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A iniciação Maçónica enquanto rito de passagem

✍️ Desconhecido 📅 24/11/2022 👁️ 6 Leituras

iniciação

Este trabalho trata do ritual de iniciação, considerando o seu papel como uma experiência criada e estruturada para transformar Candidatos em verdadeiros Maçons. Para tanto, comparamos a Iniciação Maçónica com outros ritos de passagem e procuramos identificar os elementos que desempenham esse papel transformador no carácter do Candidato bem como os factores que reflectem os ideais da ordem e o distinguem de outros rituais de iniciação.

A realização de cerimónias especiais com o objectivo de marcar a transição entre determinados momentos na vida de um indivíduo é uma característica inerente à vida em sociedade desde tempos imemoriais. Esta tradição começava no próprio seio familiar, culminando, mais tarde, em diversos ritos responsáveis por transformar a condição social do indivíduo perante a comunidade. Frequentemente, tais ritos de passagem eram apenas uma mera afirmação solene de facto natural ou social já consumado [1], mas havia também cerimónias com o objectivo de conduzir o indivíduo a um novo estado de consciência, conhecidas como Rituais de Iniciação. O presente trabalho esboça de forma sucinta as características deste género de ritual, reconhecendo a importância da iniciação maçónica.

O principal aspecto dos rituais de iniciação é o abandono de uma condição inferior ou impura em prol de uma relação superior com o Sagrado, geralmente através de uma morte e renascimento simbólicos. Os elementos simbólicos da iniciação podem revelar-se em visões e transes místicos — como ocorre nas jornadas xamânicas — ou através de ritualística consistentemente conduzida, por um grupo de veteranos, com o objectivo de proporcionar uma experiência verdadeiramente transformadora naquele que se inicia. Neste contexto a iniciação maçónica, em contraste ao primeiro caso que resulta numa experiência mística pessoal e imprevisível, apresenta-se como uma jornada simbólica deliberadamente concebida para sublimar o Candidato, esclarecendo-lhe a razão e despertando qualidades indispensáveis ao cumprimento dos seus futuros deveres de neófito.

A finalidade transformadora do ritual evidencia-se logo na sua primeira etapa, durante a prova da terra. Símbolos relativamente acessíveis à compreensão profana, tais como o esqueleto humano, o pão, a ampulheta e texto de advertência cumprem o indispensável papel de conduzir o Candidato a uma postura de recolhimento e auto-reflexão capaz de reprimir aspectos negativos da personalidade que poderiam obstruir os elevados objectivos da iniciação. Paralelamente, outros símbolos de significado hermético [2] operam num nível de consciência mais elevado, providenciando novas camadas de conhecimento, acessíveis apenas através de dedicado estudo. Indecifráveis à maioria dos Candidatos, a presença de tais símbolos serve de aviso à sua condição de ignorância e aguça a sua sensibilidade para as lições que virão em seguida.

E estas lições são inúmeras: o desnudamento de um lado do corpo, a cegueira imposta e os esclarecimentos do Venerável Mestre diante das respostas incompletas do Candidato convidam à humildade; a Taça Sagrada ensina a temperança; a prova do Ar pede constância; a da Água, abnegação; a do Fogo, entusiasmo; e o Juramento, finalmente, demanda discrição e lealdade, virtudes indispensáveis a todo Maçom, cujo desenvolvimento e contínuo exercício garantirá que não se perca no meio do caminho. Embora algumas destas lições sejam tradicionalmente chamadas de provas, observa-se que elas estimulam e ensinam o Candidato ainda mais do que o testam, e eis aí outro facto que evidencia a finalidade eminentemente doutrinária da cerimónia.

As diversas etapas que compõem o ritual de iniciação maçónica são os primeiros golpes de cinzel, que preparam a pedra bruta para que possa atingir a beleza e estabilidade às quais está destinada. Conduzem o Candidato dos domínios profanos da ignorância para a sublimação gradativa dos seus vícios, demandando-lhe responsabilidades amparadas do braço firme do conhecimento. Importante notar que as observações expostas acima não passam de uma percepção superficial e incompleta da realidade maior que a iniciação nos oferece e que os conhecimentos ocultos no simbolismo do ritual acompanharão o Maçom por um longo período – quiçá por toda a vida – revelando-se gradativamente, em razão da maturidade espiritual à qual o seu esforço e dedicação o conduzam. Tal qual ocorre nos factos naturais da vida, que são percebidos diferentemente em cada fase da existência humana, assim também são os factos maçónicos aos olhos do obreiro humilde e laborioso..

Dayvisson Magalhães Alves, M∴ M

Notas

[1] Como as cerimónias que tratavam da puberdade ou do nascimento, por exemplo.

[2] Entre estes, destaco o Sal, o Enxofre e o Mercúrio, além do simbolismo da Caverna Iniciática, representada pela abreviação VITRIOL e pela própria Câmara de Reflexões.

Bibliografia

  • CARVALHO, William Almeida. Rito de Iniciação: Uma Abordagem Antropológica. 2007. Online. Disponível em: http://www.freemasons-freemasonry.com/1carvalho.html
  • DA CAMINO, Rizzardo. Simbolismo do Primeiro Grau. Ed. Madras, São Paulo, 1998.
    DUARTE, Jan. Iniciação e Ritos de Passagem. Online. Disponível em: http://www.casadobruxo.com.br/textos/magia99.htm
  • Câmara de Reflexões. Online. Disponível em: http://cidademaconica.blogspot.com/2007/07/cmara-de-reflexes.html
  • Iniciação, Morte e Renascimento do Xamã. Online. Disponível em: http://www.xamanismo.com/jaguar/universo_4.asp

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