A Liderança e o Venerável
A liderança pode ser considerada como uma das funções mais importantes e mais difíceis de serem exercidas em qualquer actividade humana.
Nas Lojas maçónicas a liderança do Venerável Mestre é de fundamental importância para a direcção dos trabalhos, realização de projectos, dinamismo e união dos Irmãos, até porque cada Maçom em particular se considera um líder e o confronto de líderes pode gerar conflitos.
É importante, também, distinguir entre liderança e autoritarismo. São concepções distintas. O autoritário é impositivo, dominador, arrogante, despótico e impõe-se pelo poder (Publicado em freemason.pt) que detém. O líder, por sua vez, é ético, confiável, sensato, cheio de energia, humilde, ansioso por aprender e destaca-se pela competência em tratar com pessoas e com coisas.
Afinal, o que é liderança e qual a razão do tema?
Liderança é a capacidade de fazer com que todos remem na mesma direcção, estimulados por um objectivo comum a todos.
É exactamente isto que os membros de uma Loja precisam de fazer: remar na mesma direcção, estimulados pelo Venerável Mestre.
Alguns maçons quando são eleitos Veneráveis Mestres de suas lojas e após assumirem os seus cargos, presumem que serão seguidos, naturalmente, pelos irmãos do quadro. Este é o primeiro engano.
Outros, acreditam que a leitura de livros sobre liderança os tornarão aptos para o exercício da função de Venerável Mestre. Segundo engano.
Muitas pessoas que desejam se tornar líderes, compram livros e assistem a seminários na esperança de alcançarem seus objectivos. Essas iniciativas geram um sentimento de satisfação nelas mas, na prática, a liderança acaba sendo o resultado das acções conduzidas por uma pessoa. É bom que haja um projecto operacional capaz de dar rumo a loja, desde que haja participação e comprometimento de todos os membros do quadro na sua implementação. Se o resultado de um projecto desses ou de outro qualquer for positivo e aceite por todos, fará com que o condutor do projecto, no caso o Venerável Mestre, seja considerado por todos os irmãos do quadro e de outras lojas, um líder.
Por outro lado, é possível, também, pesquisar as biografias dos grandes líderes e procurar pistas sobre as suas habilidades; no entanto, os benefícios desse esforço serão ínfimos porque os autores desses livros biográficos descrevem apenas o que os líderes realizaram, mas não descrevem como e porque o realizaram. Na verdade, os próprios líderes pouco dizem como se (Publicado em freemason.pt) tornar um líder, porque não existe fórmula alguma para liderança. Há uma frase célebre: “Não importa o que o líder faz, mas sim o que o líder é“. O próprio líder não consegue reconhecer as suas características individuais e que fazem com que as pessoas o sigam, mas as pessoas respondem a essas características. Portanto, somente observações ao longo dos anos podem tornar esta perspectiva nítida.
O líder, por sua vez, deve utilizar não só a cabeça, mas também o coração. A liderança, na sua essência, deve tocar o coração e a alma. Ela está, quase sempre, fundamentada numa conexão emocional e não racional.
Philip Crosby tem uma definição de liderança muito interessante e que é a seguinte:
“Liderança é, deliberadamente, fazer com que as acções conduzidas por pessoas sejam planeadas, para permitir a realização do programa de trabalho do líder”.
Adaptando esta definição para a linguagem maçónica, poderíamos ter algo assim:
Liderança é, deliberadamente, fazer com que as acções executadas pelos Irmãos da Loja sejam planeadas para permitir a realização do plano de trabalho do Venerável Mestre.
Precisamos desdobrar alguns elementos da definição para tornar a mensagem mais compreensível.
“Deliberadamente” significa que a Loja deve eleger um determinado caminho e um propósito, estabelecendo objectivos e metas claros na mente de todos os Irmãos. Significa, ainda, que o Venerável Mestre deve escolher cuidadosamente os membros para compor o seu Quadro de Oficiais e que conduza todos numa mesma direcção..
“Ações executadas pelos Irmãos” significa que os objectivos e metas devem ser alcançados por meio de acções empreendidas por todos os Irmãos e não acções executadas por um pequeno grupo deles.
“Planeadas” significa programar uma sequência de eventos que permita que os Irmãos saibam, exactamente, aquilo que vai acontecer e o que se espera que cada um faça.
“Plano de trabalho do Venerável Mestre” refere-se às realizações específicas que o Venerável realmente deseja.
Portanto, caros Irmãos, para o exercício pleno da liderança é preciso seguir alguns princípios fundamentais:
- Um programa de trabalho claro e definido.
- Uma filosofia individual.
- Relações duradouras.
Aqueles que desejam ser líderes precisam de compreender, assimilar e implementar estes princípios de liderança.
Liderança envolve um trabalho árduo. Muitos dos que aspiram ao papel de líder, não conseguem desempenhá-lo. Outros, têm os atributos adequados, mas nunca chegam a fazer qualquer coisa a respeito.
Existe uma ideia tradicional de que os líderes querem praticar o bem. Contudo, nem todo o líder tem um programa voltado para a prática do bem. Frequentemente, a liderança é uma arte da qual se abusa.
Conheço um caso em que o Venerável de uma Loja, que decidiu levar a sua Loja para outra Obediência em troca da isenção de cobrança das taxas e dos rituais por um período (Publicado em freemason.pt) de dois anos. Um caso típico de liderança negativa. Dignidade maçónica sendo “vendida” por um punhado de papéis e uns míseros trocados. Indignidades do Grão-Mestre (?!) corruptor e do Venerável corrompido, ambos líderes, porém, sem princípios éticos e morais.
Confesso que gostaria de me estender muito além do que foi até aqui exposto, por se tratar de um assunto palpitante, complexo e controverso quanto à sua interpretação, mas, por outro lado, devo respeitar o limite de tolerância dos Irmãos em termos de tempo para leitura e também de espaço ocupado.
Para finalizar, permito-me apresentar a seguir, um quadro que mostra os cinco perfis de liderança quanto à personalidade e características peculiares de seus agentes.
A grade de liderança – Personalidades
| Destruidor | Procrastinador | Paralisador | |
| Programa de trabalho | “Agora faremos isto deste modo”. | “Vou colocar este assunto sob o malhete. Mais tarde voltaremos e ele”. | “Esteja certo de que isso não viola nenhum regulamento”. |
| Filosofia | “Tenho mais conhecimento que o Irmão”. | “Não vamos apressar as coisas”. | “Não se preocupe com aquilo que funciona” |
| Relacionamentos | “Não preciso dos Irmãos” | “Vamos ver primeiro como eles, lá do(a) Grande “X”, reagem”. | “Faremos como sempre fizemos”. |
| O que vemos? | Uma pedra bruta grosseira e insensível. | Um indivíduo relutante, nervoso e inseguro. | Um indivíduo congelado no tempo. |
…
A grade de liderança – Personalidades (continuação)
| Planeador | Realizador | |
| Programa de trabalho | “Mostre a estratégia para que todos os Irmãos possam vê-la”. | “Revisaremos os pontos de referência, mensalmente”. |
| Filosofia | “Quero que sejamos coerentes em tudo”. | “Quero que todos conheçam nossa filosofia”. |
| Relacionamentos | “Precisamos de ter mais encontros e seminários etc.”. | “Vamos incluir outras Lojas e Irmãos”. |
| O que vemos? | O progresso planeado. | Um indivíduo vibrante e coerente. |
Adaptado de Philip Crosby – Princípios Absolutos de Liderança, pág. 22.
Anatoli Oliynik
