A questão templária na Maçonaria (II / V)
O cenário, os “autênticos” vs. os “verdadeiros” templários
“Verdadeiros Templários” foi a expressão utilizada por Frale (2007, p. 111) para distinguir os primeiros monges-guerreiros (milites) dos que integraram a Ordem nos seus anos, provavelmente décadas, finais. Quanto à data, não há um ponto de inflexão preciso e definitivo, mas a literatura sugere 2 (dois) marcos:
A derrota em Hattin [1187] representava certamente um duro golpe até mesmo para os frades do Hospital, mas os Templários, que tinham como único objectivo a defesa da Terra Santa, a queda de Jerusalém e do Santo Sepulcro em mãos islâmicas representava a falência do seu próprio ideal (Frale, op. cit., p. 84);
[…] a tomada da cidade portuária de Acre pelos sarracenos, em 1291 […] foi um golpe terrível não só para os templários, mas também para a cristandade medieval como um todo […] Os templários também perderam grande parte de sua razão de ser […] (Ralls, 2004, p. 101).
Ora, se considerada a primeira referência, 1187, dado o largo espaço de tempo até à prisão dos líderes (13.10.1307), é forçoso concluir que a Ordem tenha dedicado muito mais tempo [1] às actividades que Frale consideraria fora do escopo do “seu próprio ideal”. E quais seriam essas actividades? As que podem ser encapsuladas pela expressão “gestão dos múltiplos negócios” distribuídos por um vasto território: dos reinos na Europa ao Oriente Médio, passando pela Ásia Menor – a produção agropastoril nas suas propriedades [2]; a prestação de serviços jurídicos [3], de assessoria, contábeis e administrativos para a realeza e a nobreza; a actividade comercial; e, a financeira (como fiéis depositários, transportadores de valores, financiadores, emprestadores, etc.), em razão da qual são considerados os primeiros agentes e os precursores do sistema financeiro-bancário. Ademais, eram poderosos armadores, proprietários de frotas (eventualmente alugadas) e grandes navegadores.
Inadvertidamente ou não, a autora recorreu a uma falácia já bem estabelecida para se referir aos desvios de comportamento (esperado vs. realizado) – uma crítica subtil e gentil para preservar as aparências. Pinheiro (2023), em “Dez discursos: fundamentos para o atraso de uma Loja Maçónica”, comenta:
[…] a falácia do “verdadeiro escocês” – para não entrar em conflito com integrantes que apresentam desvios à luz dos cânones (landmarks, usos e costumes) da Ordem, e no limite levá-los à exclusão, é habitual ouvir o tradicional “deixa prá lá, eles não são verdadeiros maçons”. Ora, não há verdadeiros e tampouco falsos maçons, ou é ou não é; há os Iniciados (ora reconhecidos como maçons) e os não-Iniciados, também denominados como profanos. Lavar as mãos, fazer de conta ou buscar falsas justificativas para manter no seio da Ordem os que não apresentam a conduta esperada, tem um só efeito: o comprometimento, pouco a pouco, da própria Ordem – é o popular “tiro no pé”.
E, como por ora não se trata de desvio(s) individual(ais), mas institucional – da Ordem –, a conclusão é imediata: sem que tenham sido alterados “de direito” os seus estatutos fundacionais [4], ela não pode, mais tarde, escapar da acusação de desvio de finalidade, pois, de facto, eram evidentes as mudanças radicais que experimentara no que tange à sua missão institucional, às suas estruturas e à gestão em geral. Portanto, justifica-se reiterar a pergunta: a qual dos Templários a Ordem Maçónica elege (elegeu) como símbolo? Os “verdadeiros” (segundo Frale) ou os que seguiram a estes? Ou, quiçá mesmo, tese que, doravante, ganhará expressão, os que antecederam aos “verdadeiros”?
Por oportuno: o tempo dos “verdadeiros templários” (Frale, op. cit.) corresponde ao que Pinheiro (2026) denomina “fase 3 – do Concílio à batalha de Hattin, em 1187”, admitindo-se a extensão, embora decrescente, até à queda de Acre, em 1291.
Admitindo-se que a resposta à última questão acima aponte para os primeiros, os “verdadeiros”, importa, então, aprofundar os estudos sobre o espaço-tempo e as circunstâncias que levaram ao surgimento dos primeiros Templários. Para introduzir o tema, alguns autores retrocedem à Antiguidade e lançam mão de elementos colhidos no Velho Testamento, como é o caso de Read (2000). Todavia, tendo em vista um dos objectivos deste ensaio, o compartilhamento, junto à comunidade maçónica, da “hipótese-Brum (2022)”, penso que não é caso de retroceder tanto no tempo-espaço; mas um conjunto mínimo de informações e marcos históricos se faz necessário para formar o entendimento básico. Ademais, como em breve se dará o conhecimento, o trabalho de Brum leva a concluir que os “verdadeiros Templários”, mas não mais de acordo com o critério de Frale, só podem ser encontrados nas 2 (duas) primeiras fases categorizadas por Pinheiro (2026). Assim, o que Frale denomina “verdadeiros”, no entendimento de Brum, já seria uma corrupção dos princípios e valores que estiveram na génese da Ordem. Por oportuno, um esclarecimento: por razões que já devem ter ficado evidentes, não se dedicará maior espaço à narrativa mais frequente e dominante na historiografia – a de que os Templários surgiram para defender os peregrinos cristãos que se dirigiam à Cidade Santa. A ver.
Principais marcos históricos:
- convocado por Constantino (o Grande), foi no Primeiro Concílio de Niceia (325) que foram estabelecidas as bases (posteriormente complementadas) do que viria a ser o “cristianismo oficial”, também referido como a “ortodoxia autodeclarada” (Chevitarese, 2024). É importante ter em conta que as ortodoxias são construtos sociais e históricos, e têm, portanto, o seu sentido estabelecido a partir da sua relação (de regra, de oposição) a outro, um ponto de vista que, embora divergente, se considera tão ortodoxo quanto aquele que se lhe opõe. Assim, ainda por muito tempo persistiram interpretações divergentes face ao mesmo fenómeno – a natureza e a constituição do “verdadeiro, recto” cristianismo –, a exemplo do arianismo, dos gnosticismos e outras então consideradas heresias passíveis de perseguição e morte, como foi o caso, nos séculos XII-XIII, do genocídio promovido contra os Cátaros (Miranda, 2018);
- através do Édito de Tessalónica, em 380, Teodósio I instituiu o Credo Niceno como o fundamento, a base do catolicismo enquanto religião, doravante oficial, do Império Romano. Assim, aos poucos se organizava e era tornada oficial a chamada ortodoxia cristã-católica;
- em 395, Teodósio I dividiu o Império Romano: o do Ocidente – sediado em Roma – e o do Oriente – sediado em Constantinopla (antiga Bizâncio, daí a parte Oriental ser também conhecida como Império Bizantino); o primeiro, de cultura latina, enquanto o segundo, grega;
- embora tudo se desenvolva ao longo de processos históricos, o marco para a queda do Império do Ocidente, sob os “bárbaros”, é o ano de 476, quando Roma foi submetida por Odoacro;
- os Francos, um dos povos “bárbaros” invasores, embora dispersos, tinham o seu maior contingente na Gália, grosso modo, a actual França;
- também no séc. V, os povos Godos (etnia proveniente da Germânia, aproximadamente ao que hoje corresponde à Alemanha), especialmente os Visigodos, se estabeleceram na Península Ibérica;
- no séc. V, no espaço ora em foco (Península Ibérica e França) já havia uma larga comunidade judaica, resultado da diáspora após a queda do II Templo, em 70;
- apesar das divergências e da falta de precisão quanto à data (que não prejudicam os objectivos deste trabalho), é razoável assumir que Clóvis, Rei dos Francos, foi convertido ao cristianismo no início do séc. VI;
- logo a seguir, também os Visigodos admitiram o Credo Niceno;
- no Oriente, a morte de Maomé (570-632) aflorou as divisões que resultaram em disputas internas pela liderança da sucessão e levaram ao surgimento de diversos grupos (posteriormente reunidos em Califados) que, no maior nível de abrangência, podem ser identificados como xiitas ou sunitas: os Fatímidas (xiitas), os Omíadas e os Abássidas – sunitas. Por não se tratar apenas de uma questão religiosa, havia ainda as lutas internas a cada grupo, e aos derrotados, senão a morte, restavam a fuga e o estabelecimento em outros territórios, senão vazios, conquistados;
- os Omíadas, derrotados pelos Abássidas, se refugiaram e percorreram o norte da África até chegarem à Península Ibérica, onde (posteriormente) fundaram o Califado (independente) de Córdoba que, colapsado em 1031, foi sucedido pelos Almorávidas, grupo que, embora autónomo e independente, reconhecia a autoridade espiritual e religiosa dos Abássidas sediados em Bagdad;
- o domínio dos Visigodos durou até à conquista pelos muçulmanos, no início do séc. VIII. A expansão muçulmana rumo ao norte só foi contida por Carlos Martel, em 732, na batalha de Poitiers. Assim, como expressão cultural, os muçulmanos permaneceram na Península durante 8 (oito) séculos, tendo sido expulsos, como força militar, pelos Reis Católicos (Isabel e Fernando) no séc. XV;
- no início do séc. X o Califado Fatímida se estabeleceu no Egipto e fixou sede no Cairo;
- em 1054, após inúmeras divergências teológicas, originadas desde que instituída a ortodoxia nicena, alavancadas por interesses políticos e económicos, deu-se finalmente o Grande Cisma Oriente-Ocidente: a primeira grande divisão (oficial) da cristandade, tendo ficado a Igreja Católica e Apostólica Romana estabelecida em Roma e a Igreja Ortodoxa sediada em Constantinopla.
Acredita-se que essas breves notas [5] sejam suficientes para que o leitor visualize, em um nível mais abrangente de compreensão, o cenário “geográfico-histórico-religioso-político” no qual se desenvolveram os factos a seguir narrados. Certamente o leitor é convidado a complementá-las para enriquecer o senso crítico.
Depois das iniciativas de Constantino e de Teodósio, a conversão de Clóvis e a dos Visigodos, além de, per se, se revestirem como marcos para a consolidação e o desenvolvimento da cristandade na Europa, criaram um novo polo, além de Roma, difusor do catolicismo, factor determinante para que a Península Ibérica e a França viessem a ocupar um papel central nos eventos que se sucederam na História e que ora importam ao objecto deste estudo. Os acontecimentos no Oriente, que se davam independentemente das divisões internas à cristandade europeia, não demorariam a reverberar no Ocidente. A chegada dos muçulmanos encontrará uma Península Ibérica fragmentada, porém maioritariamente cristã – o Cisma ainda não havia ocorrido. Assim e aos poucos, ao fim e ao cabo, a Península Ibérica se constituirá como um espaço plural, um mosaico cultural-religioso, mais especificamente, o eixo Troyes (França) -Toledo (Espanha).
Em síntese: a sucessão dos eventos relacionados acima e os mapas a seguir pretendem situar o leitor na geografia e no momento histórico que constituem o cenário que abriga o surgimento da Ordem do Templo.
A Figura 1 apresenta a ocupação muçulmana na Península Ibérica, bem como a cronologia da Reconquista:
Figura 1 (mapa) – Recorte da Ocupação Muçulmana vs. A Reconquista da Península Ibérica: três séculos de História
Fonte: https://www.facebook.com/
As Figuras 2a e 2b ilustram a rota e o alcance do avanço muçulmano, contido em 732, na cidade de Poitiers (França).
Figura 2 (mapa) – Avanço Muçulmano sobre a Península Ibérica até Poitiers: o mosaico cultural
|
|
| Fonte: https://pt.wikipedia.org/ | Fonte: https://ensinarhistoria.com.br/ |
Figura 3 (mapa) – Estados Latinos, e Outros, Após a Primeira Cruzada
Fonte: https://pt.wikipedia.org/
Finalmente, a Figura 4 revela a geografia administrativa-política-religiosa de 1085, ano em que Toledo, o epicentro do estudo de Brum, até então sob o domínio muçulmano e que já fora sede do governo Visigodo, é conquistada pelos cristãos em mais uma etapa do empreendimento maior: a Reconquista (integral) da Península Ibérica com a expulsão definitiva dos muçulmanos [6] enquanto forças de ocupação militar, pois os traços culturais são indeléveis – até hoje podem ser vistos na cultura local.
Figura 4 (mapa) – Toledo, um espaço multicultural
Fonte: https://faseshistoricasdalp.wordpress.com/
Identificado que a geografia e a história revelam uma proximidade nem sempre lembrada, talvez porque também nem sempre pacífica entre cristãos e muçulmanos, é oportuno, então, que se traga o que disseram alguns pesquisadores. Mas, antes, uma observação: conforme já informado neste texto no parágrafo que inicia com os “Principais Marcos Históricos”, os muçulmanos que originalmente ocuparam a Península Ibérica divergiam “dos seus primos” no Oriente, e as divergências internas, tanto entre os cristãos (oficialmente divididos após 1054) como entre os muçulmanos foram, por ambos os lados, largamente exploradas mediante alianças ad hoc para atender aos respectivos interesses mais imediatistas, regionais e particulares. Nesse contexto, Ralls (2004), p. ex., declara que
Há evidências de ligações dos templários medievais com o mundo muçulmano, especialmente com os ismaelitas nizaritas, um grupo islâmico político-religioso […] Os ismaelitas nizaritas, também conhecidos nos tempos medievais como Assassinos, eram treinados como guerreiros sagrados – de modo não muito diferente dos Cavaleiros Templários. Os cruzados cristãos tiveram contacto com os Assassinos no início do século XII, antes ainda da fundação da Ordem do Templo, em 1119 […] “O mítico Velho da Montanha … era o chefe sírio da Ordem (Assassina) … O primeiro contacto documentado entre Assassinos e cruzados se deu em Setembro de 1106 (op. cit., p. 28).
Já foi apontado que, nem sempre, na produção intelectual maçónica os Templários são distinguidos dos Cruzados; quando deveriam, pois, afinal, nem todos os Templários [7] participaram das Cruzadas, e tampouco todos os Cruzados eram Templários. Entretanto, a citação acima é um indício de que a confusão dos maçons pode ter origem nas próprias fontes históricas habitualmente consultadas. O que mais releva ora a ser observado é que apesar de estar em curso a Reconquista Ibérica e já ter ocorrido a Primeira Cruzada, não há referência a animosidades no encontro entre os Cruzados (cristãos) e os muçulmanos ismaelitas nizaritas conhecidos como Assassinos. E também, apesar de não estar explícito, não se pode excluir que a proximidade intercultural (existente em Toledo) se estendia ao Oriente; em outros termos, nem todos os cristãos e muçulmanos foram inimigos, o que, de pronto, levanta questionamentos de outra ordem: em que medida as diferenças religiosas não foram instrumentalizadas e colocadas a serviço de outros interesses, por exemplo, políticos e económicos?
Para Brum (2022), esses contactos constituem a espinha dorsal da hipótese que construiu a partir de numerosas referências organizadas em uma fascinante narrativa que inicia com a observação de que “Houve uma simbiose religiosa e cultural no encontro de três culturas e a abertura da visão de mundo daqueles que organizaram a escola de Toledo, com inspirações templária e cisterciense unidas à herança judaica e à mística islâmica (op. cit., p. 13)”. A rigor, não foram 3 (três), mas 5 (cinco) tradições culturais que se encontraram em Toledo, embora 2 (duas) já tivessem sido em grande parte absorvidas pelas demais; não chega a ser exagero lembrar a riqueza e a efervescência cultural naquele espaço-tempo: a romana, a judaica, a visigótica, a muçulmana e a cristã – a católica, mas também as suas versões consideradas heréticas. Adiante, ainda no Prefácio à sua obra, o autor acrescenta:
É fundamental a distinção que faço entre o grupo filosófico-religioso dos primeiros templários e a visão tradicional (e errónea) de que se tratava de uma ordem militar. Também mostro o elo entre os fundadores dos Templários e as comunidades filosóficas islâmicas da Síria. Isto é essencial para a linha de argumentação da minha hipótese, na qual demonstro a participação e a influência dos templários na produção das traduções de Toledo e com uma forte atenção à filosofia árabe (op. cit., p. 13-4).
Tanto as citações de Ralls quanto as de Brum sugerem que em Toledo e adjacências com extensões à França (Troyes), a gestão de conflitos, quando existentes e pelo menos durante um determinado período, foi hábil para impedir o contágio, mantendo literalmente à distância, o que poderia comprometer a harmonia indispensável para o desenvolvimento do trabalho conjunto de cristãos e muçulmanos, ambos consorciados com os judeus, ainda que estivessem em meio à dinâmica da dupla Reconquista: a da Península Ibérica e a de Jerusalém [8]. Como diz Jerphagnon (2010), Toledo era considerada a cidade das 3 (três) religiões, e um dos pontos desta vívida convergência era a Escola de Tradutores – que será vista no terceiro e próximo texto. É como se determinados problemas (geopolíticos) não lhes dissessem respeito; com efeito, à época, inexistindo o Estado-Nação – a unidade política que posteriormente aglutinará as diferenças e as idiossincrasias de toda ordem –, o que ressaltava como cimento social eram as crenças prevalecentes em cada comunidade. Após as principais divergências internas ao cristianismo terem sido equacionadas em 1054, a superação dos traumas e cicatrizes elegeu a tolerância como a arte fundamental para não só lograr a convivência entre os povos (judeus, cristãos, árabes e outros), mas também como instrumento para a realização de empreendimentos que contemplassem objectivos comuns, como é o caso da busca pela sabedoria perene cujas origens se perdem nos tempos – a prisca sabedoria, por vezes referida como prisca theologia.
Essa realidade convida, reitera-se, a reflectir e a indagar se as diferentes concepções de mundo [9], crenças e doutrinas que delas decorrem não teriam sido instrumentalizadas pelos agentes políticos (realeza, nobreza) e pelos clérigos para dividir e levar os demais às guerras – uma leitura, a partir deste prisma, com intrigas e manipulações, pode ser encontrada em Rodrigues (2020). Desde Constantino, passando pelos Cruzados e incontáveis eventos, há uma realidade incontestável: alianças ad hoc (de todo o tipo e com personagens inusitados) podem ser feitas e desfeitas a qualquer momento.
Antes de prosseguir com o relatório de pesquisa de Brum, há algumas instituições que, por pouco que seja, devem ser apresentadas para o melhor entendimento da narrativa que se segue. A primeira delas é a Cavalaria, tema que comporta amplitude e profundidade que fogem ao escopo deste texto [10], razão pela qual, por ora, se limita ao básico enquanto constituinte do cenário relevante aos acontecimentos e aos objectos em estudo.
Vigia, na Europa, o feudalismo, modo de organização sociopolítica em que predominam 2 (dois) polos principais: o suserano e o vassalo. No topo, o poder suserano era exercido pela realeza e pela nobreza (os proprietários das terras e dos direitos de exploração em geral), a quem, abaixo, os vassalos (a maioria servos – trabalhadores agrícolas, comerciantes, artesãos, etc.), mediante contrato firmado em cerimónia própria, juravam obediência, lealdade, fidelidade e apoio se convocados para guerra, fosse para defesa ou não. Mas nem todo vassalo ocupava a posição mais baixa da escala social – a de servo –, pois o topo também se organizara em hierarquia, em meio a outros e em ordem descendente seguiam ao Imperador: Reis, Príncipes, Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, Barões e, na base, o Cavaleiro e o Escudeiro; assim, Marqueses e Condes poderiam ser vassalos de Duques, e estes, de Príncipes [11]. Um dos fundadores da Ordem do Templo, o Cavaleiro Hugo de Payns, por exemplo, era vassalo do Conde Hugo I [12], proprietário das terras de Champagne, onde, em Clairvaux (Claraval), em 1115, foi fundada uma das primeiras expansões da Ordem de Cister – vista logo a seguir.
Tão natural quanto esperado era o desejo de ascender na hierarquia nobiliárquica, condição que poderia ser alcançada se o vassalo atendesse às expectativas do suserano, e agilizada se as superasse. Nesse contexto, as guerras eram oportunidades que não poderiam ser desperdiçadas, pois atendiam a ambos os interesses: o do vassalo que aspirava a ascender e o do suserano que desejava expandir o território, seja por questões de segurança ou para a geração de recursos – a terra em si mesma e/ou acompanhada dos servos, novas rotas comerciais e a exploração de pedágios, estalagens, etc. As conquistas não só eram oportunidades para ascender, como também para acumular títulos; assim, por exemplo, o Duque na região X poderia ser Marquês na Y e Conde na região Z, lógica aplicável a todos os integrantes da nobreza. Por fim, as guerras, e sobretudo as vitórias, eram oportunidade para “ingressar no clube” – vir a ser nobre. Nesse aspecto, a literatura do Graal (abortada no quarto artigo da Série), que combina lendas e aspectos históricos, é rica em exemplos.
Por oportuno, cabe lembrar que os soberanos católicos também juravam fidelidade ao Papa, cujo papel na sociedade da época diferia, em muitos aspectos, do exercido na actualidade.
Todavia, tal como hoje, não basta guerrear; é preciso vencer, e para tal é necessário estar preparado. Na Idade Média havia 3 (três) modalidades de treinamento para a guerra: a caça, as justas e os torneios – actividades praticamente exclusivas da realeza e da nobreza, senão por outros motivos, porque exigiam elevados recursos de entrada, para manter-se na actividade, bem como tempo livre para a realização de treinamentos, o que implicava viajar – os Cavaleiros, assistidos pelos seus Escudeiros [13], formavam verdadeiras equipes [14].
Diversos cronistas, ao falar de um certo Geoffroi de Preuilly, falecido em 1066, afirmam sem hesitar: “Foi esse Geoffroi que inventou os torneios” […] O único facto realmente incontestável, destacado de forma decisiva pelos historiadores até agora, é que os torneios têm uma origem francesa. Eles nasceram entre nós; fomos nós que os introduzimos na Alemanha e na Inglaterra; e é com razão que são chamados de conflictus gallici […] O termo “torneio”, note-se bem, sempre manteve esse significado da Idade Média, e é isso que o distingue da palavra “justa”. Um torneio é sempre um “combate por tropas”, enquanto a justa, ao contrário, nunca foi outra coisa senão um combate isolado, “um contra um” (Gautier, 2025, v. II, p. 235-6) [15].
Por oportuno, à Nota 37, Partier, o tradutor de Parsifal (Eschenbach, 1989, p. 419), esclarece:
“Regras de Torneio”. Na Idade Média os torneios eram exercícios de arte marcial, organizados com o objectivo de adestrar os membros da nobreza. Para evitar ferimentos decorrentes de excessos, eram previstas regras de cumprimento obrigatório. Quando se indica Godofredo de Preully como tendo inventado os torneios em 1066, deve-se entender que lhes deu ordem e forma, pois Santo Enódio (473-521), Bispo de Pávia, já a eles se refere em seu “Panegírico de Teodorico”.
Assim, as justas e os torneios, que originalmente poderiam levar à morte dos praticantes [16], com o tempo passaram a ser submetidos a regramentos para reduzir e eliminar a letalidade dos combates (“treinos de guerra”) durante eventos que, estabelecido um paralelo com os dias actuais, seriam considerados espectáculos (shows) com grande presença feminina, ora como musas inspiradoras e torcedoras, ora como espectadoras, como ilustrado nas Canções de Gesta, algumas com enredos de Amor Cortês, nos Contos Arturianos e na Busca pelo Graal. Por fim, não deixa de ser curioso que o principal algoz dos Templários, durante uma caçada
Filipe, surpreso pelo movimento do animal, tentou refrear o cavalo. Mas esse empinou e o jogou no chão […] simplesmente havia fracturado a coluna cervical […] perdera todos os movimentos do corpo, do pescoço para baixo […] Morreu em 29 de Novembro de 1314, pouco mais de oito meses depois de Jacques de Moley e Geofrey de Charney (Rodrigues, 2020 p. 291-2).
A Cavalaria, portanto, já era uma instituição plenamente estabelecida à época do surgimento da Ordem do Templo; paralelamente havia as Ordens Religiosas, a mais antiga, a de São Bento, também referida como a dos Monges Beneditinos, criada no séc. VI. Todavia, uma Ordem religiosa e militar, como a do Templo, era uma novidade por demais radical para a Igreja de então (Demurger, 2010) e na raiz das divergências surgidas, uma contradição interna, quase um paradoxo: enquanto os monges buscam a paz, os cavaleiros, a guerra. Seria possível conciliar em um só corpo institucional os 2 (dois) objectivos?
A questão reacendeu um velho debate: enquanto para alguns a solução já estava esclarecida no Novo Testamento, para outros a mesma citação (o argumento dos primeiros) exigia complemento sob pena de cometer equívoco interpretativo. Com efeito, se o que consta em Mt 26:52 – “Jesus lhe diz: Embainha a espada: quem a espada empunha, pela espada morrerá” – (Schökel, 2006) for tomado de forma isolada e literalmente, o entendimento pode ser o de que as Escrituras autorizam a responder a violência, com violência [17], no caso, como resposta à tomada de Jerusalém pelos Seljúcidas, seguida pelos Fatímidas, em 1098, justificava os esforços no sentido a uma Cruzada cristã para a reconquista, o que efectivamente ocorreu em 1099. Todavia, se acrescentado o que se segue imediatamente à citação, outro entendimento poderá ser formado: “Crês que não posso pedir ao Pai que me envie imediatamente mais doze legiões de anjos? Mas então, como se cumprirá o escrito, que isso deve acontecer?” (Mt 26:53-4). A primeira citação é de conteúdo nitidamente material, objectivo (castigo proporcional ao dano) e alinhado às evidências empíricas e históricas acerca da natureza humana; já a segunda aponta para uma convicção espiritual, transcendente, na expectativa do cumprimento de uma missão, talvez desconhecida, mas que obedece aos desígnios da divindade, afinal, em Jó 18:36 consta que “Jesus respondeu: Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus servidores teriam lutado para que os judeus não me entregassem. Pois bem, meu reino não é daqui” (Schökel, 2006).
Enquanto a primeira citação autoriza a guerra porque identifica no outro a culpa merecedora do castigo a ferro e fogo, a segunda convida a reflectir se as causas (da derrota perante o inimigo) não seriam internas, devido à corrupção dos costumes – vícios, comportamentos desviantes em relação à Lei, etc. –, “doutrina” omnipresente no Velho Testamento.
A História, hoje é sabido, mesmo sem negar a segunda, acabou por confirmar a primeira tese, mas não sem, antes, contar com as elaborações intelectuais de um dos principais expoentes da Patrística e santificado pela ICAR: Santo Agostinho de Hipona (354 – 430), o grande teórico do que viria a ser conhecido como “[…] guerra justa […] […] quando nos propomos punir uma violação da lei; quando se trata, por exemplo, de punir um povo que se recusa a reparar uma má acção ou a devolver um bem adquirido injustamente” (Agostinho apud Gautier, 2025, v. I, p. 29).
Apesar das divergências que o tema encerra e que perduram até hoje, em essência, a justificativa para a criação de uma Ordem com as características da que viria a ter a Ordem do Templo (a de monges-guerreiros) já fora estabelecida na passagem da Antiguidade Tardia para o Medievo. Gautier, em redacção própria em meio às citações de Agostinho, esclarece em definitivo:
A Igreja odeia a guerra; mas é forçada a tal, infelizmente! […] e é levada a dar-nos uma explicação filosófica, que devemos aqui também dar a conhecer com rigorosa imparcialidade e sem assumir um tom de desculpas. A guerra oferece, portanto, aos olhos da Igreja este triplo carácter de ser, ao mesmo tempo, um justo castigo, uma expiação útil e uma preparação providencial. Assim que um povo deixa de ser viril e de amar o sacrifício; assim que ele entra na era de sua decadência e torna-se capaz de efeminar o resto do mundo; ou quando, em meio à sua prosperidade e esplendor, ele se torna tirânico, oprime a consciência humana e ameaça os destinos livres da Verdade na terra, Deus toma outro povo em suas mãos e faz deles uma arma para atacar esta nação corrupta, arrogante e perigosa. São essas as punições justas de que estávamos falando; são esses os temíveis castigos da Justiça Divina. Não explicam, porém, todas as guerras […] (Gautier, 2025, v. I, p. 28).
Os próceres da ICAR elaboraram, então, uma engenhosa arquitectura que combina justificativa, convencimento e estratégia para a solução de problemas: primeiro, “a terceirização” do castigo divino (muito própria do Velho Testamento) que teria sido, então, já realizada pelos conquistadores; em segundo, a identificação de Jerusalém [18] como o locus geopolítico-religioso [19] capaz de aglutinar os corações e as mentes da cristandade; e, pela via da guerra, simultaneamente fazer justiça (punir o infractor), expiar os pecados (a participação nas Cruzadas equivalia à peregrinação penitencial) já com vistas à vida em devir transcendente e, conforme visto logo a seguir, também contribuiria para equacionar problemas mais seculares – de ordem social-patrimonial. Eschenbach, poeta-trovador que também foi Templário, pela voz de Parsifal, o protagonista que dá título ao livro, traz a síntese que reafirma que os cavaleiros, notadamente os Templários, agiam com vistas aos 2 (dois) mundos acima referidos: “Se um cavaleiro actuante, usando escudo e lança, pode alcançar tanto as glórias deste mundo quanto a eterna bem-aventurança, então posso dizer que sempre fiz o humanamente possível” (Eschenbach, 1989, p. 247).
Destarte, considerando o ethos da época, o plano, per se, continha elementos fortemente indutores à participação nas guerras de Reconquista e, concebido (justificado) para o Oriente, foi estendido (ardilosamente) ao Ocidente. Frale (2007) reporta o que, então, pode ser visto como atractivos complementares à participação:
[…] o pontífice estendeu sobre os chefes e senhores feudais prontos a obedecê-lo uma espécie de bênção especial da Igreja, proclamando que a actividade militar dos mesmos seria um serviço a favor de São Pedro, e logo receberiam dupla vantagem: a tomada dos bens dos infiéis e a merecida vida eterna (op. cit., p. 14).
Ademais,
A família e o património do cruzado tinham de ser protegidos pela Igreja. Ele estava isento do pagamento de impostos e lhe era assegurada a moratória de suas dívidas. Em troca, esperava-se que ele cumprisse com seu dever: o homem que faltasse à sua promessa estava sujeito à excomunhão automática (Read, 2000, p. 83).
Portanto, além da fé e das crenças que sobremodo orientavam o comportamento do homem medieval, não há como não reconhecer que foi realizada o que hoje seria reconhecido como uma extraordinária, porque exitosa, campanha estatal de marketing de massa – afinal, foram 9 (nove) empreendimentos – organizada a partir da oferta de benefícios tangíveis e intangíveis a serem gozados tanto no presente, ainda em vida e neste, como também, no outro reino, post mortem. Não há, aí, qualquer novidade: desde que ganhou institucionalidade, a ICAR sempre desenvolveu campanhas baseadas na Boa Nova para ganhar adeptos, ora enaltecendo as vantagens e virtudes do cristianismo, ora (quando não simultaneamente) criticando, para salientar o contraste, aspectos das doutrinas concorrentes, a exemplo dos movimentos gnósticos e das seitas politeístas – vide, entre outras, “Padres Apologistas” (Frangiotti, 1995), uma das obras da Colecção Patrística.
E na retaguarda dos incentivos, se necessário, um rol de punições, o que hoje seria considerado uma política de stick and carrot. Os aspectos simbólicos, subjectivos e emocionais da vida do guerreiro, bem como seus efeitos e impactos na intersubjectividade do meio social seriam, séculos após, reproduzidos por Pressfield (2017, 2020).
Destarte, se já não estavam estabelecidos os elementos fáticos, os desdobramentos das iniciativas permitiriam que, 2 (dois) séculos após, o historiador do Cisma do Ocidente [20], Dietrich von Nieheim [21] (apud Koestler, 2022, p. 87) viesse a afirmar que
Quando sua existência está ameaçada, a Igreja é dispensada até mesmo dos mandamentos morais. O objectivo de se manter a unidade santifica todos os meios, mesmo a astúcia, o engodo, a violência, a usura, a prisão, a morte. Pois toda a ordem existe para o bem da comunidade, e o indivíduo deve ser sacrificado ao bem comum.
Com efeito, a plataforma de onde, anos após, um dos principais autores da Modernidade lançou um dos fundamentos da doutrina orientaria a acção política individual e/ou estatal: “Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes [22], contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios” (Maquiavel [23], 2004, p. 109). Por fim, a Inquisição ainda não fora instituída, mas o movimento contra as heresias e as apostasias, que já estava em curso, ganharia celeridade e expansão a partir da Cruzada contra os Cátaros do Languedoc, no sul da França.
O Direito de Primogenitura, concebido para manter a unidade política, a centralização do poder como força dissuasiva contra inimigos externos, daí a orientação prioritariamente masculina, não generalizado, porém vigente na França estabelecia que
O soberano do país podia dispor, sem constrangimento, que a totalidade da herança paterna coubesse ao irmão mais velho. Para os irmãos mais novos era naturalmente uma infelicidade o facto de a morte do pai lhes arrebatar aquilo que, enquanto vivia, estivera à sua disposição. Aquilo que antes era de todos, agora passava a pertencer a um só. Naturalmente um homem sábio dispôs as coisas, de modo que na velhice o homem tivesse uma propriedade, pois se a mocidade desfruta de numerosas vantagens, a velhice traz consigo sofrimentos e queixumes. E não há sina mais triste que a velhice coincidir com a pobreza. Mas que, excepto o filho mais velho, reis, condes e duques estejam excluídos da herança, é uma ordem de coisas realmente singular, podeis crer-me (Eschenbach, 1989, p. 24-5).
Em síntese: enquanto vivo, o monarca poderia ou não dividir, em definitivo ou não, os bens (terras) entre os herdeiros, mas, ao ser coroado, o primogénito poderia ou não manter o estabelecido pelo antecessor. Havia muitas possibilidades em aberto, cada qual sujeita a outras tantas variáveis, inclusive porque o território era uma das principais moedas de troca para a formação de alianças com outros soberanos. Nesse ambiente, no qual não se pode perder de vista a hierarquia nobiliárquica, não era raro o surgimento de um efectivo exército, bem treinado, de deserdados, dado que, enquanto nobres, durante anos se exercitaram em caçadas, justas e torneios. Aos que não eram direccionados à “carreira eclesiástica” ou figuravam como parte de alguma aliança matrimonial, restava agir como salteadores para constituir o património de terras e outras riquezas. Resultado: clima de terror, ameaças, violências e insegurança generalizada no Ocidente. Assim, se, de um lado, a insegurança e a violência contra os peregrinos (certamente os com as maiores posses) que se dirigiam a Jerusalém se constituíram como os principais argumentos e justificativas para a criação da Ordem do Templo, do outro, no próprio Ocidente, eram generalizadas e, independentemente da condição social, prevalecia a lei do mais forte.
O ataque repentino às colheitas e aos animais domésticos de um vizinho era tão comum para os cavaleiros cristãos da Idade Média quanto tinha sido para as tribos árabes antes do advento de Maomé. A violência estava em toda a parte, chocando-se com muitos aspectos da vida cotidiana […] Para restringir o conflito endémico entre os diferentes grupos no seio da nobreza rapace da cristandade, e em particular para manter suas mãos longe dos bens da Igreja, papas e bispos haviam tentado impor as usuais sanções de interdição (proibição de assistir à missa e recusa dos sacramentos) e excomunhão (expulsão da Igreja); mas também, mais recentemente, o conceito de “Trégua de Deus” – a designação de certos dias santos ou períodos penitenciais do ano, tais como a Quaresma, quando era proibido lutar […] Como seria mais sensato se se pudesse aprender uma lição do exemplo de normandos como os Hautevilles, cuja agressão havia sido canalizada para a conquista de novos reinos a expensas do Islã! (Read, 2000, p. 81).
Frale (op. cit., p. 29) registra que “O século X, conhecido entre os historiadores como o “século de ferro”, foi determinado em quase todas as regiões históricas da Europa pelo clima de caos nas instituições, anarquia e violência generalizadas”, o que vai ao encontro do que referira sobre as Cruzadas como tendo sido iniciativas para “Libertar o Santo Sepulcro e pacificar a Europa” (op. cit., p. 14). Pernoud (2025, p. 14) acrescenta:
O elogio que ele [São Bernardo] fazia da cavalaria do Templo, De laude novae militiae [Do louvor do novo exército] era um apelo lançado aos cavaleiros do século, a quem ele acusava de “gosto pelo luxo, sede de vanglória ou de cobiça dos bens temporais”, exortando-os a buscar uma verdadeira superação na nova milícia que pretendia ser uma autêntica cavalaria de Deus.
E Malory (2020) também observara que a ameaça representada pela presença dos sarracenos à Europa já teria, em algumas localidades, contribuído para pacificar e unir os “barões”.
Portanto, o movimento das Cruzadas se constituía como a resposta (salomónica) para o enfrentamento simultâneo aos demais problemas da época, como a dificuldade (e a necessidade) de reaproximação com a Igreja do Oriente e a pacificação social, tudo ao amparo de argumentos incontestáveis – a defesa da fé e da ICAR.
Paralelamente, a estratégia de São de Bernardo [24], que já demonstrara resultados parciais, ajustada, ao final resultou: 1) como condição de entrada na Ordem a submissão, mediante juramento, a 3 (três) votos – pobreza, castidade e obediência absoluta -, condições absolutamente necessárias para que houvesse o respeito estrito à 2) da Regra do Templo, um amplo e minucioso documento que normatizava todos os aspectos da vida (horários, alimentação, vestuário, hierarquias, relações internas, externas, actividades no cotidiano em geral, etc.). O papel e a importância de São Bernardo serão, a seguir, dados ao conhecimento.
Nesse ambiente, não surpreende que a literatura dos Contos Arturianos, combinados e enriquecidos com os da Busca pelo Graal [25], uma das principais aventuras – expressão que, entre outros significados, exprime a prática de virtudes, no caso, a coragem e a justiça – perseguidas pelos Cavaleiros tenha sido a luta (em justas ou torneios) para restituir ao legítimo dono as propriedades tomadas à força por outros Cavaleiros. Ademais, havia “um sistema de incentivos” que induzia ao conflito, de certo modo naturalizando-o: aos vencedores eram assegurados os despojos do vencido (cavalo, armadura, armas, etc.) e, a depender da aventura, poderiam ser premiados com feudos e herdar reinos através do matrimónio (por exemplo, com rainhas viúvas), não sem, é claro, assumir as responsabilidades pela defesa (Eschenbach, 1989; Béguin e Bonnefoy, 1997; Malory [26], 2020; Buonfiglio [27], 1997); assim, um Cavaleiro poderia ascender na escala social. Tudo isto contribuía, senão para solucionar, a mitigar o problema da primogenitura que, é importante lembrar, em alguns casos, se fazia acompanhar, se não da falta absoluta de recursos, da queda acentuada no padrão de vida dos atingidos. Em síntese e grosso modo, fica claro que a contraparte dos “cavaleiros do bem” era os “cavaleiros do mal”.
Surpreende que nem os Contos Arturianos, nem as Lendas do Graal, retratos com grande fidelidade desse momento, com a exaltação permanente das virtudes cristãs (altruísmo, fé, esperança e outras) e também pelas suas dimensões míticas-simbólicas, até o momento não tenham merecido maior atenção do estudo e da pesquisa na Maçonaria.
Essas eram, pois, algumas das características do ambiente mais amplo quando surgiu a Ordem do Templo. Em meio a tanto, além da Cavalaria e do Direito do Primogénito, surgiu uma nova espécie do género Ordem Religiosa – a Ordem de Cister.
A Ordem de Cister surge de uma dissidência do Mosteiro (Abadia) de Molesme, ao sul de Troyes, França, que adoptara a Regra de São Bento, notória pela austeridade (Ora et Labora) instituída pela Ordem homónima, a primeira religiosa e cristã, criada no séc. VI; todavia, o relaxamento nos usos e costumes motivou a ruptura e a dissidência. O próprio Abade (Roberto), o inglês Estevão Harding e cerca de outros 20 dissidentes fundaram, em 1098, em Saint-Nicolas-lès-Cîteaux (Cister), região da Borgonha, França, o primeiro Mosteiro da nova Ordem, a de Cister – o terreno fora doado por Hugo I, Conde de Champagne [28]. Em cumprimento à determinação papal, Roberto retorna a Molesme e, em 1109, Estevão Harding torna-se abade em Cister.
Foi em Citeaux que Bernardo de Fontaine, depois canonizado como São Bernardo, iniciou sua vida religiosa antes de mudar-se para Clairvaux. Ele chegou a Citeaux em 1112 [aos 22 anos] com trinta nobres das casas de Tonnerre, Montbard e Borgonha – alguns dos quais eram seus parentes [29] e todos desejavam abandonar tudo, o que para uns tantos significava deixar mulher e filhos e juntar-se aos austeros cistercienses (Ralls, 2004, p. 66).
Após uma curta temporada em Cister, designado por Harding, em 1115, então com 25 anos, Bernardo (criado na aristocracia da corte de Borgonha) funda a unidade de Clairvaux, cujo toponímico, doravante, o identificaria e o tornaria famoso. O leitor mais atento já deve ter notado a proximidade entre Hugo I (Conde de Champagne, que em 1125, entraria para a Ordem do Templo), Hugo de Payns (primeiro Grão-Mestre dos Templários), Estevão Harding e Bernardo de Clairvaux (Claraval). A Figura 5, combinada à Tabela 1, permite formar uma imagem da disposição relativa, ter uma ideia da proximidade (mesmo considerando os meios de transporte da época) entre as localidades-chave à luz do tema em foco, bem como a de Troyes, cidade cuja importância adiante será mais destacada.
Figura 5 (mapas) – Regiões de Champagne e Borgonha com destaque para as cidades de Troyes e Dijon
|
|
| Fonte: Ralls (2004, p. 16) | Fonte: Read (2000, p. 85) |
Tabela 1 – Distâncias entre as cidades Troyes (Champagne), Dijon (Borgonha) e as abadias de Cister e Clairvaux [30]
Ralls (op. cit., p. 67) observa que
Os historiadores sabem que, especialmente no norte da França, a Ordem dos Templários e os cistercienses eram intimamente associados. E ambos tinham conexões com Troyes. Tais laços antecedem 1129 e envolvem muitas associações familiares decisivas – por exemplo, André de Montbard era tio de Bernardo. Possivelmente, algo mais acontecia nos bastidores – talvez “comandado” de Champagne –, especialmente relacionado com a Primeira Cruzada, com Godofredo e sua família.
Para o leitor menos familiarizado com o tema, seguem alguns esclarecimentos que podem ser caracterizados como spoiler à luz do que será apresentado na sequência desta Série:
- “criada” em 1119, foi só em 1129 e durante o Concílio de Troyes que a Ordem teve o seu Estatuto – a Regra do Templo – e o funcionamento oficial aprovados pelo Papa. No que se refere à concepção, à difusão e ao convencimento dos votantes (formadores de opinião e eleitores) no Concílio, o Estatuto contou com a colaboração decisiva de Bernardo de Claraval;
- a maioria dos autores refere que foram 9 (nove) os Cavaleiros fundadores da Ordem, mas nem todos os enumeram por completo, como é o caso de Pernoud (2025); mas dentre os que são dados a saber, 2 (dois) nomes constam de todas as listas (Hugo de Payens e Godofredo de Saint-Omer), já quanto aos demais, não há unanimidade, embora André de Montbard (cisterciense e Templário) seja um dos nomes mais assíduos;
- Godofredo de Bulhões é considerado o principal líder militar da Primeira Cruzada (1095-1099), tendo-se tornado o primeiro governante do Reino (latino) de Jerusalém reconquistada. Suserano e vassalo, Godofredo era proprietário de vasto território, com algumas propriedades adjacentes às áreas ora em foco – Borgonha e Champagne; por fim,
- de Hugo I – o Conde de Champagne – se diz que pertencia “[…] à máxima nobreza do reino da França e tem controle da política de metade da Europa” (Frale, op. cit., p. 28), razão pela qual o seu protagonismo preliminar e o posterior ingresso na Ordem, em 1125-6, não foram eventos de somenos importância. Ao ingressar, curiosamente, jurou fidelidade àquele que, se por um lado era seu vassalo, de outro foi o fundador e primeiro Grão-Mestre da nova Ordem; algo bastante comum na Ordem Maçónica, onde a hierarquia interna não guarda relação com o mundo exterior, como é o caso, por exemplo, de Lojas em que predominam militares.
Não há texto sobre os Templários que não destaque a relevância de São Bernardo de Claraval em diversos, se não em todos os momentos mais significativos da Ordem; todavia, um dos maiores reconhecimentos foi a sua escolha, por Dante Alighieri [31], em substituição a Beatriz, já no Paraíso e ao final da jornada, mostrar-lhe a Santíssima Virgem rodeada de anjos e santos. Parece não haver dúvidas de que Bernardo foi escolhido por ser um dos símbolos maiores da teologia católica:
Em vez de Beatriz, um velho eu via.
[…]
Desta arte orei. Lá da sublime altura,
Em que estava, sorrindo-se encarou-me;
Depois voltou-se à eterna Formosura.
– “Por chegares” – o velho assim falou-me –
“Ao termo da jornada, como anelas,
A que seu rogo e santo amor mandou-me,
Teus olhos voem pelas flores belas:
Eles mais hão de se acender, no esguardo
Para alçar-se ao divino raio, em vê-las.
E a Rainha do céu, por quem eu ardo
Cheio de amor, nos há de ser beni´na,
Pois sou seu servo, o seu fiel Bernardo”.(Alighieri, 2020, Paraíso, Canto XXXI, p. 691-2).
Supondo que a alguns leitores tenha passado despercebido, é importante observar que a troca de Beatriz (o grande amor de Dante), que sucedeu a Virgílio e o acompanhou por todo o Purgatório e parte do Paraíso, substituída por São Bernardo já na etapa final da jornada, simbolicamente corresponde à passagem de um espírito de menor (por alguns visto a razão) para outro de maior luz, pois só a um espírito de pura luz seria dado aproximar-se da Virgem e de Deus. A veneração de Bernardo à Virgem está presente tanto nas sessões solenes (a exemplo das Iniciações) quanto nas orientações para a vida cotidiana dos Templários (Ralls, 2004) [32], circunstâncias também salientadas por Rodrigues (2020) em diversas passagens. A propósito, Pinheiro e Dutra (2025), já em vários textos, têm demonstrado o quanto a literatura pode ser útil para o aprendizado e o desenvolvimento do maçom, ora como instrumento auxiliar à viagem ao interior, ora para a exploração de símbolos; um caso notável é a literatura que combina a Lenda de Arthur com a Busca pelo Graal, explorada no quarto artigo desta Série.
Finalmente, a “Análise do Triângulo Cisterciense”, a pedido realizado pela IA Gemini, vai ao encontro das observações de Ralls:
- O Eixo da Champagne (Troyes ↔ Clairvaux): esta é a menor distância entre uma cidade e um mosteiro nesta lista. Explica por que o Conde de Troyes tinha tanta influência sobre Clairvaux e por que São Bernardo era uma figura tão presente na política de Champagne;
- O Eixo da Borgonha (Dijon ↔ Cister): com apenas 25 km de distância, Cister era quase uma extensão espiritual da capital dos Duques da Borgonha. Os monges podiam chegar a Dijon em poucas horas de caminhada; e, finalmente,
- A Grande Travessia (Troyes ↔ Dijon): Esta rota de 150 km era a espinha dorsal que conectava os dois grandes estados feudais (o Condado e o Ducado). Clairvaux servia como um ponto de parada estratégico e espiritual quase no meio desse caminho.
O cenário básico, no seu devido espaço-tempo (geografia-história: Península Ibérica e França no início da Baixa Idade Média), se não está completo, teve destacadas as principais localidades (Toledo, Troyes, Cister e Clairvaux) à luz dos acontecimentos ora em foco, bem como foram introduzidos os actores mais relevantes nos primeiros momentos – Hugo I, Hugo de Payns e Bernardo de Claraval. Em síntese, 2 (duas) constatações chamam a atenção: a primeira, é semelhança entre Troyes e Toledo no que tange ao ambiente de tolerância entre os Povos do Livro, o que, sem dúvida, facilitou os empreendimentos cooperativos em geral; a segunda aponta para a existência de um grupo de amigos (nobres e cavaleiros) com grande afinidade de valores, princípios, visões de mundo e propostas que, a partir do envolvimento junto às Ordens Religiosas (Cluny e Cister) em França (Champagne e Borgonha), encontram em Toledo o espaço ideal não só para a continuidade e desenvolvimento dos estudos e pesquisas filosóficas a partir das traduções, como também para explorar o que de mais íntimo havia na Ordem que então florescia – Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão.
Espera-se, com este segundo texto da Série, ter deixado clara a complexidade social e a dos usos e costumes à época do surgimento da Ordem do Templo. Ademais, vale lembrar que outras grandes questões também ocupavam a atenção na arena política do Sacro Império Romano-Germânico da Europa, entre outras, mais locais, como os jogos de poder em meio ao processo de formação dos Estados, já em curso: a disputa pelo poder entre o papado e os imperadores (centralização vs. descentralização), sobretudo entre os príncipes-eleitores, e a ascensão da burguesia com aspirações políticas. Tudo isso contribui para afastar a defesa da fé, dos peregrinos e da cidade de Jerusalém como, senão os únicos, como os argumentos centrais para a criação da Ordem do Templo.
Tudo pronto, então, para já a partir do próximo texto dar início à apresentação e à discussão dos achados da pesquisa realizada por Brum (2024), que tem os “amigos de Troyes” e os Templários como protagonistas, para, finalmente, tecer considerações acerca de como o conjunto das evidências reverbera na apropriação simbólica promovida pela Maçonaria e, desde aí, nas expectativas sobre as atitudes e os comportamentos esperados no cotidiano dos Iniciados.
Ivan A. Pinheiro
| M. M., Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 25.05.26. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – psicólogo, professor doutor em psicologia, especializado em maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com, como também reafirma a responsabilidade pelos erros e omissões remanescentes. |
Notas
[1] 1187 – 1118 = 69 anos; 1307 – 1187 = 120 anos; 1307 – 1291 = 16 anos de estertor, período em que aumentaram os questionamentos e as críticas, internas e externas, à Ordem.
[2] Hoje a Ordem do Templo seria considerada uma das maiores incorporadoras imobiliárias com actuação no mercado global.
[3] Dados os saberes, a experiência e a confiança reunidos, actuaram como juízes.
[4] Sobre este aspecto a literatura é omissa, mas depreende-se a partir de diversos iniciativas e demandas dirigidas à Ordem.
[5] Informações colhidas em diversas fontes, algumas a partir da IA Gemini. Não se julgou necessário referenciá-las porque são de domínio público e também porque, no contexto, são subsidiárias.
[6] A