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A simbologia da Capela dos Ossos e a Câmara de Reflexão

✍️ Desconhecido 📅 22/04/2023 👁️ 5 Leituras
Capela dos Ossos - Évora
Capela dos Ossos – Évora

“Pensar que as coisas desta vida hão-de durar sempre, é escusado. Até parece que anda tudo à roda: à Primavera segue-se o Verão, ao Verão o Outono, ao Outono o Inverno, ao Inverno a Primavera, e assim o tempo gira nesta roda contínua. Somente a vida humana corre para o seu fim mais ligeira do que o tempo, sem esperar renovar-se, a não ser na outra, que não tem fins que a limitem”.

Trecho do Capítulo LIII do Livro O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha.
Edição Especial 400 anos, Lisboa, Portugal.

Na cidade mais antiga de Portugal e uma das mais remota da Europa, Évora, pouco mais de 100 km de Lisboa, cuja fundação se dá-na época do domínio romano, encontramos alguns monumentos erguidos por mestres construtores, como o Templo a Diana, e a Igreja de São Francisco.

Nesta, num anexo, está erguida a Capela dos Ossos construída no século XVII por frades franciscanos, estes teriam chegado a Évora em 1224, oriundos da Galiza e quando Francisco de Assis ainda era vivo.

Certamente, o que chama e atrai atenção de todos os turistas que visitam a cidade de Évora é a Capela dos Ossos. A sua construção teve um único objectivo, chamar a atenção dos visitantes, pois, sendo uma construção muito peculiar, as suas paredes e pilares foram revestidos por milhares de ossos e crânios humanos.

Toda a ossada fora retirada dos mais de 40 cemitérios abandonados que existiam na região de Évora e que ocupavam muito espaço na cidade.

Desta forma, os monges num trabalho hercúleo, requisitaram as ossadas e como dito, querendo chamar os olhares de todos, sobre a brevidade da vida humana e a sua transitoriedade, encontraram uma forma única e tocante, revestir a Capela com ossos e crânios, criando um espaço de reflexão sobre a vida.

É certo que se tornou um local turístico, alguns destes, com olhar de pura curiosidade histórica, outros tem uma visão mais espiritualista, mas, a Capela dos Ossos, cumpriu fielmente o objectivo inicial dos frades, um espaço para meditação e estímulo à humildade e mais ainda, queriam mostrar a todos os visitantes que tudo na Terra é impermanente.

Cabe ainda destacar o aviso, que está no frontispício da Capela, “Nos ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, ou seja, mais uma mensagem de que a vida é transitória e breve.

Saindo de Évora, deixando a Capela dos Ossos, vamos ao encontro de outra construção, se assim podemos dizer, que não está aberta à visitação, e a qual só pode ser adentrada, por pessoas que passaram por um processo de selecção criterioso.

Estamos a falar da Câmara de Reflexão, espaço físico que fica dentro de uma Loja Maçónica, lugar este sigiloso onde cada um deve entrar uma única vez na sua vida maçónica. A sua origem remonta ao Egipto Antigo, e tem como simbologia bem próximo daqueles da Capela dos Ossos.

Naquela, o espaço é preparado sob luz ténue onde estão expostos símbolos e frases de impacto e reflexão, na qual, o candidato a iniciação, o profano, tem o primeiro contacto com a simbologia maçónica, tais como: o pão e a água, o enxofre e o sal, a ampulheta, o testamento, o galo, a foice, os símbolos da morte (esqueleto e um crânio humano).

Importante destacar que cada objecto ou frases (nem mais, nem menos) que estão nesta sala tem o seu significado maçónico, e que o iniciado uma vez recebendo a Luz da Verdade, isto é, tornando-se um Aprendiz Maçom, seguirá os estudos dos mesmos nos Graus seguintes.

Frise-se nenhuma pessoa é admitida na Maçonaria se não passar um tempo na Câmara de Reflexão. A Câmara, nas palavras de Sérgio Couto:

É definida como um recinto com paredes e tecto pintados de negro, com uma mesa e um banco toscos. Na mesa são encontrados uma ampulheta, um tinteiro com uma caneta, um crânio humano, um vaso com sal, velas e papéis que devem estar preenchidos. Quando a porta de tal lugar é fechada, não é possível ouvir nenhum ruído externo. A pessoa que lá está deve ler algumas instruções que estão nos cartazes e papéis da mesa. O silêncio incita a meditação, e o cheiro de mofo mais os símbolos mortuários impressos nas paredes servem para lembrar que a morte chega para todos os vivos. Desta maneira, o Maçom terá a certeza de que retornou ao “ventre materno” da Terra e que deve “renascer” para novas compreensões.

(COUTO, 2009, pág. 58 grifos nossos)

Simbolicamente um dos objectivos desta passagem pela Câmara é exactamente a que os monges Franciscanos da Capela dos Ossos tinham em mente, isto é, a reflexão sobre a brevidade da vida e que a morte é inevitável e ainda que devemos viver com humildade.

Findando estas breves reflexões, deixando a Capela dos Ossos e a Câmara de Reflexão, retorno novamente a Portugal, agora não em Évora, mas sim, no ganhador do Prémio Nobel de Literatura de 1998, José Saramago.

Na sua obra As Intermitências da Morte, Saramago, traz-nos importantes reflexões sobre a morte, e, em apertada síntese, conta-se que a morte deixou de acontecer num pequeno país. A alegria tomou conta de toda a população, mas, logo em seguida começaram a perceber o grande problema que acarretaria com a greve da morte.

A certa altura da narrativa, temos a preocupação de um padre que diz “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Mais à frente: “As religiões, todas elas, por mais voltas que lhe dermos, não têm outra justificativa para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. ” A grande mensagem que fica da obra de Saramago é: “a morte é necessária para todos”.

Meus queridos Irmãos todos nós já passamos pela Câmara de Reflexão, talvez poucos conhecem a Capela dos Ossos e reduzido leitores conheceram a obra citada, e, nas palavras de Saramago, “Se não voltarmos a morrer não temos futuro”, cabe a seguinte reflexão: nós maçons já experimentamos a “primeira morte” e “estamos a preparar-nos para a segunda? ”.

Antônio Marcos Teodoro Silva, A:. M:. – CMI 333589 – ARLS – Adelino Ferreira Machado nº 1957

Bibliografia

  • SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2005.
  • COUTO, Sérgio Pereira. Dicionário Secreto da Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2009.
  • A capela da humildade, de Eugénio Mussak, da revista Vida Simples, edição 194, de Abril de 2018, ed. Caras.
  • Disponível em: https://www.visitevora.net/capela-ossos-evora/. Acesso em 10/03/2023 às 16:44h.
  • Disponível em: https://igrejadesaofrancisco.pt/capela-dos-ossos/. Acesso em 10/03/2023 às 16:57.

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