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A regularidade maçónica e a crença em Deus

✍️ Desconhecido 📅 27/10/2022 👁️ 4 Leituras

altar, crença

A Proclamação de Estrasburgo –  pela qual o Grande Oriente de França e o Grande Oriente da Bélgica, embora suavizando a sua posição relativa à crença em Deus e na sua revelação, mantêm vivos os princípios que levaram estas duas Potências à “SUMMA DIVISIO” de 1877, que separou em definitivo a nossa Ordem em duas: uma regular, e outra irregular. Uma que mantém o dogma da crença no Grande Arquitecto do Universo e outra que, em nome – falso, como veremos – da Constituição de Anderson, aceita nas suas Lojas ateus, irreligiosos e mulheres.

Recapitulando, no seu artigo primeiro, subdividido em dois parágrafos, a Constituição de Anderson diz:

“Um Maçom é obrigado a obedecer à lei moral; e se ele bem entender da arte, jamais será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso”.

Posto que nos tempos antigos os maçons tivessem a obrigação de seguir a religião do próprio país ou nação, qualquer que ela fosse, presentemente julgou-se mais conveniente obrigá-los a praticar a religião em que todos os homens estão de acordo, deixando-lhes plena liberdade às convicções particulares. Esta religião consiste em serem bons, sinceros, honrados, de modo que possam ser diferenciados dos outros. Por este motivo, a Maçonaria é considerada como o CENTRO DE UNIÃO e faculta os meios de se estabelecer leal amizade entre pessoas que sem ela não se conheceriam”.

É a este Artigo da Constituição de 1723 que franceses, belgas e simpatizantes se agarram para continuarem praticando a sua Maçonaria particular e irregular. O que acontece é que eles se apegam ao segundo parágrafo da Constituição de Anderson e esquecem totalmente do que diz no primeiro parágrafo, isto é: o Maçom não pode ser nem ateu, nem irreligioso.

Baseiam-se no segundo parágrafo, que também não os ajuda. Se não, vejamos:

“Nos tempos antigos, os maçons tinham a obrigação de seguir a religião do seu país ou nação”.

No ocidente, esta religião era cristã: católica, anglicana ou protestante. Todas estas versões do cristianismo têm como dogma a crença em Deus.

O que acontece é que desde o final do sec. XVIII e, sobretudo, no começo do sec. XIX, por influência dos filósofos iluministas houve uma natural tendência para o ateísmo: “Do cristianismo ao deísmo, do deísmo à neutralidade simpática, da neutralidade simpática à neutralidade hostil, da neutralidade hostil ao laicismo, do laicismo ao ateísmo declarado”. Foi justamente esta escalada descendente o que aconteceu em algumas Potências maçónicas da Europa e da América Latina, no séc. XIX, sobretudo no Grande Oriente de França, líder incontestável deste movimento que desembocou na mudança da sua Constituição em 1877. Na realidade, este foi o resultado da acção de uma facção minoritária, mas activa que, sendo minoria, conseguiu impor suas ideias a maioria acomodada.

Este processo começou pela infiltração nas Lojas do Grande Oriente de França,  das ideias dos Iluminados da Baviera, seguidos dos Filadelfos e dos Carbonários, seguidos pelos irreligiosos e ateus, como por exemplo Littré, Proudhon, que era ateu, e que a partir de determinado momento, conseguiram impor as suas ideias. Proudhon, por exemplo, durante a sua iniciação, respondeu assim à pergunta ritualística que lhe fizeram: “Quais são os seus deveres para com Deus”? A sua resposta não deixou margem para dúvidas: “A guerra”. Apesar disto, foi iniciado em 8.06.1847. Estes e outros factos semelhantes acabaram arrastando o Grande Oriente de França, para fora da Tradição da Ordem, quando eliminou da sua Constituição, em 1877 o seu artigo primeiro que exigia a fé em Deus e na imortalidade da alma.

As Grandes Lojas Unidas de Inglaterra, Escócia e Irlanda, e todas as demais Obediências a elas aderentes, romperam relações com o Grande Oriente de França, e estas relações permanecem rompidas até hoje, não tendo sido nunca mais restabelecidas, apesar das várias tentativas do mesmo Grande Oriente de França em restabelecê-las, como por exemplo em 1961, como demonstrado na Declaração de Estrasburgo.

Assim ocorreu o grande CISMA, do qual se originaram duas grandes correntes maçónicas. Tanto numa corrente quanto na outra existem maçons cultos, de destaque e de boa vontade: Na corrente do Grande Oriente de França,  podemos citar Jacques Mitterrand, Gaston Martin, Albert Lantoine, Paul Naudon, etc. À corrente das Grandes Lojas Unidas estão filiados Marius Lepage, Alec Mellor, Ernest Van Heck, etc. Cada um deles apresenta sempre fortes argumentos para defender os seus pontos de vista.

A verdade é que em 1877 ocorreu o CISMA, com a introdução da “VOIE SUBSTITUTÉE”, isto é, a eliminação oficial de Deus – o teicídio – da Constituição do Grande Oriente de França, em Assembleia Geral desta Potência, começada em 10.09.1877, estando presentes 180 delegados das Lojas da Obediência. Na quinta sessão desta Assembleia foi posto na Ordem do Dia o pedido de alteração do art. 1º da Constituição, que suprimia a declaração nela contida de que “a Maçonaria francesa professa como princípio fundamental a crença em Deus e na imortalidade da alma”. Imaginem agora se o relator desta proposta poderia ser, como de facto foi, o pastor protestante Frederico Desmons, a quem se atribui esta supressão. Sob o argumento de que a Maçonaria deveria “proclamar a absoluta liberdade de consciência”, este pastor negou tudo aquilo que pregava na sua igreja. Na verdade, este radical tornou-se apóstata na sua igreja e na sua morte não teve exéquias maçónicas, só as puramente civis, tendo sido a sua carreira política a de um radical da III República.

A nova redacção do art. 1º da Constituição do Grande Oriente de França,  ficou assim:

“A Maçonaria não exclui ninguém por suas crenças. A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por finalidade a busca da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Tem por divisa: liberdade, igualdade, fraternidade”.

O “TEICÍDIO”, isto é, a morte da exigência na crença em Deus foi aprovada por dois terços da Assembleia votante. Deste modo, foram eliminados dos rituais do Grande Oriente de França,  todas as orações e alusões a Deus, o Grande Arquitecto do Universo. Como consequência imediata, ocorreu o rompimento com a Maçonaria autêntica, ortodoxa e universal que tem a sustentá-la as três Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda e todas as demais Potências que proclamam a crença em Deus.

No Brasil, o Grande Oriente do Brasil, em 1908, submeteu à apreciação das Lojas a seguinte tese:

“O actual momento histórico exige a simplificação dos rituais, de modo a que domine no interior de todos os templos o princípio da mais larga tolerância, abrigando no meio da Maçonaria os deístas e os ateus, os sectários de quaisquer religiões e os livres-pensadores”.

É claro que esta “tese” não passou de uma tentativa dos adeptos do Rito Moderno, o Rito Oficial – e único – do Grande Oriente de França, de seguir os mesmos passos daquela Potência e de suas aderentes de então, principalmente os Grandes Orientes da Bélgica, da Hungria e da Itália. Todos sabemos o que pensam a grande maioria dos maçons brasileiros a respeito de Deus e da imortalidade da alma.

Este meus Irmãos é um breve resumo da história dos factos que racharam a Maçonaria de Anderson, de Desaguilliers (principalmente deste) e de Frederico Desmons. Todos três pastores de igrejas cristãs.

António Rocha Fadista

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