Da Tolerância
Escrevi estas reflexões em modo binário “egocêntrico / altruísta”: ao escrever e reflectir sobre mim, acabei reflectindo sobre a Loja de que faço parte, e vice-versa. Não almejo ensinar o que quer que seja a quem quer que seja – apenas desejo descobrir perguntas. Cada um, em Loja ou fora dela, que descubra as suas respostas.
O que nos move e impele a buscar aprovação para o ingresso na “Augusta Ordem Maçónica” difere de indivíduo para indivíduo: há quem queira aprender e desvendar segredos e mistérios esotéricos; há quem queira aprender História, Filosofia e Ocultismo; há quem queira uma evolução espiritual, rumo a uma “certa Paz de Espírito”, num mundo materialista e numa vida voltada para o imediatismo dos sentidos, para o pragmatismo dos resultados e para a voragem do lucro financeiro; há quem busque lugares ou colocações vantajosos em Empresas Privadas ou em Organismos do Estado; há quem veja uma Loja como uma Agência de Emprego ou oportunidades de Negócio e há quem queira, somente “Estar” – e há nisto tanta Sabedoria!…; quanto mais ando mais disto me apercebo. E há, ainda, quem não espere rigorosamente nada porque nada sabe daquilo que o espera.
Todos nós, em Loja, somos distintos uns dos outros. Não há duas pessoas iguais e não há dois Maçons idênticos. Todos divergimos uns dos outros: ao nível de nossas origens pessoais e familiares; quer sociais, financeiras ou geográficas; no tocante às nossas formações académicas e profissionais; quanto aos nossos objectivos pessoais, sociais, espirituais ou esotérico-filosóficos.
Nenhum de nós sabia Aquilo que o esperava quando decidiu embarcar nesta extraordinário jornada de aperfeiçoamento pessoal. Em prol do “Bem-Comum”. Mas, sobretudo, e primeiro que tudo, em prol de Nós mesmos.
Perante tanta diversidade de Projectos, Propósitos e Expectativas, como assegurar o “Fundamental”, o “Essencial”, o “Perene” em Loja ?…
A resposta desemboca no tema aqui tratado – a “Tolerância”.
É a “Tolerância” a argamassa que mantém uma Loja unida e coesa através dos tempos! Unida na sua inevitável diversidade. Coesa apesar dessas suas mesmas incontornáveis diferenças.
É a “Tolerância” que nos permite suportar as injustiças, desrespeitos, desconsiderações e as pequenas e grandes “tiranias”, e respectivos “tiranetes”, de que somos alvo na nossa caminhada existencial. É essa mesma “Tolerância”, nossa e reflectida nos outros, que nos consente tolerarmo-nos a nós mesmos quando erramos, para que, assim, também aprendamos a tolerar os outros.
A Tolerância dos outros para connosco é por nós absorvida e assimilada – e com ela passamos a tolerar e aceitar o Diverso de nós, mais e, porventura, melhor!
Etimologicamente, o termo “Tolerância” deriva directamente do Latim Tolerantia, que significa “constância em sofrer”; ´um termo que define o grau de aceitação ou submissão perante um elemento divergente a uma regra moral, cultural, civil ou física.
Do ponto de vista social, a Tolerância é a capacidade de uma pessoa ou grupo social aceitarem outra pessoa ou grupo social que tenha comportamentos ou valores distintos daqueles que são considerados “normais” ou “estandartizados” nesse mesmo grupo.
Deste modo, a partir da “Tolerância” é garantida a capacidade de aceitação da diversidade e respectiva inclusão.
O conceito de Tolerância tem aplicação em diversos domínios:
- Tolerância Social: é a atitude de uma pessoa ou de um determinado grupo social diante daquilo que é diferente dos seus valores ou normas ético-morais.
- Tolerância Civil: referente à discrepância entre a Legislação, a sua aplicação e a impunidade diante da Lei.
- Tolerância Filosófica: na senda das teses do filósofo inglês John Locke (1632-1704), considerado o pai do “Liberalismo”, segundo as quais devemos parar de combater aquilo que não conseguimos mudar.
- Tolerância Religiosa: traduzida numa atitude respeitosa e convivial diante de confissões religiosas distintas da nossa ou da Comunidade/ agregado populacional onde estamos integrados.
- Tolerância Farmacológica ou Medicamentosa: relacionadas com a diminuição dos efeitos farmacológicos de uma determinada substância administrada; sucede com diversas classes de medicamentos, nomeadamente Anestésicos e Benzodiazepinas (i.e., fármacos relaxantes musculares e indutores do sono). Este fenómeno leva à necessidade de aumentar progressivamente as doses necessárias para se obter o respectivo efeito terapêutico desejado, aumentando os riscos de Sobredosagem e, nos casos mais graves, de Intoxicação Estas, por sua vez, aumentam exponencialmente diante de Organismos debilitados e enfraquecidos por razões/ factores diversos – em última instância, perante um Organismo fraco e debilitado, diminuído na sua capacidade de “Tolerância”, tudo poderá afigurar-se como “tóxico”, tudo poderá ser considerado uma “agressão”…
- Tolerância Técnica: é a margem de erro aceitável, ou capacidade de resistência a uma força externa.
- Tolerância em “Gestão de riscos”; correspondente ao nível de risco aceitável, normalmente definido por critérios pré-estabelecidos.
O valor cívico da Tolerância é de tal modo valorizado na sua percepção colectiva que foi-lhe atribuído um dia no calendário civil – o dia 16 de Novembro é comemorado com o “Dia Internacional da Tolerância”. Que, no Calendário Hagiológico, é o dia em que se celebra Santa Margarida, uma das padroeiras da Escócia.
A Tolerância ilimitada, contudo, conduz ao desaparecimento da “Tolerância”, no dizer do filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994), um dos expoentes máximos da “Filosofia do Pensamento Científico” no séc. XX – este é o chamado “Paradoxo da Tolerância”. Nas suas palavras, na Obra “The Open Society and its Enemies” (1945), “a Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da Tolerância; se estendermos a Tolerância ilimitada mesmo aos Intolerante, e se não estivermos preparados para defender a Sociedade tolerante do assalto da Intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a Tolerância com eles”.
Como “dosear”, “monitorizar” e “sopesar” essa Tolerância de modo a que esta não se torne “contra-producente” na vida em Sociedade?… É aí que entra a Maçonaria e as suas principais virtudes, no meu modesto entender – a “Sabedoria” e a “Temperança”. São esses atributos que tornam a nossa Ordem Iniciática “intemporal” e “necessária”. Para não dizer “vital” para a Humanidade.
Todos e cada um de nós temos um conceito pessoal e subjectivo referente ao valor da “Tolerância”. E cada um de nós tem os seus próprios “limites” e “balizas” de tolerância – cada um de nós tolera aquilo que consegue e é capaz de tolerar…
Quanto mais conhecermos daquilo e daqueles que nos rodeiam, mais e melhor poderemos compreender e tolerar; a Ignorância é “Mãe” do Preconceito e este é perpetuador da Injustiça. E, por conseguinte, da Intolerância.
Tenho para mim que a Tolerância que não concedemos a nós mesmos dificilmente poderá ser outorgada aos outros. O Amor que falhamos a nós ou aos que nos são próximos improvavelmente será concedido e partilhado com quem nos é Estranho.
Em Maçonaria, gosto de pensar que somos mais do que meras “Unidades Produtivas” em Loja; somos “Antenas”, somos “Receptáculos Energéticos” e “Fontes de Energia, Luz e Sombra”! Reflectimos o que sobre nós incide, cabendo a nós filtrar, integrar ou assimilar aquilo que recebemos, aquilo de que somos receptáculo.
Se há coisas boas a integrar e assimilar, se há ensinamentos a colher daquilo que nos perpassa diante do nosso intelecto e dos nossos sentidos, também há outras coisas que devem, pura e simplesmente, ser extirpadas e lançadas “borda fora”, para o “paper basket” dos nossos pensamentos e emoções – servem, apenas, para lançar caos, desordem e desagregação no nosso “Templo Interior”, a “Catedral Virtuosa” que desejamos construir. Para nós e para Aqueles que amamos.
Cada pessoa que conhecemos na vida representa para nós um Presente, um Desafio ou uma Lição. No limite, serão uma náusea ou um bocejo. Cabe a nós, a cada um de nós, estimar e cuidar do Presente, vencer o Desafio e aprender a Lição. Para o bocejo ensonado e para a desconfortável náusea há comprimidos – não precisamos de nos preocupar!…
Compete a nós, enquanto Homens com a responsabilidade acrescida de sermos “Homens-Maçons” (grau mais avançado do “Homo sapiens” …) decidirmos em qual destas categorias queremos figurar na vida de cada pessoa com quem nos cruzamos, seja em Loja ou na vida profana.
Sempre com Tranquilidade.
Sempre com Temperança.
Sempre com Amor no Coração; mesmo para Aqueles que, eventualmente, o mereçam menos.
E sempre com bom-humor!
Porque, como diria Fernando Pessoa, que muitos dizem ter sido iniciado na Augusta Ordem Maçónica e nos Segredos e Mistérios da “Arte Real”, não havendo disso comprovação administrativa, “a gracinha que não sabe rir de si mesma nunca se há de soltar” …
ECE, M∴ M∴
