A Maçonaria, os símbolos, a filmografia e o quotidiano
A definição mais comum de Maçonaria, porque em uso em todo o mundo, é a de que é “um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (ISMAIL, 2012). Na sua definição a GLMERGS ressalta a intenção de “[…] despertar no Maçom o desejo de penetrar no significado profundo dos símbolos e das alegorias, de modo que os pensamentos velados neles contidos, sejam decifrados e elaborados” [1]. Assim, boa parte do tempo e do esforço ao longo da trajectória maçónica são dedicados à descoberta do significado dos mais diversos símbolos que povoam a Ordem; superada esta primeira etapa, sem dúvida importante mas longe de ser suficiente, sucede organizá-los em narrativas na forma de aforismos, parábolas, lendas entre outras manifestações que, aos primeiros significados, do símbolo per se, são agregados novos sentidos com mensagens por vezes mais, ora menos explícitas e à espera de serem desveladas.
A rigor, como se expressa o popular, este estudo “vai longe” pois, no limite, o próprio Homem é o símbolo, afinal as Escrituras não afirmam que “E Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança […] E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn 1, 26:27) Portanto, o homem, em si mesmo, sob determinadas perspectivas e considerações, não só pode como revela-se útil que seja apreciado como um símbolo. E por ser símbolo, é claro que é tão somente uma aproximação, não se confunde com o simbolizado pois não é dotado de todos os seus atributos, no caso, os exclusivamente divinos. Não por acaso, um dos principais livros-texto do Rito Escocês Rectificado tem por título Homem-Deus (WILLERMOZ, 2006).
Todavia, nem mesmo tendo contribuído para os maçons superarem, com louvor, as etapas assinaladas, a Maçonaria teria logrado êxito na sua missão se no curso desses exercícios ela não tivesse promovido, nos maçons, mudanças de atitudes e comportamentos frente aos acontecimentos do quotidiano. Ou seja: ao contrário do que à primeira vista possa parecer, o objectivo dos trabalhos e estudos maçónicos não é a descoberta do significado dos símbolos (algo, tipo assim “achei!”), mas o de desenvolver e educar a mente exercitando a capacidade crítica, reflexiva, o impulso para o estudo, o raciocínio abstracto, a criatividade, para enumerar apenas algumas competências hoje tão caras também ao mercado de trabalho, mas que antes e sobretudo são elementos indispensáveis ao pleno crescimento, desenvolvimento e realização pessoal e, seja por osmose, imitação, indução ou deliberada intenção, que os seus efeitos positivos se façam reverberar por entre os homens.
Assim, partindo do princípio que a análise simbólica maçónica é tão somente um instrumento para o desenvolvimento de competências aplicáveis aos mais diversos contextos e situações, neste texto se desenvolve um exercício de interpretação simbólica aplicada ao quotidiano. E por se tratar de um exercício e também em razão da sua contemporaneidade, foi escolhido como objecto de estudo uma série veiculada em canal streaming e que esteve à frente, durante várias semanas, dentre as mais assistidas: La Casa de Papel. A inspiração para este texto, em parte, veio de uma palestra há tempos proferida por um irmão estudioso, a quem ora homenageio, e também sobre um outro filme não menos famoso: Matrix.
Primeiramente, dada a relevância (para a Maçonaria) das expressões “alegoria” e “símbolo”, cabe defini-las com maior precisão e qualificação:
- alegoria – é uma metáfora(*) desenvolvida em forma de narrativa, no entanto, diferente da parábola, a alegoria apresenta uma mensagem em cada um dos seus elementos (PINHEIRO, 2017);
- (*) metáfora – “é uma figura de linguagem que consiste no uso de uma palavra ou expressão com o sentido de outra com a qual é possível estabelecer uma relação de analogia. Para que a analogia possa ocorrer, devem existir elementos semânticos semelhantes entre as palavras ou expressões em questão. A relação de semelhança entre dois termos ocasiona uma transferência de significados, estabelecida através de uma comparação implícita” [2];
- símbolo – “[…] os gregos usavam o termo símbolo num sentido amplíssimo, abrangendo todo o campo do que chamamos propriamente de sinal, isto é, o que aponta, convencionalmente ou não, a um outro, que é referido por aquele […] uma formalidade que pertence univocamente a todos os símbolos e sinais: a referência a um outro; em suma, o apresentar-se em lugar de outro […] símbolo é alguma coisa que está em lugar de […] é algo que substitui […] deve repetir, analogicamente, algo do simbolizado”. (SANTOS, 1959, p. 13-14)
As definições acima, embora sucintas, razão pela qual se recomenda que o estudioso recorra às fontes, são suficientes para os objectivos ora pretendidos.
La Casa de Papel, expressão que dá título à série, já na quarta temporada, corresponde à Casa da Moeda espanhola, portanto, local aonde são impressas as cédulas, valores e documentos oficiais (passaportes, títulos da dívida, etc.). A apresentação que se segue, sintética e resumida, assim mesmo, tem por objectivo evitar spoiler: as duas primeiras temporadas se dedicam a narrar o assalto à Casa da Moeda: enquanto um grupo adentra à Casa, ocupando-a por vários dias, o líder coordena a operação desde fora. Os capítulos e as cenas, a narrativa enfim, é desenvolvida com alternância entre a acção propriamente dita e as actividades preparatórias que consumiram cerca de 5 (cinco) meses de planeamento e treino, tudo previsto em detalhes minuciosos para que nada, absolutamente nada que pudesse acontecer, de algum modo pudesse surpreender o grupo e comprometer o êxito do empreendimento. Sucedem inúmeros figurinos, ambientes, flashbacks, relatos de dramas, frustrações e sonhos pessoais, momentos de convivência, alguns mais festivos, outros até estressantes, etc. No que tange ao tema ora em análise, dois aspectos são merecedores de atenção:
- a música tema: Bella Ciao; e,
- a máscara com a imagem caricata de Salvador Dali.
O filme coloca-nos frente a inúmeras mensagens, ora menos, ora mais explícitas. Entre essas últimas, uma das mais evidentes é a prevalência das Leis de Murphy, de triste memória dos Administradores e que, num dos seus artigos afirma: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível” [3]. O que não significa que não se deve antecipar e planear as acções, mas antes chama a atenção para as nossas limitações de toda natureza, o que, por sua vez remete à virtude da humildade que se contrapõe, no extremo oposto, à arrogância.
Ora, à primeira vista, a música é tão somente mais um elemento que compõe o espírito de entretenimento (ficcional) que integraliza a série. Entretanto, não é possível deixar de pensar por que, entre tantas, ela e não outra teria sido a escolhida, ou ainda, porque os directores (autor, produtores, e outros) não optaram por um tema exclusivo? A música, como elemento de entretenimento, corresponde pois, à primeira leitura. Todavia, se considerado que a música Bella Ciao actualmente é considerada um símbolo da resistência antifascista à época de B. Mussolini [4], o enredo que conecta os capítulos adquire uma nova e distinta expressão: o roubo à Casa da Moeda não é apenas mais uma realização no currículo dos “profissionais” (todos já experientes) envolvidos, é antes e sobretudo, um manifesto político. A letra da música remete-nos a risco, inimigo, invasor, despedida, morte, reconhecimento e heroísmo.
Ao iniciado na Ordem não passará despercebido que o protagonista (da letra da música) solicita para ser enterrado no alto de uma colina e que do seu túmulo (não se sabe se plantada ou espontânea) nascerá uma flor que será a lembrança da resistência, mas também a semente da sua continuidade. Visto nesta perspectiva, a de a música ser o símbolo da mensagem que se pretende transmitir, a série (filme) adquire outra conotação. Cada estrofe, então, é uma alegoria com significado próprio que se transfere ao contexto do filme no ambiente contemporâneo. De uma produção, cujo enredo é em si mesmo um exemplo do planeamento perfeccionista, não se pode esperar que ela própria não tenha sido planeada com requinte, nos mínimos detalhes. Daí se conclui que o tema musical é mais do que um elemento de somenos importância, ele tem valor próprio; todavia a sua apreensão requer abstracção e conhecimentos adicionais.
A máscara, à primeira leitura, também é tão somente um utensílio que tem por finalidade encobrir os rostos, nada mais natural e por isso previsível em situações tais como as representadas. Há ainda uma leitura complementar e que ganha evidência conforme evolui o enredo: se os gregos recorriam às máscaras para representar personagens específicos [5] (assim, um só actor representava vários papeis, inclusive os femininos, idosos e infantis), no filme elas servem para encobrir as verdadeiras personalidades que aos poucos emergem em complexas idiossincrasias de tal sorte que a unidade só é obtida à custa do sacrifício das individualidades. Estaria aí, mais uma mensagem? Mas tal como antes, também aqui tem lugar à pergunta: por que ela, com a caricatura de S. Dali, e não outra? Lembrando que o símbolo está no lugar de e carrega algo do simbolizado, é preciso, então, resgatar as características mais proeminentes de Salvador Dali:
[…] pintor da vanguarda do surrealismo espanhol […] conhecido por suas obras com influências oníricas […] definiu o seu processo criativo como “crítico-paranóico” […] figura excêntrica, singular e exibicionista, Dali possuía um estilo único sendo ousado, vanguardista e libertador […] [6].
Melhor descrição … não poderia haver … mas infelizmente é impossível tecer considerações sobre o papel simbólico da máscara sem expor características da personalidade (claro, na que é dada a conhecer) do personagem principal do filme [7], daí a sugestão: para os que já assistiram, repensar as analogias e mensagens implícitas; para os que ainda não, atentarem para quando o fizerem.
Tal como os símbolos maçónicos, se o tema musical e a máscara são alegorias, possuem significado e expressão próprias que se estendem para além da acepção stricto sensu, quando apreciadas em conjunto e também combinadas a outros elementos do filme (a exemplo do comportamento dos populares, da cobertura on line realizada pela mídia, etc.) ganham significado adicional que reforça a mensagem principal, compondo, assim, um todo, uma intenção (mensagem) deliberada, todavia oculta nas entrelinhas.
É possível a partir deste breve texto sugerir e concluir que La Casa de Papel é uma mensagem de algum modo relacionada à Maçonaria? Não! Conforme esclarecido, ele pretende salientar o quanto os exercícios no curso da trajectória maçónica podem contribuir para a análise e apreensão de factos do quotidiano, inclusive na e a partir da esfera do entretenimento. Por oportuno, convém lembrar mais duas, entre outras, características do símbolo: a polissignificabilidade e também a polissimbolizabilidade (SANTOS, op. cit.), o que significa que o mesmo símbolo pode representar vários simbolizados, assim como estes podem ser referidos por vários símbolos. Como então identificar qual o significado deve ser considerado? Não há resposta pronta: cada caso requer o estudo aprofundado acerca do conjunto da obra, só assim a coerência interna entre os elementos proporcionará a unidade narrativa de sentido que, de regra, é a mensagem (a verdade) mais relevante; todavia, não raro encontra-se encoberta por sucessivas camadas de conhecimento que devem ser desveladas. A sequência da série La Casa de Papel, os episódios da terceira e quarta partes, a meu juízo, permite identificar mensagens subliminares alinhadas em narrativa coerente, tendo os autores, produtores e directores extraído e aplicado as melhores lições da Alta Vendita e também do gramscismo.
Este rápido exercício, incompleto para não ser “estraga prazeres” dos aficionados que ainda não assistiram a série, chama a atenção para uma realidade muito presente: as mensagens subliminares a que diariamente estamos submetidos (a partir da mídia, das redes sociais, dos aplicativos de comunicação, etc.), intencionalmente planeadas e produzidas com o intento de influenciar as atitudes e comportamentos nas mais diversas esferas: dos valores individuais e colectivos à compreensão lógica e racional que orienta as decisões, notadamente na esfera da acção política. Assim, no meio do entretenimento ficcional, práticas sempre condenadas (roubos, sequestros, violência, insurreição, etc.) podem subliminarmente ser apresentadas como virtuosas, quando não sob o argumento (na maioria das vezes publicamente velado) de que os fins justificam os meios.
Por fim, a apreensão do oculto requer prática, mas também prévio estudo multi, inter e transdisciplinar, o que, por sua vez, não se faz sem esforço e dedicação, o que na Maçonaria não representa dificuldade pois a Iniciação é uma decisão de livre e espontânea vontade.
Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom dos Quadros da ARLS Mário Juarez de Oliveira, 4.547, GOB-RS; e, da LEP Universum 147, GLMERGS. O autor, ao se manifestar, não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências e Potências, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br.
Notas
[1] Fonte: http://www.glojars.org.br/maconaria-universal. Acesso: 15.08.20.
[2] Fonte: https://www.significados.com.br/metafora/. Acesso: 15.08.20.
[3] Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/lei-murphy.htm. Acesso: 16.08.20.
[4] Entretanto, a alusão aos “partisans” sugere que seja um hino de resistência ao autoritarismo em geral.
[5] Daí: “Persona, no uso coloquial, é um papel social ou personagem vivido por um actor. É uma palavra italiana derivada do Latim para um tipo de máscara feita para ressoar com a voz do actor (per sonare significa “soar através de”), permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores, bem como para dar ao actor a aparência que o papel exigia”. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Persona_(teatro). Acesso: 17.08.20.
[6] Fonte: https://www.todamateria.com.br/salvador-dali/. Acesso: 15.08.20.
[7] A rigor, vários personagens ao longo da trama ganham projecção, todavia, ora se refere ao coordenador da operação – O Professor.
Referências bibliográficas
- ISMAIL, Kennyo. O que é a Maçonaria? No Esquadro. 2012. Disponível em: https://www.noesquadro.com.br/conceitos/o-que-e-a-maconaria/. Acesso em: 18.11.19.
- PINHEIRO, Ivan A. Abordagens Interpretativas de Texto Aplicadas à Maçonaria – sobre o ritual de iniciação ao grau de aprendiz Maçom. Universum, Ed. 37, jul., p. 107-128. Porto Alegre: GLMERGS, Edições “Universum”, 2017.
- SANTOS, Mário F. Tratado de Simbólica. 2ª Ed. São Paulo: Logos, 1959.
- SCHÖKEL, Luís A. (Org.). Bíblia do Peregrino. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2006.
- WILLERMOZ, Jean-Baptiste. O Homem-Deus: tratado das duas naturezas. Curitiba, PR: AMORC, 2006.
