A Maçonaria e a Revolução Republicana de 1817
A ideia do governo republicano no Brasil, depois do exemplo que a França nos deu, foi sempre inspiração da Maçonaria.
Não falamos no grito de Bernardo Vieira de Melo, com princípios republicanos é verdade, mas uma simples aspiração fie momento para conter as lutas e separar os olindenses do jugo dos portugueses que, dominantes no Recife, ameaçavam aniquilar o sentimento nativista em formação. Nem citamos também a inconfidência mineira, cujas ideias morreram como sonhos, tendo todos os conspiradores palavras de arrependimento, prova de que não estava doutrinada a revolução. Em Pernambuco, porém, no século que expirou, a liberdade partiu do seio das sociedades secretas, dos lábios dos adeptos da Maçonaria para os ouvidos da multidão.
Desde 1800 que se doutrinava o povo, inoculando-se-lhe sentimentos puros, as ideias mais adiantadas, e incutindo-se-lhe no espírito que “o nosso pai que está nos céus, criou livres todos os homens”, na expressão de Bernardo Luis Ferreira Portugal. [1]
Quantas tentativas fizeram os pernambucanos para gritar a todos os povos livres: somos irmãos? Quanto sangue derramaram os nossos avós na conquista da liberdade? A revolução que explodiu a 6 de Março de 1817 vinha doutrinada desde o alvorecer do século XIX. E não o foi somente no Recife; antes os ensinamentos vinham das vilas mais remotas, somente depois conseguindo aqui ter maior propagação.
O primeiro estabelecimento fundado, o primeiro centro que começou a estudar às ideias adiantadas foi o Areópago de Itambé, onde pontificava o sábio botânico Dr. Manoel de Arruda Câmara.
Talvez o nome de Areópago, aliás na Maçonaria significativo de reunião de maçons de graus elevados, ocultasse os desígnios maçónicos das reuniões dos sócios, porque era crime de pena última o cidadão professar ou se mostrar simpático à poderosa sociedade que ainda hoje é a mola da civilização e tem resolvido todos os problemas sociais. Talvez fosse simplesmente secreto o douto grémio, mas tudo nos leva a crer que esse Areópago, de que a história guarda tradições, era uma loja maçónica, pois, tendo vindo o Dr. Arruda Câmara da Europa, onde se iniciara nos grandes e delicados mistérios da democracia, trazendo o exemplo vivo da queda da Bastilha, fundara uma associação semelhante à em que fora iniciado no Velho Mundo
Além disso, “a Maçonaria naquele tempo, como a encontrámos na independência do Brasil, era mais uma associação política com o juramento dos irmãos fazerem a pátria livre, do que uma sociedade quase caritativa, como hoje”. [2]
Este juízo cresce tanto quanto é certo – e o próprio padre Martins [3] o afirma – que do Areópago de Itambé nasceram as duas “academias”, que outras coisas não eram senão duas lojas maçónicas. Ainda mais veremos que tratando o autor de que falamos de Domingos José Martins, um dos chefes da revolução, sócio de ambas academias, diz que “Martins se associara ao general Miranda, chefe escolhido para emancipador da América espanhola; que pretendia introduzir no Brasil o plano de Washington, que o futuro mostrou pelo facto lamentável de Gomes Freire (grão-mestre da Maçonaria portuguesa, assassinado pela inquisição) que a missão de Martins tinha portentosos efeitos; que finalmente, depois da revolução dos Estados Unidos, os princípios democráticos se espalharam pelo Brasil e muito singularmente desde que foram adoptados pela revolução francesa, aumentando o governo português o rigor e vigilância, para que a doutrina democrática não tivesse publicidade; mas os adeptos disfarçaram-se, convertendo-a num grande segredo, unicamente conhecido e revelado a pessoas de confiança”. [4]
Claro está portanto – e quem 1er todo o capítulo referente ao patriota Domingos José Martins não duvidará – que estas sociedades secretas, quer se chamassem areópagos, academias, lojas, oficinas, universidades ou coisas semelhantes, eram lojas maçónicas para aqui transplantadas pelos espíritos adiantados que se iniciaram na Europa ou nos Estados Unidos, diferindo de nome justamente para fazer confusão, desnortear o governo português, não levantar suspeitas e melhor propagar as ideias da democracia, disfarçadamente.
Quem conhecera história da Maçonaria e a vir separada da lenda, não nascida na margem do Eufrates nem no templo de Salomão, mas transformada de confraria de York, onde só tinham assento os artistas, para franco-Maçonaria onde as ideias liberais começaram a imperar, espalhando-se por toda a civilização, para cogitar do desenvolvimento político de toda a Europa, derrubando dinastias, pondo fim à inquisição, acabando a tirania dos reis e proclamando a liberdade dos povos; quem conhecer a história dessa poderosa sociedade que tanto medo causa aos déspotas e aos tiranos e tanto tem concorrido para a independência dos povos, verá pela descrição que do Areópago faz o Dr. Maximiano Machado, que a associação de Itambé era um dos templos maçónicos semelhantes aos da Europa e o primeiro que se instituiu no Brasil, como já uma vez tivemos ocasião de o demonstrar. [5]
“Era o Areópago uma sociedade política, secreta” intencionalmente colocada na raia das províncias de Pernambuco e Paraíba, frequentada por pessoas salientes de uma e outra parte e donde saíam, como de um centro para a periferia, sem ressaltos nem arruídos, as doutrinas ensinadas.
Tinha por fim tornar conhecido o estado geral da Europa, os estremecimentos e destroços dos governos absolutos, sob o influxo das ideias democráticas.
Era uma espécie de magistério que instruía e despertava entusiasmo pela república, mas em harmonia com a natureza e dignidade do homem e ao mesmo tempo inspirava ódio à tirania dos reis.
“Era, finalmente, a revolução doutrinada, que traria a independência e o governo republicano à Pernambuco”. [6]
A primeira tentativa do Areópago foi tornar Pernambuco independente, sob a protecção de Napoleão Bonaparte. Não um simples pensamento, mas uma ideia, que não teve execução devido a um malogro inesperado.
Já José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque se achava em Lisboa, como agente acreditado e Francisco de Paula de Albuquerque Montenegro tivera poderes de seguir para o Rio da Prata e Nova York, no mesmo carácter, ambos filiados ao Areópago, quando uma denúncia fez o primeiro ser preso e mais tarde solto à falta de provas, por as ter abafado o escrivão Fonseca, mediante rios de dinheiro que fez correr o frade José Laboreiro. [7]
E, quando Napoleão expiava em Santa Helena as culpas de conquistador, momentos após a revolução de 6 de Março de 1817, ainda Pernambuco fez uma tentativa, por intermédio da seu emissário nos Estados Unidos, para arrancar dos penhascos o grande prisioneiro que anteriormente lhe prometera independência, dando-lhe pouso seguro em Fernando de Noronha, até que os seus melhores oficiais o colocassem novamente no trono de França, que ele tanto engrandeceu. [8]
Ocorre-nos ainda outro argumento para corroborar o juízo que temos feito relativamente a ser o Areópago uma sociedade maçónica. E que a causa da revolução de 1801 abortar foi uma denúncia levada ao governo português, fazendo sobre ela o seguinte comentário o Dr. M. L. Machado [9]. Não podendo os governos da Europa corromper as sociedades maçónicas, nem embaraçar os seus progressos, introduziram nelas espiões, no intuito de persegui-las, com receio da invasão das novas ideias “
Ainda mais reforça a nossa proposição o seguinte trecho da carta dirigida pelo desembargador João Ozório de Castro Souza Falcão, escrivão da alçada para conhecer do movimento de 1817, ao ministro do reino e transcrita na Introdução do Dr. Maximiano Machado:
“As ideias revolucionárias foram transmitidas em 1801 por Francisco de Paula Cavalcante e Luis Francisco de Paula [10] de que houve denúncia e estes dois foram presos, e depois soltos por falta de provas, porque no exame dos papéis (como dessa devassa se sabe) uma das cartas foi abafada pelo escrivão Fonseca, que em prémio recebeu 400$000. As ideias começadas pelos dois Arrudas [11] médicos em Goiana, pelos vigários de Santo Antônio e Recife, cresceram e propagaram-se pelos estabelecimentos das lojas maçónicas, nas quais excluídos das suas sessões particulares os maçons europeus, a maior parte dos quais eram filhos do país, seduzidos desde 1H14 pela chegada de Domingos José Martins, se fizeram conspiradores. [12]
Até aqui temos procurado demonstrar que o Areópago de Itambé, sendo uma sociedade secreto-política era, em verdade, uma loja maçónica, fundada para cogitar da liberdade do povo pernambucano, de acordo com o que sucedera na França, nos Estados-Unidos e estava combinado realizar-se em toda a América latina. Expressamo-nos desta maneira porque de um estudo mais ou menos profundo que já fizemos, foi esse Areópago a primeira coluna de um templo maçónico, levantada em solo Brasileiro e sobre o qual, a par de estudos científicos, de combinações políticas para a independência da pátria, se rendeu sincero culto ao supremo arquitecto do universo. [13]
II
Morta a conspiração tramada por promessas de Bonaparte e presos alguns dos conspiradores, foi o Areópago dissolvido, seguindo para Lisboa o seu grande mestre, Dr. Arruda Câmara.
Dela, além dos Arrudas e dos três irmãos Cavalcante de Albuquerque, faziam mais parte os reverendos Antônio Felix Velho Cardozo, José Pereira Tinoco, Antônio de Albuquerque Montenegro e João Ribeiro Pessoa. Vamos encontrá-los, quase todos, na jornada gloriosa de 6 de Março de 1817.
É preciso notar que os sacerdotes formavam a classe mais instruída do país e por este próprio facto se aninhava entre eles o mais veemente amor à liberdade, segundo observa Oliveira Lima. [14]
Do Areópago, dos que beberam as primeiras lições de patriotismo, dos que ouviram pela primeira vez o hino da liberdade, dos que sonharam uma pátria independente da metrópole, vamos encontrar na revolução de 1817, com o mesmo ardor da conspiração de 1801: Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, elevado a general de divisão pelo governo revolucionário; o seu irmão Luis Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, figura preeminente na conquista da liberdade; Dr. Francisco de Arruda Câmara, médico em Goiana, oráculo nos conselhos daquela vila, onde o seu voto foi sempre respeitado, procurado e seguido durante o império da liberdade, na opinião do padre Martins; Antônio Felix Velho Cardozo, ardente propagandista da liberdade na Paraíba, sua terra natal e o padre João Ribeiro Pessoa, membro do governo provisório, a cabeça pensante da revolução, e por quem, no juízo de Koster [15], o povo professava profunda veneração.
Dois discípulos do Dr. Arruda Câmara adoravam a liberdade, mas com o togo sagrado que queima os corações patriotas. De classes diferentes – militar um e eclesiástico outro – havia entre ambos tantos pontos de contacto que muitas vezes a negra batina deste se confundia com os botões dourados daquele. Eram o capitão-mor de Olinda Francisco Cavalcante de Albuquerque e o padre João Ribeiro. Francisco Cavalcante de Albuquerque, cavalheiro do hábito de Cristo, nas vésperas da revolução, apenas se viu desgarrado das mãos inclementes da justiça, como conspirador em 1801, graças aos rios de dinheiro que correram pelas religiosas mãos de frei José Laboreiro, internou-se no seu engenho Suassuna, de onde lhe veio o apelido por que era popularmente conhecido e o converteu numa brilhante academia, onde os adeptos e aprendizes, não só da província e nacionais mas ainda estrangeiros achavam luz, agasalho e subsídios. [16]
João Ribeiro Pessoa, natural de Goiana, filho de pais sem fortuna, mas espírito perspicaz, seria condenado ao esquecimento da história se o não procurasse o Dr. Arruda Câmara que o instruiu nas ciências naturais e nos grandes e delicados mistérios da democracia, recomendando-o ao bispo Azeredo Coutinho que o aproveitou como lente de desenho da universidade de Olinda.
Iniciado no Areópago de Itambé pelo seu protector, sócio da Academia de Suassuna, João Ribeiro pretextou uma viagem à Europa onde, segundo o padre Martins, apertou os laços suassunais. [17]
Uma reflexão entre parênteses: se as academias não eram filiadas à Maçonaria, associação que não tem pátria nem religião, como explicar o facto de Cavalcante dar agasalho e subsídios não só aos da província e nacionais como a estrangeiros? E de João Ribeiro apertar os laços suassunais em Lisboa, contra cujo domínio conjurava, ensinando nas academias daqui que se devia ser livre do jugo português?
Como perceber Domingos José Martins partindo para Londres, Teotônio Jorge para Rio e Baia e Suassuna para Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte?
De que carácter eram então essas academias que se relacionavam no exterior, até com Portugal, o inimigo que se tinha à frente?
A sociedade, diz ainda o padre Martins relativamente à Academia de Suassuna “pôs em movimento as suas mais possantes molas para se transferir de Olinda para o Recife a cadeira de desenho com o seu professor e tudo se conseguiu, dando-lhe a administração do hospital do Paraíso.”
Sob a inspiração e o ardor do patriota Francisco Pais Barreto, foi fundada a Academia do Paraíso, cuja administração, a título de aula de desenho, foi concedida ao padre João Ribeiro, que ninguém igualava em talento e patriotismo. Fundados esses dois centros de irradiações democráticas, um no Cabo, no engenho Suassuna, sob a direcção de Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque e outro no Recife, sob o zelo do padre João Ribeiro, os sentimentos de liberdade começaram a ser ensinados aos que se faziam sócios e pouco a pouco a revolução começou a ser doutrinada para primeiro se inocular e amadurecer no coração do povo, antes dos factos consumados.
Qual semente fecunda que se propaga e frutifica em terreno adrede preparado, o amor à liberdade em pouco estava infiltrado no coração dos patriotas, vindo mesmo alguns cidadãos de outras províncias beber em Pernambuco as luzes de que careciam para as espalhar com os seus amigos.
Francisco Xavier de Novais Cavalcante, capitão-mor de Igarassu, cavalheiro da ordem de Cristo, associou-se às duas academias e fundou uma na sua residência, filiada às que existiam, à qual deu o nome de “oficina”, tal qual a Maçonaria domina os seus grémios.
Dessa nova academia, da Oficina de Igarassu onde cerimoniava e instruía os adeptos Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, deveria sair a revolução, num levante contra impostos, tendo havido num momento de entusiasmo durante uma reunião, o grito sedicioso de “morram os marinheiros!” [18]
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, irmão de José Bonifácio de Andrada, o patriarca da Independência e primeiro grão-mestre da Maçonaria Brasileira, tendo sido aquele quem elaborou o primeiro projecto de constituição maçónica, homem extraordinário, herói muito superior à sua fama, na linguagem do padre Martins, aqui chegou como ouvidor da comarca de Olinda em 1815, associando se logo às duas academias.
Foi tão fervoroso adepto da ideia republicana que, à semelhança de Pais Barreto fundou na sua casa uma universidade” democrática, filiada às academias e teve ainda poderes especiais, tanto assim que o padre Martins lhe chama, “academia ambulante” o que denota ter Antônio Carlos competência não só para iniciar os neófitos na sua universidade, como em qualquer lugar onde se achasse.
Antônio Gonçalves da Cruz Cabugá, já iniciado na Europa, associou-se aqui chegando às ideias correntes, com o maior entusiasmo, reunindo e banqueteando os revolucionários na sua casa no Recife e no Manguinho e pontificando na loja conhecida por Pernambuco do Oriente. [19]
Domingos José Martins, o negociador da aproximação da república com as potências estrangeiras, o Maçom de grande prestígio não só em outras províncias do sul como no estrangeiro, abraçando ou antes, fazendo-se chefes das sociedades secretas que o ouviam como mestre [20], fundou na sua própria casa uma loja maçónica a que deu o nome de Pernambuco do Ocidente. [21]
José Luis de Mendonça, o maior advogado da época e literato de nomeada, filiados às duas academias, das quais era oráculo, tinha poderes de iniciar na sua casa novos catecúmenos, tanto que o padre Martins ouviu dele uma vez em que voltava do seu gabinete rodeado de capitães do interior aos quais recebera como juramentados, estas frases de desânimo:
“Ó maldita liberdade! Eu morra de repente se em quarenta anos esta gente souber compreender esta palavra!” [22]
Vicente Ferreira dos Guimarães Peixoto, cirurgião, talvez um dos maçons mais graduados de Pernambuco, filiado às duas academias era conhecido por aliciador público de prosélitos. Tinha uma “escola” secreta na sua casa e, segundo documento pelo próprio publicado em 1838, foi ele o reinstalador ou fundador de uma loja maçónica em 1821, seu 1° venerável, e à qual, em honra da revolução de que fizera parte ou para lembrar aos presentes os actos passados, lhe dera o nome de “Seis Março de 1817” loja que ainda hoje subsiste. [23]
É de crer também que em todas as vilas principais, cujos capitães-mores eram iniciados e adeptos da revolução, houvesse uma oficina filiada às duas academias. A história não diz, mas, facilmente, dos factos que apontamos, isso se deduz.
Ainda mais; descrevendo os prenúncios da revolução, monsenhor Muniz Tavares, que foi secretário de Academia do Paraíso, diz que em 1816 existia em Pernambuco uma Grande Loja Provincial, à qual eram filiadas quatro oficinas maçónicas. [24]
Não sabemos se nesse meio estavam incluídas as academias e as suas filiais, porém, além das lojas maçónicas de que temos falado no decorrer desta exposição, funcionavam no Recife a Guatimozim que foi o nome de guerra escolhido depois por d. Pedro 1°, o nosso 2.° grão-mestre, e Restauração e Patriotismo, ambas em tal grau de prosperidade que em 48 horas foi coberta uma quota de 10 contos fortes em favor dos náufragos da galera Balsemão, capitaneada por Estevam José Alves, membro da Restauração, sendo digno de nota ainda, que cada loja assinou apenas 400$000! [25]
As sociedades secretas, portanto, tinham ramificações extraordinárias em Pernambuco. [26]
III
A Maçonaria estava espalhada em quase todas as províncias do Brasil.
Na Baia, então capital, teve ingresso a 5 de Julho de 1802, no mesmo tempo da fundação da
Academia de Suassuna, e três anos depois da do Areópago de Itambé.
Portugueses ali residentes instalaram a loja Virtude e Razão, do rito francês, subdividindo-a depois em três outras, para que fosse instituído o Grande Oriente do Brasil [27], centro e foco de toda a Maçonaria regular da nossa pátria e ao qual era, segundo Muniz Tavares [28], filiada à nossa grande loja provincial – poder supremo da Maçonaria pernambucana.
No Rio de Janeiro ela assentou as suas bases no ano imediato, em 1803, com a fundação das três lojas Reunião, Constância e Filantropia, por autorização do Grande Oriente Lusitano, a que estavam filiadas. Prosperaram bastante, mas foram obrigadas a abater as suas colunas, devido à intolerância do conde dos Arcos que, tendo recebido denúncia, moveu as maiores perseguições aos filiados, obrigando-os a lançarem os arquivos ao fogo. [29]
Não abandonando os credos, os obreiros faziam secretamente as suas reuniões, ora em casa de um ora em casa de outro confrade, não obstante as suspeitas e as prisões, até que em 1815 foi instalada a loja Comércio e Artes, ainda hoje existente, subdividida mais tarde, 1821, em três – Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói, para a organização do Grande Oriente do Brasil, supremo árbitro de toda a Maçonaria. [30]
Em Minas, a pátria da Inconfidência, não sabemos se havia lojas maçónicas porque ninguém se deu ainda ao trabalho de bem estudar a história da Maçonaria no nosso país, mas é certo que o Dr. José Alves Maciel era iniciado nos seus mistérios e as relações entre os inconfidentes – chefes espirituais do levantamento – e Jefferson, – o grande espírito independente dos Estados Unidos, – levam-nos a crer que os nossos patrícios do sul aprenderam a ser republicanos no fundo de uma oficina maçónica.
No Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas havia lojas maçónicas não só nas capitais como em cidades do interior, tanto assim, que, enquanto Domingos José Martins, antes de 6 de Março de 1817, partia para a Europa afim de pôr em campo a revolução e Domingos Teotônio Jorge, seguia para o sul com a mesma ideia, Suassuna embarcava com destino às províncias do norte.
Nos principais centros do Brasil frutificava essa instituição que o cónego Januário da Cunha Barboza, fundador do Instituto Histórico Brasileiro [31] chamava “filha da ciência e mãe da caridade”.
De 1809 por diante cada Maçom – diz Muniz Tavares [32], começou a organizar, nas cidades dos seus domicílios lojas ou oficinas, subordinadas ao Grande Oriente da Baia. As de Pernambuco estavam então no seu auge de vivacidade lidadas às de outras capitanias e às do Velho Mundo por laços de irmandade e filiação, propositalmente avivados pelas viagens de alguns consócios, na afirmativa de Oliveira Lima. [33]
A corrente que dominava todos os revolucionários, o espírito de liberdade, igualdade e fraternidade em todos incutido; o desejo ardente de ver a pátria livre, todo esse cortejo de aspirações sagradas que constitui o credo da religião do patriotismo, fora aprendido no seio da Maçonaria, difundira-se entre os confrades como a electricidade se espalha entre corpos metálicos ao simples contacto e do interior dos templos maçónicos partira para a opinião pública, pela voz de João Pessoa, padre Miguelinho e deão Portugal, verdadeiros ídolos de todas as classes. Aos novos catecismos que tinham como dogma a ideia de liberdade, da conquista dos direitos do povo, atiravam-se com fome os pernambucanos e com sofreguidão os devoravam.
Pelo que acabamos de expor, está evidentemente demonstrada parte da nossa tese: A revolução de 6 de Março de 1817 foi influenciada e inspirada pela Maçonaria.
IV
Qual a origem e o carácter dessa associação que tem o dom de inflamar os corações, doutrinar os povos, quebrar os grilhões do cativeiro, derrubar tronos, proclamar a liberdade de consciência e instituir o regime da liberdade em todo o Universo?
A sua origem é quase desconhecida. Velha como o próprio desenvolvimento da humanidade, a lenda penetrou na sua história e dificilmente hoje se pode dizer quem foi o seu instituidor. Oliver [34] e Anderson [35], historiadores ingleses, querem ou procuram achar o primeiro templo maçónico no paraíso terrestre, dizendo que Adão iniciou os filhos, fazendo-os mestre das artes, como se as artes já existissem naquele tempo!
E daí por diante lá vem a Maçonaria, ora dirigida por Abraão no Egipto com a descoberta das sete ciências livres; ora por Jabal e Tubalcain com os princípios de todas as ciências; ora por Misraim, o povoador do Egipto, ensinando os homens a servirem-se de sinais e símbolos na falta de palavras pela confusão de raças e línguas diferentes; ora nas antigas iniciações de que hoje é um arremedo, bebendo um pouco dos mistérios persas, inspirando-se nos Brahmanes, imitando Ísis, compilando os gregos e finalmente abeirando-se do Judaísmo, até chegar à construção do templo de Salomão, cerca de 4.000 anos antes de Cristo “fazendo ressurgir 40.000 operários de Hiram, ligados entre si pela solidariedade do ofício e pelo nobre fim que os reunia no cimo da sagrada Salém, talhando o cedro do Líbano, modelando o granito e o pórfiro da Líbia, esculpindo as pedrarias da Índia e as pérolas do Eriten, na faina indefessa de elevarem um hino a Jeová”. [36]
Abandonando, porém, as suposições e entrando no domínio da história, então vemos da Confraria de York, fundada em 926, partir a Maçonaria como arquitectónica, dividindo os operários em mestres, companheiros e aprendizes.
Ligados por um laço misterioso e possuindo o segredo das construções, eles se ramificaram na Lombardia, entraram pela França, atravessaram a Alemanha e pousaram na Inglaterra, deixando em toda a parte sinais da sua passagem com a construção das basílicas da idade média, ainda hoje admiradas.
Do século XIV por diante mudou de carácter, admitindo pessoas estranhas às artes e pouco a pouco se foi transformando, até que em 1717 tomou a denominação de franco-Maçonaria, iniciando soberanos, príncipes e sábios que confundiam os veludos e as sedas das suas vestes com o algodão da blusa dos artistas
“O trabalho da arte foi trocado pelo da inteligência, o escopro pela palavra e pela pena, a pedra pelo papel e pelos tipos, o edifício pela discussão, pelo livro e pelo jornalismo, difundindo-se de país a país. [37] Daí por diante, ela se adaptou a todas as civilizações, partindo de Londres e York para todas as províncias da Grã-Bretanha, da América e da África.
Na Europa peneirou primeiro na França, depois na Alemanha e daí se irradiou de norte a sul do Velho Mundo.
Proclamadora dos direitos dos povos em França, o acontecimento que fez um ciclo na história da humanidade; libertadora dos Estados Unidos da América inglesa, pela cabeça de Washington, da América espanhola pelo braço de Bolívar, e da América portuguesa pelo grito de Pedro J.” e pela doutrina de José Bonifácio; destruidora da Inquisição; factora da liberdade de cultos e da igualdade das raças, perseguida pelos inimigos do progresso, a Maçonaria cada vez descortina novos horizontes e estende mais os seus domínios sobre todo o universo, sem religião mas respeitando todos os credos, contanto que não flagelem a humanidade.
O seu ideal é a ordem, a civilização, o progresso e o bem-estar dos povos, para que entre todos haja igualdade de direitos.
“Nenhuma instituição apresentando melhores trabalhos à regeneração nacional,” na opinião de Muniz Tavares [38], a Maçonaria “esta sociedade secreta – ainda na sua frase – instituída com o louvável fim de confraternizar os homens e excitá-los à prática das virtudes morais, concedendo aos seus membros plena garantia de pensar, oferecendo mútua comunicação de ideias e socorros, facilitando a correspondência por todos os lugares e exigindo inviolável segredo do seu procedimento”, animada pelo exemplo dos Pastados Unidos da América, tomou a ombros o glorioso projecto de libertar o Brasil dando-lhe o regime republicano, doutrinou os mais sábios e mais influentes para que estes ditassem o mesmo catecismo ao povo, confraternizou o mesmo pensamento em todas as lojas Brasileiras e sonhou, por momentos, o que já era uma aspiração nacional em todo o Brasil e secular em Pernambuco.
Conhecedor de tudo isso, Caetano Pinto Montenegro, governador da província, fingindo ignorar a força desta associação e o valor e patriotismo dos seus filiados, ao ter denúncia dos planos da conspiração de 1817, porque a catequese já tinha saído do interior dos templos para as praças públicas, porque o grande secreto se tornou quase vulgar, [39] exclamou tranquilamente: Os maçons divertem-se; nada farão…
V
Puro engano.
Os maçons eram em geral pernambucanos e desde os remotos tempos da restauração, quando os filhos da antiga capitania de Duarte Coelho por esforço próprio lançaram, após uma guerra cruenta de vinte e quatro anos, o jugo holandês, deixaram bem patente que mais cedo ou mais tarde os portugueses perderiam a autonomia sobre Pernambuco.
Se por um lado ainda ressoavam os ecos da revolução francesa de 1789 em que foram assegurados os direitos do homem; se o feito brilhante de Washington tinha nos Brasileiros os maiores admiradores, desde a inconfidência mineira; se os exemplos da República Argentina e de Venezuela estavam ainda vivos, o quadro da metrópole para com a opulenta província que se estendia do rio S. Francisco ao Maranhão não era animador. Antes instigava os seus habitantes à luta pela liberdade.
A corte que D. João VI – antítese do duque de Borgonha, – trouxera para o Brasil em 1808, no momento de cobardia em que fugira do reino deixando os súbditos entregues ao exército conquistador de Napoleão Bonaparte, era composta de indolentes, em cujo benefício, para as devassidões do Paço, era absorvida toda a indústria de Pernambuco com as contribuições onerosas que por sua vez sufocavam a agricultura, fonte principal, ainda hoje, da nossa riqueza. [40]
Empréstimos foram criados sobrecarregando também o comércio e nenhum benefício material trouxeram para a província, cuja capital era uma negação aos preceitos da higiene.
Daí partiram os ensinamentos ao povo, pelos mais inteligentes que disso tiravam o maior proveito.
Por causa de impostos, já não tinha Bekman levantado a população maranhense, num grito de revolta?
Porque se insurgiu contra tributos asfixiantes e injustos, não foi Felício dos Santos, em 1720, cabeça de um motim que lhe valeu o esquartejamento?
Quando uma população se levanta em sinal de protesto, por uma exigência do fisco, países mais adi antados não se tem sentido em maiores dificuldades?
A par da devassidão de uma corte mendicante; de uma indústria florescente, condenada a desaparecer; de uma agricultura ameaçada de ruinas; de um comércio jugulado pelos impostos, surgiu a propaganda inteligente dos patriotas de então, democratas exaltados que por todos os meios e especialmente por intermédio das sociedades secretas pretendiam melhorar a situação da sua terra, terminando de vez o domínio de Portugal.
Que este sentimento nativista, tão bem explorado pelos patriotas, foi sazonado fruto da Maçonaria e essa benéfica propaganda não nasceu de outra fonte, vimos documentando de momento a momento e ainda no nosso apoio apelamos para a opinião do competente crítico Dr. Franklin Távora: [41]
“É de notar que a revolução vem de data muito anterior.”
“Um acontecimento inopinado precipitou-a, antecipou o seu rompimento, mas não a gerou. Ela tivera uma longa e lenta gestação. O Grande Oriente do Rio de Janeiro, tomando a dianteira da revolução de 1821 e aclamando d. Pedro I Defensor Perpétuo e Imperador, e não rei do Brasil, não fez senão imitar as lojas maçónicas de Pernambuco, onde desde 1801 a maioria desses homens se reunia periodicamente, e, sem outra paixão que o amor da pátria, tratava, com perigo de vida, dos meios de fundar e transmitir-nos o precioso legado a que devemos a nossa emancipação política.”
“Nem o sr. Pereira da Silva, nem Varnhagem dizem uma palavra sobre esses beneméritos ajuntamentos secretos, molas principais do movimento de onde saiu, não maduro, mas no todo concebido, o pensamento da separação.”
“As sociedades secretas que prepararam a infeliz conspiração do puríssimo Gomes Freire e posteriormente a revolução de 1820 em Portugal, entraram nesse trabalho de 1812 em diante. Os que prepararam a revolução que prematuramente fez explosão em Pernambuco, ocupavam-se com este grave empenho desde o começo do século.”
“Foi tão importante o seu papel na formação da nossa nacionalidade política, tão relevantes os seus serviços, que não fazer menção deles fora cometer uma injustiça.”
Estava tudo preparado. Nos conciliábulos diurnos e nocturnos, diz Oliveira Lima, [42] “destacavam-se com nitidez no fundo negro formado pelas batinas dos clérigos, as dragonas dos vários oficiais.”
Esperavam apenas pelo aviso “dos seus mestres do sul, como estes dos da Europa”. [43]
O sentimento nativista estava no seu auge e a revolução ameaçava rebentar de momento a momento. Para que de português nada existisse nos banquetes maçónicos – foco de ideias democráticas de cujas lojas faziam parte os oficiais pernambucanos, na afirmativa do Dr. Souto Maior [44] – até o vinho fora substituído pela aguardente.
Os marinheiros eram tratados de resto e como um houve, oficial de linha, que tentasse molestar um preto do terço dos Henriques, na festa da Estância, cuja igrejinha está quase em abandono, foi por este balido, com aplausos dos Brasileiros.
Então o governador começou a ver que os maçons não se divertiam somente; doutrinavam ao povo a revolução, instruindo-o nos dogmas da liberdade.
Nova denúncia lhe chegou aos ouvidos por intermédio de Manoel Carvalho de Medeiros, amigo do ouvidor Dr. Cruz Ferreira, citando então o nome dos conspiradores, que como vemos, eram os chefes das lojas maçónicas [45]:
Padre João Ribeiro Pessoa, da Academia do Paraíso; Domingos José Martins e Antônio da Cruz Cabugá, veneráveis das lojas Pernambuco do Oriente e Pernambuco do Ocidente, além de membros das academias, e alguns oficiais dos regimentos de 1.a linha, os quais se soube mais tarde que eram os capitães Domingos Teotônio Jorge, – o emissário das lojas de Pernambuco para tratar da revolução com as lojas do sul [46] – José de Barros Lima – o causador do rompimento de 6 de Março e membro das academias e Pedro da Silva Pedroso, iniciado não só nas duas academias como em todas as escolas secretas [47] – tenente José Mariano de Albuquerque, – “profundo adepto dos mistérios democráticos e sócio efectivo das duas academias “ e o ajudante Manoel de Souza Teixeira, – “altamente iniciado nos mistérios preparatórios para o dia 6 de Março, segundo o autor dos Mártires Pernambucanos [48].
Expondo ligeiramente os factos, estamos estudando-os sob outro prisma, para provar evidentemente que à Maçonaria, instituição hoje vilipendiada pelos que se ofuscam com a luz do seu progresso, se deve o levantamento dos brios pernambucanos e o amor à pátria que “não só é uma sincera afeição a terra que nos viu nascer, mas a aplicação dos nossos recursos ao serviço e engrandecimento dela, por qualquer forma e em qualquer manifestação.’’ [49]
Os denunciados tiveram ordem de prisão, sendo os brigadeiros encarregados de executar as dos oficiais dos seus corpos. Ao marechal José Roberto foi dada a inglória tarefa de encarcerar os três civis denunciados.
VI
Raiou a manhã de 6 de Março de 1817, cujo sol propositalmente colocado na bandeira da revolução, iluminará para sempre a história do Brasil.
Os militares procuraram dar desempenho às suas ingratas missões.
Apenas dos civis foi traiçoeiramente preso Domingos José Martins e ainda à traição detido o oficial Samuel Teixeira.
Manoel Joaquim Barboza, português grosseiro, comandante do regimento de artilharia, para melhor se desempenhar da sua missão, ordenou que os oficiais se reunissem à determinada hora no quartel e em presença de todos, disse insolentemente que os traidores se achavam no seu regimento. Domingos Teotônio protestou e teve ordem de prisão, não opondo relutância. No caminho, porém, do quartel para o forte de Cinco Pontas, como que convencionalmente, foi exclamando – traição! traição!…
José de Barros Lima, a quem se não amesquinhássemos o seu espírito e a sua memória chamaríamos o Tiradentes pernambucano [50], por alcunha o Leão Coroado, devido ao seu valor e coragem, estava enfurecido com o procedimento da seu general que os censurara em público.
O assassínio do brigadeiro entrara nos planos da revolta.
Ainda mais arrogante com a reclusão de Teotônio Jorge, Barboza deu ordem de prisão a Barros Lima.
– Pois morre, miserável! E de um ímpeto Leão Coroado arrancou da bainha a gloriosa espada que fez rebentar a revolução de 1817 e que o Instituto guarda como relíquia, embebendo-a no peito do brigadeiro. O seu camarada e denunciado José Mariano completou a obra, tirando a vida do comandante e sogro! Estava proclamada a revolução.
Leão Coroado e os dois companheiros assumiram o comando das forças, prepararam os soldados, soltaram os camaradas e abriram as portas às prisões.
Enquanto fugia o governador, a revolução ganhava terreno e adesões e as armas e insígnias reais eram atiradas ao solo com desdém.
No dia sete o exército nomeou os eleitores e estes reunidos no Erário elegeram o governo provisório. Diz também Muniz Tavares [51] que Domingos Martins, à porta do Erário, armado, anunciou ao povo eleição, mas só deixou entrar pessoas por ele reconhecidas e que lhe convinham.
Foram eleitos: Domingos José Martins, comércio; Domingos Teotônio Jorge, guerra; padre João Ribeiro, eclesiástico; José Luis de Mendonça, justiça e Manoel Corrêa de Araujo, agricultura; todos eles maçons, excepto o último, que era realista e aderiu na tarde de seis de Março, tornando-se pouco tempo depois traidor aos patriotas.
O padre Miguel Joaquim de Almeida Castro, “oráculo das academias”, foi nomeado secretário e o padre Pedro de Sousa Tenório “um dos mais profundos adeptos dos mistérios democráticos“ [52] o seu ajudante, tendo José Carlos Mayrink o grande mérito de, como secretário da administração decaída, ser confirmado no mesmo posto pela revolução triunfante! Também foram nomeados conselheiros os doutores Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Manoel José Pereira Caldas, Gervásio Pires Ferreira, Antônio de Morais e Silva e Bernardo Luis Ferreira Portugal.
Havia tanto influxo das doutrinas secretas professadas nas academias que Tollenare assim se expressa:
“Os estrangeiros são bem acolhidos; quando os negócios conduzem algum de nós a palácio é sufocado por abraços e saudado por sinais maçónicos” [53]
Os princípios do governo eram os mais adiantados: república federativa, tolerância de todos os cultos e emancipação dos escravos.
Bastavam estes credos, suprema aspiração que o Brasil pode somente realizar setenta anos depois, para mostrar os sentimentos generosos dos patriotas e que a revolução foi doutrinada excelentemente.
Também vale a pena resumir os conceitos de Tollenare – estrangeiro que estava no Recife ao tempo da revolução, – emitidos nas suas Cartas Dominicais sobre os membros do governo:
“O padre João Ribeiro, nutrido com a leitura dos filósofos antigos e modernos, só respirava pela liberdade, mais por amor dela do que por ambição. Indignava-se de obedecer a vontades arbitrárias, sem manifestar o desejo do mando. Arrastado pela leitura das obras de Cordocet, testemunhava a mais alta confiança no progresso do espírito humano; a sua imaginação ia mais depressa do que o seu século e sobretudo adiantava-se muito à índole dos seus compatriotas. Hoje, orgulha-se menos da honra de ser o primeiro magistrado do seu país, do que da glória de ser o seu regenerador. Quisera morrer, diz ele, agora que meu país está livre. É um exaltado desvairado.
“José Luis de Mendonça é um jurisconsulto que goza de consideração e bela fortuna. Os seus hábitos são simples, o seu carácter é brando e fraco, tem grande reputação e probidade. A sua presença no governo atrairá ao partido muita gente de peso.
“Domingos José Martins tem corrido por muito tempo no encalço da fortuna sem a atingir. A sua estada na Europa, os conhecimentos que pretende ter adquirido de política e da administração inglesa lhe emprestam certo verniz de habilidade que, junto a um tom doutorai e resoluto, o impõe a alguns dos seus companheiros têm audácia, é hipócrita, simula energia, altivez, afabilidade protectora, afecta uma certa eloquência e com isto conseguiu iludir. (Tollenare diz que tem aversão a Martins devido a negócios comerciais). Considero-o um dos principais autores da revolução.
“Conheço pouco os dois outros membros do governo; ambos são militares e se ocupam com o que diz respeito à organização do exército.
“O padre Tenório tem o espírito vivaz, facilidade de expressão e propõe providências no mesmo instante em que se manifesta necessidade de tomá-las. Apenas vê ou lê, logo forma e enuncia o seu juízo.
“O padre Miguel é um homenzinho, cujo espírito mais lento, não é menos vasto nem menos penetrante; os seus juízos são críticos e muito próprios à contrabalançar o ardor dos do seu colega.“ [54]
Na vida efémera de 74 dias, decurso do regime republicano em 1817, a revolução espalhou-se rapidamente não só na província como ao norte e sul, graças às credenciais de Suassuna preparando o espírito dos irmãos ao norte em repetidas viagens, de Teotônio Jorge fazendo o mesmo ao sul e de José Luis de Mendonça iniciando na sua casa os capitães do interior. Para o provar, citamos as palavras de Oliveira Lima [55] referindo-se à generalização no centro da província e na Paraíba, onde não foi preciso inflamar a propaganda:
“Os proprietários rurais, os militares e os populares que marchavam para a capital da capitania, onde as lojas maçónicas havia anos se nutriam de novos ideais, foram ali recebidos com efusão, sendo proclamado o novo regime no dia 13 de Março e organizada uma junta temporária, a exemplo da de Pernambuco”.
Sobre esta junta, diz Muniz Tavares [56], houve grande selecção de eleitores, somente votando um limitado número.
A exclusão muito desagradou; murmurando o povo e examinando a razão do facto, descobriu que eram pedreiros livres os indicados eleitores. “Perniciosa descoberta – afirma o ilustre sacerdote – quando estupidamente se acreditava ser essa classe de gente o flagelo de Cristo!” [57]
VII
Propagada no Rio Cirande do Norte, Paraíba e Alagoas, a revolução não se pode estender até o Ceará, não obstante o oferecimento do diácono José Martiniano de Alencar, de cujo tronco ramificou o maior romancista Brasileiro do século XIX.
José Martiniano, membro da Academia do Paraíso, era tão apaixonado pelas ideias democráticas que “parecia concebido e parido pela liberdade”, na linguagem do autor dos Mártires Pernambucanos. [58]
Internou-se pelo sertão da sua província e foi preso na vila do seu nascimento; actual cidade do Crato, antes da centelha patriótica se inflamar por toda a terra que hoje chamamos da luz.
Também o desenvolvimento não se fez na Baía porque o emissário da revolução, José Inácio de Abreu e Lima, conhecido por padre Roma, frade apóstata do Carmo depois secularizado, membro das sociedades secretas que doutrinavam a república, ao desembarcar numa jangada com as credenciais para os irmãos do sul foi subitamente preso, por denúncia levada ao conde dos Arcos, a 27 de Março e dois dias depois fuzilado no Campo da Pólvora.
Embarcado para o Rio de Janeiro o ex-governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro, homem de virtudes e vícios, na última fase abominado pelos pernambucanos que dividiram a sua gestão em três períodos – “nos primeiros quatro anos modelado sobre Marco Aurélio; nos segundos quatro sobre Heliogábalo, e nos últimos sobre Sardanapalos” [59], também o governo provisório fez embarcar para os Estados Unidos como plenipotenciário Antônio Gonçalves da Cruz Cabugá, e para Fernando de Noronha, com o fim de obter a catequese das tropas, o capitão José de Barros Falcão, sócio das duas academias.
Tomadas algumas medidas de economia interna, a república designou o dia 21 de Março para a adopção da nova bandeira, cuja cópia religiosamente guarda o Instituto Arqueológico, sendo decretadas como nacionais as cores azul e branca.
Ainda o governo provisório melhorou algumas fortificações e criou uma pequena frota, cujo comando foi entregue a um cultivador dos campos!
O conde dos Arcos, a quem a história estigmatiza com o epíteto de monstro, pelas suas crueldades [60], com o fim de debelar a revolução, enviou por terra forças sob o comando do marechal Leite Cogominho [61]. As tropas deste oficial foram-se avolumando na sua passagem, até que chegaram a Pernambuco, cuja capital fora bloqueada pela esquadra de Rodrigo Lobo.
Começou o empalidecimento da estrela dos revolucionários.
Apenas José Peregrino, herói de renome paraibano, afastara-se com as forças revolucionárias do Rio Grande do Norte, o povo restabeleceu ali o regime monárquico, trucidando André de Albuquerque Maranhão.
Nem ao menos pode frutificar o novo governo provisório que erigiram na Serra do Martins, com o fito de não desaparecer do Rio Grande do Norte a ideia republicana.
Já Alagoas tinha restaurado o governo monárquico com a passagem das forças de Cogominho, de nada valendo o socorro que os revolucionários expediram.
A Paraíba seguiu o exemplo das outras comarcas que tinham aderido à ideia republicana e o capitão Barros Falcão, quando voltava triunfante da Ilha de Fernando de Noronha, com as forças que apoiavam o governo provisório, caiu em poder dos inimigos.
Cabugá não foi reconhecido como plenipotenciário pelo governo dos Estados Unidos. É certo que ali concertou com oficiais franceses a fuga de Bonaparte da Ilha de Santa Helena, tanto que, com algum armamento que mandou para o governo provisório e caiu em mãos dos realistas, vieram três oficiais da pátria do conquistador da Europa.
Neste angustioso estado foi que se lembraram de dar uma constituição à nova república.
O projecto foi apresentado e trouxe extraordinária grita, porque havia reformas que ainda nos nossos dias são mal compreendidas!
Três pontos principalmente mereceram formal recusa: a libertação da escravatura, que vinha arruinar o capital dos agricultores; a igualdade de direitos dos cidadãos e sobretudo a liberdade de culto. A lei – suprema aspiração realizada muitos anos depois e pela qual tanto se bateu nos nossos dias Saldanha Marinho – diz Muniz Tavares, padre romano, a lei não autorizava a abjuração da fé católica; prevenia os horrores do fanatismo com o princípio salutar da tolerância religiosa.
Para mais enfraquecer ainda a causa republicana, Pedro da Silva Pedroso, homem de maus instintos, promovido a coronel do regimento de artilharia; o mesmo que ordenava aos seus soldados matar indistintamente os marinheiros; que fez soltar todos os presos da detenção; que matou o alferes Drogo e o tenente José Hipólito quando davam vivas a d. João VI, encontrando um desertor, disse-lhe bruscamente: “Prepare-se para morrer”. E sem provas, sem processo, sem interrogatório, fuzilou imediatamente o pobre soldado que recebeu três descargas, indo ainda agonizante falecer no quartel.
Não obstante a grita que este facto provocou, ele o repetiu dias depois mandando fuzilar mais três desertores, sem defesa, fazendo que um se golpeasse a navalha, morrendo antes das balas lhe chegarem ao coração. Paudalho, Tracunhaém, Santantão e outras localidades, enfim todas as vilas de Pernambuco a excepção de Cabo, Igarassu, Itamaracá e Goiana, abraçaram novamente a causa real, sem que a nova república pudesse providenciar em sentido contrário.
Não era este ainda o golpe mortal da revolução.
Para dar combate às forças do marechal Cogominho fora destacado o coronel Francisco de Paula Cavalcante, aliás vencedor do combate de Utinga.
Sedento de glórias, Domingos José Martins que de negociante nunca passara a militar, membro preeminente do governo provisório, entendeu dever também tomar parte na luta de armas na mão e foi auxiliar as tropas de Cavalcante, que se sentiu em dificuldades diante de um agente da administração a quem devia obedecer.
Para dissipar as rivalidades, as forças se dividiram em duas colunas, uma para o litoral sob o comando de Domingos e outra para o interior sob a direcção de Cavalcante.
Aquele facilmente caiu prisioneiro, após a fuga em que ficou desbaratada toda a sua guerrilha, e este, diante de um insucesso das armas pelo valor numérico do inimigo, não sendo obedecido pelos seus soldados que fugiam, seguiu também a sorte dos seus dirigidos.
Neste eclipse da democracia pernambucana houve um rasgo tão extraordinário, que não deve ser olvidado no ligeiro estudo que estamos fazendo sobre a página brilhante da história da nossa emancipação, cujos caracteres foram todos traçados com o sangue dos nossos avós.
Antônio José Vitoriano Borges de Almeida, tão magnânimo e prudente como bravo, elevado de capitão de artilharia a coronel do exército republicano, tomou parte com 100 homens apenas, no combate de Utinga, tão fatal à causa dos libertadores. E a vitória ser-lhe-ia infalível se pendesse somente do seu valor e ciência militar. O general Suassuna, comandante em chefe, porém, tocou retirada e Vitoriano foi obrigado a abandonar o campo com os seus bravos, quando a sorte das armas se inclinava para as suas baterias, com a fuga dos realistas.
Novamente dias depois, em Ipojuca, enfrentou o inimigo às cinco horas da tarde com o seu reduzido número de combatentes. Debalde as suas peças vomitaram fogo. Tudo se perdera. Martins caíra prisioneiro e Suassuna fora obrigado a salvar a vida, por não poder salvar a liberdade.
Quando todos abandonaram o campo da honra, revestido da mesma bravura com que Múcio Scevola diante do rei de Roma atirou a mão a uma fogueira depois de se haver tornado herói contra os etruscos, Antônio José Vitoriano Borges de Almeida, resolvido a não sobreviver a tanto infortúnio, sentou-se fleumaticamente sobre uma peça de artilharia, tapou os olhos com um lenço e diante do inimigo que dizimara, esperou o seu fim.
O marechal Melo, vendo o campo abandonado, aproximou-se dos destroços e ao único subsistente indagou, espantado de tanta coragem:
- Quem sois?
- Um pernambucano livre que comandou estas peças em nome da pátria independente.
O vencedor tratou o corajoso vencido como um herói, cuja bravura teve de arrefecer com quatro anos de reclusão na Haia, até ser amnistiado em 1821.
VIII
Estava agonizante a república. O governo provisório reduzido a dois membros – Domingos Teotônio e padre João Ribeiro Pessoa – entendeu que o único remédio era a capitulação. Foi recusada.
Rodrigo Lobo, soberbo, arrogante, respondeu ao parlamentar, aliás o mesmo que denunciara a revolução a Caetano Pinto: Submissão sem condições.
Domingos Teotônio, governador das armas, arvorou-se em ditador. Replicou mandando um ultimatum ao comandante do bloqueio e, sem esperar resposta, partiu do Palácio da Soledade, sede do governo, com as tropas que lhe eram fiéis, a 19 de Maio.
Não nos furtamos ao desejo de mostrar como Muniz Tavares, testemunha ocular, colore essa página de um ocaso:
“Às quatro horas da tarde desse mesmo dia 19, começaram a desfilar os soldados para a cidade de Olinda, precedidos pela escolta que protegia os carros já indicados.
“Divisava-se por toda parte o silêncio da morte; a paixão violenta torna o homem estúpido: marchavam todos incertos, nenhum ponto determinado tinha sido escolhido para fortificação e defesa; caminhava-se para o norte da província talvez pela consideração de fidelidade das duas principais vilas de Igarassu e de Goiana, na primeira das quais se achava ainda José Mariano com a sua pouca gente. “O ditador marchava a cavalo em frente das tropas com dois ajudantes de campo; dos membros do dissolvido governo provisório, via-se somente o padre João Ribeiro Pessoa, que caminhava a pé, com um saco às costas e uma espingarda ao ombro; de perto com o mesmo trem o seguia o padre Pedro de Souza Tenório. Dos conselheiros, o desembargador Antônio Carlos foi o único que se resolveu acompanhar os que se retiravam, determinado a expor a vida pela causa, que com predilecção abraçara. Os demais tinham-se ocultado nas suas casas, uns esperando com estoicismo as afrontas e a morte, outros meditando engenhoso subterfúgio para evitá-la. Ao escurecer da noite chegaram todos no engenho Paulista, não muito distante de Olinda e ali se aquartelaram.” (págs. 196 e 197).
No dia 20 de Maio, estando a cidade do Recife em abandono, foi proclamada sem oposição a autoridade portuguesa. Cogominho ocupou a capital com a sua tropa de terra e Rodrigo Lobo, desembarcando no meio de salvas de artilharia, tomou posse do governo da província.
A nova tentativa do governo republicano desapareceu ainda uma vez assim para os domínios da história pernambucana ou para as páginas brilhantes dos feitos do Brasil, pois, segundo Oliveira Lima (prefácio ao livro de Alfredo de Carvalho Notas Dominicais, de Tollenare), “quem diz história pernambucana diz história brasileira, porque as guerras e revoluções de Pernambuco interessaram e agitaram todo o Brasil que por umas deixou de ficar metade holandês e por outras deixou de ficar nacionalmente esquartejado”.
IX
Ao insucesso da revolução, seguiram-se o morticínio cruel dos patriotas e as barbaridades contra os que escaparam das balas e da forca.
A primeira vítima, como vimos, foi o padre José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, denominado
Padre Roma, emissário da revolução para propagada na Baía.
Preso a 27 de Março, foi julgado no