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A lenda do Mestre Hiram

✍️ Desconhecido 📅 14/10/2023 👁️ 6 Leituras

Hiram Abiff

A seita cainita

Entre as antigas seitas gnósticas, a que mais influenciou nas tradições maçónicas foi a seita dos cainitas, tidos por muitos autores como os verdadeiros criadores da Lenda de Hiram. Estes místicos cultores da Cabala filosófica formavam uma seita mística, compreendida principalmente por judeus heterodoxos, cuja doutrina tinha como objectivo a integração de antigas tradições judaicas com ensinamentos cristãos desenvolvidos principalmente pelos pitagóricos e hermetistas, doutrinas essas muito em voga nos séculos II e III da era Cristã.

Eles consideravam-se descendentes directos de Adão, numa linha genealógica que vinha de Cain, a partir do seu descendente Tubalcain, mestre artesão, hábil trabalhador de martelo e fundidor de obras de bronze, segundo a Bíblia [1].

Os cainitas desenvolveram uma tradição, segundo a qual Cain era filho adulterino de Eva com um anjo rebelde de nome Samael. Esta tradição, que faz parte do Shepher-ha-Zhoar, o livro da Cabala judaica, atribui à estirpe de Cain uma família de demónios, entre os quais figuram as irmãs de Tubalcain, Noema e Lilith, famosas demónios fêmeas que fazem parte das tradições da Cabala e das doutrinas teosóficas, como sendo mães de grupos humanos que se desenvolveram à parte do ramo hebraico contemplado pela Bíblia, como sendo aquele que Deus viria, mais tarde, escolher como seu favorito.

Segundo tradições teosóficas, e também defendidas pelos cultores da Cabala mística, Adão não foi o primeiro ser humano criado por Deus. Ele foi o precursor de uma raça, criado segundo um modelo conhecido como Adão Kadmo, protótipo celeste modelado a partir de um arquétipo dos anjos construtores do universo, chamados de Elohins. Por isso é que na Bíblia, a criação do homem é narrada no plural, como se ele fosse modelado à imagem de um grupo e não de uma Entidade em particular. Esta tradição explicaria também a aparente contradição existente no Génesis que fala de um casamento de Cain com uma mulher que não seria pertencente à família de Adão [2].

Segundo a Cabala, Jeová não é o nome verdadeiro de Deus, mas sim, uma das manifestações energéticas de Deus, que se torna o Anjo Mestre da Fraternidade dos Elohins, mestres construtores do universo. O seu verdadeiro nome é Jehová Tsabaoth e Ele preside, juntamente com os seus anjos, a construção material do mundo, controlando as leis naturais que conformam e organizam a evolução física do universo, e o desenvolvimento da criação, através das leis genéticas e morais que presidem o fenómeno da vida [3].

Hiram Abiff

O personagem que os maçons conhecem por Hiram Abiff é de difícil caracterização. Nas crónicas bíblicas ele é citado duas vezes: Em Reis- 13, há uma referência a ele como sendo um israelita da tribo de Naftali, perito fundidor de obras de bronze; mas já nas Crónicas (Paralipómenos) , ele é citado como sendo filho de uma mulher da tribo de Dan, perito, não só em fundição de metais, como também na confecção de obras de madeira, tecelagem , escultura etc.

Desta forma, Hiram aparece na Bíblia como um mestre artesão ligado à tradição dos fundidores, dos metalúrgicos, dos “sopradores”, (como eram conhecidos , na Idade Média, os trabalhadores de forja), o que remete a uma ligação simbólica com Tubalcain, o artesão, que segundo a Bíblia, foi quem ensinou à humanidade a arte da metalurgia. Assim, por via directa, Hiram está ligado à Cain, filho amaldiçoado de Adão [3].

Ambelain, um dos mais argutos escritores maçónicos, refere-se à uma antiga tradição que faz de Séfora, a esposa de Moisés, uma cainita, pois que ela era filha de Jetro de Madian, líder de um importante centro de fundição localizado no oásis que leva aquele nome. De acordo com este autor, o oásis de Madian, onde Moisés se acoitou depois de fugir do Egipto, abrigava uma tribo que descendia directamente da família de Cain. Assim, desta fonte cainita Moisés teria recebido os ensinamentos secretos (iniciáticos) que não se encontram expostos na Torá, mas que foram repassados por tradição oral aos sacerdotes levitas e conservados pelos essénios, que por sua vez os legaram aos cainitas cristãos. E estes, em consequência, os desenvolveram no corpo doutrinário que se convencionou chamar de Cabala, cujo conteúdo estaria exposto no Zhoar.

A este respeito, diz, textualmente o citado autor: “ Hiram, por seu pai Ur, descende de Tubalcain, e por ele, em linha directa, de Cain e Samael. Este, na tradição judaica, é o Anjo Rebelde, o Tentador, o Anjo da Morte ( e por morte ritual a Maçonaria sacraliza o profano) (…) Desta estranha tradição nasceu um costume, o de denominar “vale” o lugar onde se reunissem certos altos graus da Maçonaria (….) No século XVIII um grupo (de maçons) tomou o nome de “ Filhos do Vale”. Num dos altos graus maçónicos, onde os membros se reúnem num “vale”, o presidente da Loja leva o nome de “ sapientíssimo Athersatha”, (….) Este nome, traduzido do hebraico, significa “Prodigioso fundidor do deus forte” [3].

A Lenda de Hiram

Portanto, a lenda de Hiram Abiff, construtor do Templo de Salomão, e considerado como o “maior dos maçons”, é oriunda de antigas tradições cabalísticas e entrou na Maçonaria através dos“ maçons aceitos”, nos primeiros anos da Reforma religiosa, quando a repressão católica contra as chamadas doutrinas heréticas atingiu o seu auge. Entre estes novos “irmãos”, que não pertenciam à classe dos pedreiros livres, nem dos artesão, ou de qualquer outra classe organizada na forma de corporação de ofício (guildas), haviam inúmeros judeus que tinham adoptado o Cristianismo como religião, para fugir dos tribunais da Inquisição. Eram os chamados “cristãos novos” [4].

Assim, a Lenda de Hiram é de clara inspiração gnóstica e tem origem na tradição da Cabala. Da mesma forma que ela é uma adaptação do drama osírico, as analogias que mais tarde se fizeram entre ela e Paixão de Cristo são frutos da licenciosidade interpretativa que as alegorias desse tipo permitem aos espíritos de imaginação fértil. E este talvez tenha sido o objectivo dos seus formuladores.

É importante, entretanto, ter em mente que tais concepções só são aceitáveis do ponto de vista filosófico, do praticante do livre-pensamento, que se acredita ser o Maçom. Na verdade, o Gnosticismo é uma forma alternativa de se explicar o mundo. Se as suas concepções chocam-se com as doutrinas oficiais, não há que se ver aí qualquer motivo de escândalo. As tradições cainitas são apenas uma das teses que foram levantadas sobre a origem e o desenvolvimento da humanidade. Do ponto de vista meramente académico merecem ser analisadas com o mesmo respeito, (e cuidado), que aquelas veiculadas pela Bíblia ou pela ciência oficial.

Na nossa obra “Conhecendo a Arte Real”, discorreremos com mais profundidade sobre o conteúdo da Lenda de Hiram e a sua influência gnóstica, bem como a sua origem cainita. Por ora é suficiente lembrar que a maioria das tradições dos antigos povos associa o despertar da consciência humana, a aquisição do conhecimento e os primeiros rudimentos de ciência a uma “rebelião” que afastou o homem dos deuses. Na Bíblia essa “rebelião” está, de certa forma, conectada com a família de Cain. Dela, por descendência directa, sairiam os personagens Jubal, Jabel e Tubalcain, que na tradição maçónica estão conectados com o Drama de Hiram. As associações que se podem fazer entre esses personagens e o simbolismo da Loja de Companheiros correm por conta do conhecimento e da intuição dos irmãos, mas a partir dessas informações já é possível pressentir uma explicação para a estranha trama que envolve o arquitecto do Templo do Rei Salomão. Esta trama, como é do conhecimento dos irmãos, culmina com o assassinato do Mestre Hiram pelos Irmãos Jubelos e a ocultação do seu cadáver numa cova rasa aberta no Monte Líbano. E depois, as exéquias e os rituais desenvolvidos nos funerais do Mestre são as alegorias que fundamentam a liturgia dos graus filosóficos. Por isso, é de fundamental importância que os irmãos, ao se iniciarem nos graus superiores da Maçonaria, tomarem conhecimento dessas e de outras tradições que fundamentam os conhecimentos da Arte Real [5].

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Robert Ambelain – A Franco Maçonaria, Ed. Pensamento, São Paulo, 1988

[2] Helena F. Blavatsky – A Doutrina Secreta- Ed. Esfinge, São Paulo, 2001. A Bíblia fala que Cain, depois de ter matado o seu irmão Abel, deixou a terra onde vivia a sua família e foi viver noutro local, onde se casou e gerou filhos. Sempre se perguntou de onde teria saído a mulher de Cain se a família de Adão foi a primeira célula mater criada por Deus?

[3] Ambelain, op citado. Por isso, na Bíblia, a criação do homem é descrita no plural, como obra de um grupo e não de uma entidade em particular. “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, diz o Senhor, como se estivesse falando com alguém mais.

[4] Conhecendo a Arte Real, Madras Editora, São Paulo, 2007. Isto explica também o facto de os maçons espiritualistas, na maioria adeptos da alquimia, terem adoptado a lenda de Hiram, artesão metalúrgico, como uma das suas alegorias fundamentais

[5] Idem, op citado..

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