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A cabala e a Maçonaria: reconhecimento de uma ancestralidade judaica (II)

✍️ Desconhecido 📅 19/02/2024 👁️ 6 Leituras

árvore da vida, cabala

Arquitectura, Cabala e Árvore da Vida

Muitos dos detalhes de um templo maçónico no seu interior são modelados por aspectos do Templo do Rei Salomão, como descrito na Bíblia e em outros registros históricos. Um maçom é instruído por simbolismo, e muito desse simbolismo é baseado nos relatos do Templo de Salomão. O Templo foi construído no século X a.C. no Monte Moriá, em Jerusalém. Salomão construiu-o como um templo honrando Deus e para guardar a Arca da Aliança, a qual continha as tábuas dos Dez Mandamentos dadas por Deus a Moisés.

Os detalhes do Templo de Salomão são descritos na Bíblia em Reis 1 e Crónicas 2.

A moderna loja maçónica funciona numa sala rectangular, com assentos ao redor do perímetro. O cerimonial da loja acontece no centro da sala, para que todos tenham uma boa visão. As lojas são geralmente orientadas de leste a oeste. Os templos antigos foram construídos desta forma mas hoje este paradigma tem de ser adaptado. Por tradição entra-se numa loja pelo ocidente ficando em frente o Oriente onde está um estrado onde se senta o Venerável Mestre.  Neste sentido o ritual do Primeiro Grau do Rito Escoces Antiguo e Aceptado do Grande Oriente de Espanha de 1931 [1]:

A Logia de Aprendiz en el Rito Escocés deberá esta¡ tapizada de rojo o cubiertas sus paredes de colgaduras encarnadas. La forma de la Cámara es rectangular. denominándose cada uno de los lados del rectángulo, o más propiamente, cada uno de los sitios que se hallan delante de las cuatro paredes, Oríente, Occidente, Norte y Mediodía. El suelo es de mosaico, constituido por cuadrados iguales, blancos y negros, y el techo está pintado, representando un cielo estrellado. Del Oriente parten rayos luminosos, cuya intensidad disminuye hacia el Occidente, donde aparece el celaje cubierno de nubes.

E mais adiante:

La entrada a la Cámara se efectua por una sola puerta. colocada en el centro de la pared de Occidente. correspondiendo a uno de los lados menores del paralelogramo. Las paredes mayores, o sea las del None y Mediodía, se hallan divididas por cinco columnas equidistantes: en los intervalos se dibujan atributos masónicos.

Há um altar onde a Bíblia (ou outro livro sagrado para os membros da loja) é aberto. Este livro é referido  nos rituais como o Volume da Lei Sagrada. Nas lojas americanas o altar está no centro da sala, mas noutros países o altar está usualmente em frente à cadeira do Mestre [2]. Este circunstancialismo varia também de Obediência para Obediência de acordo com a respectiva tradição, sendo mais diversa na maçonaria liberal de que são exemplo os Grande Orientes e a Fédération du Droit Humain (FDH).

Nos rituais do FDH não há referência explicita à Bíblia nem a um Livro da Lei Sagrada. Menciona-se um “Livro da Lei” dizendo-se que é função do Experto dispor sobre o Altar das Promessas a Constituição Internacional (do Le Droit Humain), aberta pela Declaração de Princípios “e se se usar outro livro, situar esta sobre ele” [3]. O Experto dispõe o compasso aberto sobre o Livro, com a cabeça voltada para o Oriente e o Esquadro cobrindo os dois braços do Compasso.

Três velas são colocadas numa posição triangular ao lado ou ao redor do altar, para iluminar o Volume da Lei Sagrada [4]. Usualmente são suportadas por castiçais altos ou posicionadas em cima das colunetas que rodeiam o altar. Esta disposição é comum aos vários ritos.

Os oficiais ocupam cadeiras em posições específicas na sala que podem variar de rito para rito. O Venerável Mestre está no leste, numa plataforma elevada a que se acede por três degraus (na tradição actual). O Primeiro Vigilante está no oeste numa plataforma de dois degraus, e o Segundo Vigilante está no sul numa plataforma de um degrau. Dadas a limitações das lojas e a sua inserção em pisos de edifícios algumas destas exigências decorativas podem ser aligeiradas. No Rito de York o Primeiro Vigilante senta-se no Ocidente e o Segundo Vigilante na coluna do Norte onde se sentam os aprendizes. No Rito Escocês Rectificado o Primeiro Vigilante senta-se ao lado direito (Sul) do Venerável Mestre no Oriente e o Segundo Vigilante no lado esquerdo (Norte) do Venerável Mestre no Oriente.

Há duas colunas altas com globos no topo, modelados segundo as duas colunas de cobre que davam acesso ao Templo de Salomão [5]. Os pilares estão geralmente dos dois lados do Primeiro Vigilante [6], a Oeste ou quando o espaço não o permite do lado de dentro da porta que dá acesso ao Templo.

Nas lojas americanas, uma letra G iluminada é suspensa sobre a cadeira do Mestre no Oriente, ou às vezes sobre o altar. Representa Deus e a ciência da geometria, que era o conhecimento secreto dos pedreiros originais. Nas lojas europeias, duas imagens do sol e da lua estão suspensas sobre a cadeira do Mestre de cada um dos lados do palco encontrando-se no meio um Delta Luminoso com o Olho-que-tudo-vê (All Seing Eye) [7].

Figura I

Lexington Lodge

Três colunetas estão colocadas à volta do tapete (Figura II): a da Sabedoria/Justiça (que está próxima da mesa do V.M. e o representa), a da Beleza (junto ao P.V.) e a Força (junto ao S:.V:.). quais se encontram associadas às virtudes cardeais (prudência, temperança, fortaleza e justiça) [8]. Essas colunetas são iluminadas em determinada sequência usualmente pelo Experto.

Figura II

Por exemplo no ritual do Primeiro Grau do REAA na FDH [9]:

La iluminación de esta Logia consta de tres Luces sobre los Pilares de la Belleza, la Fuerza y la Sabiduría. (…) Exp… viene a tomar la Luz del Ara de las Promesas, para iluminar sucesivamente las estrellas que se encuentran sobre los pilares, y en este orden: Sabiduría (V. M.), Fuerza (1er Vig.) y Belleza (2º Vig.).

Poderemos relacioná-las imaginando três linhas que correm respectivamente à esquerda à direita e ao centro a partir da entrada da loja e no caso da Árvore da Vida partindo de Malkhut e subindo pelos seus três braços (Figura III). Á esquerda temos um pilar reunindo a Compreensão, a Força/Justiça e o Esplendor. À direita temos um segundo pilar unindo a Sabedoria, a Bondade Amorosa e a Vitória. Ao centro temos um terceiro pilar unindo a Coroa, Deus (o Inefável), a Beleza, a Fundação e o Reino. Quer dizer Malkuth representa o mundo material (profano) onde procuramos aperfeiçoarmo-nos, talhando a pedra bruta que é o nosso próprio “eu”.

Figura III

A Criação e Hashem

Tomando a sequência do Génesis (Brreishis), o primeiro livro do Pentataeuco, “Ao princípio Deus criou o mundo” (Beresheis barach Elohim [10]) material ou universo numa série de acções sequenciais (da primeira à décima), por canais que Ele identificou e que interligam cada uma das esferas ou sefirah com a seguinte. No primeiro dia, Deus proclamou “haja luz” e a luz surgiu (Génesis 1:1-4). Daí resultou a separação entre a luz e a escuridão.

No segundo dia, Deus criou o céu e a atmosfera e separou as águas em estado líquido das águas em estado gasoso. Chamou ao firmamento Céu (Génesis 1: 6-8). No terceiro dia, Deus criou a terra seca, fez as águas que a cobriam recuar e com isso separar a terra seca dos mares (Génesis 9-10). Deus disse que a Terra produz verdura, erva como semente, arvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra segundo as suas espécies. No quarto dia, Deus disse “haja luminárias no firmamento do céu para separar o dia da noite. Servirão como sinais para o futuro por dias e anos. E Deus fez as duas luminárias a maior dominando o dia, a menor dominando a noite” (Génesis 1-14).

Aqui reside eventualmente a tradição no REAA de colocar o sol e a lua como luminárias da loja, o que indicia a influência da Tora no traçado dos rituais. Veja-se o ritual do Grau de Aprendiz, segundo anotação de Oswald Wirth [11]:

Qu’avez-vous vu en recevant la lumière ? Le Soleil, la Lune et le Maître de la Loge. Quel rapport symbolique y a-t-il entre ces astres et le M de la L ? Le Soleil représente la raison qui éclaire les intelligences, la Lune figure l’imagination qui revêt les idées d’une forme appropriée, et le Maître de la Loge symbolise le principe conscient qui s’illumine sous la double influence du raisonnement (Soleil) et de l’imagination (Lune). Où se tient le Maître de la Loge ? A l’Orient. Pourquoi ? De même que le soleil apparaît à l’Orient pour ouvrir la carrière du jour, de même aussi le Maître se tient a l’Orient pour ouvrir la L et mettre les ouvriers à l’œuvre.

No quinto dia, Deus criou os animais marítimos e as aves que vivem nos céus. Nas palavras da Torah: “Encham-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento do céu”. Assim Deus criou os gran­des animais aquáti­cos e os demais seres vivos que povoam as á­guas, de acor­do com as suas espécies; e todas as aves, de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom (Génesis 1: 20-23). E deu-lhes uma instrução “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham as águas dos mares! E multipli­quem-se as aves na terra”.

No sexto dia, criou os animais, todos que habitam sobre a terra seca. Nas palavras da Torah: “Produza a terra seres vivos de acordo com as suas espécies: rebanhos domésticos, ani­mais selvagens e os demais seres vivos da terra, cada um de acor­do com a sua espécie”. “E assim foi. Deus fez os animais sel­vagens de acordo com as suas espé­cies, os reba­nhos domésticos de acor­do com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies.” (Génesis 1: 24-26).

Mas na obra da criação Deus não se limitou aos animais da terra seca, criou também o homem e a mulher. Nas palavras da Tora “Façamos o homem à nossa imagem, con­for­me a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais ­que se movem rente ao chão”(Génesis 1: 26-27). Deus criou-os homem e mulher e disse-lhes “crescei e multipliquei-vos, enchei e dominai a terra. Deus vendo toda a sua obra considerou-a boa” (Génesis 1: 28-31). Terminado os céus e a terra e todo o seu conjunto foi completada toda a obra (da Criação) e Deus disse “este é a origem da Criação dos céus e da terra” “(Génesis 1: 28-31).

Lembra o anotador do Tanach que no sexto dia Deus criou os animais primeiro e depois o Homem [12]. Esta sequência implica que Deus disse a Adão: o mundo está nas tuas mãos, fá-lo funcionar de forma apropriada. Entre os seres vivos, o Homem foi dotado com moralidade, razão, e livre-vontade. Pode agora ligar-se a Deus e viver em harmonia com ele e pode guiar a sua acção pela razão. É neste sentido que o texto bíblico regere que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.

Figura IV

Dia Dia
1 Luz 4 Luminárias (Sol, Lua, Estrelas)
2 Céus 5 Peixes, Pássaros
3 Terra, Vegetação vária 6 Animais terrestres, Homem
7 Sabbath – Descanso

 

Existe uma sequência de acções desde o primeiro dia da Criação. O clímax é sétimo dia, o de descanso de Deus. Há uma distinção na adjectivação dos dias. Do primeiro ao sexto Deus assinalou que o deixou como obra “era bom” mas no sétimo Ele valoriza-o como “santificado”.  Deus é a unicidade do cosmos e a designação de Deus é uma etiqueta que se apõe na sua unicidade, o último, o todo incluso. Os judeus referem-se a Deus como Hashem o que significa “O nome”. O acto de atribuir o nome a algo expressa as limitações humanas, lembra Daniel Matt [13]. Ao atribuir nomes a coisas controlamo-las. Ao definir e classificar coisas nós confinamo-las à nossa compreensão.

Com a criação do homem ao sexto dia a obra da Criação ficou concluída, mas o Homem Primordial (o Adam Kadmon da Cabala [14]) ficou investido de uma missão especial: dirigir os outros animais, cultivar o Jardim do Éden e guardá-lo. Aquela sequência induz que Deus disse a Adão: o mundo está completo, agora está colocado nas tuas mãos; fá-lo funcionar de forma adequada [15]. Sabemos do mito da queda que as instruções dadas por Deus quanto à interdição de comer os frutos da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal foi desrespeitada. O homem foi por isso reconduzido à sua natureza de ser mortal e expulso do paraíso. Deus fez o homem à sua imagem neste sentido deu-lhe uma sinalética de divindade [16]. Mas o homem sabia que não era Deus.

A passagem não tem o sentido literal que a vulgata perpetuou. O raciocínio encoberto é que o Homem (Adão) não estava preparado para aceder à iluminação da Árvore do Conhecimento, pois não sendo Deus precisava provar-se digno de ter sido feito à imagem de Deus. Isso levaria à expulsão do homem do jardim do Éden e à punição: “maldita seja a terra por tua causa e deles só arrancarás alimento à custa do penoso trabalho todos os dias da tua vida. (…)

Comerás o pão com o suor do teu rosto até que voltares à terra de onde foste atirado; porque tu és pó e ao pó voltarás” (Génesis 3:17-19). E depois de o expulsar colocou a oriente do jardim os querubins com a espada flamejante para guardar o caminho da Árvore da Vida

(Génesis 3:20).

A queda e a imperfectibilidade humana

Este mito da imperfectibilidade do homem marcado pela queda no pecado original  é retomada pela maçonaria como ciência iniciática que possibilita, através da autotransformação, o renascimento do homem para a missão que Deus lhe confiou. Ora isso é só possível através do combate às imperfeições e a prática das virtudes que os rituais maçónicos contextualizam nas especificidades da Maçonaria Tradicional e da Maçonaria Liberal.

Isto é claro na descrição da pedra bruta realizada na cerimónia de iniciação [17]: “Pela pedra bruta somos lembrados de nosso estado rude e imperfeito por natureza; pelo perfeito ashlar daquele estado de perfeição em que esperamos chegar através de uma educação virtuosa, dos nossos próprios esforços, e da bênção de Deus” [18].

E mais adiante “pelo quadro de loja somos também lembrados que, à medida que o obreiro operativo erige o seu edifício temporal de acordo com as regras e os desígnios estabelecidos pelo Mestre na sua prancha, nós também deveríamos, tanto operativos como especulativos, esforçamo-nos por erguer o nosso edifício espiritual de acordo com as regras e os desígnios estabelecidos pelo Arquitecto Supremo do Universo, no grande livro do Apocalipse, que é a nossa prancheta espiritual, moral e maçónica”.

O ritual do Grande Oriente de França de elabora no mesmo sentido “nós maçons nos propomos construir um Templo sumptuoso em honra do Grande Arquiteto do Universo e todos somos obreiros laboriosos para levar a cabo a obra comum” [19].

E mais adiante “todos trabalhamos sob a direcção de um hábil artífice e lavramos as duríssimas pedras que hão de formar num dia colunas soberbas, abóbodas ousadas, artísticas balaustradas, surpreendentes embutidos, talhas magníficas afiligranadas e belas esculturas” . E qual é esse edifício?. “O edifício que construímos é um Templo moral. elevado à virtude, e seus fundamentos devem ser a honestidade, o amor a todos os homens. sem mais distinção que a sua moralidade, porque a Maçonaria, se não consegue fazer de toos os homens uma verdadeira família de irmãos, tende, pelo menos, a servir de dique contra os excessos das paixões.”

No ritual do Primeiro Grau no Rito Escocês Antigo e Aceite francês (versão de 1804) refere-se [20]:

P: Meu Irmão de onde vens?
R: De uma Loja de S. João.

P: O que se faz numa Loja de S. João?
R: Elevam-se templos à virtude e cavam-se masmorras aos vícios.

P: Que trazes?
R: Saúde, alegria, prosperidade e receptividade a todos os Irmãos.

P: Não trazes mais alguma coisa?
R: O Mestre da minha Loja o cumprimenta por três vezes três.

P: O que vindes aqui fazer?
R: Vencer as minhas paixões, submeter minhas vontades e fazer novos progressos na Maçonaria.

Nas palavras de Oswald With “a verdadeira Liberdade pertence ao homem liberto da tirania dos vícios e das paixões, bem como da escravidão dos erros e dos preconceitos. Ela é a qualidade do Iniciado que permaneceu livre, mesmo atingido de ferros pelos inimigos do bem. A liberdade real e inalienável: o homem a carrega em si mesmo e nenhum déspota pode atentar contra ela”.

Nesta ideia da “elevação de templos à virtude” em termos de construção humana está presente, por um lado, o ideário cristão que só com a prática do exame interior, da introspecção, da busca de iluminação divina é possível o homem/crente redimir-se do pecado original quando se apropriou do fruto da árvore do conhecimento violando a explícita determinação de Deus.

O Ritual Duncan acentua-o na instrução dada ao aprendiz [21]:

Irmão, como estás vestido como um Aprendiz, é necessário que possuas as ferramentas de trabalho de um Aprendiz, que são a réguas de vinte e quatro polegadas e o malhete.

E sobre o malhete:

O malhete é um instrumento usado pelos pedreiros para quebrar os cantos supérfluos das pedras ásperas, para melhor a ajustá-los para o uso do construtor; mas nós, como maçons livres e aceitos, somos ensinados a fazer uso dele para o propósito mais nobre e glorioso de despojar as nossas mentes e consciências de todos os vícios e superficialidades da vida, cabendo-nos assim, como pedras vivas daquele edifício espiritual, aquela casa não feita com as mãos mas eterna nos céus.

O malhete como a consciência serve para despojar a mente de todos os vícios e superficialidades da vida. O “edifício espiritual” é uma metáfora para a igreja (anglicana), o corpo de Cristo pois esta é uma comunidade de crentes que estão unidos por sua fé em Yeshua e seu desejo de seguir seus ensinamentos.

Ou numa leitura mais contemporânea “a régua das 24 polegadas serve para medir o nosso trabalho, o malhete para derrubar tudo botões e excrescências supérfluas, e o cinzel para alisar ainda mais e preparar a pedra e torná-la apropriada para as mãos do trabalhador mais experiente. Como não somos de forma alguma maçons operativos, mas sim livres e aceitos ou especulativos, aplicamos essas ferramentas à nossa moral” [22].

Na Maçonaria, simboliza a necessidade de autodisciplina e a remoção de vícios e imperfeições do caráter, deixando apenas o que é virtuoso e valioso. O malhete é um lembrete de que cada pessoa é um “working in progress” e que o processo de auto-aperfeiçoamento é contínuo [23].

A Árvore da Vida

Esta ideia da progressividade humana em direcção à iluminação divina está também presente na articulação do sistema de triângulos que constitui a Árvore da Vida, a qual é a verdadeira Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal [24].

Figura V

A Árvore da Vida representa uma teia de relações e não uma sequência de eventos. Os triângulos estão interconectados por 22 linhas ou caminhos. Os círculos que se evidenciam na figura acima representam estádios no desenvolvimento das coisas, do Universo e das almas. Os dez sefirot organizam-se em três triângulos com o décimo na base (Malkhut, Reino, Israel, Terra e Lua).

O triângulo superior é formado por Kether, Chokmah e Binah, constituindo o mundo de Beriah, o Mundo da Criação, o triângulo supernal. Estes três sefirot revelam estágios da fase de desenvolvimento do universo e da humanidade. O segundo triângulo reúne Chesed, Geburah e Tiphereth, configurando o triângulo ético que promove a lei e a moralidade, no plano da natureza e da humanidade. Constituem o Mundo de Yetsirah, o mundo das formas e dos arquétipos e para onde as almas dos justos vão depois da morte. É governando por Metatron.

Está enraizado neste triângulo o sentido do certo e do errado, do legal e do ilegal. Em termos maçónicos, esta é a dimensão dos rituais, dos regulamentos da Ordem, do comando das autoridades da Ordem.

O triângulo inferior cujo vértice aponta para baixo agrupa Netzach, Hod e Yesod. É o triângulo energético produzindo a sua acção sobre o plano material, terreno, que é Malkuth (o décimo) que está fora dos três triângulos. É o Mundo de Assiah da acção e corresponde ao universo físico e os nossos corpos. Netzach representa a vitória, a perseverança, a força e a paixão, o lado masculino da energia divina. Hod representa a majestade, o esplendo a gloria e a humildade. Quando associado ao intelecto representa a beleza e o ritual. Yesod é a fundação, a conexão e a receptividade funcionando como ponto de equilíbrio de Netzach e Hod e está associado à sexualidade, a criatividade e à imaginação.

Na interacção entre estes sefirot estão a procura de pilares complementares como opostos que se unem para gerar o todo. Netzach e Hod agem pela paixão, força, a conquista (Boaz) mas esta não poder ser sem regras pelo que recorre ao lado passivo, à beleza e ao ritual (Jachin) através de um ponto de equilíbrio e recetividade (Yesod). A coluna do meio que partindo de Yesod passa por Tipheret e por Daath atingindo Kether, a Coroa que é Deus, o Ein Sof.

Malkuth, o sefirah fora deste triangulo inferior é em termos imagéticos o profano que sai da Câmara de Reflexão e que combate as suas próprias limitações e enganos para pela Iniciação chegar, por várias etapas, à iluminação divina, à Luz configurada no Delta Luminoso.

O iniciado é um aprendiz que talha/esculpa figurativamente a pedra bruta que é ele próprio com a ajuda do cinzel e do malho que maneja sem luvas. Para ser bem-sucedido, ele precisa da orientação do Criador para orientá-lo enquanto ele golpeia o cinzel com a ajuda do malho e as chipas da pedra bruta espalham-se em redor.

Ele trabalha através das emoções, da energia e da verdade para se refazer a si mesmo, combatendo o imperfeito nas suas acções. Não se trata de pecado porque a maçonaria não incorpora a noção de pecado cara à teologia judaico-cristã. Ele trabalha no triângulo inferior, no mundo físico. Quando este estágio está concluído, ele está pronto para se tornar um Companheiro.

Neste grau, ele é confrontado com os desafios criados por Chesed, Geburah e Tiferet, isto é o Mundo de Yetzirah, o Mundo da Formação, o trabalho.

É o triângulo ético, da aprendizagem moral, da descoberta, da ciência do mundo, do universo e das artes liberais. Agora Companheiro, ele é abençoado pela Beleza, Compaixão e o Santo só Uno. Ele aprende a usar a Graça e o Poder, e os braços direito e esquerdo. De lá, ele avança para o teste definitivo do confronto com a morte e personifica Hiram, o arquitecto, que foi traído por três companheiros que queriam roubar-lhe a senha que lhes permitira aceder ao Sanctus Sanctorum.

Como homem, o iniciado morre, para renascer próximo do seu protótipo, o Homem Primordial, Adam Kadmon. Ali, ele toca levemente a esplendorosa obra da Criação. Ele torna-se um colaborador de Deus, na perene, incessante e profunda obra de recriação do mundo.

Embora a influência cabalística não seja evidente é claro que para a maçonaria a dimensão do mal faz parte da existência humana e da textura social e coexiste com a própria dimensão criativa de Hashem. Se Deus não quisesse que o mal existisse tinha-o tornado claro no processo de criação do mundo e do homem. Ao permitir a Adam desrespeitar as suas ordens e aceder à Arvore do Conhecimento (pois sendo absoluto e poder antecipar tudo poderia impedi-lo), Hashem permitiu que o homem praticasse o bem e o mal. Mas deu-lhe a oportunidade de pela religação ao divino se puder libertar da prática do mal nas suas acções e reencontrar o caminho para a Luz. É isto o fundamento do ensino moral da maçonaria: a capacidade de pela inteligência e a perseverança ultrapassar as dificuldades e na luta contra as imperfeições, encontrar a iluminação.

Em termos cabalísticos combater os kelipot  [25] e elevar as centelhas presas nas cascas em direcção à origem, ao Ein Sof. Diz Daniel Matt, “Deus não decide ou determina o que fazemos na vida. As pessoas decidem. O mal não é uma entidade metafísica, um produto das maquinações de Satanás. O mal é feito pelos seres humanos. Ao atribuir as culpas a Deus ou ao diabo, absolvemo-nos das nossas responsabilidades [26]”. E mais adiante “a nossa tarefa não é explicar como Deus pode permitir o Holocausto. É compreender o mal no mundo. A Tora chama-nos para combatemos o mal social nas injustiças e confrontarmos o mal pessoal do egoísmo e da ganância”.

Conclusão

É menos comum entre autores maçónicos a associação entre maçonaria e cabala. Se bem que grande parte do simbolismo associado à sabedoria maçónica beba a sua inspiração no Antigo Testamento e nos seus mitos fundadores, muitos autores privilegiam os valores culturais e éticos herdados do cristianismo como os únicos inspiradores da filosofia e ética maçónica plasmada nos rituais.

Contudo não nos parece despicienda a influência da cabala através de personalidades que estiveram na fundação da Grande Loja de Londres e na Royal Society, a principal associação científica inglesa do século XVIII. Isso é visível na redacção das Constituições de Anderson e no papel que a construção do Templo de Salomão e dos mitos fundadores do judaísmo teve na imagística maçónica e no próprio preâmbulo escrito pelo pastor James Anderson que eleva a origem da maçonaria a Adão, o primeiro maçom.

Nos altos graus do Rito Escocês Antigo e Aceite essa influência reforça-se a que não é estranha a personalidade de Albert Pike, Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito e autor dos rituais do quarto ao trigésimo terceiro. A  Cabala é, lembra Pike, a fonte das ciências ocultas. Como diz Avodah Zarah no Talmude “O aspecto mais importante do processo de auto-aperfeiçoamento é o cultivo do senso de humildade diante do Criador. Isso, no entanto, não deve ser um empreendimento artificial, mas um objetivo dos seus esforços. Se, como resultado de trabalhar em si mesmo, um indivíduo gradualmente começa a desenvolver essa qualidade, isso significa que ele está seguindo na direcção certa”.

Sendo a Cabala um caminho espiritual é passível de estar reflectido no REAA. Este rito não é uma religião porque não implica uma revelação, mas é uma espiritualidade que permite a cada um se aplicar na procura da verdade representada na percepção da Luz. É um processo pessoal em direcção a um fim inatingível impondo-nos trabalhar para nos libertar das nossas dependências interiores, assim como das dependências exteriores. “Trabalhando para abrir os olhos, olhar, tentar perceber as harmonias profundas em busca desta verdade que se esconde como o horizonte, como nos recorda constantemente o Rito Escocês Antigo e Aceite” [27].

Arnaldo Gonçalves

Notas

[1] Ritual del Aprendiz del Rito Escoces Antiguo Aceptado, Obra aprobada por el Supremo Consejo del Grado 33 de Grande Oriente Espanol en su Câmara de Ritos, Madrid, 1931.

[2] No ritual do Grande Oriente de Espanha de 1931 diz-se “no Oriente encontra-se um estrado a que se sobe por três degraus e o “trono” do Venerável Mestre está sobre um estrado a que se acede por quatro degraus (logo o sete de perfeição). O estrado inclui o altar coberto de tapetes engalanados a ouro tendo bordado na frente um compasso aberto a 45 graus sobre um esquadro e no centro uma estrela de cinco pontas. Atrás do Altar está a poltrona do Venerável Mestre protegido por um dorsal em veludo. Sobre a poltrona presidencial ao fundo do dossal, coloca-se um Delta de ouro, que leva gravado em caracteres hebraicos o nome de Deus “Grande Arquiteto do Universo”.

[3] Le Droit Humain – Federacion Española, Rito Escocés Antiguo y Aceptado Ritual para el Primer Grado Simbólico de Aprendiz aprovado pelo Conselho da Federação Espanhola da Ordem Masónica Mixta Internacional Le Droit Humain, 21 de Março de 2015.

[4] No ritual do Grande Oriente de França de 1931 refere-se “no meio do Templo, entre a balaustrada do Oriente e o Quadro da Loja encontra-se a “ara”, o Altar dos juramentos, que consiste numa coluna truncada, sobre a qual repousa uma almofada de veludo encarnado, sobre a qual se coloca a Bíblia, o livro da Constituição geral do Oriente e o esquadro sobre o compasso, invertido e aberto a 45 graus”.

[5] Crónicas 3:17.

[6] O ritual do Grande Oriente de Espanha é preciso “em ambos os lados da porta de entrada, elevam-se duas colunas de bronze, ocas, da ordem coríntia, sustentando sobre os seus capitéis um grupo de três romãs entreabertas. Na da esquerda, entrando, encontra-se gravada a letra B e na direita a letra J”.

[7] O ritual do Grande Oriente de Espanha tem pequenas variações quanto ao descrito “na parede do Oriente à mesma altura que o Delta, são colocados: à direita do assento do Venerável, um disco radiante representando o Sol e perto do canto, o estandarte da Loja. À esquerda da presidência, a estátua de Minerva. Um pouco mais além a imagem da Lua” .

[8] GLLP / GLRP – Ritual de Aprendiz, 2018

[9] Le Droit Humain – Federacion Española, Rito Escocés Antiguo y Aceptado Ritual para el Primer Grado Simbólico de Aprendiz.

[10] Elohim é traduzido na vulgata por Deus mas na versão original da Tora assinala Deus nos seus atributos de Justiça, Governante, Legislador e Juiz do Mundo. Via The Artscroll English Tanach, Nova Iorque: Artscroll Mesorah Publications Ltd, 2018, p. 3.

[11] Wirth, Oswald, Le Livre de l’ Apprenti, Loge Travail & Vrais Amis Fidèles, Paris, 1923, acessível via https://ia800608.us.archive.org/. A loja Travail pertence ao Grande Oriente de França tendo sido criada em 1787 e constituindo uma das mais antigas da Obediência. A loja foi encerrada durante o império napoleónico e reaberta em 1815, sendo uma das mais activas na resistência francesa ao nazismo.

[12] The Artscroll English Tanach, p. 4.

[13] Matt, Daniel C. God & the Big Bang. Woodstock, Vermont: Jewish Lights Publishing, 2013, p. 39

[14] Um macrocosmo do ser humano mas ao mesmo tempo uma forma de compreender Deus segundo o rabi Isaac Luria. Adam Kadmon é o perfeito ser humano em contraste com o Adão terrestre expulso do Paraíso.

[15] The Artscroll English Tanach, p. 4

[16] Segundo o texto bíblico (Génesis 2) Adão foi formado do pó da terra e foi-lhe soprado nas narinas o alento da vida tornando-se alma viva. O Talmude diz que com a criação da Humanidade a partir de um único homem este ficou com a miss de preservar a paz entre os homens.

[17] Duncan, M., Duncan’s Ritual and Monitor of Freemasonry, 1866. Disponível em https://www.sacred-texts.com/mas/dun/dun02.htm.

[18] GLLP / GLRP – Ritual de Aprendiz, 2018.

[19] Grande Oriente de França – Ritual del Aprendiz del Rito Escoces Antiguo Aceptado, Ibid.

[20] Wirth, Oswald, Le Livre de l’ Apprenti.

[21] Duncan, M., Duncan’s Ritual and Monitor of Freemasonry.

[22] Provincial Grand Lodge of Berkshire, “The first degree working tools” s/d, acessível via https://berkspgl.org.uk/wp-content/uploads/2022/01/1st-Degree-Working-Tools.pdf

[23] Masonic Find, “The Working Tools of an Entered Apprentice in Freemasonry”, acessível via https://masonicfind.com/working-tools-of-an-entered-apprentice

[24] Fielding, Charles, The Practical Kabbalah, York Beach, Maine: Samuel Weiser, Inc, 1989, p. 15.

[25] Na Cabala luriânica as centelhas onde se alojou o mal depois da fragmentação dos vasos da Criação e que exigem da raça humana a rectificação (tikkun olam) e libertação das cascas (kelipot) para ascensão das centelhas ao reino divino. Este processo exige um esforço individual e colectivo.

[26] Matt, Daniel C., God & the Big Bang, ibid, p. 142

[27] Lumières sur la spiritualité du REAA, acessível via https://docplayer.fr.

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