhes, a ritualística maçónica. Observa-se, naquele ritual publicado, um trecho com as seguintes perguntas e respostas:

  • P: Aonde tem assento os Aprendizes mais novos?
  • R: No Norte.
  • P: Qual é a sua função?
  • R: Manter afastados todos os “Cowans” e os “Eavesdroppers” (bisbilhoteiros).
  • P: Como deve ser castigado um “Cowan” ou “Eavesdropper”, se apanhado?
  • R: Deve ser colocado debaixo do beiral, em dias de chuva, até que as goteiras a escorrer pelos seus ombros, saiam pelos seus sapatos.

Guilherme Cândido, na sua matéria sobre o tema, reporta-nos, com base na cerimónia de instalação do Monitor de Webb – Rito de York Americano – edição de 1865, sobre a função do Ir∴ Cobr∴ (Tyler):

“Irmão, você foi eleito Cobr∴ desta Loja e eu o investirei com o instrumento do seu ofício. A Espada deve ficar nas mãos do Cobr∴ para que ele seja, efectivamente, capaz de nos proteger da aproximação de Cowans e Eavesdroppers (bisbilhoteiros), e não permitir que ninguém passe a não ser que esteja devidamente qualificado”.

Ainda, Guilherme Cândido, com base no Ritual da Grande Loja de Nevada (EUA), assim como na maioria das Grandes Lojas americanas, revela, na abertura dos trabalhos, um diálogo entre o Venerável Mestre e o 2º Diácono, em que se diz em tradução livre:

  • Venerável Mestre: Qual é o seu dever lá?
  • 2° Diácono: Observar a aproximação de “Cowans” e “Eavesdroppers”, e certificar-se de que ninguém vá ou venha, excepto aqueles que estejam devidamente qualificados e tenham a permissão do Venerável Mestre.

Fica muito evidente, portanto, que “eavesdrop” é a água que cai em forma de gotas, que goteja, do beiral ou da calha de um telhado, ou seja, uma goteira. “Eavesdroper”, na sua tradução literal significa “bisbilhoteiro”, “intrometido”, aquele que se mete em assuntos que não são da sua alçada; sujeito de curiosidade demasiada quanto a assuntos ou à vida de outrem. Termo que, na sua origem inglesa, indica que essa pessoa ficava debaixo do beiral do telhado, do lado de fora da casa, para ouvir a conversa alheia. Provavelmente, isto tenha inspirado o castigo imposto aos “Cowans”, de ficar com a cabeça na goteira da chuva, no beiral do telhado.

Os termos “Cowan” e “Eavesdropper”, embora pouco conhecidos de muitos maçons, são os que mais se aproximam do termo que, ainda hoje, utilizamos para identificar aquela pessoa curiosa sobre os Mistérios da nossa Ordem – o “Goteira”.

Com isto, concluímos, salvo melhor juízo, derivarem destes termos a sua origem, embora a prudência nos convide a não dar o assunto por esgotado.

Adaptado de texto escrito por Francisco Feitosa

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