Fundamentos teúrgicos da Maçonaria (4) – henose
O terceiro objectivo da Maçonaria Esotérica, tal como delineado nos nossos três primeiros artigos, é o da henose, ou a unidade do humano com o divino. Para compreender a henosis, precisamos de olhar brevemente para a cosmologia neoplatónica. O Universo Espiritual, segundo Plotino, resulta de uma série de emanações da Fonte, a Divindade:
- To Hen – O Divino, a Divindade sem qualidade
- Nous – A mente e a consciência universal
- Psyche – A alma do indivíduo e do Mundo
- Physis – Natureza, Matéria
Nesta cosmologia grega neoplatónica, não havia descida ao mundo subterrâneo porque não havia mundo subterrâneo. Para eles, a katabasis era a descida da alma a um corpo físico aquando da encarnação. O Hades era alegorizado e visto como o mundo que nós, e todos os seres, habitamos. Portanto, não havia necessidade de descer para compreender a consciência divina. O único caminho a seguir era a ascensão. Anabasis.
Por conseguinte, para alcançar a unidade com o divino, o humano precisava de se elevar através das emanações do divino, anabasis, e a teurgia era a forma como essa anabasis era e é alcançada. O uso da teurgia, na prática de feitiços, encantamentos, invocações e movimentos rituais, foi desenvolvido principalmente por Porfírio, Iamblichus e Proclus, mas esses desenvolvimentos foram construídos a partir do trabalho anterior de Empédocles, Pitágoras e Platão.
Os primeiros trabalhos neoplatonistas, particularmente os Oráculos Caldeus, citavam os muitos seres espirituais que viajavam dentro e entre essas emanações, que viviam dentro de cada reino. As referências a estes seres perduram até hoje, embora sob diferentes formas e com diferentes objectivos: exemplos são os anjos, os demónios, os devas e os elementais. Estes seres são invocados e solicitados a ajudar o neófito na sua viagem, para que não se engane ou fale mal. Eles guiam o neófito no trabalho a seu pedido, e isso é feito na Maçonaria pelos oficiais e assistentes numa cerimónia de iniciação.
Os teurgistas medievais pegaram nos escritos dos neoplatonistas e levaram-nos ainda mais longe, no sentido de estes seres espirituais se tornarem intermediários activos do humano em direcção à Fonte. Com o advento do Cristianismo, os seres dividiram-se entre aqueles que tinham como objectivo o ganho pessoal e aqueles que tinham como objectivo o ganho da humanidade. O ganho pessoal era considerado mau e egoísta, ao passo que os que trabalhavam para a humanidade, ou para o cristianismo, tinham como objectivo o melhoramento de todos. Os teurgistas convocavam os anjos para conversar e pedir conselhos para que pudessem receber a vontade de Deus. Os teurgistas pediam que lhes fosse explicada a profecia ou as escrituras e que compreendessem melhor a natureza do universo físico para o poderem controlar. É a partir desta altura que vemos crescer a ideia de que a “magia” é “má”.
Olhando para a doutrina da emanação de um ponto de vista maçónico, a Maçonaria continuou esta tradição e retomou algumas das ideias de alcançar a henose que tiveram origem na antiguidade. A partir do momento em que o neófito, na sua iniciação, percorreu as suas viagens até se encontrar no limiar de um mundo celeste. Ele saiu da sua existência terrena e está no reino do seu “nascimento”, como filho do céu. A partir daqui, uma série de acções poderosas tem lugar para o levar através do portal final para o nível da emanação seguinte – neste caso, Psique, o lugar da alma pessoal e mundial. Ele é a presença dos seres que trabalham a este nível: os oficiais e as colunas de maçons dentro da Loja. Também estão presentes os intermediários que existem entre o reino da Psique e da Physis, atendendo num “templo não feito por mãos, eterno nos céus”. Ele alcançou esta anábase através de todos os seus esforços teúrgicos. Uma coisa que muitos neófitos experimentam durante este momento da cerimónia é a sensação de que a “sala está cheia de gente”, de que há muito mais seres presentes do que realmente estão. Não poderia este portal, construído no centro do templo e aberto por magia divina e ritual, ser a razão para esta sensação?
Há muitos, muitos mais aspectos do ritual maçónico que poderiam ser considerados teúrgicos e muito mais para explorar ao longo dos graus da Maçonaria. A filosofia Neoplatonista, que informa tanto da Maçonaria, não deve ser considerada apenas uma busca mental. Derivamos muitos dos princípios activos da Maçonaria destas obras neoplatónicas, e mergulhar nestas origens enriquece o nosso ritual cem vezes mais. De facto, para alcançar plenamente a anábase iniciática, cada M.M. deve considerar-se um teurgista. Isto não quer dizer que os Maçons devam aprender a lançar feitiços ou criar as suas próprias invocações, especialmente no sentido moderno, inculto e profano de “teurgia”. Os aspectos teúrgicos do ritual já estão profundamente enraizados em tudo o que fazemos antes, durante e depois de uma reunião da Loja. O teurgista é um praticante de magia divina, não um praticante de magia no mundo das aparências. Somos educados pelo emprego de encargos, escritos e estudos para começarmos a compreender o que é necessário para o melhoramento de toda a humanidade. A participação activa na Maçonaria educa o neófito naquilo que é necessário para caminhar desde o objectivo prático de despertar as nossas capacidades subdesenvolvidas até, creio eu, à henose, o objectivo dos Maçons Esotéricos para toda a humanidade.
Kristine Wilson-Slack
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
Bibliografia (para todas as Partes)
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