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Esfera armilar

✍️ Desconhecido 📅 06/03/2023 👁️ 6 Leituras
Constituições de Andersen, Esfera armilar
Constituições de Andersen

O frontispício das Constituições (Constitutions of the Antient Fraternity of Free and Accepted Masons), por John Noorthouck (autor inglês, mais conhecido como topógrafo de Londres – 1732–1816), de 1784, é um desenho simbólico em que a parte arquitectónica representa o interior do então Free Masons Hall. Ao pé da imagem, em primeiro plano, há uma mesa longa com várias ferramentas e símbolos maçónicos, com dois globos em suportes de tripé, e a descrição da imagem refere-se a “…Globos e outros Móveis Maçónicos e Implementos da Loja”. [0]

A Esfera Armilar é uma representação astronómica que aparece com frequência na arte e na simbologia maçónicas. É composta por uma série de anéis concêntricos que representam os caminhos dos corpos celestes, como planetas e estrelas. A Esfera Armilar é vista como um símbolo da ordem e da harmonia no universo, e é frequentemente associada à busca pelo conhecimento e à busca da verdade.

No livro “The Constitutions of the Free-Masons“, de James Anderson, a Esfera Armilar é um símbolo maçónico importante que explica como ela pode ser usada para ensinar lições morais e espirituais aos Maçons. Anderson foi um importante teórico maçónico do século XVIII e um dos responsáveis pela elaboração das Constituições Maçónicas, que definiram as regras e os princípios da Maçonaria. [3]. A Esfera Armilar é um símbolo ainda utilizado na Maçonaria até os dias de hoje, e é vista como uma representação importante da filosofia maçónica valorizada pelos Maçons.

A esfera armilar é um instrumento de astronomia aplicado em navegação que consta de um modelo reduzido do cosmo. Estima-se que foi desenvolvido ao longo do tempo, através de observações minuciosas do movimento aparente dos astros em torno da Terra. [1]

O grande anel exterior mostra a escala de declinação das estrelas fixas na esfera celeste; a pequena bola no centro, a Terra. A esfera é mostrada através de conjunto de armilas, vocábulo que designa anéis, braceletes ou argolas e de onde deriva o nome «armilar» . Estas armilas são articuladas e indicam os principais círculos máximos: os polos, os trópicos, os meridianos e o equador. A estes acrescenta-se uma banda diagonal, inclinada 23,5º entre trópicos mostrando o caminho do Sol nos 365 dias do ano, mas que muitas vezes se apresenta com outras inclinações, por motivos puramente estéticos. [1]

A esfera armilar foi desenvolvida ao longo dos tempos por inúmeros povos que habitavam o lado asiático e os seus registros constam em pinturas de cerâmica e documentos que os chineses durante o século I a.C., (Dinastia Han), já se conheciam a esfera armilar, sabe-se também, que nessa época, um astrónomo chinês Zhang Heng, considerado a primeira pessoa a usar engrenagens e mecanismos de articulação hidráulicas no eixo da esfera armilar para reproduzir os movimentos da mecânica celeste para fins didácticos, entretanto o nome do instrumento vem do latim armilla (“bracelete”), visto que tem um esqueleto feito de anéis concêntricos articulados nos polos com escala de graduações e outros perpendiculares representando o equador, a eclíptica, indicando o curso do Sol em relação às estrelas de fundo para os 365 dias do ano, os meridianos e os paralelos. [1]

A História da Esfera Armilar é traçado paralelamente com a colonização do Novo Mundo, como um instrumento de astronomia imprescindível à navegação. O objecto foi desenvolvido ao longo do tempo por vários povos da região do leste asiático, tendo os chineses já conhecido a Esfera Armilar por volta do século primeiro antes de Cristo, durante a Dinastia Han. [2]

Esfera Armilar de Antonio Santucci do século XVI. (Acervo do Museo Galileu, Itália)
Esfera Armilar de Antonio Santucci do século XVI. (Acervo do Museo Galileu, Itália)

O instrumento que funciona como um almanaque náutico, usa o Sol do meio-dia (Sol a zénite) como referência das estrelas que surgem e se põem no horizonte durante o entardecer e alvorecer (Nadir), e conferindo a altura do Sol com a latitude pela estrela polar era possível saber a data aproximada. [1]

A Esfera Armilar tornou-se um dos emblemas do rei de Portugal e Algarves, rei D. Manuel I (1495-1521). Ela é um elemento importante no brasão de armas português desde o século XV. Durante a era das Grandes Navegações, o instrumento foi importante para Portugal, e pode ser entendido, inclusive, como um símbolo da tecnologia náutica dos portugueses que, durante muito tempo, foram líderes mundiais na conquista de territórios ultramarinos. A Esfera passou a estar presente nas bandeiras das várias colónias lusitanas, como o Brasil. [2]

Ao elevar o Brasil à categoria de reino em 1815, unido a Portugal e Algarves, Dom João  – ainda como Príncipe regente e em nome de sua mãe a rainha Dona Maria II – incorpora oficialmente a Esfera Armilar de ouro sobre fundo azul como símbolo real. O Reino do Brasil passa a figurar no brasão de armas do Reino Unido sob o escudo de Portugal e Algarves.

A Esfera presente na Bandeira do Império do Brasil contou com uma alegoria já utilizada em moedas coloniais brasileiras desde o reinado de Pedro II de Portugal, cunhadas no século XVII. Consistia na união da Esfera a uma Cruz da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo – símbolo este estritamente ligado à história de Portugal e que representa a fé cristã e a evangelização além-mar. Esta cruz representava a Ordem religiosa e militar de mesmo nome e, por muito tempo, figurou nas velas e pavilhões do império português. [2]

O decreto imperial de 18 de Setembro de 1822 oficializa a bandeira do Brasil independente. Descreve o Brasão Imperial com “(…) huma esphera armilar de ouro, atravessada por huma cruz de Ordem de Christo (…)”. Tal símbolo foi colocado dentro de um escudo verde, circundado por uma orla azul carregada por dezanove estrelas. Quando da coroação e aclamação do Imperador Dom Pedro II, foi confeccionada uma peça em prata com esta esfera atravessada pela cruz. Este objecto precioso foi posto ao lado do trono do Imperador durante a cerimónia. [2]

Esfera Armilar em prata para a Coroação de Dom Pedro II do Brasil. – 1841 – Fotografia de Dom João de Orleans e Bragança
Esfera Armilar em prata para a Coroação de Dom Pedro II do Brasil. – 1841 – Fotografia de Dom João de Orleans e Bragança

Muitos conhecem este símbolo apenas por causa da Bandeira do Império, mas, como demonstramos, a Esfera Armilar está ligada à História do Brasil desde o período colonial. Hoje em dia ela figura, mesmo que implicitamente, na bandeira republicana na forma do círculo estrelado visto por um observador situado fora da esfera celeste, tendo a faixa zodiacal representada pelo listel branco carregado com o lema republicano Ordem e Progresso. Portanto, desde o Principado do Brasil até a actual república, a Esfera Armilar representa o Brasil nas suas bandeiras.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil
Bandeira de Portugal
Bandeira de Portugal

Após a invenção do instrumento concebido por John Hadley, em 1731, o octante, chamado assim pela sua forma de um sector circular de 45° (isto é, de um oitavo de círculo), e, de John Campbell, um oficial da marinha inglesa, alargar o arco do limbo do octante para 60 °, nascendo assim o sextante, que calculava a declinação dos astros em relação ao horizonte marítimo, e da linotipo que imprimia tábuas de logaritmos para uso em navegação, o instrumento (esfera armilar) caiu em desuso e passou a ser usado somente como produtos de decoração ou status. [1] Entretanto, de forma bastante elementar, os octante e sextante são, também, com um olhar mais atento e simbolicamente, “compassos”, utilizados na medida e direcção dos novos caminhos, nas novas terras, mares e vidas…

Todavia, a Esfera Armilar não perdeu o seu profundo significado e uso maçónicos, uma vez que encerra, num mobiliário, o que nos ilustra simbolicamente os Globos Terrestre e Celeste encimados às Colunas Maçónicas de salas ou templos de vários Ritos Maçónicos pelo Universo.

esfera armilar

Hermes Trismegisto é representado segurando  uma esfera armilar, a qual simbolizava, à época, um modelo reduzido do cosmos e da esfera celeste e que é aludido em graus superiores de Ritos Maçónicos. [5]

Interessante notar na brilhante dissertação de mestrado de (GODINHO 2016) à Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências, Departamento de História e Filosofia das Ciências, procura-se compreender o significado da esfera armilar no contexto cultural do rei D. Manuel I (1495-1521), o primeiro monarca português que teve como emblema (divisa) este instrumento. Godinho clarifica e problematiza o que é este instrumento através de uma breve síntese histórica, chegando à conclusão de que é a sua forma padrão que veio a servir como divisa manuelina. Em seguida problematiza a interpretação de que a esfera armilar, quando foi atribuída, por D. João II, como divisa a D. Manuel, tinha já uma conotação de poder real, tal como foi sugerido pelas fontes coevas e pela historiografia actual. [4]

O autor analisa o fenómeno cultural de associação entre a esfera armilar e a virtude teologal da esperança. Há o mote que acompanha a divisa manuelina – esperança em Deus – e, em seguida, explora uma tradição de exegese bíblica desenvolvida desde o século XII por uma linha de pensadores sefarditas, com tendências cabalísticas, que interpretaram a Torá (Pentateuco) à luz da filosofia e da astrologia. Esta abordagem bíblica deverá ter influenciado pensadores cristãos no final do século XV. [4]

Godinho, na sua tese, apresenta indícios de que há conhecimento astronómico na Torá, e mais concretamente interpretações sobre o Tabernáculo/Templo como referentes à estrutura do cosmos, tal como uma esfera armilar, e que os querubins bíblicos seriam entendidos como componentes desta estrutura. [4]

Godinho ainda explora, por derradeiro, o papel da esfera armilar no contexto do reinado de D. Manuel I, enquadrando-a na ideologia messiânica predominante. Explora a possibilidade da influência do pensamento hebraico sobre o entendimento da esfera armilar durante o reinado manuelino. Argumenta que o mais prolífero e paradigmático modelo visual da esfera armilar, presente em toda a iconografia manuelina, trata-se da interpretação de uma teofania descrita nos livros bíblicos. [4]

Logo, a Esfera Armilar não contém nas suas armilas não somente elementos de mensuração astronómica, geográfica ou astrofísica, ou de navegação, mas, também, elementos de alto valor simbólico “armilados” pela Maçonaria, como a medida dos nossos micro e macro templos, a universalidade da Sublime Arte do Supremo Pensamento, os Trópicos de Câncer e  Capricórnio, os ângulos, o Sol a Zénite e a Nadir e o encetar e encerrar dos trabalhos maçónicos, os Globos em si, Terrestre e Celeste, a Abóbada Astral do Universo e as suas Constelações, os seus Astros, a Medida das nossas “navegações”, dos nossos comportamentos e caracteres no singrar dos nossos mares internos, o “Norte” das nossas vidas, através da Estrela Polar ou Estrela Radiante, enfim… tantas simbologias que não teríamos “armilas” próprias ou o suficiente para conter e/ou descrever num só momento ou parágrafo.

Portanto, depreende-se que, assim como o Compasso, o Esquadro, o Skirret, a Corda, o Maço, o Escopro, a Régua de 24”, (…) e tantos e inúmeros outros instrumentos e seus diversos significados simbólicos num campo ou canteiro de obras, há, reunido num só instrumento, numa esfera, simbologias muitíssimo relevantes, agora, noutro “campo de cantaria” ou “canteiro de obras”, desta feita, no infindo “campo” dos nossos oceanos maçónicos: a Esfera Armilar.

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

Fontes

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