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Decifrando símbolos – um exercício rectificado

✍️ Desconhecido 📅 20/06/2023 👁️ 5 Leituras

simbolos maçónicos, rectificado

O texto “A Maçonaria, os Símbolos, a Filmografia e o Quotidiano” inicia com uma das definições mais usuais acerca do que é, afinal, a Maçonaria:

[ .] um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (ISMAIL, 2012). Na sua definição a GLMERGS ressalta a intenção de “[ .] despertar no Maçom o desejo de penetrar no significado profundo dos símbolos e das alegorias, de modo que os pensamentos velados neles contidos, sejam decifrados e elaborados” [1].

Não há exagero em dizer que no mundo maçónico tudo é simbólico. Portanto, o desafio reside na “leitura”, na decodificação da enorme gama de símbolos, não de forma isolada, mas no âmbito de uma narrativa alinhada com os propósitos da Ordem em geral e de cada rito em particular dado que aquela abriga uma grande diversidade destes.

Em tempo: a expressão “leitura” mereceu destaque para alertar que, por vezes, a leitura se dá tal como de costume: a partir de uma palavra ou frase que encerra a mensagem codificada. Ainda: há ocasiões que a mensagem encontra-se oculta não numa palavra ou frase isoladas, mas emerge a partir do contexto de uma narrativa, de uma história, real ou fictícia, como exemplificam as fábulas das quais, embora não escritas, se extraem relevantes lições morais. Todavia, por vezes o objecto da “leitura” se apresenta na forma de uma figura, imagem ou mesmo de uma sucessão de imagens que constituem a narrativa, como é o caso dos trípticos (muito usuais na Idade Média), bem como da sequência que constitui a Via Sacra. Em meio a tudo, por oportuno, não pode ser perdido de vista que as próprias letras correspondem a símbolos de linguagem; são produtos de uma evolução (que continua) para registrar e transmitir a comunicação até então labial, gestual e oralizada (mais provavelmente gutural). E para que não reste dúvida basta reflectir sobre a comunicação escrita em outros idiomas, notadamente aqueles que têm as suas raízes distantes da vertente latina, como é o caso do alfabeto cirílico e dos ideogramas orientais.

Já em “Produzindo Trabalhos & Textos no Rito Escocês Rectificado (RER)”, além do fornecimento de dicas sobre como estruturar trabalhos escritos (estabelecimento do objectivo, procedimentos, pesquisa, argumentação dialógica, etc.), a preocupação central foi trazer evidências de que o fio condutor das leituras, estudos e pesquisas no âmbito do RER, o que inclui a sua simbologia, admitindo-se alguns ajustes, são as Escrituras neo-veterotestamentárias combinadas à literatura desenvolvida no seu entorno. Assim, por exemplo, poderiam ser tido outros, mas não foi por outro motivo que, acima, as referências foram os trípticos e a Via Sacra.

Destarte, entre tantas, uma das questões que se coloca é: como interpretar os símbolos velados no âmbito do Regime Escocês Rectificado, isto é, mantendo-os alinhados com a doutrina, com a ritualística e ao longo da senda iniciática escalonada em graus? Haveria algum tutorial, regras ou algo assemelhado? Objectivamente, não! Isto é: deve-se desconfiar de toda orientação que categoricamente restrinja o significado de um símbolo (palavra, frase, imagem, etc.), pois a polissignificabilidade e a polissimbolizabilidade (SANTOS, 1959) [2], como já sabido, são inerentes aos símbolos, o que significa que o mesmo símbolo pode representar vários simbolizados, assim como estes podem ser referidos por vários símbolos. Ademais, a interpretação simbólica, em si, é função do nível de conhecimento que, por sua vez, é sabido, se dá por evolução gradual; dito de outro modo: a interpretação simbólica requer conhecimento, capacidade de análise e síntese, competências que, de regra, só o tempo, a dedicação e a experiência proporcionam. Assim, o mesmo símbolo, se lido por um Aprendiz e por um Mestre admitirá significados diferentes, não opostos, contraditórios, mas em níveis de apreensão distintos em amplitude, profundidade e complexidade – o texto sobre o seriado La Casa de Papel deixa isto muito evidente. Tal é que, uma letra para um analfabeto não passa um desenho (quando não, um rabisco), e na medida em que aumenta a sua escolaridade novas acepções são incorporadas ao seu vocabulário até que, já experiente, recorre às mesmas expressões, todavia enquanto metáforas; a gata já não é somente a fêmea do gato, mas pode ser uma mulher formosa, mas também arisca e perigosa.

Contudo, a partir do desdobramento do paralelismo já estabelecido (se letras são símbolos, os instrumentos para analisá-las se prestam, senão no todo, em parte, também para analisar os demais símbolos – figuras, imagens, etc.), é possível identificar quadros de referências que podem ser de grande auxílio e utilidade na análise e entendimento da linguagem simbólica. Portanto, o objectivo deste texto é apresentar alguns quadros de referência (teoria) que sirvam de guia para os menos experientes; completa o texto um exercício de carácter prático-exploratório. O leitor mais atento perceberá que se este texto continua e complementa os dois anteriormente citados, e juntos constituem uma ferramenta auxiliar ao estudo e à produção intelectual, não exclusivamente, mas sobretudo no domínio do RER.

Uma das primeiras e mais básicas referências pode ser encontrada em Adler e Van Doren (2010), onde os autores esclarecem que há quatro níveis de leitura:

  1. a elementar (rudimentar ou inicial). A pergunta fundamental é: o que diz a frase?
  2. a inspeccional, que pretende extrair o máximo de significado possível em determinado período (em geral, curto) de tempo acerca do conjunto da obra, assim, ao invés de “o que diz a frase”, as perguntas consideram a totalidade: “o livro é sobre o quê?”, “Qual a estrutura do livro?”, ou ainda: “Em quais partes o livro é dividido?”;
  3. a analítica. É a leitura completa, a melhor leitura possível, destinada a entender, por conseguinte, em razão da atenção dedicada, emergem muitas perguntas;

Francis Bacon dizia que “alguns livros devem ser degustados, outros devem ser engolidos, enquanto alguns poucos devem ser mastigados e digeridos”. Ler um livro analiticamente significa mastigá-lo e digeri-lo. (op. cit., p. 40);

  1. o quarto e último nível é a leitura sintópica [3], embora também chamada comparativa, é muito mais do que a mera comparação.

A leitura sintópica é mais sofisticada do que a mera comparação [ .] o leitor sintópico estará apto a desenvolver uma análise que talvez não esteja em nenhum dos livros [ .] é mais activa e trabalhosa de todas [ .] não é uma arte fácil [ .] é, provavelmente, o nível de leitura mais compensador que existe. (ibid.)

Como se constata, não são tipos isolados e diferenciados de leitura, havendo um claro gradiente: da leitura mais rudimentar, em estágio de alfabetização, à leitura mais complexa e exigente. A última pressupõe o domínio da imediatamente anterior, esta da que lhe antecede e assim sucessivamente, sendo praticamente impossível dar saltos, pois trata-se de erigir uma construção que para se elevar necessita de bases, os andares inferiores bem assentados. A metáfora da construção também alerta para o facto de que as peças (um tijolo, uma armadura, enfim, cada palavra na frase) além do valor e significado próprio, devem ser apreciadas à luz da sua contribuição para o sentido do conjunto (o piso, a parede, o andar; enfim, a frase no parágrafo, este no capítulo, e este por sua vez como parte do livro). Ademais, fica claro que é somente no último nível (andar) que se abrem as oportunidades para a efectiva evolução cognitiva, para a criação e inovação, enxergar o que até então estava obscuro, ainda que talvez insinuado, bem como ver o que os outros ainda não viram – o equivalente a sair da Caverna de Platão, o que significa nunca mais poder ser o mesmo, retornar ao estado inicial, pois o conhecimento adquirido promove a transformação, a elevação interna.

A citação a F. Bancon, original dos autores, quando analogada ao processo digestivo carrega uma simbologia: a leitura analítica, o penúltimo nível de riqueza cognitiva, corresponde à absorção dos elementos nutritivos pelo organismo, o que leva ao seu crescimento e fortalecimento, portanto situando-o em patamar superior, mais compreensivo. O paralelo também pode ser visto ao contrário: aqueles que abrem mão de chegar ao quarto nível devem resignar-se à situação presente, à vida estacionária.

A segunda referência não requer que, aqui, se avance em detalhes; trata-se de um pequeno porém valioso texto da autoria de Hugo de São Vítor (1096-1141), da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, cujo título é auto-explicativo: Opúsculo Sobre o Modo de Aprender e de Meditar [4] – por certo que “meditação”, tanto à época quanto no contexto da cristandade [5], tinha (tem) sentido distinto do que hoje o senso vulgar lhe atribui. Nele o autor passa aconselhamentos: desde a necessária humildade para aprender, à importância da disciplina, da diligência, da memória (que vale lembrar, é parte das artes liberais) entre outros aspectos a seguir brevemente citados tão somente para ilustração:

[ .] Três coisas são necessárias ao estudante: a natureza, o exercício e a disciplina;

Prime pelo engenho e pela memória. Os que se dedicam ao estudo devem primar simultaneamente pelo engenho e pela memória, ambos os quais em todo estudo estão de tal modo unidos entre si que, faltando um, o outro não poderá conduzir ninguém à perfeição [ .] O engenho é um certo vigor naturalmente existente na alma, importante em si mesmo. A memória é a firmíssima percepção das coisas, das palavras, das sentenças e dos significados por parte da alma ou da mente. O que o engenho encontra, a memória custodia. O engenho provém da natureza, é auxiliado pelo uso [ .] A memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício de reter e de meditar assiduamente.

Duas coisas há que exercitam o engenho: a leitura e a meditação. Na leitura, mediante regras e preceitos, somos instruídos pelas coisas que estão escritas. A leitura é também uma investigação do sentido por uma alma disciplinada.

A meditação. A meditação é uma cogitação frequente com conselho, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa. A meditação toma o seu princípio da leitura, todavia não se realiza por nenhuma das regras ou dos preceitos da leitura. Na meditação, de facto, nos deleitamos discorrendo como que por um espaço aberto, no qual dirigimos a vista para a verdade a ser contemplada, admirando ora esta, ora aquelas causas das coisas, ora também penetrando no que nelas há de profundo, nada deixando de duvidoso ou de obscuro. O princípio da doutrina, portanto, está na leitura; a sua consumação, na meditação [ .]

O texto não oferece nem uma “regra de bolso”, mas algumas definições e vigorosos aconselhamentos que subsidiaram o ensino medieval lastreado nas Artes Liberais (Trivium e Quatrivium), ou seja, nos tempos em que ao invés de uma formação voltada à profissionalização (que teve início com a Modernidade e a Revolução Industrial) preocupava-se com a educação propriamente dita com vistas ao crescimento, à evolução integral (corpo, alma e espírito) do homem, da vida orientada à verdade (um dos transcendentais divinos) a partir do exercício das virtudes, entre outras, as Cardeais e Teologais.

Bension (2006) oferece um terceiro quadro de referências para a leitura e interpretação simbólica, mais especificamente na forma de glossário do Apêndice (op. cit., p. 323-24):

Pardês. Palavra de origem persa que significa “pomar” e, posteriormente, “Paraíso”. É também o acrónimo, PaRDeS, dos quatro métodos ou níveis de interpretação (hermenêutica) das Escrituras Sagradas: Peshat, Remez, Darash, Sod:

  • Peshat é a interpretação literal, histórica e filológica [ .]
  • Remez é a interpretação alegórica e filosófica [ .]
  • Darash é a interpretação metafórica [ .]
  • Sod (em hebraico, secreto) é a interpretação mística ou anagógica (do grego, anagoge: “acção de lançar para cima”, “acção de se elevar espiritualmente”, “elevação da alma em direcção às coisas divinas” [ .]

As orientações de Bension, mais uma vez apontam para uma escalada do conhecimento, desta feita, claramente orientada do mundo material ao espiritual, portanto, perfeitamente alinhadas com o RER. Após ter tomado o conhecimento do significado de cada tipo de interpretação, fica claro que a escolha do acrónimo “Pardês” não foi livre de intenções, sugerindo, por exemplo, que a caminhada evolutiva conduz ao paraíso.

McGrath (2005, p. 17) segue a mesma trilha:

O método aceito pela Igreja para a interpretação bíblica, nessa época [Idade Média], era conhecido em geral pelo nome de Quadriga, ou do “sentido quádruplo das Escrituras”. A origem deste método é a distinção entre os sentidos literal e espiritual [ .] podem ser resumidos assim:

  • Sentido literal, no qual o texto é recebido como está escrito.
  • Sentido alegórico, que interpreta certas passagens das Escrituras com a finalidade de estabelecer doutrinas. Trata-se de passagens pouco compreensíveis ou possuidoras de sentido literal inaceitável pelos leitores, por razões teológicas.
  • Sentido tropológico ou moral, que interpreta passagens destinadas à orientação moral para a conduta cristã.
  • Sentido analógico [6], que interpreta passagens indicativas dos fundamentos da esperança cristã, voltadas para a consumação futura das promessas divinas na Nova Jerusalém.

A reunião das três chaves auxiliares à de análise simbólica num quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efectivo padrão; para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

Quadro 1: Níveis de Leitura e Interpretação de Textos & Símbolos

Níveis de Leitura

Adler & Van Doren

Níveis de Interpretação

Bension

Sentidos de Interpretação

McGrath

elementar (parte) peshat (realidade) literal (realidade)
inspeccional (superficial) remez (entendimento) alegórico (interpretação)
analítica (profunda) darash (metáfora) tropológico (moral)
sintópica (descoberta) sod (revelação) anagógico (elevação)

Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão, pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto pelos véus da ignorância. Do primeiro ao último nível há claramente um sentido escalar de complexidade e abstracção. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, abstracção). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa. Em nível mais avançado o Quadro 1 pode ser explorado e enriquecido à luz da Teoria dos Quatro Discursos (CARVALHO, 2006).

Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de carácter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o colectivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Estabelecido o Quadro de Referências, um exercício de interpretação em carácter exploratório e tendo por base a taxonomia de McGrath. Mas por que o modelo de McGrath? Em primeiro lugar, porque é de conhecimento prévio que o rito ora objecto de estudo é de natureza cristã; ademais, não fosse ele, não haveria grandes prejuízos interpretativos em razão das similaridades já constatadas com e entre as demais taxonomias:

1) tome-se, a título ilustrativo, a capa do livro “Rito Escocês Rectificado – Maçonaria Cristã”, de Ricardo Uchôa [7].

Figura 1: Rito Escocês Rectificado (capa de livro)
  • O sentido literal informa que se trata de um triângulo equilátero, amarelo, cujos lados carregam uma inscrição (et tenebrae eam non comprehenderunt) em idioma que não é o nacional, e cujo conjunto (triângulo e inscrição) se encontra circundado por setas (talvez raios) também na cor amarela, porém mais escura;
  • O sentido alegórico. Sabendo tratar-se de um rito cristão, o triângulo adquire novo significado, único e distintivo: a Trindade – pai, filho e espírito santo. Ademais, fica claro, também, porque o triângulo é o equilátero e não o escaleno ou o rectângulo, pois aquela é melhor expressão pictórica para representar a unidade, mas também a diversidade das três pessoas manifestas na consubstancialidade. Do mesmo modo, o amarelo adquire significado singular: em várias tradições corresponde à luz, à referência, o que por sua vez também esclarece as setas (ou raios): a luz irradiada a partir de e para todos os lados. Finalmente, a natureza cristã do rito remete à busca do significado da inscrição às Escrituras, a qual é efectivamente encontrada no Prólogo do Evangelho de João, cuja tradução, dada por Silva e Rabuske (2011, p. 179), corresponde a: “A luz brilha nas trevas e as trevas não a subjugaram”. O entendimento da inscrição vai ao encontro e reforça o significado previamente assumido para o amarelo, tanto o interno ao triângulo quanto o das setas: efectivamente a luz brilha, é irradiada e ilumina indistintamente todos os lados. E qual é o sentido da iniciação (recepção), senão o de ser o primeiro passo do profano que, das trevas almeja chegar à luz?;
  • Sem o entendimento anterior seria impossível a apreensão do sentido tropológico. E mesmo assim, trata-se de um conhecimento ainda incipiente, que não permite a desejada passagem, a elevação da insipiência à sabedoria sem antes ter percorrido, em aprofundado estudo as lições das Escrituras ou, em sentido mais amplo, ter consultado, para orientação, as Tradições. Deste modo o Maçom rectificado sabe que a sua conduta, as suas relações em sociedade (em todos os ambientes: familiar, escolar, profissional, lazer, etc.) deverão ser pautadas pelo código da moralidade cristã, isto é, pelo exercício das virtudes, seguindo os passos daquele que trouxe a boa notícia, pois é só através dele que se chega à luz. Em outros termos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6) E qual é a boa nova?
  • A boa nova confere à interpretação o sentido anagógico, isto é, de que é possível (portanto há que se viver com esperança) chegar ao estado de luz, à máxima elevação, um estado para além da razão (daí o imperativo da fé) mas não, por este motivo, irracional. A crença neste último estágio remete à hipótese da perfectibilidade desde que a vida seja pautada pelas Escrituras, a luz que ilumina todas os caminhos, tal como ilustrado pela imagem ora em foco, no sentido à Jerusalém Celeste.

Conforme esclarecido, a partir da capa de um livro amplamente conhecido pela Ordem dos Rectificados foi realizado exercício de carácter exploratório, o que significa que a leitura realizada não é exclusiva, definitiva e tampouco pretende ser normativa. Neste sentido também não cabe referir à interpretação certa ou errada. Outrossim, importa destacar, até certo ponto independentemente dos acertos havidos em cada nível interpretativo, o alinhamento que entre eles deve existir, pois um é degrau para chegar ao subsequente e mais elevado, e todos, em conjunto com a doutrina do rito, devem constituir um todo lógico, coerente e harmónico.

E tal como entre duas linhas paralelas, há de se notar a existência de um espaço interpretativo à livre criação em resposta às dinâmicas de cada espaço-tempo, mas também às vicissitudes do quotidiano; todavia, há uma direcção claramente definida e não é dado ultrapassar os limites sob pena de seguir por outros caminhos. Assim, o Irmão Rectificado, mas também mais instruído e atento, poderá estender-se em conjecturas mais amplas, por exemplo, identificando similaridades entre os níveis de interpretação e a trajectória na Ordem: de buscador a sofredor, tendo, ao final, o gozo da reintegração. Ademais, as quatro etapas, comuns entre as taxonomias apresentadas (mas há outras que simplificam para três), podem também ser associadas aos quatro tempos da reedificação do Templo: expiação (estágio do trabalho em pedra bruta), purificação, reconciliação e purificação [8] (estágio da revelação, da união); assim como não lhe passará desapercebido que o RER, em carácter diferente dos demais ritos, está estruturado em quatro graus simbólicos. Ora direis: mas isto é muita imaginação! De facto é um exercício imaginativo, mas não é a imaginação, ladeada pela inteligência e a vontade, uma das potências da alma? E acaso o exercício não está perfeitamente alinhado à doutrina, não tendo ultrapassado os limites (“sair dos trilhos”) e incorporado elementos esdrúxulos?

Portanto, s.m.j., resta provada a utilidade de um quadro de referências para a análise e interpretação simbólica, instrumento necessário para manter-se à margem e à distância dos achismos arbitrários e personalizados. Em Pinheiro (2017) poderá ser encontrada uma aplicação semelhante a partir do Ritual de Iniciação ao Grau de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito. Não custa lembrar que na sua busca pela Maçonaria perfeita e ideal, Jean Baptiste Willermoz tencionava atribuir ao RER um carácter científico que o afastasse do domínio das opiniões não fundamentadas que até então dominavam a Estrita Observância Templária, portanto, o uso do método e do rigor estão na génese da formação do Regime e do Rito Escocês Rectificado.

Ivan A. Pinheiro, MM
Alejandro Pellegrini, MM
Alexander Varejão, MM

Notas

[1] Fonte: http://www.glojars.org.br/maconaria-universal. Acesso: 15.08.20.

[2] Trata-se de texto formador para aqueles que desejam maior entendimento sobre o tema.

[3] Sintópica é o feminino de sintópico. [Linguística] Uniformidade ou semelhança de fenómenos linguísticos, entre dialectos, . Fonte: https://www.dicio.com.br/pesquisa.php?q=sint%C3%B3pica. Acesso: 27.08.20.

[4] Fonte: https://www.documentacatholicaomnia.eu/03d/1096-1141,_Hugo_De_S_Victore,_Opuscolo_Sobre_O_Modo_de_Aprender_e_de_Meditar,_PT.pdf. Acesso: 27.08.20.

[5] Fonte: https://frateralexander.blogspot.com/2011/08/meditacao-catolica.html.  Acesso: 28.08.20.

[6] Apesar de o autor, por mais de uma vez referir a “analógico”, imagino que seja um equívoco, pois os demais autores, a exemplo do Bension, também citado, empregam para o mesmo sentido a denominação “anagógico”.

[7] Fonte:  https://www.google.com/ . Acesso em: 28.08.20.

[8] Fonte: https://maconariacrista.wixsite.com/ritoretificado/post/o-culto-primitivo-no-rer.   Acesso: 28.08.20.

Referências bibliográficas

  • ADLER, Mortimer J., VAN DOREN, Charles. Como ler livros – o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2010.
  • BENSION, Ariel. O Zohar – o livro do esplendor (passagens seleccionadas). São Paulo: Polar, 2006.
  • CARVALHO, Olavo de. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. In: Aristóteles em Nova Perspectiva. São Paulo: É Realizações, 2006, p. 24-115.
  • McGRATH, Alister E. Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião. São Paulo: Loyola, 2005.
  • PINHEIRO, Ivan A. Abordagens Interpretativas de Texto Aplicadas à Maçonaria. Revista Universum, Ed. 37, jul. 2017, p. 107-128. Porto Alegre: GLMERGS, Loja de Estudos e Pesquisas Universum, 147, 2017.
  • SANTOS, Mário F. Tratado de Simbólica. 2ª Ed. São Paulo: Logos, 1959.
  • SILVA, Cássio M. Dias da; RABUSKE, Irineu J. Evangelhos e Actos dos Apóstolos. São Paulo: Loyola, 2011.

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