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A Maçonaria, antes e depois de Abril

✍️ Desconhecido 📅 17/04/2024 👁️ 5 Leituras

25 de Abril, maçonaria

Quando Adelino da Palma Carlos, famoso advogado e assumidamente maçon, tomou  posse a 16 de Maio de 1974 no cargo de primeiro-ministro do Iº Governo Provisório, a Maçonaria encontrava-se, paradoxalmente, à beira da extinção. Palma Carlos era um entre apenas uma centena de maçons em todo o país, número exíguo esse fruto da publicação a 21 de Maio de 1935 da lei que ilegalizava e dissolvia as alegadas “associações secretas” e que levou Fernando Pessoa a defender publicamente a Maçonaria.

Embora a Maçonaria se classifique como “uma associação discreta” e não secreta, tendo os seus membros toda a liberdade para assumirem publicamente a condição de maçons, foi alvo da perseguição permanente por parte da ditadura que via no modelo de reunião e de fraternidade maçónico uma ameaça para o regime autoritário. O Estado corporativo de Salazar não era compaginável com a existência de uma Maçonaria social e profissionalmente transversal, tolerante, igualitária e – por isso mesmo – disruptiva aos olhos de um ditador desconfiado e avesso a plataformas de diálogo, interno ou externo.

O longo período de opressão, sob Salazar primeiro e Marcello Caetano depois, obrigou, pois, ao “abater de colunas” das lojas maçónicas, à paralisação das iniciações e a reuniões clandestinas por parte dos poucos maçons que ainda persistiam em juntar-se de forma ativa, sob um manto de sigilo e perigo, sendo muitos outros forçados ao exílio fugindo à PIDE, que exercia uma vigilância constante sobre os suspeitos de atividades maçónicas, considerando-os inimigos do regime.

O 25 de Abril de 1974 marcou assim uma viragem decisiva para o renascimento das cinzas da Maçonaria. O golpe de Estado que derrubou a ditadura libertou o país de décadas de repressão e permitiu que a Maçonaria retomasse as suas atividades abertamente, reconstruindo lojas e iniciando novos membros. Se a Maçonaria existe, tal se deve às liberdades de associação e de expressão recuperadas nessa madrugada de há 50 anos, que agora tão justamente celebramos através de múltiplos eventos e homenagens.

Desde então, a Maçonaria em Portugal tem vivido um período de crescimento e renovação. Com mais de 3500 maçons regulares espalhados por todo o território nacional, demonstramos agora uma vitalidade e uma relevância que não devem, no entanto, fazer esquecer o período de obscuridade e perseguição. Como os Irmãos ucranianos, obrigados ao exílio com a invasão russa, nos lembram, o totalitarismo é nosso vizinho, à espreita, intolerante e opressor.

Mesmo hoje, em democracia, sendo as lojas maçónicas não mais do que locais de encontro para homens de diversos estratos sociais, unidos pelo desejo de se melhorarem a si mesmos e à sociedade em que se inserem, a Maçonaria enfrenta ainda preconceitos e desconfianças. Cinquenta anos após a reconquista da liberdade, persistem visões deturpadas sobre as atividades e os propósitos da Maçonaria, alimentadas por estereótipos e desconhecimento. Tais perceções ignoram o papel construtivo que desempenhou e continua a desempenhar na promoção de valores éticos, na defesa da liberdade, da tolerância e na luta pela justiça social.

Como escreveu A. H. de Oliveira Marques, “estudar a Maçonaria do nosso país é o mesmo que estudar a História de Portugal, pelo menos a partir de 1817.” De um período marcado pela perseguição e pelo medo até à nossa afirmação como uma fraternidade vibrante, a Maçonaria demonstrou sempre uma capacidade notável para se adaptar, mesmo nas circunstâncias mais adversas. Representa, assim, um testemunho da força dos ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que sustentaram tanto o espírito do nosso 25 de Abril, como da Revolução Francesa ou da norte-americana.

O nosso legado e ação – internamente nos nossos trabalhos ou solidariamente juntos da sociedade civil – refletirão sempre as qualidades de um país que aprendeu, com Abril, a valorizar a diversidade das vozes na riqueza do diálogo construtivo para o desenvolvimento da cidadania e o assegurar desse valor precioso que será sempre, acima de todos os outros, o da liberdade.

Armindo AzevedoGrão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

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