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A Maçonaria Templária

✍️ Desconhecido 📅 14/03/2025 👁️ 4 Leituras

maçonaria templária

A influência da Cavalaria

Do 15º ao 18º grau a Maçonaria do Rito Escocês desenvolve o que chamamos de graus cavaleirescos, já que são inspirados principalmente nas tradições da Cavalaria medieval. Os próprios títulos dos graus denunciam essa influência. No grau 15 temos o Cavaleiro do Oriente ou da Espada; no 16, o Príncipe de Jerusalém; no 17, o Cavaleiro do Oriente e do Ocidente; e no 18, o Soberano Príncipe Rosa-Cruz. Embora todos se desenvolvam com base em alegorias relativas ao Templo de Jerusalém, particularmente o Segundo Templo, o de Zorobabel, reconstruído pelos judeus que voltaram do cativeiro da Babilónia, a fonte verdadeira na qual esses graus se inspiram são claramente cavalheirescas, oriundas dos cavaleiros cruzados. [1]

E não é sem razão, já que eles encerram o chamado sistema escocês, incluídos nos rituais maçónicos por influência dos seguidores da Maçonaria escocesa. Para entender o alcance dessa influência é preciso uma incursão, ainda que rápida, pelas regras dessa instituição tão importante na cultura medieval, e que tão profundas marcas deixaram na imaginação do povo, como bem nos deu mostra o genial romance de Miguel de Cervantes, o Don Quixote. [2]

Síntese histórica

Nas Constituições de Anderson não há referências à Cavalaria como legatária de alguma influência à Maçonaria. Ao contrário, Anderson parece acreditar que foram os maçons que influenciaram as Ordens de Cavalaria medieval e não o contrário. Isto explica-se pelo facto de que a Maçonaria de Anderson, na verdade, ser aquela oriunda das Old Charges, praticante dos ritos herdados pelos pedreiros livres, enxertada com algumas tradições de origem gnóstica e herméticas-cabalísticas. Na época das Constituições, conforme se deduz do próprio preâmbulo escrito pelo autor, a Maçonaria praticava somente os ritos da Loja Simbólica, e apenas nos graus de aprendiz e companheiro, já que o mestre era título aplicado apenas ao presidente da Loja. Assim, mestre, nas antigas Lojas maçónicas, era apenas o Venerável. Foi somente com o desenvolvimento da chamada Maçonaria escocesa que os graus superiores foram criados, desdobrando-se a Lenda de Hiram, incluindo os motivos herméticos- cabalísticos, com o aporte das tradições cavalheirescas, inspiradas nas Ordens militares fundadas pelos cruzados na Terra Santa. [3]

As cruzadas

No ano de 1099 um exército cruzado, formado principalmente por cavaleiros franceses e alemães, a pedido do Papa e financiado pelo Vaticano, derrotou os sarracenos e conquistou Jerusalém. O seu comandante era um príncipe franco-germânico chamado Godofredo de Boillon.

Com isto um reino cristão foi fundado na Terra Santa. Esta cruzada foi realizada por motivos políticos, económicos e religiosos. A Europa estava mergulhada na miséria e na ignorância. A invasão dos povos bárbaros tinha destruído a antiga prosperidade do Estado Romano e acabado com a organização que Roma tinha dado ao seu imenso império. Apenas a Igreja Católica tinha conservado uma estrutura administrativa capaz de oferecer alguma ordem social e política aos combalidos e fraccionados reinos europeus.

De um lado, toda a Europa estava ameaçada pelos avanços dos exércitos muçulmanos, que já tinham ocupado o norte da África e uma grande parte da Península Ibérica. De outro lado, os lugares santos, onde Jesus tinha nascido, desenvolvido o seu magistério e por fim crucificado, estava nas mãos dos muçulmanos e estes não permitiam que os cristãos praticassem ali as suas crenças.

Assim, uma expedição militar ao Oriente Médio, com o objectivo de tomar Jerusalém e combater os muçulmanos no seu próprio território foi necessária para reverter esse quadro perigoso e preocupante para toda a cristandade.

Tomada Jerusalém, e implantado um reino cristão na Palestina, todos os cantos da cristandade passaram a ver no Oriente Médio uma oportunidade para uma vida melhor. Uma multidão de peregrinos ocidentais desembarcou na Terra Santa, provocando nos habitantes locais, muçulmanos na sua esmagadora maioria, uma onda de protesto e violência sem paralelo até então, na história. Os doentes e os feridos, resultado dessa guerra sem quartel, amontoavam-se nas cidades. [4]

Para resolver a questão da protecção aos peregrinos que buscavam a Terra Santa para viver, ou mesmo somente para visitar os lugares santos, foi fundada a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, mais conhecida como Ordem dos Templários. E para tratar dos doentes e dos feridos, foi fundada a Ordem dos Cavaleiros do Hospital de São João, conhecida popularmente como Ordem dos Hospitalários.

Enquanto os cavaleiros templários estabeleceram a sua sede nas ruínas do antigo Templo de Salomão [5], os hospitalários montaram a sua num mosteiro pertencente à Ordem dos Beneditinos, uma vez que era esta Ordem que prestava, já desde o início das cruzadas, serviços médicos e de hotelaria à multidão de cristãos que se deslocaram para a Terra Santa por causa deste movimento. Esst mosteiro, conhecido como Hospital dos Cruzados, foi fundado por um monge beneditino chamado João, o Esmoleiro, filho do rei de Rodes, que havia chegado junto com os primeiros cruzados a Jerusalém. Esse hospital recebeu o nome de Hospital dos Cavaleiros de São João Batista, e pode-se dizer que foi o primeiro hospital filantrópico do mundo.

Com a fundação da Ordem dos Hospitalários, a direcção desse hospital passou para esses Irmãos. À semelhança dos Templários, os Irmãos hospitalários também cresceram e se tornaram muito poderosos, tanto política quanto economicamente. Mas diferentemente dos seus Irmãos do Templo, que após as cruzadas se tornaram banqueiros, administradores e grandes senhores feudais, os Irmãos do Hospital de São João, embora tivessem sido aquinhoados pela Igreja e pela nobreza feudal, da mesma forma que os templários, se mantiveram fiéis aos seus propósitos e nunca se desviaram da sua missão institucional, que era a construção e a manutenção de hospitais e fornecimento de asilo e abrigo à pobreza necessitada.

Em 1307, os templários foram acusados por Filipe, O Belo, rei da França, de uma série de crimes, que incluíam heresia, idolatria e homossexualismo. Depois de um rumoroso processo, a Ordem dos Templários foi extinta pelo Papa em 1313 e os seus últimos comandantes queimados vivos numa ilha do rio Sena em 1314. Os motivos que levaram à extinção e execução dos líderes templários nunca foram devidamente esclarecidos e constitui, ainda hoje, um saboroso mistério explorado pela literatura histórica e pela imaginação dos amantes do esoterismo e das teorias conspiratórias, principalmente após os maçons terem incorporado às suas tradições os temas templários. [6]

Muitos cavaleiros templários, para escapar da morte na fogueira, filiaram-se ao Hospital de São João. O reino de Portugal foi um dos territórios onde esses proscritos cavaleiros se homiziaram para escapar da perseguição. Em terras portuguesas, o rei Don Dinis deu-lhes asilo e protecção. Em troca, os Cavaleiros do Hospital de São João prestaram-lhe uma preciosa ajuda na campanha de reconquista que o monarca português estava empreendendo contra os mouros, para recuperar para a cristandade esse importante território que hoje abriga a pátria portuguesa.

Com o fim das cruzadas, e após a extinção dos Templários, os Irmãos do Hospital de São João deixaram a Terra Santa e estabeleceram-se em Rodes. A partir desta ilha espalharam-se por todo o mundo cristão, fundando asilos e hospitais, tornando-se a principal referência em serviços médicos e filantropia em toda a Europa Ocidental.

Em face da conquista daquela ilha pelos turcos otomanos, em 1530, ela deixou a sua sede em Rodes e estabeleceu-se na ilha de Malta, mudando o seu nome para Ordem dos Cavaleiros de Malta, com o qual sobrevive ainda hoje.

Em 1798 a ilha de Malta foi capturada pelos soldados de Napoleão. Quando Napoleão foi derrotado e os ingleses ocuparam a ilha, a Ordem foi dissolvida e a maioria dos seus membros encarcerados. Os que conseguiram escapar fugiram para a Itália, onde refundaram a Ordem de Malta e estabeleceram a sua nova sede em Roma, em 1834, onde continua até hoje.

Actualmente a Ordem dos Cavaleiros de Malta tem status de estado livre, semelhante ao Vaticano.

Os Irmãos Hospitalários continuam até hoje cumprindo a finalidade pela qual a Ordem foi fundada: cuidar dos doentes e oferecer asilo aos necessitados. Participam activamente da Cruz Vermelha e diversos hospitais por todo o mundo. A sua principal actuação está centrada em Portugal, França e Itália, onde uma grande parte dos hospitais filantrópicos está sob a sua direcção.

Cavalaria – instituição iniciática

Desde o seu início como organismo militar e instituto cultural a Cavalaria foi impregnada de elementos místicos e iniciáticos, muito a gosto da sociedade medieval. Esta característica deve-se principalmente ao espírito profundamente religioso do povo europeu e à doutrina pregada pela Igreja, que via na prática ascética o principal caminho para o Reino dos Céus.

Assim, a Cavalaria logo assumiu uma característica de organização iniciática, com os seus rituais próprios e o seu código de valores. Uma longa preparação tinha que ser cumprida por um jovem antes de ser armado cavaleiro. Começava como pajem, servindo o seu cavaleiro nas tarefas mais humildes, depois escudeiro, auxiliando o seu suserano em tarefas militares. E depois, comprovados o seu zelo e a sua fé, era-lhe concedido o título de cavaleiro, depois de um ritual de iniciação que não ficava muito a dever às Ordens monásticas da época.

O ritual de armação tinha a sua ritualística própria. O jovem cavaleiro passava a noite em oração, velando as suas armas. Depois, acompanhado do padrinho, que geralmente era o senhor feudal a quem servira como escudeiro, ele era levado perante um padre e na presença deles jurava fidelidade ao seu senhor, à Santa Madre Igreja, e prometia ser fiel servidor da fé cristã, e perseverar na prática da virtude, servindo aos mais fracos e protegendo os desvalidos.

Grande parte da cerimónia tinha carácter religioso e com o passar do tempo, passou a incorporar um vigoroso simbolismo. O novel cavaleiro recebia uma túnica branca de linho, simbolizando a sua pureza. Uma cruz vermelha era costurada nela como símbolo do sangue que o cavaleiro teria que derramar em defesa da fé em Cristo. Esse simbolismo passou a ser observado depois das cruzadas.

A maior parte dos ideais da Cavalaria foi inspirada nas doutrinas da Igreja medieval. Pureza, castidade, piedade, justiça para com os fracos e oprimidos, galanteria em presença de uma dama, lealdade para com o seu suserano e a Igreja de Roma, eram as virtudes exigidas dos cavaleiros medievais. A aura de heroísmo e misticismo que os envolveu foi um produto dos bardos, poetas e cantores itinerantes, que viviam de cidade em cidade, cantando e distribuindo nas feiras livres as suas baladas heróicas.

O discurso de Ramsay

Andrew Michael Ramsay
Andrew Michael de Ramsay

O principal articulador da ligação entre a Cavalaria e a Maçonaria foi o Cavaleiro Andrew Michel de Ramsay (1686 – 1743), nobre escocês, que num célebre discurso pronunciado em 1738 numa secção de iniciação numa Loja (uns dizem inglesa, outros francesa) lançou a ideia de que a Maçonaria tinha sido fundada na Terra Santa, na época das cruzadas, por nobres cavaleiros que participaram daquela epopeia. Este discurso foi depois publicado e distribuído em várias Lojas da Europa e tornou-se um dos maiores clássicos da literatura maçónica.

Fixou, definitivamente, a ideia que a Maçonaria mantinha uma estreita relação histórica com a Cavalaria, especialmente aquela que se referia às Ordens militares fundadas pelos Cruzados para proteger as conquistas cristãs na Terra Santa, ou seja, as Ordens do Templo (Os Templários), a Ordem do Hospital de São João (Os Hospitalários) e os Cavaleiros Teutónicos, ordem militar que congregava cavaleiros principalmente alemães, e do norte e centro da Europa (Polónia, Suécia, Dinamarca, Ucrânia etc. Ramsay escreveu

No tempo das Cruzadas na Palestina muitos príncipes, senhores e cidadãos se associaram e prometeram restaurar o templo dos cristãos na Terra Santa e se empregar para fazer retornar a sua arquitectura à primeira instituição; Eles concordaram sobre vários antigos sinais e palavras simbólicas extraídas da religião, para reconhecer uns aos outros entre os infiéis e os sarracenos. Comunicavam-se esses sinais e palavras apenas a aqueles que prometiam solenemente, e muitas vezes até mesmo diante do altar, nunca os revelar. Esta promessa sagrada não era, portanto, um juramento execrável, como tem sido chamado, mas um laço respeitável para unir os cristãos de todas as nacionalidades numa mesma Fraternidade.” [7]

Evidentemente, não há nenhuma base histórica para confirmar essa informação de Ramsay. Esta pressuposição foi colocada a partir de algumas relações – essas, sim comprovadamente verdadeiras – de que as Ordens de Cavalaria fundadas pelos cruzados, especialmente os Templários e os Hospitalários, mantinham nos seus quadros muitos pedreiros profissionais para construírem os seus edifícios, de acordo com os propósitos de cada uma delas. É verdade, também, que a arquitectura templária, principalmente, desenvolveu um estilo próprio e se tornou um importante ramo da tradição arquitectónica medieval e nela, a mística que se chumbou a essa Irmandade em particular, acabou servindo ao propósito de maçons como Ramsay, que procuravam criar para a sua Irmandade uma aura de nobreza. O elo entre a arquitectura templária e hospitalária e a tradição maçónica herdada da arquitectura medieval, foi assim estabelecido, muito mais como um recurso de imaginação do que propriamente uma verdade histórica. Prossegue Ramsay…

Algum tempo depois a nossa Ordem formou uma união íntima com os Cavaleiros de São João de Jerusalém. A partir daquele momento, as nossas Lojas assumiram o nome de Lojas de São João. Esta união se fez de acordo com o exemplo dos israelitas quando eles ergueram o segundo templo. Enquanto lidavam com a trolha e a argamassa com uma mão, na outra eles tinham prontos, a espada e o escudo. A nossa Ordem, portanto, não deve ser considerada uma renovação das Bacanais, mas uma ordem moral, fundada em tempos imemoriais, e renovada na Terra Santa por nossos antepassados, para lembrar a memória das mais sublimes verdades em meio aos prazeres da Sociedade.

Nesta parte do discurso Ramsay procurou, ao mesmo tempo, construir o elo entre a Maçonaria e as Ordens de Cavalaria cruzadas, ao mesmo tempo que procurava desconstruir um mito que começava a ser divulgado na época, principalmente pela Igreja. Este mito era o de que a Maçonaria agasalhava ideias e costumes pagãos, especialmente inspirados nos antigos festivais romanos dedicados ao deus Baco, as famosas Bacanais. Tais eram, segundo os detractores da Maçonaria, os banquetes realizados pelas Lojas maçónicas, nos quais se praticavam as mais infames orgias e ritos. Para combater esta campanha de difamação feita pelos inimigos da Maçonaria, Ramsay criou outro mito: o de que a Maçonaria era, nada mais nada menos, uma continuação das Ordens de cavalaria fundadas pela própria Igreja no tempo das cruzadas.

Dava, com isso, não só uma origem nobre para a Maçonaria, mas também criava uma tradição fundada sobre o nobre propósito dos Hospitalários (cavaleiros que se dedicavam ao bem estar dos cristãos na Terra Santa). Também estabelecia uma ligação desta com a própria antiguidade, evocando o episódio da reconstrução de Jerusalém por Zorobabel e os israelitas repatriados da Babilónia. Nascia, desta forma, a Maçonaria dos graus superiores, tal como hoje a conhecemos, pois a partir da ideia da reconstrução do Templo de Jerusalém, levado a cabo pelo Aterzata Zorobabel, os cavaleiros cruzados, os pedreiros medievais e os novos cavaleiros formados pelo ideal do Iluminismo e na virtude que esse sistema de pensamento pregava, encontravam um ponto de contacto. E a partir daí, criava-se esse organismo híbrido, misto de religião e escola de pensamento, que se tornou a Maçonaria moderna.

Os Reis, príncipes e senhores, voltando da Palestina, fundaram várias lojas nos seus Estados. Desde o tempo das últimas Cruzadas, já vimos várias Lojas erguidas na Alemanha, na Itália, na Espanha e na França, e daí para a Escócia, devido à estreita aliança entre escoceses e franceses. James, Lord Steward da Escócia foi Grão-Mestre de uma Loja estabelecida em Killinwing, no oeste da Escócia, no ano 1274, pouco depois da morte de Alexandre III, rei da Escócia, e um ano antes de John Baliol ter subido ao trono. Este senhor recebeu os maçons na sua Loja, os condes de Gloucester e Ulster, um Inglês e o outro irlandês.” [8]

Assim Ramsay criou também uma História para a Maçonaria do Rito Escocês. É visível a sua intenção de ligar a Maçonaria à Guarda Escocesa, organização militar criada pelos reis escoceses da dinastia Stuart, que no começo da Idade Moderna assumiu também o trono inglês. Estes reis, cuja origem se situa em Robert Bruce, o rei que no início do século XIV libertou a Escócia do domínio inglês, mantivera uma estreita relação com os Templários, tendo mesmo dado asilo e protecção a vários cavaleiros por ocasião da dissolução da Ordem e do processo que a Inquisição moveu contra eles. A esta dinastia pertencia o Príncipe Carlos, jovem pretendente do trono inglês, que estava, nessa época, exilado na França em consequência da revolução que apeou a sua família do trono.

Ramsay era partidário dos Stuarts, tendo mesmo lutado pela reintegração desse príncipe no trono inglês. A Guarda Escocesa era uma instituição muito conhecida e respeitada na Europa desde o fim da Idade Média e servira a muitos reis, prestando-lhes serviços de segurança, assessoria militar e outros trabalhos do género. A sua tradição militar e a aura de cavaleiros que mantinham, semelhante a outras organizações do género existentes nos reinos europeus, como a Guarda Suíça, que servia ao Papa e os famosos Mosqueteiros do rei da França, eram famosas. Assim, nada mais apropriado do que ligar a nascente Maçonaria, como instituição,
à famosa Guarda Escocesa, fazendo desta uma das suas fontes de tradição.

Assim é que Ramsay diz no seu discurso:

Pouco a pouco, as nossas lojas e as nossas solenidades foram negligenciadas na maioria dos lugares. Por isso é que poucos historiadores, os da Grã-Bretanha, principalmente, são os únicos que falam da nossa ordem. No entanto, ela se manteve no seu esplendor entre os escoceses, a quem os reis (da França) confiaram durante muitos séculos, a guarda das suas pessoas sagradas.” [9]

Isto justificava o conjunto de ritos que ele, a partir de então, iria estabelecer para o conjunto da Maçonaria, conjunto esse que veio a ser conhecido como REAA – Rito Escocês Antigo e Aceito. Ou seja, uma espécie de ritualística militar, combinada com tradições cavaleirescas e motivos religiosos extraídos do Antigo Testamento, tudo entremeado com lendas e símbolos pinçados da tradição arquitectónica dos pedreiros medievais.

E para dar a esta mixórdia toda um contexto de doutrina, enxertou-se nos rituais os ideais pregados pela religião do momento entre os intelectuais: O Iluminismo. Prossegue o inefável Cavaleiro Ramsay…

Após os deploráveis acontecimentos das Cruzadas, o perecimento dos exércitos cristãos e o triunfo do Bendocdar, sultão do Egipto, durante a oitava e última Cruzada, o Grande Príncipe Edward, filho de Henrique III, rei da Inglaterra, vendo que não havia mais segurança para os seus irmãos na Terra Santa, de onde as tropas cristãs estavam se retirando, os trouxe de volta, todos, e essa colónia de irmãos foi estabelecida na Inglaterra. Como este príncipe tinha todas as qualidade heróicas, ele amava as belas artes, declarou-se protector da nossa Ordem, concedendo-lhe novos privilégios e, em seguida, os membros desta fraternidade assumiram o nome de maçons-livres, a exemplo dos seus antepassados. Desde aquela época, a Grã-Bretanha foi a sede da nossa Ordem, a conservadora das nossas leis e depositária dos nossos Segredos. As fatais discórdias de Religião que envergonharam e rasgaram a Europa no século XVI, fizeram degenerar a Ordem da Nobreza da sua origem. Mudaram-se, disfarçaram-se, suprimiram-se muitos dos nossos ritos e costumes que eram contrárias aos preconceitos da época.” [10]

Isso aconteceu, segundo a óptica de Ramsay, pela entrada na Ordem maçónica de pessoas indignas e sem o adequado perfil para fazer parte da Irmandade.

Os “maçons aceitos”

Esta história, ele provavelmente a inventou para justificar o nascimento da Maçonaria escocesa. Evidentemente, tudo isso saiu da sua imaginação, pois não existe qualquer prova de que semelhante Irmandade tenha sequer existido, seja na Inglaterra ou em qualquer outro país. O que o imaginoso cavalheiro fez, no caso, foi evocar o costume das Lojas de pedreiros operativos, praticado desde os tempos medievais, de colocar-se sobre a protecção de um potentado qualquer, fosse ele um príncipe, um bispo, um barão, para que estes os mantivessem livres de impostos e das restrições que o sistema feudal impunha a todos os prestadores de serviços da época. Esa sim, era uma prática muito em voga na época, sendo os Templários e os Hospitalários, eles mesmos, mantenedores de grupos desses profissionais, que estavam a serviço das respectivas Ordens. Esta prática acentuou-se depois da extinção dos Templários, sendo a Inquisição um dos principais motivos que a alavancaram, já que o costume de perseguir qualquer corporação que criasse institutos e ritos próprios despertava a desconfiança da Igreja. Esta perseguição chegou ao auge na época da Reforma Protestante, razão pela qual eram muitas as corporações que procuravam a protecção de autoridades, fazendo inclusive com que muitos deles se tornassem seus patronos, e muitas vezes, até membros da própria corporação. Esta é a origem histórica dos chamados “maçons aceitos”.

“Brincando de cavaleiros”

A grande verdade de tudo isso é que, na época de Ramsay, a Cavalaria, como instituição, era coisa morta. Já há muito que havia desaparecido. O próprio instituto da nobreza, como classe, era um factor que começava a ser apontado como responsável pela manutenção de um estado de coisas que fazia da Europa o palco de sangrentas guerras. Estas tinham na religião a sua desculpa, mas no fundo, eram o resultado de um sistema social injusto e degradante, que mantinha a grande maioria dos indivíduos na miséria e na ignorância extrema, para que uma pequena minoria usufruísse de uma vida ociosa e promiscua. Contra esse estado de coisas se insurgiu a moral dos Iluministas. E a eles se atrelaram os intelectuais londrinos da recém fundada Real Sociedade da Inglaterra, destacado clube de cavalheiros ingleses e escoceses, oriundos, muitos deles, da velha nobreza, agora sem títulos, mas ainda conservando, no sangue, nos costumes e principalmente, no ego, os ideais, as tradições e o romantismo da velha Cavalaria. E assim nasceu a Maçonaria moderna, essa Fraternidade que, segundo dela disse Napoleão Bonaparte (que foi iniciado Maçom), era constituída por um “grupo de distintos senhores que gostam de brincar de cavaleiros.”

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] As lendas dos graus 15 a 17 se referem à organização que Zorobabel, por permissão de Ciro, rei da Pérsia, elaborou para reconstruir o Templo de Jerusalém, destruído pelas tropas de Nabucodonosor, rei da Caldeia. Estas referências à tradição hebraica não devem confundir os leitores, já que esses graus buscam, principalmente ligar as virtudes da Maçonaria às tradições cavalheirescas.

[2] O Don Quixote, obra clássica da literatura mundial, embora de forma satírica, traça um retrato bem fiel das tradições cavalheirescas, na sua mística, no seu romantismo, na sua religiosidade e a importância que teve na cultura medieval.

[3] A Maçonaria Simbólica e Iniciática, citado.

[4] Na imagem, o selo dos Cavaleiros Templários. Dois monges montados no mesmo cavalo. Símbolo da pobreza e da humildade. Fonte: Enciclopédia Barsa.

[5] Na época das cruzadas já não era o Templo de Salomão, mas ruínas do Templo construído por Herodes, o Grande, sobre restos do Templo que tinha sido construído por Zorobabel no século V a. C.

[6] Sobre os Templários e a sua relação com a Maçonaria escocesa, ver Baigent, Leigh, e Lincoln, The Holly Blood and The Holly Grail, Ed. Harrow, Londres, 1966 e O Templo e a Loja, Ed. Madras, São Paulo, 2006. Na imagem, gravura de Jacques de Molay e a sua morte na fogueira Fonte: Blogspot.

[7] A Maçonaria Simbólica e Iniciática, citado, pg. 72.

[8] Idem., pág. 72.

[9]Ibidem, pág. 73.

[10] Maçonaria Simbólica e Iniciática, pág. 74.

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